O Partido dos Trabalhadores (PT) relembra, nesta quarta-feira (14/10/2026), um dos movimentos políticos de maior simbolismo da eleição presidencial de 2022: o apoio declarado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) a Luiz Inácio Lula da Silva, seu antigo adversário nas disputas presidenciais de 1994 e 1998. Em 05/10/2022, FHC anunciou voto no petista no segundo turno contra Jair Bolsonaro e, em 27/10, gravou um vídeo no qual fez um pedido explícito: “vote no 13, vote no Lula”. A aproximação ocorreu no mesmo processo eleitoral em que Geraldo Alckmin, fundador e ex-presidente nacional do PSDB, deixou o campo tucano, filiou-se ao PSB e tornou-se vice de Lula, composição que venceu a eleição e conduziu o petista ao seu terceiro mandato presidencial.
Fernando Henrique declarou voto em Lula pela “democracia e inclusão social”
A manifestação pública de Fernando Henrique ocorreu três dias depois do primeiro turno das eleições de 2022. Em 05/10/2022, o ex-presidente escreveu nas redes sociais que apoiaria Lula na etapa decisiva da disputa presidencial.
“Neste segundo turno voto por uma história de luta pela democracia e inclusão social. Voto em Luiz Inácio Lula da Silva.”
A declaração foi registrada naquele mesmo dia pelo próprio portal do Partido dos Trabalhadores, que apresentou o apoio de FHC dentro do movimento de ampliação da frente política articulada em torno da candidatura de Lula. O petista respondeu agradecendo o apoio e afirmando que o país precisava de “diálogo e de paz”.
A escolha tinha significado político particular. Fernando Henrique Cardoso e Lula haviam sido adversários diretos em duas eleições presidenciais. FHC derrotou o petista no primeiro turno em 1994 e voltou a vencê-lo, também na primeira rodada, em 1998. Durante décadas, PT e PSDB ocuparam posições concorrentes na estrutura política nacional.
FHC reforçou o apoio com vídeo: “vote no 13, vote no Lula”
A declaração de outubro não ficou restrita a uma publicação escrita. Em 27/10/2022, três dias antes da votação do segundo turno, Fernando Henrique gravou uma mensagem direcionada aos eleitores.
Na gravação, recuperada agora como registro daquele processo eleitoral, FHC relacionou sua própria trajetória política e o Plano Real ao pedido de apoio ao candidato petista:
“Meus amigos e minhas amigas, você que melhorou de vida com o Real e acredita no Brasil, nessas eleições, não tem dúvida: vote no 13, vote no Lula. Porque ele vai melhorar mais ainda a sua vida.”
O vídeo foi divulgado pelas redes sociais de Lula e teve ampla repercussão na imprensa. A mensagem representou um endosso eleitoral inequívoco: o ex-presidente tucano não apenas declarou sua preferência, mas pediu diretamente votos para seu antigo adversário.
A referência ao Real também ampliava a dimensão simbólica da fala. A estabilização monetária iniciada durante o governo Itamar Franco, quando FHC ocupava o Ministério da Fazenda, tornou-se a principal base política de sua candidatura presidencial em 1994. Ao invocar esse legado para defender Lula em 2022, Fernando Henrique associava uma das principais realizações de sua trajetória a uma candidatura historicamente situada no campo adversário.
Apoio ocorreu após décadas de rivalidade entre PT e PSDB
O gesto de FHC precisa ser compreendido dentro da transformação do sistema político brasileiro ocorrida entre as décadas de 1990 e 2020.
Durante grande parte do período posterior à redemocratização, PT e PSDB protagonizaram a principal disputa presidencial brasileira. A polarização começou a se consolidar em 1994, quando Fernando Henrique enfrentou Lula e venceu no primeiro turno, e foi repetida em 1998.
Em 2002, FHC concluiu seu segundo mandato e conduziu uma transição institucional para o primeiro governo Lula. O petista havia derrotado no segundo turno José Serra, também do PSDB.
A relação entre os dois campos permaneceu marcada por competição política, divergências programáticas e disputas eleitorais durante os governos Lula e Dilma Rousseff. Por essa razão, a manifestação de Fernando Henrique em 2022 ganhou dimensão que ultrapassava um apoio individual.
