Governo Jerônimo retoma Câmara da Cocoicultura na Bahia, e setor traça plano para recuperar liderança nacional

Nesta quinta-feira (15/10/2026), o Governo da Bahia retomou as atividades da Câmara Setorial da Cocoicultura, colegiado consultivo coordenado pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura (Seagri), em parceria com a Fundação Luís Eduardo Magalhães (Flem), para reorganizar o diálogo entre poder público, produtores, cooperativas e empresas e construir medidas destinadas a elevar a produtividade, reduzir gargalos, ampliar o acesso ao crédito e recuperar competitividade. No encontro, realizado em formato híbrido, o presidente da Associação Nacional dos Produtores de Coco (Aprococo), Reinaldo Nascimento, foi eleito presidente da Câmara e defendeu uma estratégia capaz de recolocar a Bahia na liderança brasileira da produção de coco, atualmente ocupada pelo Ceará, segundo os dados mais recentes da Produção Agrícola Municipal do IBGE.

Câmara da Cocoicultura volta a funcionar com foco em produtividade, crédito e competitividade

A retomada integra um processo mais amplo de reorganização das Câmaras Setoriais Agropecuárias da Bahia, concebidas como instâncias consultivas para aproximar produtores, entidades empresariais, cooperativas, órgãos governamentais e instituições técnicas da formulação das políticas estaduais para o campo.

No caso da cocoicultura, a agenda inicial reúne problemas diretamente associados à capacidade econômica das propriedades: escassez de mão de obra, aumento do custo de produção, preço dos fertilizantes, necessidade de financiamento específico e ausência de um diagnóstico atualizado capaz de dimensionar os diferentes elos da cadeia.

A Seagri informou que a Câmara deverá trabalhar na elaboração de um diagnóstico das demandas da cocoicultura, seguido de um plano de desenvolvimento da cadeia produtiva. A ampliação do crédito destinado aos produtores também foi colocada entre as prioridades do colegiado.

O diretor de Desenvolvimento da Agricultura da Seagri e coordenador das Câmaras Setoriais, Assis Pinheiro Filho, relacionou a retomada às pressões competitivas enfrentadas pelo segmento.

“Anos atrás, a cocoicultura baiana conseguiu enfrentar a concorrência com a água de coco vinda da Malásia.”

Segundo ele, a organização do setor em uma Câmara permanente pode oferecer instrumentos para construir ações de valorização da produção local diante das exigências comerciais dos mercados interno e externo.

Ceará lidera produção brasileira e Bahia tenta recuperar posição histórica

A pretensão manifestada pela Aprococo de devolver à Bahia a primeira posição nacional encontra respaldo no contraste entre a importância histórica do estado na cocoicultura e o quadro estatístico atual.

Dados da Produção Agrícola Municipal (PAM) de 2025, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o Brasil produziu 2,018 bilhões de frutos de coco-da-baía, em uma área colhida de 186.943 hectares, com rendimento médio nacional de 10.796 frutos por hectare. O valor da produção chegou a aproximadamente R$ 1,975 bilhão.

O Ceará aparece oficialmente como o maior produtor nacional. Em 2025, o estado produziu 587,252 milhões de frutos, em 43.796 hectares, registrando rendimento médio de 13.409 frutos por hectare e valor de produção de R$ 455,711 milhões.

No ranking nacional por valor da produção, a Bahia registrou R$ 237,953 milhões em 2025. Ficou abaixo do Ceará e também do Pará, cujo valor alcançou R$ 264,682 milhões. Nesse indicador econômico, portanto, a Bahia ocupou a terceira colocação entre os estados.

Os números demonstram que a discussão sobre recuperação da liderança não envolve apenas expansão física da área cultivada. Produtividade por hectare, renovação dos coqueirais, tecnologia, disponibilidade de trabalhadores, irrigação, organização comercial, agroindustrialização, custos dos insumos e capacidade de agregar valor ao fruto são variáveis que condicionam a competitividade.

Bahia já ocupou o primeiro lugar e chegou a projetar 1 bilhão de frutos por ano

A liderança reivindicada pelo setor não constitui apenas uma meta futura. Durante vários anos, a Bahia foi o maior estado produtor de coco do Brasil.

Em 2012, publicação da própria Seagri registrava que a Bahia ocupava a primeira posição nacional e destacava especialmente o Litoral Norte, com produção relevante em municípios como Conde, Jandaíra, Esplanada e Acajutiba. A secretaria informou ainda que a produção baiana havia superado 500 milhões de frutos em 2010.

