Neste domingo (25/10/2026), enquanto mais de 158,7 milhões de eleitores estão aptos a votar no segundo turno da eleição presidencial entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), declarações feitas dois dias antes pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos ampliaram a tensão política e institucional em torno da disputa. Em entrevista ao podcast norte-americano Louder with Crowder, Eduardo respondeu, entre risos, “envie os fuzileiros navais” ao ser questionado sobre como sua família poderia ajudar o ex-presidente Jair Bolsonaro caso Flávio fosse derrotado. Na sequência, em tom mais direto, afirmou ser favorável a que o irmão deixe o Brasil se perder a eleição e voltou a questionar, sem apresentar provas, a confiabilidade das urnas eletrônicas.
As declarações ocorreram na sexta-feira, 23/10/2026, durante o episódio intitulado The Polls Are Fake! Feat. Eduardo Bolsonaro Live in Studio, apresentado pelo comentarista conservador norte-americano Steven Crowder. O programa, com duração de aproximadamente 1h14, foi divulgado a dois dias da votação que definirá a Presidência da República.
Eduardo menciona fuzileiros navais após pergunta sobre Jair Bolsonaro
A referência aos militares americanos surgiu quando Eduardo foi questionado sobre o que a família faria para ajudar Jair Bolsonaro se Flávio não conquistasse a Presidência. Segundo registros da entrevista publicados por diferentes veículos, ele respondeu: “Envie os fuzileiros navais”, expressão equivalente a send the Marines. A resposta foi acompanhada de risos no estúdio.
O contexto é relevante para delimitar o alcance factual da declaração. Não foi apresentado no programa um plano militar, pedido formal ao governo dos Estados Unidos ou informação de que autoridades norte-americanas avaliem enviar tropas ao Brasil. A frase foi pronunciada em tom jocoso durante a conversa, ainda que trate de uma hipótese de intervenção estrangeira de elevada gravidade institucional.
Por essa razão, caracterizar a fala como uma decisão ou política de “apoio militar dos Estados Unidos” extrapolaria o que efetivamente está documentado. O fato confirmado é que Eduardo mencionou o envio de fuzileiros; não há, nas informações disponíveis, demonstração de que o governo norte-americano tenha aderido à hipótese.
Eduardo defende que Flávio deixe o Brasil se for derrotado
Depois da referência aos fuzileiros, Eduardo passou a tratar seriamente da possibilidade de seu irmão deixar o país. “Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que meu irmão saia do país. Com certeza”, declarou.
A justificativa apresentada pelo ex-deputado foi o receio de que Flávio fique mais exposto a investigações quando terminar seu mandato parlamentar. Eduardo relacionou essa preocupação a uma declaração feita por Lula durante o debate presidencial da Band, realizado em 18/10/2026.
No podcast, Eduardo afirmou que Lula teria dito ao candidato do PL que, após perder a eleição e deixar de ser senador, ficaria sem imunidade e seria investigado. Ele classificou a fala do presidente como uma ameaça ao irmão.
Lula falou em perda de imunidade durante debate
O confronto efetivamente ocorreu. Durante o debate da Band, Lula declarou a Flávio:
“Você se prepare que dia 25 você vai perder imunidade e você vai ter problema, porque a sua vida tem muito inquérito, que agora vai andar.”
O presidente relacionou a afirmação a investigações e controvérsias envolvendo o adversário. Em outro momento do debate, propôs que ambos abrissem seus dados bancários e telefônicos.
Há, contudo, uma imprecisão factual importante na declaração de Lula. Flávio Bolsonaro não perde automaticamente o mandato de senador nem a condição parlamentar em 25 de outubro em caso de derrota presidencial. Os registros oficiais do Senado informam que seu mandato, iniciado em 01/02/2019, termina em 31/01/2027. Portanto, uma eventual derrota neste domingo não extingue imediatamente seu mandato.
Eduardo, ao reproduzir o episódio no podcast, também não citou literalmente a formulação usada por Lula: apresentou uma versão em que a perda do mandato ocorreria “no ano que vem”, o que se aproxima mais do calendário institucional real do Senado.
