Eleições 2026: Bahia teve 2,24 milhões de ausentes; voto cruzado em Salvador, Feira de Santana e RMS pesa no 2º turno Lula x Flávio

Na terça-feira (13/10/2026), a doze dias do segundo turno presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a Bahia apresenta duas variáveis capazes de influenciar sua participação na disputa nacional: os 2.246.970 eleitores que não compareceram ao primeiro turno, equivalentes a 19,97% do eleitorado estadual, e um expressivo padrão territorial de voto cruzado entre as eleições para Presidência e Governo do Estado. Os ausentes podem votar normalmente em 25/10/2026, desde que estejam com a situação eleitoral regular. Ao mesmo tempo, resultados de Salvador, Feira de Santana e municípios da Região Metropolitana de Salvador (RMS) demonstram que parcelas relevantes do eleitorado que apoiaram Lula para presidente não acompanharam Jerônimo Rodrigues (PT) para governador, enquanto ACM Neto (União Brasil) recebeu percentuais muito superiores aos obtidos por Flávio Bolsonaro nessas mesmas localidades.

A combinação desses dois fenômenos transforma a Bahia em território estratégico do segundo turno. Lula venceu o primeiro turno presidencial no estado com 5.664.771 votos, ou 66,17% dos válidos, contra 2.442.585 votos, ou 28,53%, de Flávio Bolsonaro, abrindo vantagem estadual de 3.222.186 votos. Nacionalmente, contudo, Flávio terminou à frente, com 47,03%, contra 45,16% do presidente. A disputa de 25 de outubro, portanto, envolve simultaneamente a tentativa lulista de ampliar sua vantagem baiana e o esforço do candidato do PL para reduzir essa diferença com apoio da estrutura política liderada por ACM Neto.

Abstenção de 2,246 milhões coloca participação eleitoral no centro da disputa

O dado oficial mais relevante para dimensionar a margem de crescimento das duas campanhas é a abstenção. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), 2.246.970 pessoas, ou 19,97% dos eleitores aptos, deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno de 04/10/2026. A Justiça Eleitoral esclareceu que a ausência em uma etapa não impede a participação na seguinte porque cada turno constitui votação independente.

Isso significa que esse contingente poderá retornar às urnas no domingo, 25/10/2026, sem necessidade de ter regularizado previamente a ausência do primeiro turno, desde que o título esteja regular. O prazo para justificar a falta ocorrida em 4 de outubro termina em 03/12/2026.

A dimensão numérica é expressiva. A totalização final reproduzida a partir dos dados oficiais do TSE registra 56.104.503 votos para Flávio Bolsonaro e 53.879.538 para Lula no país, diferença de aproximadamente 2,225 milhões de votos. O contingente de ausentes somente na Bahia — 2,247 milhões — possui praticamente a mesma dimensão dessa diferença nacional. Essa comparação serve exclusivamente para medir escala: não existe base empírica para atribuir preferência partidária aos eleitores que faltaram.

Quanto representa uma eventual redução da abstenção

Tomando como referência os 2.246.970 ausentes do primeiro turno, alguns cenários puramente aritméticos demonstram o tamanho do eleitorado que poderá ser reincorporado à votação:

Redução da abstenção

  • 10% dos ausentes retornariam às urnas
    • 224.697 eleitores
  • 25% dos ausentes retornariam às urnas
    • 561.742 eleitores
  • 50% dos ausentes retornariam às urnas
    • 1.123.485 eleitores

Esses números não constituem projeção eleitoral. Também não indicam vantagem para Lula ou Flávio Bolsonaro. Um eleitor ausente no primeiro turno pode votar em qualquer candidato, anular, votar em branco ou novamente não comparecer.

O efeito líquido dependerá de três fatores: quantos dos ausentes efetivamente retornarão, onde estão territorialmente concentrados e como distribuirão seus votos. Por isso, a análise de municípios, zonas e posteriormente seções eleitorais será mais importante do que considerar a abstenção estadual como um bloco político homogêneo.

Mapa da abstenção mostra peso de Salvador, Feira e grandes centros

A distribuição dos ausentes é desigual. Os dados territoriais derivados da totalização do TSE indicam forte concentração absoluta nas maiores cidades, embora municípios menores apresentem, em alguns casos, taxas proporcionais superiores.

