A França manteve os toques de recolher em áreas consideradas de risco após os confrontos, saques e incêndios registrados durante manifestações contra o custo de vida, enquanto o governo tenta conter a violência e reduzir os impactos econômicos da crise. Nesta terça-feira (20/10/2026), as autoridades anunciaram a continuidade das restrições noturnas pela segunda noite consecutiva, conforme a necessidade de cada localidade. Os distúrbios também levaram o Executivo a cobrar medidas de plataformas de comércio eletrônico para impedir a revenda de produtos possivelmente roubados e a adotar iniciativas de apoio a comerciantes afetados.
A crise ganhou dimensão nacional após manifestações realizadas no sábado (17/10/2026), inicialmente ligadas a reivindicações sobre educação e que se ampliaram para críticas ao aumento dos preços, especialmente dos combustíveis, e à deterioração dos serviços públicos. Os protestos reuniram centenas de milhares de pessoas, mas foram acompanhados por confrontos, depredações e saques em diferentes cidades.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, pelo menos 3 mil estabelecimentos comerciais foram atingidos por saques ou depredações. Também foram registrados feridos, detenções e danos a prédios públicos, enquanto o presidente Emmanuel Macron reconheceu falhas na gestão da segurança durante os episódios de violência.
Toques de recolher são mantidos em cidades francesas
As restrições noturnas começaram na segunda-feira (19/10/2026), em áreas de cidades como Paris, Lyon, Bordeaux, Lille e Nice. Os horários e os perímetros variam conforme as decisões locais, com medidas aplicadas em determinados setores urbanos e não necessariamente em todos os bairros das cidades.
Nesta terça-feira, o governo afirmou que os toques de recolher contribuíram para reduzir a tensão durante a noite anterior. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu indicou que as medidas poderão ser prorrogadas durante a semana se as condições de segurança exigirem.
A estratégia faz parte da tentativa de evitar novos saques, proteger moradores e estabelecimentos comerciais e restabelecer a circulação em áreas afetadas. As autoridades também enfrentam pressão para explicar por que o policiamento não conseguiu impedir parte das invasões e dos incêndios registrados durante o fim de semana.
Prisões, feridos e investigação sobre incêndios
O balanço judicial e policial continuava em atualização. Em reportagem publicada nesta terça-feira, a RFI informou que o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, mencionou 123 pessoas presas desde o início dos distúrbios no contexto dos casos então acompanhados pelas autoridades. Outros levantamentos divulgados após as manifestações contabilizaram milhares de detenções relacionadas à onda de violência, com números diferentes conforme o período e o tipo de ocorrência considerado.
O governo determinou que os casos enquadrados, quando cabível, como criminalidade organizada possam ter o período de custódia policial ampliado de 48 para 72 horas. A medida busca permitir investigações mais extensas em ocorrências que atendam aos critérios legais para esse enquadramento.
Entre os casos investigados está o incêndio que destruiu grande parte do interior histórico da prefeitura de Limoges, no centro-oeste francês. A Subdireção Antiterrorista foi acionada para atuar na investigação, e um homem de 40 anos foi detido nas proximidades da cidade nesta terça-feira, segundo a RFI. A participação do suspeito e a eventual classificação definitiva dos fatos dependem do andamento da apuração judicial.
Os confrontos também provocaram ferimentos graves. Em Mulhouse, uma adolescente de 17 anos perdeu um olho; em Saint-Étienne, outro jovem da mesma idade teve a mão amputada após a explosão de uma granada. O advogado do segundo jovem anunciou que apresentaria denúncia contra o responsável pelo disparo e contra o ministro do Interior, Laurent Nuñez.
Nuñez havia apresentado pedido de demissão no domingo (18/10/2026), após reconhecer falhas na atuação das forças de segurança em algumas cidades. Macron recusou o pedido, mantendo o ministro no cargo durante a crise.
Governo exige retirada de anúncios de produtos suspeitos de saque
Além das medidas de segurança nas ruas, o governo francês passou a atuar sobre a circulação de mercadorias possivelmente roubadas em plataformas digitais. Na segunda-feira (19/10/2026), representantes de empresas de comércio eletrônico e redes sociais foram convocados para uma reunião com integrantes do governo, com o objetivo de exigir a retirada de anúncios suspeitos.
Entre as plataformas convocadas estavam Vinted, Amazon, eBay, Leboncoin, Meta e TikTok. A iniciativa ocorreu depois que anúncios de produtos novos, ainda embalados, começaram a aparecer em sites de revenda após os saques do fim de semana. As ofertas incluíam artigos de beleza, cosméticos e outros bens que poderiam ter origem em estabelecimentos invadidos.
A ministra delegada para o Digital, Anne Le Hénanff, afirmou que mercadorias saqueadas estavam sendo anunciadas em plataformas e pediu a remoção dos conteúdos sem demora. A convocação também contou com a participação de representantes dos ministérios do Interior e da Justiça e foi conduzida com a presença do ministro do Comércio, Serge Papin.