Geraldo Alckmin liga historicamente o PSDB de FHC à chapa de Lula
Outro personagem central daquela reorganização política foi Geraldo Alckmin, atual vice-presidente da República.
A trajetória de Alckmin esteve ligada ao PSDB desde a origem da legenda. Ele foi um dos fundadores do partido em 1988 e permaneceu filiado por mais de três décadas. No Estado de São Paulo, foi vice-governador de Mário Covas entre 1995 e 2001 e assumiu o governo paulista após a morte de Covas, em março de 2001. Posteriormente, venceu eleições para o Palácio dos Bandeirantes e governou São Paulo entre 2001 e 2006 e novamente entre 2011 e 2018.
Em todos esses períodos à frente do governo paulista, Alckmin estava filiado ao mesmo PSDB que levou Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. A ligação política entre os dois, portanto, não se limitou à convivência partidária circunstancial: ambos fizeram parte da construção nacional do partido que estruturou o campo de centro e centro-direita que rivalizou com o PT durante décadas.
Quando assumiu novamente o governo paulista em 01/01/2011, Alckmin chegou a destacar publicamente o legado de Fernando Henrique. Em seu discurso de posse, afirmou que o governo FHC havia estabelecido bases políticas e econômicas para o desenvolvimento do país e lembrou o alinhamento de São Paulo, sob Mário Covas, com aquela administração federal.
Alckmin tornou-se uma das principais lideranças nacionais do PSDB
A projeção nacional de Geraldo Alckmin dentro do antigo partido avançou muito além do governo paulista.
Em 2006, foi escolhido candidato do PSDB à Presidência da República. O anúncio ocorreu com a presença de algumas das principais lideranças tucanas, entre elas o próprio Fernando Henrique Cardoso. Alckmin chegou ao segundo turno justamente contra Lula e foi derrotado pelo então presidente, que conquistou a reeleição.
Mais de uma década depois, Alckmin voltou a disputar o Palácio do Planalto como candidato do PSDB em 2018. Entre 2017 e 2019, também exerceu a presidência nacional da legenda, consolidando sua condição de um dos principais dirigentes tucanos do período.
A trajetória mostra a profundidade da mudança ocorrida em 2022. O político que havia representado nacionalmente o PSDB contra Lula passou a integrar uma chapa presidencial liderada pelo petista.
Saída do PSDB abriu caminho para a composição Lula-Alckmin
Alckmin deixou o PSDB em 2021, depois de aproximadamente 33 anos de filiação. Em 23/03/2022, formalizou sua entrada no Partido Socialista Brasileiro (PSB), em um movimento diretamente relacionado à construção da chapa presidencial com Lula.
Durante o ato de filiação, o ex-governador reconheceu a rivalidade política histórica com o petista e recordou a eleição de 2006. Ao mesmo tempo, sustentou que as disputas entre ambos haviam ocorrido dentro dos limites democráticos.
O PSB formalizou posteriormente sua indicação para a Vice-Presidência. Na convenção nacional de 29/07/2022, a candidatura de Alckmin a vice de Lula foi aprovada por unanimidade pelos participantes do encontro partidário.
O Jornal Grande Bahia (JGB) acompanhou naquele período a formação da chapa e registrou que Alckmin havia sido fundador do PSDB, governara São Paulo por longos períodos e passara ao PSB durante a construção da aliança eleitoral com Lula.
FHC e Alckmin simbolizaram ampliação política da candidatura de Lula
As movimentações de Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin tiveram naturezas diferentes.
FHC permaneceu identificado historicamente com o PSDB e declarou individualmente seu voto em Lula no segundo turno. O PSDB, enquanto organização nacional, não formalizou apoio ao petista naquela etapa e liberou seus integrantes para escolher entre Lula e Jair Bolsonaro.
Alckmin, por sua vez, rompeu institucionalmente com o partido que ajudara a fundar, ingressou no PSB e tornou-se integrante formal da chapa presidencial.