Entre os principais colégios eleitorais analisados, destacam-se:

Abstenções por município

  • Salvador
    • Abstenções: 393.886
    • Taxa aproximada: 20,14%
  • Feira de Santana
    • Abstenções: 74.984
    • Taxa aproximada: 17,21%
  • Vitória da Conquista
    • Abstenções: 49.309
    • Taxa aproximada: 18,57%
  • Camaçari
    • Abstenções: 43.759
    • Taxa aproximada: 20,76%
  • Lauro de Freitas
    • Abstenções: 37.542
    • Taxa aproximada: 22,91%

Somados, esses cinco municípios registraram 599.480 ausentes, volume equivalente a aproximadamente 26,7% do total estadual informado pelo TRE-BA. Em outras palavras, pouco mais de um quarto da abstenção baiana pode ser localizado em apenas cinco grandes centros urbanos.

Salvador, isoladamente, concentra quase 394 mil ausentes, ou aproximadamente 17,5% do contingente estadual. A capital, portanto, representa o maior território individual para qualquer estratégia política voltada à recuperação de comparecimento.

Feira de Santana, segundo maior município em população da Bahia, aparece em seguida entre os principais centros, com 74.984 ausências. O dado adquire relevância adicional porque o município também apresentou uma das manifestações mais claras de voto cruzado entre as disputas presidencial e estadual.

Na RMS, além de Salvador, Camaçari e Lauro de Freitas, o fenômeno também alcançou Simões Filho, com 18.564 ausentes; Candeias, 13.997; Dias d’Ávila, 11.878; Mata de São João, 9.217; e São Francisco do Conde, 8.009.

Municípios pequenos registram taxas superiores a 30%

O mapa muda quando o critério deixa de ser o número absoluto e passa a considerar a proporção do eleitorado que não votou. Levantamento territorial elaborado a partir dos resultados do TSE aponta Rio do Pires, com 30,63% de abstenção; Mansidão, 30,53%; Gongogi, 30,45%; Itapebi, 29,85%; e Santa Cruz Cabrália, 27,80% entre os municípios com maiores índices proporcionais.

Isso estabelece duas frentes distintas para as campanhas. Grandes centros oferecem maior quantidade absoluta de eleitores recuperáveis; municípios menores com abstenção elevada permitem observar onde o afastamento das urnas foi proporcionalmente mais intenso.

Não há, contudo, evidência disponível que permita associar automaticamente maior abstenção a uma corrente política específica. O mapa indica onde o eleitor deixou de votar, mas não revela em quem votaria.

Histórico indica que a abstenção é fenômeno estrutural na Bahia

A taxa de 19,97% registrada em 2026 não surgiu isoladamente. Em estudo divulgado em 20/03/2026, a área de gestão e planejamento do TRE-BA analisou as eleições de 2020, 2022 e 2024 e contabilizou 6.577.350 ocorrências de não comparecimento sem justificativa ao longo desse período.

O levantamento identificou maior incidência histórica de ausência entre eleitores acima de 70 anos, pessoas de 21 a 29 anos, segmentos com menor escolaridade, viúvos ou separados, pessoas com deficiência e grupos para os quais o voto é facultativo. Esses padrões históricos, entretanto, não podem ser transportados automaticamente para os 2,246 milhões de ausentes de 2026, cuja composição específica exigiria tratamento próprio dos microdados eleitorais.

Nas eleições municipais de 06/10/2024, a Bahia havia registrado 1.928.513 ausências, ou 17,09%, enquanto Salvador alcançou 23,40%. Em 2026, portanto, o índice estadual voltou a ficar próximo dos patamares observados em eleições gerais.

No segundo turno de 30/10/2022, a abstenção baiana havia sido de 20,39%. Naquela votação, Jerônimo Rodrigues venceu ACM Neto por 52,79% a 47,21%, enquanto Lula obteve 72,12% dos votos presidenciais válidos no estado contra 27,88% de Jair Bolsonaro.

O retrospecto demonstra que uma abstenção próxima de um quinto do eleitorado não é excepcional na Bahia. O elemento novo em 2026 é seu peso potencial diante de uma eleição presidencial nacionalmente apertada.

Feira de Santana expõe voto cruzado entre Lula e ACM Neto

Em Feira de Santana, o primeiro turno produziu uma configuração particularmente relevante para compreender o segundo.

Na eleição presidencial, Lula recebeu 194.272 votos, ou 57,13% dos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 121.727, ou 35,80%. A vantagem do presidente foi de 72.545 votos.