As respostas das empresas variaram. A Vinted informou ter removido anúncios de bens roubados e reforçado a monitorização de ofertas suspeitas. O eBay afirmou utilizar ferramentas tecnológicas, análise manual e denúncias de usuários para identificar possíveis fraudes. O Leboncoin declarou manter controles automatizados e equipes de moderação, mas disse não dispor de dados consolidados que comprovassem aumento de anúncios irregulares diretamente ligado aos acontecimentos.
O governo também enfrenta pressão política para identificar pessoas que tentem revender produtos roubados. A fiscalização das plataformas se soma às investigações policiais e judiciais, mas a origem ilícita de cada item anunciado precisa ser apurada individualmente.
Mais de 3 mil estabelecimentos afetados e pressão sobre a economia
Os impactos econômicos dos distúrbios ampliaram a pressão sobre o governo. Segundo dados citados pela RFI, pelo menos 3 mil estabelecimentos comerciais foram atingidos por saques ou depredações. O Executivo anunciou medidas de apoio a comerciantes e artesãos prejudicados, incluindo mecanismos de desemprego parcial e a criação de um fundo específico de assistência.
Patrick Martin, presidente do Medef, principal organização patronal francesa, criticou a atuação do Estado na proteção dos estabelecimentos. A crise também provocou preocupação entre investidores, em um momento em que o governo precisa responder às reivindicações sociais e administrar as contas públicas.
Na terça-feira, a Bolsa de Paris registrava queda de 0,52%, depois de recuar 1,11% na segunda-feira. Os títulos da dívida francesa de dez anos apresentavam rendimento próximo de 4,92%, após o maior nível de fechamento desde 2002 ter sido alcançado no pregão anterior. Esses indicadores refletem a percepção dos mercados sobre os riscos econômicos e fiscais do país, embora não possam ser atribuídos exclusivamente aos protestos.
A agência de classificação de risco Moody’s tinha previsão de divulgar na sexta-feira (23/10/2026) uma nova avaliação da nota de crédito da França. A decisão era aguardada em meio às preocupações com o déficit público, o custo do financiamento da dívida e a capacidade do governo de responder às demandas sociais.
Macron busca apoio de países do Golfo para reduzir custos dos combustíveis
A alta do custo de vida e dos combustíveis está entre as principais reivindicações associadas às manifestações. Nesse contexto, Emmanuel Macron iniciou na segunda-feira (19/10/2026) uma viagem diplomática aos países do Golfo para buscar compromissos de fornecimento de hidrocarbonetos e ampliar a segurança energética francesa.
O roteiro inclui Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar, com previsão de conclusão na quarta-feira (21/10/2026). No Kuwait, Macron se reuniu com o emir Mechaal al-Ahmad Al-Sabah. As conversas envolveram o abastecimento de combustíveis e possibilidades de cooperação econômica e de defesa.
Entre os temas discutidos estão estoques de querosene e diesel mantidos em Omã, que poderiam ser direcionados a territórios ultramarinos franceses, como Reunião e Mayotte. O governo também pretende ampliar parcerias para reduzir a exposição do país às interrupções nas rotas internacionais de transporte de energia.
A iniciativa ocorre em um cenário de instabilidade no Oriente Médio, com tensões relacionadas ao estreito de Ormuz e a outras rotas marítimas estratégicas. A viagem, entretanto, não representa garantia de redução imediata dos preços nas bombas. Especialistas citados pela RFI apontaram dificuldades para estabelecer compromissos firmes de fornecimento enquanto persistirem as incertezas regionais.
Crise política amplia pressão sobre o governo francês
A sequência de saques, incêndios e confrontos tornou a segurança pública um dos principais temas do debate político francês. Macron reconheceu falhas na condução dos protestos e prometeu maior transparência sobre as regras de manutenção da ordem, enquanto o governo busca recuperar a confiança da população e evitar novos episódios de violência.
As manifestações começaram com reivindicações relacionadas à educação e aos serviços públicos, mas incorporaram críticas ao custo de vida, aos preços dos combustíveis e às condições econômicas. A resposta governamental combina restrições localizadas de circulação, investigações criminais, fiscalização de plataformas digitais e medidas de apoio aos negócios afetados.
A crise também tem repercussão internacional. Autoridades de outros países recomendaram cautela a seus cidadãos na França, enquanto manifestações inspiradas pelos acontecimentos franceses foram registradas em outros países europeus, entre eles Itália e Albânia.
O desafio imediato do governo francês é conter novos episódios de violência sem ampliar a tensão social, ao mesmo tempo que enfrenta os prejuízos ao comércio, a pressão sobre os mercados financeiros e as reivindicações relacionadas ao custo de vida. A continuidade dos toques de recolher e as medidas anunciadas indicam que as autoridades ainda consideram necessária uma resposta de segurança reforçada, enquanto os desdobramentos judiciais, econômicos e políticos permanecem em curso.








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