Eventual saída de Flávio não pode ser automaticamente classificada como fuga
A afirmação de Eduardo de que o irmão deveria deixar o Brasil precisa ser distinguida, juridicamente, de uma eventual fuga. O ex-deputado falou em “sair do país”. Não foi apresentada na entrevista informação sobre ordem de prisão ou medida judicial que proibisse Flávio de viajar.
Flávio chega ao segundo turno submetido a diferentes investigações e controvérsias, mas essas apurações encontram-se em situações processuais distintas e não autorizam antecipar responsabilidade penal. Reportagem publicada pelo Jornal Grande Bahia neste domingo registra investigações relacionadas, entre outros pontos, ao filme Dark Horse, a relações com empresas de apostas e a financiamento concedido pelo Banco de Brasília, ressaltando que o senador nega irregularidades e que os procedimentos ainda dependem de apuração e decisões judiciais.
Assim, eventual viagem ao exterior somente poderia ser juridicamente qualificada como tentativa de fuga diante de circunstâncias concretas — como ordem de prisão, restrição judicial de deslocamento ou ação destinada a impedir a aplicação da lei penal. O conteúdo disponível não demonstra, até aqui, essa situação em relação a Flávio.
Eduardo volta a questionar urnas eletrônicas sem apresentar provas
Durante a mesma entrevista, Eduardo Bolsonaro voltou a contestar o sistema eletrônico de votação brasileiro. Ele argumentou que o país não utiliza cédula individual de papel e afirmou que o eleitor precisa confiar nas máquinas.
“O problema é que nós não usamos papel, não há contagem pública dos votos, e você precisa confiar na máquina”, afirmou. Também declarou que não poderia comprovar fraude, mas sustentou que seus adversários igualmente não poderiam provar que ela não ocorreu.
As declarações não foram acompanhadas de evidências de manipulação dos resultados. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirma que nenhuma fraude foi constatada no sistema eletrônico desde sua implantação, em 1996, e mantém procedimentos de auditoria antes, durante e depois da votação.
No segundo turno deste domingo, por exemplo, a Justiça Eleitoral realiza testes de integridade nos quais votos previamente registrados em cédulas são digitados em urnas submetidas a auditoria e, ao fim da votação, os resultados físicos e eletrônicos são comparados. O processo é filmado. Segundo o TSE, os números devem coincidir integralmente.
O sistema utiliza ainda assinatura digital, lacração dos programas, inspeção de códigos-fonte e testes públicos de segurança. O TSE sustenta que essas camadas permitem verificar a integridade dos softwares utilizados nas eleições.
Segundo turno ocorre após vantagem de Flávio no primeiro turno
As declarações de Eduardo foram feitas no momento mais sensível da disputa presidencial. No primeiro turno, realizado em 04/10/2026, Flávio Bolsonaro terminou na primeira posição.
Segundo os dados oficiais divulgados pelo TSE após 99,99% das urnas terem sido apuradas, Flávio recebeu 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos. Lula obteve 53.876.617 votos, ou 45,16%.
Como nenhum dos candidatos alcançou mais da metade dos votos válidos, a decisão foi transferida para este domingo. O calendário oficial estabelece votação das 8h às 17h, no horário de Brasília, com divulgação dos resultados a partir do encerramento da votação.
As últimas pesquisas divulgadas na véspera indicavam uma eleição apertada, com diferenças pequenas entre os dois candidatos em vários levantamentos. O resultado, entretanto, somente será definido pelos votos totalizados pela Justiça Eleitoral.
Eduardo vive nos Estados Unidos desde 2025
A entrevista também deve ser compreendida à luz da trajetória recente de Eduardo Bolsonaro. Ele está nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. A Câmara dos Deputados registrou que o então parlamentar se encontrava no país desde 27/02/2025 e anunciou, em março daquele ano, que se licenciaria do mandato para permanecer no exterior.
A licença formal começou em 20/03/2025. Depois de terminado o afastamento, Eduardo permaneceu nos Estados Unidos e acumulou ausências às sessões deliberativas da Câmara.