Na disputa pelo Governo da Bahia, entretanto, a ordem política se inverteu: ACM Neto recebeu 175.603 votos, ou 53,33%, enquanto Jerônimo Rodrigues ficou com 151.212, ou 45,93%.

Há, portanto, dois afastamentos expressivos entre os percentuais dos candidatos associados aos respectivos campos políticos:

  • Lula obteve 11,20 pontos percentuais a mais que Jerônimo;
  • ACM Neto obteve 17,53 pontos percentuais a mais que Flávio Bolsonaro.

Essas diferenças não permitem afirmar que exatamente os mesmos eleitores votaram em Lula e ACM Neto. Como os resultados são agregados por município e os cargos possuem universos próprios de votos válidos, seria metodologicamente incorreto reconstruir combinações individuais de voto sem dados de urna adequados.

O que os números demonstram de forma inequívoca é algo diferente: o alinhamento presidencial não foi reproduzido na mesma proporção na disputa estadual. Feira não votou como um bloco partidário verticalizado.

Abstenção em Feira supera a vantagem presidencial local do primeiro turno

Outro dado amplia a importância da cidade. As 74.984 ausências registradas em Feira são numericamente superiores à vantagem de 72.545 votos que Lula abriu sobre Flávio Bolsonaro no município.

A diferença é de apenas 2.439 eleitores.

Isso não significa que uma redução da abstenção possa necessariamente inverter o resultado local. Para isso seria necessário que o comparecimento adicional ocorresse em escala elevada e com distribuição fortemente assimétrica entre os dois candidatos.

O indicador mostra, porém, que a mobilização de quem faltou possui dimensão suficiente para alterar significativamente as margens municipais. Feira constitui, assim, um dos territórios prioritários tanto para a base de Jerônimo e Lula quanto para o grupo de ACM Neto e Flávio.

Salvador confirma separação ainda maior entre eleição nacional e estadual

O fenômeno é mais acentuado em Salvador.

Lula conquistou 944.358 votos, ou 65,26%, contra 391.188 votos, ou 27,03%, de Flávio Bolsonaro na capital. Sua vantagem presidencial alcançou 553.170 votos.

Para governador, entretanto, ACM Neto venceu Salvador com 769.752 votos, ou 54,32%, enquanto Jerônimo Rodrigues obteve 630.677 votos, ou 44,51%.

A distância entre o desempenho dos candidatos de cada campo foi, portanto, ainda maior do que em Feira:

  • Lula ficou 20,75 pontos percentuais acima de Jerônimo;
  • ACM Neto ficou 27,29 pontos percentuais acima de Flávio Bolsonaro.

A capital baiana produziu, assim, um quadro político no qual Lula manteve sólida hegemonia presidencial, ao mesmo tempo que ACM Neto derrotou o governador petista dentro da mesma cidade.

Esse comportamento é particularmente importante após o apoio formal de ACM Neto a Flávio Bolsonaro porque demonstra tanto potencial de crescimento para o candidato do PL quanto limites objetivos à transferência automática de votos.

RMS repete descolamento entre Lula, Jerônimo, ACM Neto e Flávio

Municípios importantes da Região Metropolitana de Salvador reproduziram, em diferentes intensidades, o mesmo padrão.

Desempenho eleitoral por município

  • Salvador
    • Lula: 65,26%
    • Flávio: 27,03%
    • Jerônimo: 44,51%
    • ACM Neto: 54,32%
  • Camaçari
    • Lula: 62,18%
    • Flávio: 30,81%
    • Jerônimo: 49,71%
    • ACM Neto: 49,75%
  • Lauro de Freitas
    • Lula: 59,06%
    • Flávio: 33,07%
    • Jerônimo: 40,37%
    • ACM Neto: 58,83%
  • Simões Filho
    • Lula: 66,66%
    • Flávio: 26,33%
    • Jerônimo: 50,01%
    • ACM Neto: 49,56%
  • Dias d’Ávila
    • Lula: 68,09%
    • Flávio: 24,97%
    • Jerônimo: 50,28%
    • ACM Neto: 49,23%
  • Candeias
    • Lula: 77,73%
    • Flávio: 16,92%
    • Jerônimo: 59,29%
    • ACM Neto: 40,29%
  • Mata de São João
    • Lula: 71,50%
    • Flávio: 22,89%
    • Jerônimo: 53,34%
    • ACM Neto: 46,31%
  • São Francisco do Conde
    • Lula: 81,97%
    • Flávio: 13,87%
    • Jerônimo: 67,21%
    • ACM Neto: 32,27%

Os percentuais referem-se aos votos válidos de cada cargo e devem ser lidos como comparação territorial, não como identificação individual do voto de cada eleitor.

