Dia Mundial do Jornalismo mobiliza mais de 130 participantes no Brasil e reforça defesa da informação de interesse público

Na segunda-feira (28/09/2026), o Dia Mundial do Jornalismo mobilizou mais de 130 veículos, entidades, sindicatos, universidades e profissionais no Brasil, no maior nível de participação brasileira já registrado na campanha. Articulada nacionalmente pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), com participação da Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), a iniciativa integra o movimento internacional World News Day e procura demonstrar ao público que a informação de interesse público resulta de um processo profissional que envolve apuração, consulta a documentos, entrevistas, checagem, análise de dados, edição, revisão e correção de erros. A mobilização ocorre em um ambiente marcado simultaneamente pela deterioração de liberdades democráticas em diferentes países, pelo crescimento das plataformas digitais e da inteligência artificial como intermediárias no acesso às notícias e pela necessidade de sustentabilidade econômica das organizações jornalísticas.

A atualização divulgada pela ANJ no próprio dia da campanha elevou o número inicialmente informado de pouco mais de cem participantes para mais de 130, aproximadamente 40 a mais do que em 2025, expansão superior a 40%. A programação brasileira começou em 25 de setembro e, segundo a associação, estendeu-se até 1º de outubro, com artigos, vídeos, anúncios, banners e conteúdos para redes sociais. A mobilização internacional recomendou ações entre 25 de setembro e 2 de outubro.

O crescimento da adesão ocorre em um momento no qual o próprio conceito de jornalismo profissional passa a ser enfatizado pelas entidades do setor. A campanha de 2026 adotou internacionalmente a mensagem “Know the facts. Understand what matters. Choose Trusted Journalism”, apresentada em português como uma defesa do conhecimento dos fatos, da compreensão do que importa e da escolha do jornalismo confiável.

Campanha procura mostrar como uma reportagem é produzida

Uma das principais propostas do Dia Mundial do Jornalismo é tornar mais visível o trabalho realizado antes que uma notícia seja publicada. A produção jornalística pode começar a partir de um acontecimento, denúncia, documento, decisão administrativa, processo judicial, dado estatístico ou informação apresentada por uma fonte.

A etapa seguinte envolve a busca de documentos, entrevistas, comparação de versões, verificação de dados e contextualização. Somente depois desse percurso o material passa pelas fases de seleção, redação, edição, revisão, publicação e distribuição.

A responsabilidade editorial também permanece depois da publicação. Quando surgem informações novas ou é constatado erro factual, a prática profissional exige reavaliação e correção do conteúdo, com transparência perante o público quando a alteração for relevante.

Esse conjunto de procedimentos diferencia o jornalismo de outras formas de circulação de conteúdo. A rapidez das redes sociais, dos aplicativos de mensagem e dos sistemas automatizados permite que informações sejam distribuídas imediatamente, mas não substitui os procedimentos de verificação necessários para determinar origem, autenticidade, contexto e relevância de uma informação.

Mais de 130 participantes representam recorde brasileiro

Antes do dia oficial da mobilização, a ANJ já registrava mais de 100 veículos, entidades e profissionais inscritos. Em 28 de setembro, porém, a associação informou que a participação havia ultrapassado 130 integrantes, consolidando o maior nível de adesão registrado no Brasil desde o início da campanha.

A edição brasileira contou com veículos de comunicação, universidades, sindicatos e entidades de diferentes regiões. Também houve participação de profissionais e instituições que passaram a divulgar materiais da campanha mesmo sem inscrição formal.

Os conteúdos disponibilizados internacionalmente incluem anúncios para plataformas digitais e impressas, vídeos, imagens para redes sociais, artigos de opinião e cartoons. Em 2026, o World News Day ampliou o material para mais de 20 idiomas e anunciou, pela primeira vez, mecanismos de medição do alcance global da campanha.

World News Day surgiu para aproximar jornalismo e sociedade

O World News Day é uma campanha internacional dedicada à valorização do jornalismo baseado em fatos. A iniciativa anual foi lançada originalmente em 2018 pela Canadian Journalism Foundation (CJF), com o propósito de ampliar a compreensão pública sobre o papel do jornalismo profissional.

Atualmente, a mobilização é apresentada pelo World Editors Forum, estrutura vinculada à World Association of News Publishers (WAN-IFRA), pelo Project Kontinuum e pela Canadian Journalism Foundation. A WAN-IFRA reúne empresas jornalísticas e associações de editores de dezenas de países.