Os dois movimentos, entretanto, convergiram na ampliação do apoio político a Lula para além das forças tradicionalmente alinhadas ao PT. O próprio partido classificava naquele período a composição como uma frente ampla, reunindo políticos, economistas, juristas, antigos presidenciáveis e personalidades que haviam ocupado posições distintas ou mesmo adversárias em eleições anteriores.
Lula e Alckmin venceram eleição e iniciaram governo em 2023
O segundo turno presidencial ocorreu em 30/10/2022. Lula e Alckmin foram eleitos presidente e vice-presidente da República, respectivamente.
Em dezembro daquele ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou oficialmente a chapa vencedora após a aprovação do relatório final de totalização. A vitória levou Lula novamente ao Palácio do Planalto, agora para exercer seu terceiro mandato como presidente da República.
Alckmin teve papel relevante ainda antes da posse. O vice-presidente eleito coordenou o Gabinete de Transição, responsável pela organização da passagem do governo Bolsonaro para a nova administração. O processo reuniu dezenas de grupos técnicos e representantes de diferentes setores.
A posse em 01/01/2023 consolidou uma composição que poucos anos antes pareceria improvável: Lula, principal liderança histórica do PT, passou a governar ao lado de um político que havia sido fundador, candidato presidencial e presidente nacional do partido que durante décadas constituíra seu principal adversário eleitoral.
Alckmin hoje integra o comando nacional do PSB
Quatro anos depois da filiação realizada em 2022, Geraldo Alckmin ocupa posição de destaque também dentro do PSB.
A atual Executiva Nacional da legenda registra o vice-presidente da República como primeiro vice-presidente nacional do PSB, abaixo do presidente nacional João Campos. O cargo formal coloca Alckmin entre as principais lideranças nacionais do partido.
Sua influência política no PSB ocorre paralelamente às funções exercidas no governo federal e à manutenção da aliança construída com Lula. Em 2026, o partido voltou a oficializar Alckmin como companheiro de chapa do presidente.
A trajetória produz uma conexão histórica singular: um dirigente que ajudou a fundar o PSDB, governou o maior estado brasileiro pela legenda, presidiu nacionalmente o partido e disputou a Presidência contra Lula tornou-se posteriormente vice-presidente em uma administração petista e um dos principais dirigentes nacionais do PSB.
PT mantém registro do apoio de FHC em seu acervo político
O Partido dos Trabalhadores mantém em seu portal oficial o registro do apoio de Fernando Henrique Cardoso, publicado em 05/10/2022 com o título “FHC declara voto em Lula: ‘Pela democracia e inclusão social’”. A publicação documentou a manifestação e a inseriu no movimento de ampliação dos apoios à chapa Lula-Alckmin.
Após a vitória, o próprio PT voltou a registrar uma manifestação de FHC. Em 30/10/2022, depois de confirmada a eleição de Lula, Fernando Henrique publicou uma fotografia antiga dos dois e escreveu: “Parabéns Lula pela vitória. Venceu a Democracia, venceu o Brasil!”
Ao recuperar esse episódio histórico, o partido rememora não apenas o voto de um ex-presidente, mas uma etapa decisiva da estratégia política adotada em 2022: a construção de uma coalizão eleitoral que ultrapassou as fronteiras tradicionais do campo petista.
Antigos adversários já haviam compartilhado trajetória na redemocratização
A relação entre Lula e Fernando Henrique não começou com as disputas presidenciais dos anos 1990.
Antes da criação do PT e do PSDB, ambos participaram de movimentos ligados à redemocratização brasileira. Ao anunciar seu voto em Lula em 2022, FHC publicou também imagens que recordavam momentos dessa trajetória anterior à consolidação da rivalidade entre as duas legendas.
Posteriormente, porém, PT e PSDB se transformaram nos principais polos eleitorais do país. Entre 1994 e 2014, todos os presidentes eleitos pertenciam a uma das duas legendas.
Nesse contexto, a eleição de 2022 produziu uma inversão histórica: o candidato presidencial tucano de 2006 tornou-se vice de Lula, enquanto o presidente que derrotara o petista em 1994 e 1998 declarou voto e gravou um vídeo em favor do antigo adversário.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 1988 — Geraldo Alckmin participa da fundação do PSDB, partido ao qual permaneceria ligado durante mais de três décadas.