Camaçari oferece exemplo extremo

Camaçari talvez seja o caso mais didático. Lula alcançou 62,18%, contra 30,81% de Flávio Bolsonaro, abrindo vantagem presidencial de quase 31,4 pontos percentuais.

Na eleição estadual, entretanto, o município ficou praticamente dividido ao meio: ACM Neto teve 49,75%, com 75.413 votos, e Jerônimo 49,71%, com 75.352. A diferença foi de apenas 61 votos.

É difícil encontrar demonstração territorial mais clara de que a escolha para presidente não determinou automaticamente a preferência para governador.

Lauro de Freitas reúne voto cruzado e grande contingente de ausentes

Em Lauro de Freitas, Lula venceu Flávio por 59,06% a 33,07%, mas ACM Neto superou Jerônimo por 58,83% a 40,37%.

A cidade também registrou 37.542 ausentes. Esse contingente supera em 6.532 eleitores a vantagem de 31.010 votos aberta por Lula sobre Flávio no primeiro turno local.

Novamente, a comparação é de escala e não uma previsão. Mas ajuda a identificar Lauro de Freitas como um dos municípios metropolitanos nos quais mudanças de comparecimento podem exercer maior influência sobre a margem presidencial.

Dados colocam em teste a capacidade de transferência de ACM Neto

O voto cruzado ganha importância política depois de ACM Neto anunciar, em 07/10/2026, apoio formal a Flávio Bolsonaro. Vice-presidente nacional do União Brasil e derrotado por Jerônimo Rodrigues na disputa estadual, o ex-prefeito de Salvador declarou em Brasília:

“Todos nós do União Brasil fechamos questão em torno do apoio à candidatura de Flávio à Presidência.”

ACM Neto afirmou que pretende mobilizar seu grupo político, prefeitos aliados e lideranças do União Brasil em favor do candidato do PL.

A estratégia é eleitoralmente compreensível. ACM Neto recebeu 3.625.227 votos, ou 43,72%, na eleição estadual, contingente muito superior aos 2.442.585 votos, ou 28,53%, dados a Flávio para presidente na Bahia.

Mas o mesmo dado que revela espaço potencial para crescimento de Flávio também demonstra que uma parcela do eleitorado de ACM Neto não acompanhou o candidato presidencial do PL no primeiro turno.

Em Salvador, por exemplo, a diferença entre o percentual de ACM e o de Flávio ultrapassou 27 pontos percentuais. Em Lauro de Freitas, foi superior a 25 pontos; em Feira, 17,5 pontos.

O desafio da oposição será transformar afinidade com a liderança estadual de ACM Neto em voto presidencial. Os resultados do primeiro turno mostram que isso não ocorreu de maneira automática.

Jerônimo tenta converter estrutura estadual em ampliação da vantagem de Lula

No campo governista ocorre desafio inverso.

Jerônimo Rodrigues foi reeleito no primeiro turno com 4.626.509 votos, ou 55,80%, derrotando ACM Neto, mas seu percentual ficou abaixo dos 66,17% obtidos por Lula na eleição presidencial baiana.

Desde a definição do segundo turno, o governador passou a mobilizar prefeitos, lideranças políticas, parlamentares e movimentos aliados para aumentar o comparecimento e ampliar a diferença favorável ao presidente. Em 11 e 12 de outubro, Jerônimo participou de articulações nacionais e reafirmou que pretende elevar a votação lulista no estado.

O vice-governador Geraldo Júnior também declarou que a estratégia da base será atuar nos 417 municípios, preservando os votos do primeiro turno, buscando novos eleitores e priorizando pessoas que não compareceram em 4 de outubro.

A disputa pela abstenção, portanto, deixou de ser apenas possibilidade estatística e passou a integrar explicitamente a estratégia política do segundo turno.

O desempenho de Lula acima do próprio candidato petista ao Governo da Bahia em Salvador, Feira e diversos municípios metropolitanos oferece à campanha presidencial uma vantagem inicial: parte do eleitorado que rejeitou ou não acompanhou Jerônimo estadualizou sua escolha, mas manteve Lula no plano nacional.