Em 2025, mais de 1.000 organizações em 108 países e 17 idiomas participaram da mobilização, de acordo com os organizadores. Para 2026, a campanha ampliou o suporte multilíngue, criou coordenações regionais e anunciou a elaboração de um relatório posterior para medir sua dimensão internacional.

No Brasil, a denominação Dia Mundial do Jornalismo passou a ser utilizada para destacar que a campanha não trata apenas da notícia como produto final, mas de todo o processo necessário para produzi-la.

Data coincide com Dia Internacional do Acesso Universal à Informação

A realização do World News Day em 28 de setembro coincide deliberadamente com o Dia Internacional do Acesso Universal à Informação, reconhecido pelas Nações Unidas e coordenado internacionalmente pela UNESCO.

Em 2026, a UNESCO adotou como tema “Upholding Information Integrity in the Digital Age: The role of access to Information in addressing Information Disorder”, centrado na integridade da informação no ambiente digital e no papel do acesso a dados confiáveis diante da desordem informacional.

A convergência das duas mobilizações relaciona dois componentes distintos, embora complementares. O direito de acesso garante que informações públicas estejam disponíveis; o jornalismo profissional procura investigar, verificar, contextualizar e apresentar essas informações de forma compreensível à sociedade.

V-Dem aponta avanço global da autocratização

O contexto democrático internacional aparece como um dos elementos centrais da campanha de 2026. O Democracy Report 2026, produzido pelo V-Dem Institute, da Universidade de Gotemburgo, estima que 74% da população mundial — aproximadamente 6 bilhões de pessoas — vivia em autocracias ao final de 2025. Apenas 7% da população mundial, cerca de 600 milhões de pessoas, estava em democracias liberais segundo os critérios empregados pelo instituto.

O levantamento identificou 92 autocracias e 87 democracias e concluiu que 44 países estavam atravessando processos de autocratização. Esses países concentravam 41% da população mundial, aproximadamente 3,4 bilhões de pessoas.

Entre os indicadores analisados, a liberdade de expressão aparece como a dimensão democrática submetida à maior deterioração. Segundo o V-Dem, havia regressão nesse indicador em 44 países em 2025, enquanto a censura aos meios de comunicação aparecia entre as práticas mais frequentes dos governos classificados pelo instituto como autocratizantes.

Os resultados derivam da metodologia própria do V-Dem e devem ser compreendidos dentro dos critérios comparativos empregados pelo instituto. Ainda assim, oferecem um parâmetro internacional para avaliar o ambiente político no qual organizações jornalísticas procuram exercer funções de fiscalização, documentação e divulgação de informações de interesse público.

Brasil melhora em índice internacional, mas mantém desafios

No Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026, elaborado pela organização Repórteres sem Fronteiras (RSF), o Brasil aparece na 52ª posição entre 180 países, com pontuação de 66,37. Em 2025, o país estava na 63ª posição, com 63,80 pontos.

A entidade registra melhora em determinados indicadores, mas identifica problemas estruturais, entre eles violência contra jornalistas, concentração da propriedade dos meios de comunicação e efeitos da desinformação sobre o ambiente informacional brasileiro.

Esses fatores demonstram que liberdade formal para publicar não encerra o debate. O funcionamento do jornalismo depende também da segurança dos profissionais, de garantias institucionais, do acesso às fontes e documentos e da existência de condições econômicas que permitam manter estruturas permanentes de reportagem.

Sustentabilidade das redações entra no centro do debate

O presidente-executivo da ANJ, jornalista Marcelo Rech, relacionou diretamente liberdade editorial e sustentabilidade financeira das empresas jornalísticas.

“Todos defendem a liberdade de imprensa, mas ela precisa, além de liberdade, de uma imprensa robusta e economicamente saudável.”

A declaração sintetiza um dos eixos estruturais da campanha: liberdade jurídica não assegura, por si só, capacidade operacional para produzir jornalismo. Investigações, correspondentes, editores, repórteres especializados, fotógrafos, arquivos, tecnologia, segurança digital e assistência jurídica dependem de financiamento permanente.

A questão econômica tornou-se ainda mais relevante diante das mudanças nos mecanismos de distribuição digital. Motores de busca, redes sociais, agregadores e sistemas de inteligência artificial passaram a exercer papel crescente na mediação entre produtores de conteúdo e leitores.