Em 06/08/2014, o então governo estadual lançou o Plano Estadual de Revitalização e Dinamização da Cadeia Produtiva do Coco. Naquele momento, a Bahia era apresentada como responsável por aproximadamente 34% da produção brasileira, com área plantada de 75,8 mil hectares.

O plano fixava uma meta ambiciosa: elevar a produção de aproximadamente 620 milhões para 1 bilhão de frutos por ano até 2023. Também previa renovação e expansão de cultivos, fortalecimento do parque industrial e atração de unidades de beneficiamento.

A comparação entre aquele cenário e a situação de 2026 constitui um dos principais elementos que justificam a reativação do colegiado: a Bahia passou de referência nacional para uma posição na qual o próprio setor produtivo considera necessária uma estratégia de recuperação.

Envelhecimento dos coqueirais já era apontado como obstáculo em 2018

Parte dos problemas debatidos atualmente não é nova.

Em reunião promovida pela Seagri em 26/03/2018, o governo estadual reconheceu que, embora a Bahia ainda liderasse a produção brasileira naquele período, parcela relevante das plantações era antiga e essa característica prejudicava a produtividade.

A avaliação feita na época já indicava a necessidade de aumentar o rendimento por hectare e preservar as condições fitossanitárias das áreas produtoras.

O histórico reforça que a recuperação da cocoicultura depende de medidas de natureza estrutural. Um colegiado consultivo pode organizar demandas e aproximar os agentes da cadeia, mas a mudança dos indicadores dependerá da transformação das propostas em programas de renovação tecnológica, financiamento, assistência técnica, defesa agropecuária, pesquisa e investimentos produtivos.

Concorrência externa acompanha debates da cadeia há mais de uma década

A referência feita por Assis Pinheiro Filho à concorrência da água de coco proveniente da Malásia está inserida em uma discussão mais antiga sobre a exposição da cadeia brasileira a produtos importados.

Em 2015, a Seagri registrou mobilização de produtores contra importações de coco ralado e água de coco, principalmente de origem asiática. Na ocasião, entidades do setor reivindicaram medidas relacionadas à qualidade, certificação e defesa comercial.

Em março de 2016, outro encontro entre produtores e instituições voltou a relacionar os problemas do segmento à competição dos produtos importados e discutiu temas como agroindustrialização, comercialização, fitossanidade, crédito, assistência técnica e incorporação de novas tecnologias.

Os registros históricos consultados mencionam genericamente produtos provenientes do continente asiático. A identificação específica da Malásia no encontro de 2026 aparece na declaração de Assis Pinheiro Filho divulgada pela Seagri e deve ser compreendida como manifestação atribuída ao dirigente estadual, não como estatística independente apresentada no comunicado oficial.

Fertilizantes ampliam vulnerabilidade dos custos agrícolas

Outro problema apontado durante a retomada da Câmara — o preço dos fertilizantes — ultrapassa os limites da cocoicultura e está relacionado à estrutura de abastecimento da agricultura brasileira.

Em 2026, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. A elevada dependência externa expõe os produtores a variações cambiais, oscilações internacionais dos preços, problemas logísticos e crises geopolíticas.

O Plano Nacional de Fertilizantes foi estruturado justamente para reduzir essa vulnerabilidade e estabelece como horizonte aumentar a participação da produção nacional no abastecimento doméstico.

Para a cadeia do coco, portanto, a preocupação manifestada com o preço dos insumos está conectada a uma variável nacional que não pode ser resolvida exclusivamente pela política estadual. A Câmara poderá atuar sobre acesso ao crédito, tecnologia, planejamento das compras, eficiência agronômica e alternativas técnicas, mas parte da formação dos custos continuará condicionada ao mercado brasileiro de fertilizantes.

Reinaldo Nascimento assume Câmara e defende atenção a pequenos e médios produtores

Eleito presidente do colegiado, Reinaldo Nascimento afirmou que a cooperação entre iniciativa privada e poder público deve dar atenção especial aos pequenos e médios produtores e criar condições econômicas capazes de assegurar retorno aos investimentos realizados nas propriedades.

A escolha do presidente da Aprococo para dirigir a Câmara reforça a participação direta da representação dos produtores no processo de formulação das propostas que deverão ser encaminhadas à administração estadual.

O desafio institucional será transformar essa participação em uma agenda verificável, com prioridades, responsáveis, prazos e instrumentos de execução.