Voto cruzado não é fenômeno exclusivamente de 2026

A separação entre preferências nacionais e estaduais possui antecedentes.

No segundo turno de 2022, Lula alcançou 72,12% dos votos válidos para presidente na Bahia, enquanto Jerônimo venceu o governo com 52,79%. ACM Neto registrou 47,21%, ao passo que Jair Bolsonaro obteve apenas 27,88% na disputa presidencial estadual.

Já naquela eleição, portanto, o candidato presidencial petista superou de forma significativa o desempenho do candidato do próprio campo estadual, enquanto ACM Neto recebeu apoio muito superior ao obtido pelo candidato presidencial bolsonarista.

A permanência desse descolamento sugere uma característica relevante do eleitorado baiano: uma parcela expressiva distingue a competição presidencial da estadual e escolhe candidatos a partir de critérios que não obedecem necessariamente à verticalização partidária.

Esse comportamento limita análises baseadas exclusivamente na soma das estruturas partidárias ou no apoio formal de lideranças.

Abstenção não constitui reserva automática de votos

A maior cautela analítica necessária nesta eleição está em evitar a interpretação dos 2,246 milhões de ausentes como se formassem um eleitorado politicamente uniforme.

A Justiça Eleitoral informa quem deixou de votar, mas o dado agregado não revela preferência presidencial, motivação da ausência, intenção de comparecer ao segundo turno ou comportamento político.

O estudo histórico do TRE-BA oferece características sociais de segmentos com maior incidência de ausência em eleições anteriores, mas não autoriza concluir que a mesma distribuição se reproduziu em outubro de 2026.

Além dos ausentes, há outros grupos potencialmente móveis. Na Bahia, candidatos presidenciais eliminados receberam aproximadamente 452,9 mil votos válidos, enquanto votos brancos e nulos somaram cerca de 493,3 mil no primeiro turno. Esses eleitores também poderão redefinir sua escolha no dia 25.

O segundo turno, juridicamente e eleitoralmente, constitui nova votação. Os votos do primeiro turno não são transportados para a etapa seguinte; Lula e Flávio Bolsonaro precisam novamente obter votos válidos suficientes para formar maioria.

O que os dados territoriais permitem afirmar — e o que ainda não permitem

Os arquivos eleitorais disponibilizados pelo TSE permitem acompanhar resultados por estado, município, zona eleitoral e seção, possibilitando análises territoriais mais detalhadas do comportamento do eleitorado. O próprio Tribunal informa que sua plataforma de resultados permite consultas por município e zona, enquanto os Boletins de Urna estão disponíveis no Portal de Dados Abertos.

Os resultados municipais utilizados nesta reportagem demonstram diferenças objetivas entre percentuais obtidos por candidatos à Presidência e ao Governo da Bahia. Esse é um fato mensurável.

Eles não permitem, entretanto, identificar individualmente qual eleitor votou em determinada combinação de candidatos. Uma análise que afirmasse que todos os votos adicionais de ACM Neto em relação a Flávio vieram de eleitores de Lula incorreria em falácia ecológica, isto é, deduziria comportamentos individuais a partir de resultados agregados.

A confirmação mais precisa do padrão dependerá de cruzamentos por zona e seção eleitoral, sempre preservado o sigilo do voto, além da comparação entre o comparecimento do primeiro e do segundo turnos.