Redes sociais e inteligência artificial alteram acesso às notícias

O Digital News Report 2026, produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, registra uma mudança estrutural nos hábitos de consumo de notícias. Pela primeira vez na série analisada, redes sociais e plataformas de vídeo ultrapassaram, em média, televisão e sites ou aplicativos próprios de empresas jornalísticas como fontes de notícias nos mercados estudados.

Paralelamente, sistemas de inteligência artificial começam a assumir função de intermediários. O uso semanal de chatbots dedicados para obtenção de notícias alcançou 10% do público pesquisado em 2026, ante 7% anteriormente.

O mesmo relatório identificou queda na confiança geral nas notícias. 37% dos entrevistados nos 48 mercados analisados afirmaram confiar nas notícias na maior parte do tempo, menor nível registrado pela pesquisa desde o início dessa medição, em 2015.

Nas respostas relacionadas especificamente aos conteúdos noticiosos provenientes de chatbots de IA, a confiança foi ainda menor: 20% no conjunto da população pesquisada. Entre usuários dessas ferramentas, contudo, o índice chegou a 44%, indicando que a relação entre tecnologia, hábitos e confiança ainda está em formação.

Preocupação com informações falsas alcança 62%

Outro indicador do Reuters Institute reforça a dimensão do problema. Em 2026, 62% dos entrevistados afirmaram estar preocupados com a dificuldade de distinguir informações verdadeiras de conteúdos falsos ou enganosos na internet, crescimento de quatro pontos percentuais na média dos mercados avaliados.

A expansão de conteúdos sintéticos, deepfakes e sistemas capazes de produzir textos, imagens e vídeos verossímeis amplia a necessidade de mecanismos de verificação. Ao mesmo tempo, o deslocamento da audiência para plataformas intermediárias pode reduzir o tráfego direto para os veículos que originalmente financiam a produção jornalística.

Essa transformação cria um problema econômico e informacional simultâneo: quanto menos o público chega diretamente às fontes originais, maior pode ser a dificuldade de converter audiência em assinaturas, publicidade ou outras formas de receita capazes de financiar novas reportagens.

Inteligência artificial também abre disputa sobre conteúdo jornalístico

A utilização de conteúdos produzidos por redações na formação e funcionamento de sistemas de inteligência artificial tornou-se outra frente de discussão. Entidades jornalísticas defendem regras transparentes sobre acesso, licenciamento, atribuição e remuneração de conteúdos protegidos.

Em artigo produzido para o World News Day 2026, Marcelo Rech argumentou que plataformas de inteligência artificial dependem de informação confiável ao mesmo tempo em que o modelo econômico que sustenta sua produção atravessa pressões crescentes. A manifestação representa a posição do dirigente e integra o debate contemporâneo sobre remuneração de conteúdo, direitos autorais e sustentabilidade das empresas jornalísticas.

O Reuters Institute identificou preocupação semelhante entre executivos do setor. Em pesquisa publicada em janeiro de 2026, apenas 38% dos dirigentes de mídia consultados disseram estar confiantes em relação ao futuro do jornalismo como atividade, uma redução de 22 pontos percentuais em comparação com 2022.

Jornalismo local também depende de sustentabilidade

A discussão não se restringe às grandes empresas nacionais ou internacionais. Veículos regionais e locais exercem funções específicas na fiscalização de prefeituras, câmaras municipais, governos estaduais, Judiciário, empresas concessionárias e políticas públicas que dificilmente recebem acompanhamento permanente de redações nacionais.

Quando uma cidade ou região perde estruturas profissionais de cobertura, decisões administrativas e acontecimentos locais passam a ser acompanhados com menor regularidade. A consequência potencial é uma redução da quantidade de informação independente disponível sobre governos, empresas e instituições com impacto direto sobre a comunidade.

No Brasil, entidades representativas dos jornalistas e dos meios de comunicação também têm tratado da segurança profissional, da liberdade de imprensa, da transformação tecnológica e da sustentabilidade econômica. Na Bahia, o Conselho de Comunicação Social debateu em maio de 2026 agressões contra jornalistas, desinformação e desafios regulatórios no ambiente digital.

Jornal Grande Bahia mantém cobertura sobre liberdade de imprensa

O debate possui repercussão direta sobre a atividade jornalística desenvolvida na Bahia. Em setembro de 2026, o Jornal Grande Bahia (JGB) publicou reportagem sobre os mecanismos disponíveis no Sistema Interamericano de Direitos Humanos para jornalistas que considerem ter sido vítimas de violações à liberdade de expressão decorrentes de atos estatais.