Em 18/12/2025, a Mesa Diretora declarou a perda de seu mandato com fundamento no artigo 55, inciso III e §3º, da Constituição, depois de ele faltar a mais de um terço das sessões deliberativas. O ato foi formalizado pelo Ato da Mesa nº 229/2025.
STF condenou Eduardo a 4 anos e 2 meses de prisão
A permanência de Eduardo nos Estados Unidos também está associada a um processo criminal que aprofundou a crise entre o grupo político da família Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal.
Em 16/06/2026, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo, por unanimidade, a 4 anos e 2 meses de prisão, em regime inicial semiaberto, pelo crime de coação no curso do processo. A Corte concluiu que ele atuou para interferir no julgamento em que Jair Bolsonaro respondia pela tentativa de golpe de Estado.
O colegiado também estabeleceu 50 dias-multa, declarou a perda de seu cargo de escrivão da Polícia Federal e determinou comunicação à Justiça Eleitoral para os efeitos de inelegibilidade.
Em 08/10/2026, após o encerramento da possibilidade de recursos no processo, o ministro Alexandre de Moraes determinou a expedição de mandado de prisão para início do cumprimento da pena e o cancelamento do passaporte brasileiro do ex-deputado.
A defesa de Eduardo contestou a condenação durante o processo e sustentou insuficiência de provas. O STF, porém, considerou comprovada sua atuação para pressionar autoridades brasileiras por meio de articulações realizadas nos Estados Unidos.
Jair Bolsonaro cumpre pena por tentativa de golpe
A pergunta que levou Eduardo a mencionar os fuzileiros navais tinha como referência a situação de seu pai.
Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF, em 11/09/2025, a 27 anos e 3 meses de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
O trânsito em julgado da condenação foi reconhecido em 25/11/2025, quando teve início o cumprimento definitivo da pena. Em março de 2026, após problemas de saúde, Bolsonaro recebeu prisão domiciliar humanitária temporária; em julho, Moraes decidiu manter a medida diante da evolução clínica apresentada.
Esse quadro explica por que o apresentador questionou Eduardo sobre quais alternativas a família teria para ajudar o ex-presidente numa eventual derrota de Flávio.
Relação com os Estados Unidos antecede declaração sobre fuzileiros
As relações entre a família Bolsonaro e integrantes do governo norte-americano constituem um dos principais antecedentes do episódio.
A condenação de Eduardo pelo STF decorreu justamente da avaliação de que ele atuou nos Estados Unidos para estimular medidas capazes de pressionar instituições brasileiras durante o processo envolvendo seu pai. A atuação incluiu contatos políticos ligados a sanções e tarifas impostas ou discutidas pelo governo americano.
Reportagem da Reuters publicada neste fim de semana acrescentou novos elementos ao contexto ao relatar atuação de integrantes do Departamento de Estado favoráveis ao fortalecimento político da família Bolsonaro e à adoção de medidas contra autoridades brasileiras. A Casa Branca, segundo a agência, recusou-se a comentar aspectos específicos dessas articulações.
Esse histórico torna politicamente mais sensível a referência de Eduardo aos fuzileiros navais, mas não constitui evidência de que o governo dos Estados Unidos cogite intervenção militar no Brasil.
Hipótese de uso de força estrangeira atingiria princípios de soberania
Em termos institucionais, uma intervenção militar estrangeira em território brasileiro sem consentimento ou fundamento jurídico internacional encontraria obstáculos centrais tanto na ordem constitucional brasileira quanto no direito internacional.
A Constituição estabelece a soberania como fundamento da República e determina que as relações internacionais do Brasil sejam regidas pelos princípios da independência nacional, autodeterminação dos povos, não-intervenção, igualdade entre os Estados, defesa da paz e solução pacífica dos conflitos.
A Carta das Nações Unidas, no artigo 2º, item 4, estabelece que os Estados devem se abster da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de outros Estados.