Para o total estadual de abstenção, esta reportagem utiliza como referência os 2.246.970 ausentes divulgados oficialmente pelo TRE-BA em 08/10/2026. Os números municipais são tratados como recortes territoriais da totalização presidencial e não como tentativa de reconstruir, por soma, um novo total estadual.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 30/10/2022 — Jerônimo Rodrigues vence ACM Neto no segundo turno para o Governo da Bahia por 52,79% a 47,21%. Na eleição presidencial baiana, Lula obtém 72,12%, contra 27,88% de Jair Bolsonaro. A abstenção estadual chega a 20,39%, evidenciando desde então o descolamento entre as disputas estadual e presidencial.
  • 06/10/2024 — Nas eleições municipais, a Bahia registra 1.928.513 ausentes, ou 17,09% do eleitorado. Em Salvador, a taxa alcança 23,40%. Os dados reforçam a permanência da abstenção como questão estrutural da participação eleitoral.
  • 20/03/2026 — O TRE-BA divulga estudo sobre abstenção nas eleições de 2020, 2022 e 2024 e identifica grupos historicamente mais sujeitos ao não comparecimento. O levantamento fornece referência para estudos sobre participação, mas não define o perfil dos ausentes de outubro de 2026.
  • 04/10/2026 — O primeiro turno das eleições gerais registra 2.246.970 ausentes na Bahia, ou 19,97%. Jerônimo Rodrigues é reeleito governador no primeiro turno; Lula vence amplamente a eleição presidencial no estado, enquanto Flávio Bolsonaro termina nacionalmente na primeira colocação e avança com Lula para o segundo turno.
  • 05/10/2026 — A totalização confirma o segundo turno presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula. Os resultados territoriais evidenciam divergências significativas entre o voto para presidente e governador em Salvador, Feira de Santana e municípios metropolitanos.
  • 07/10/2026 — ACM Neto anuncia apoio formal a Flávio Bolsonaro e afirma que mobilizará seu grupo político, prefeitos e lideranças do União Brasil na Bahia. A decisão transforma a capacidade de transferência de seu eleitorado estadual em uma das variáveis do segundo turno.
  • 08/10/2026 — O TRE-BA esclarece que quem faltou ao primeiro turno, mas permanece em situação eleitoral regular, poderá votar normalmente em 25/10/2026.
  • 11 e 12/10/2026 — Jerônimo Rodrigues intensifica a campanha por Lula, participa de mobilizações nacionais e articula prefeitos e lideranças para ampliar a votação presidencial petista na Bahia, com a redução da abstenção entre as prioridades políticas.
  • 25/10/2026 — Está marcado o segundo turno presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro. O comparecimento dos ausentes do primeiro turno e o comportamento de cidades com forte voto cruzado serão indicadores centrais para medir a alteração das margens eleitorais.

Os 2.246.970 ausentes constituem uma das maiores reservas de participação eleitoral disponíveis em um único estado, mas não podem ser classificados antecipadamente como lulistas, bolsonaristas ou indecisos. Seu peso decorre da escala: o contingente é praticamente equivalente à diferença nacional entre os dois finalistas no primeiro turno. Uma redução relevante da abstenção pode alterar margens na Bahia e, dependendo da distribuição dos novos votos, contribuir para ampliar ou reduzir a vantagem nacional de qualquer candidato. Transformar essa possibilidade matemática em previsão partidária, contudo, extrapolaria os dados disponíveis.

O segundo elemento estrutural é o voto cruzado. Salvador, Feira de Santana, Camaçari, Lauro de Freitas e outros municípios metropolitanos mostram que o eleitorado baiano distingue de maneira relevante a disputa presidencial da estadual. Esse fato coloca simultaneamente à prova a capacidade de ACM Neto de transferir para Flávio Bolsonaro parte dos votos que recebeu para governador e a capacidade de Jerônimo Rodrigues de converter sua máquina política e sua reeleição em ampliação da vantagem de Lula. Os números do primeiro turno mostram espaço potencial para ambas as estratégias, mas também demonstram que lideranças estaduais não controlam automaticamente a preferência presidencial.

Há limites documentais que exigem acompanhamento. Resultados municipais agregados não revelam combinações individuais de voto, e o perfil político dos ausentes de 2026 ainda não está estabelecido. A análise mais precisa dependerá da comparação entre zonas e seções eleitorais, da evolução do comparecimento no segundo turno e da mensuração posterior das variações territoriais. O acompanhamento jornalístico também deverá observar se Salvador e a RMS mantêm o descolamento entre lulismo nacional e oposição estadual e se Feira de Santana, onde a quantidade de ausentes superou a vantagem presidencial de Lula no primeiro turno, apresenta mudança relevante de participação.

A Bahia entra no segundo turno com mais de 2,2 milhões de eleitores recuperáveis para a votação, vantagem expressiva de Lula no primeiro turno estadual e evidências territoriais robustas de independência entre escolhas para presidente e governador. Até 25/10/2026, caberá às campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, às estruturas políticas de Jerônimo Rodrigues e ACM Neto e às respectivas alianças disputar participação e preferência; à Justiça Eleitoral, assegurar informação, regularidade e transparência; e à imprensa, acompanhar principalmente a mudança de comparecimento por município e zona, a evolução das margens em Salvador, Feira e RMS e a capacidade real — e não presumida — de transferência dos votos do primeiro turno.


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