- 1994 — Fernando Henrique Cardoso derrota Lula e é eleito presidente da República; Alckmin é eleito vice-governador de São Paulo na chapa de Mário Covas, ambos pelo PSDB.
- 1998 — FHC volta a derrotar Lula e conquista a reeleição; Covas e Alckmin também são reeleitos em São Paulo.
- 06/03/2001 — Com a morte de Mário Covas, Geraldo Alckmin assume o Governo de São Paulo, permanecendo filiado ao PSDB.
- 2002 — Alckmin é eleito governador de São Paulo; Lula vence a eleição presidencial e sucede FHC.
- 2006 — Alckmin torna-se candidato presidencial do PSDB, enfrenta Lula no segundo turno e é derrotado.
- 2011 a 2018 — Alckmin volta a governar São Paulo pelo PSDB e permanece entre as principais lideranças nacionais da legenda.
- 2017 a 2019 — Geraldo Alckmin exerce a presidência nacional do PSDB.
- 2021 — Após mais de três décadas, Alckmin deixa o PSDB.
- 23/03/2022 — Alckmin formaliza filiação ao PSB, abrindo caminho institucional para integrar a chapa de Lula.
- 29/07/2022 — Convenção Nacional do PSB oficializa Alckmin como candidato a vice-presidente na chapa de Lula.
- 05/10/2022 — FHC declara voto em Lula no segundo turno e afirma apoiar uma trajetória de “luta pela democracia e inclusão social”.
- 27/10/2022 — Fernando Henrique grava vídeo e pede: “vote no 13, vote no Lula”.
- 30/10/2022 — Lula e Alckmin vencem a eleição presidencial; FHC felicita Lula e afirma que a democracia venceu.
- 01/01/2023 — Lula inicia seu terceiro mandato presidencial, com Geraldo Alckmin na Vice-Presidência.
- 2026 — Alckmin ocupa a primeira vice-presidência nacional do PSB, consolidando-se entre as principais lideranças da legenda.
O apoio de Fernando Henrique Cardoso a Lula em 2022 deve ser interpretado dentro das circunstâncias políticas daquele segundo turno e não como desaparecimento das diferenças históricas entre PT e PSDB. O próprio FHC justificou publicamente sua escolha pela defesa da democracia e da inclusão social, enquanto o PSDB nacional preservou liberdade de posicionamento para seus dirigentes. O fato confirmado é que o ex-presidente fez uma opção pessoal por Lula e a transformou posteriormente em pedido público de voto.
A presença de Geraldo Alckmin amplia a dimensão histórica desse processo. Diferentemente de FHC, o ex-governador deixou formalmente o PSDB, filiou-se ao PSB e tornou-se parte orgânica da candidatura petista. Sua trajetória — fundador do PSDB, governador paulista, presidente nacional tucano e adversário de Lula em 2006 — permite compreender como a chapa formada em 2022 reuniu personagens que haviam ocupado posições concorrentes durante décadas.
Também é necessário estabelecer uma distinção factual: Alckmin não é atualmente o presidente nacional do PSB. A legenda é comandada por João Campos, enquanto o vice-presidente da República ocupa a primeira vice-presidência nacional, posição que objetivamente o coloca no núcleo dirigente e entre as principais lideranças nacionais da sigla.
Ao rememorar o apoio de FHC, o PT recupera um dos episódios que marcaram a formação da coalizão responsável pela eleição que conduziu Lula ao terceiro mandato presidencial. O significado público do episódio reside justamente no encontro de trajetórias anteriormente adversárias: Fernando Henrique declarou voto e pediu apoio a Lula; Alckmin rompeu com o PSDB e tornou-se seu vice; e a eleição de 2022 resultou em uma composição governamental que reuniu PT, PSB e setores políticos provenientes de campos diferentes. A documentação histórica desse movimento permite avaliar, sem apagar divergências anteriores, como alianças eleitorais podem reorganizar relações partidárias e lideranças consolidadas.








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