O veículo também acompanhou discussões envolvendo sigilo de fonte, decisões judiciais, violência contra profissionais e limites entre legislação eleitoral, conteúdos jornalísticos e inteligência artificial.

Esses episódios demonstram que o debate proposto pelo Dia Mundial do Jornalismo não está restrito à dimensão internacional. Ele se reproduz concretamente na relação entre imprensa, Estado, Poder Judiciário, plataformas digitais, anunciantes, fontes e sociedade.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2018 — criação do World News Day: a Canadian Journalism Foundation lança a iniciativa destinada a aproximar o jornalismo profissional de seus públicos e ampliar a compreensão sobre a importância da informação baseada em fatos.
  • 2025 — expansão internacional: a campanha reúne mais de 1.000 participantes em 108 países e 17 idiomas, ampliando sua escala global.
  • Final de 2025 — cenário democrático: dados posteriormente consolidados pelo V-Dem Democracy Report 2026 apontam 92 autocracias, 87 democracias e 44 países em autocratização.
  • 1º de setembro de 2026 — mobilização brasileira: a ANJ abre campanha de adesão ao Dia Mundial do Jornalismo e destaca a defesa do jornalismo profissional, independente, verificado e contextualizado.
  • 16 de setembro de 2026 — mais de 100 adesões: a associação informa que mais de cem veículos, entidades e profissionais já haviam aderido no Brasil, então considerado recorde nacional.
  • 25 de setembro de 2026 — início das ações: começam as atividades da campanha internacional, com circulação de anúncios, artigos, vídeos, cartoons e peças digitais.
  • 28 de setembro de 2026 — Dia Mundial do Jornalismo: o Brasil supera 130 participantes, cerca de 40 a mais que em 2025, segundo a ANJ.
  • 28 de setembro de 2026 — acesso à informação: a mesma data marca o Dia Internacional do Acesso Universal à Informação, promovido pela UNESCO, cuja edição de 2026 aborda integridade da informação no ambiente digital.
  • 1º e 2 de outubro de 2026 — encerramento das ações: a programação divulgada pela ANJ estende-se até 1º de outubro, enquanto a coordenação internacional orienta a realização de atividades até 2 de outubro.

O Dia Mundial do Jornalismo de 2026 ocorre em uma mudança estrutural do sistema de informação. O desafio contemporâneo não consiste apenas em preservar juridicamente o direito de publicar. Passa também por assegurar que existam organizações capazes de financiar apuração, profissionais com condições de investigar, acesso efetivo a documentos públicos, proteção de fontes e mecanismos de responsabilização por erros. Liberdade de imprensa, portanto, envolve dimensões jurídicas, econômicas, tecnológicas e institucionais.

Os indicadores internacionais ajudam a dimensionar esse ambiente sem estabelecer relações automáticas de causa e efeito. O V-Dem registra expansão da autocratização e deterioração da liberdade de expressão em dezenas de países; o Reuters Institute identifica queda da confiança nas notícias e crescimento da intermediação por plataformas e inteligência artificial; e a RSF reconhece melhora da posição brasileira em seu índice de 2026, embora mantenha alertas sobre violência, concentração econômica e desinformação.

A inteligência artificial adiciona uma questão ainda em desenvolvimento. As mesmas tecnologias capazes de auxiliar redações em organização de dados, transcrição, pesquisa e distribuição também podem produzir informações incorretas, conteúdos sintéticos e novas formas de intermediação entre leitores e fontes originais. Permanecem abertas discussões sobre transparência, direitos autorais, remuneração, atribuição de conteúdo, responsabilidade editorial e limites da automação. Os dados disponíveis não permitem antecipar o resultado dessa transformação, mas demonstram que seus efeitos econômicos e informacionais já exigem acompanhamento.

Nesse contexto, o crescimento da campanha brasileira para mais de 130 participantes possui significado que ultrapassa a celebração profissional. O núcleo da mobilização é a defesa de um processo verificável de produção da informação: investigar, documentar, confrontar versões, contextualizar, publicar, corrigir e assumir responsabilidade editorial. Os próximos desdobramentos dependem não apenas das empresas e profissionais do setor, mas também de governos, Poder Legislativo, Judiciário, universidades, entidades representativas, plataformas digitais, empresas de inteligência artificial e sociedade civil, todos envolvidos, em diferentes graus, na definição das condições em que a informação de interesse público será produzida, distribuída, financiada e protegida.


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