Por isso, ainda que a frase de Eduardo tenha ocorrido em ambiente descontraído, o objeto mencionado — emprego de forças militares estrangeiras para interferir em uma situação política interna — envolve princípios fundamentais de soberania e não-intervenção.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 27/02/2025 — Eduardo Bolsonaro já se encontra nos Estados Unidos; semanas depois anuncia que permanecerá no país e pedirá licença da Câmara. A mudança abre uma fase de atuação política concentrada em Washington e de confronto com o STF.
- 20/03/2025 — começa sua licença parlamentar para tratamento de saúde e interesse particular. O afastamento termina em julho, mas Eduardo permanece fora do Brasil.
- 11/09/2025 — STF condena Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.
- 25/11/2025 — condenação de Jair Bolsonaro transita em julgado e começa o cumprimento definitivo da pena.
- 18/12/2025 — Câmara declara a perda do mandato de Eduardo Bolsonaro por excesso de faltas.
- 16/06/2026 — Primeira Turma do STF condena Eduardo a 4 anos e 2 meses de prisão por coação no curso do processo.
- 04/10/2026 — no primeiro turno presidencial, Flávio Bolsonaro obtém 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%; os dois avançam ao segundo turno.
- 08/10/2026 — Alexandre de Moraes determina mandado de prisão contra Eduardo para início do cumprimento da pena.
- 18/10/2026 — durante debate da Band, Lula diz que Flávio perderia a imunidade em 25 de outubro e enfrentaria investigações. O mandato do senador, porém, termina oficialmente em 31/01/2027.
- 23/10/2026 — Eduardo participa do Louder with Crowder, menciona “enviar os fuzileiros navais”, defende que Flávio deixe o Brasil se perder e volta a questionar as urnas eletrônicas.
- 25/10/2026 — Brasil realiza o segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, com votação das 8h às 17h.
Os fatos exigem distinção entre três planos. O primeiro é incontroverso: Eduardo Bolsonaro efetivamente mencionou o envio de fuzileiros navais norte-americanos e defendeu que Flávio deixe o Brasil em caso de derrota. O segundo exige qualificação: a referência militar ocorreu em tom jocoso e não foi acompanhada de pedido formal ou evidência de apoio do governo dos Estados Unidos. O terceiro envolve interpretação política: devido ao histórico recente de articulação de Eduardo com autoridades e grupos americanos, uma frase desse tipo adquire peso institucional superior ao de uma simples provocação retórica.
A justificativa apresentada para a saída de Flávio também contém elementos que precisam ser separados. Existem investigações e controvérsias envolvendo o candidato, mas investigação não equivale a culpa ou condenação. Além disso, a derrota presidencial neste domingo não provoca a perda imediata de seu mandato de senador: a legislatura termina em 31/01/2027. Portanto, nem a afirmação de Lula sobre perda de imunidade “dia 25” nem uma eventual caracterização automática da saída de Flávio como “fuga” encontram respaldo integral nos fatos disponíveis.
A contestação das urnas acrescenta outra dimensão. Eduardo reconheceu não possuir prova de fraude, enquanto a Justiça Eleitoral afirma que nenhuma fraude foi constatada no sistema desde 1996 e mantém mecanismos públicos de auditoria. Questionamentos políticos ao sistema eleitoral são legítimos numa democracia; alegações factuais de manipulação, porém, dependem de provas verificáveis.
O núcleo público do episódio está, portanto, na convergência entre eleição presidencial, processos judiciais, atuação política internacional e soberania nacional. Eduardo, condenado por coação relacionada justamente a pressões exercidas a partir dos Estados Unidos, volta a projetar sobre a política brasileira a hipótese de ação estrangeira e aconselha o irmão a deixar o país em caso de derrota. Caberá ao TSE concluir e proclamar o resultado eleitoral, ao STF e aos demais órgãos judiciais conduzir os processos sob sua responsabilidade e às autoridades diplomáticas brasileiras acompanhar eventuais repercussões externas. Qualquer consequência concreta dependerá de atos oficiais, decisões judiciais ou iniciativas governamentais que, até agora, não estão demonstrados pela declaração feita no podcast.








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