Até a divulgação do encontro de 15/10/2026, a Seagri não apresentou, especificamente para a nova etapa da cocoicultura, valores de investimentos, cronograma para conclusão do diagnóstico, montante de eventual linha de crédito, metas de produtividade, previsão de renovação de coqueirais ou objetivos quantitativos de produção.

Esses pontos permanecem, portanto, como lacunas que deverão ser preenchidas nos próximos trabalhos da Câmara.

Retomada integra programa de até R$ 10 milhões para Câmaras Setoriais

A reorganização do setor do coco faz parte de uma política iniciada formalmente no final de 2025.

Em 01/12/2025, a Seagri e a Flem assinaram termo de cooperação destinado à revitalização e implantação de até 22 Câmaras Setoriais, com investimento previsto de até R$ 10 milhões, recursos diretos da secretaria e prazo de execução de 12 meses. O planejamento estabeleceu quatro reuniões ordinárias anuais para os colegiados, além de encontros extraordinários quando necessários.

A agenda de 2026 foi planejada para alcançar 76 reuniões, abrangendo diferentes cadeias da agropecuária baiana. Os primeiros trabalhos envolveram segmentos como cacau e café, seguindo-se outras cadeias produtivas ao longo do ano.

A retomada da Câmara da Cocoicultura, em outubro, insere o setor nesse modelo de governança setorial quando o programa de revitalização já se encontra em fase avançada de execução.

Colegiado reúne secretarias, órgãos federais, produtores, cooperativas e agentes financeiros

A composição da Câmara demonstra que os problemas identificados não são atribuídos exclusivamente à política agrícola tradicional.

Participam do colegiado, além da Seagri e da Aprococo, as secretarias estaduais de Desenvolvimento Rural (SDR), Desenvolvimento Econômico (SDE), Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi), Meio Ambiente (Sema), Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre) e Assistência e Desenvolvimento Social (Seades).

Também fazem parte da estrutura a Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), Desenbahia, Bahia Pesca, a Superintendência Federal de Agricultura e Pecuária na Bahia do Ministério da Agricultura e Pecuária, Faeb/Senar, Cooperativa Agroindustrial Vale Sauípe (Coopevales), Prefeitura de Jandaíra, Cooperativa Agropecuária Mista da Região de Alagoinhas (Coopera) e Peirot Agronegócios.

A participação da Desenbahia é especialmente relacionada ao debate sobre financiamento, enquanto Adab e Mapa possuem competências relevantes na defesa sanitária. SDE e Secti podem atuar em temas ligados à industrialização, agregação de valor, inovação e competitividade.

Essa estrutura permite que a Câmara trate a cocoicultura como uma cadeia produtiva, e não apenas como uma lavoura: produção primária, processamento industrial, crédito, logística, comercialização, tecnologia, mão de obra, sanidade e mercados integram o mesmo problema econômico.

Governo terá de converter diagnóstico em metas mensuráveis

A pasta estadual da Agricultura é atualmente comandada por Vivaldo Góis de Oliveira, conforme a página oficial de dirigentes da Seagri atualizada em 15/10/2026. Caberá à secretaria coordenar institucionalmente os encaminhamentos decorrentes da Câmara e conectá-los às demais políticas estaduais e federais.

A retomada ocorre ainda em um ambiente no qual o Governo da Bahia procura ampliar outros mecanismos de interlocução com o setor agropecuário. Em setembro de 2026, por exemplo, foi instalado o Conselho de Desenvolvimento Agrícola da Bahia, composto por 17 instituições e voltado ao assessoramento da política agrícola estadual.

A existência simultânea de conselhos, câmaras e fóruns amplia os canais de participação, mas também impõe uma exigência administrativa: evitar superposição de competências e assegurar que as demandas produzidas nesses espaços sejam convertidas em decisões, programas, financiamentos ou mudanças regulatórias efetivas.

No caso específico do coco, a próxima fase deverá revelar se o diagnóstico proposto resultará em um plano com indicadores capazes de demonstrar evolução da produtividade, renovação dos cultivos, acesso ao crédito, redução de custos, expansão do processamento e recuperação de participação da Bahia no mercado nacional.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 08/11/2012 — Liderança baiana: a Seagri registra a Bahia como maior produtora brasileira de coco e destaca o Litoral Norte, especialmente Conde, Jandaíra, Esplanada e Acajutiba, entre os principais polos do estado.
  • 06/08/2014 — Plano Estadual do Coco: o Governo da Bahia lança o Plano Estadual de Revitalização e Dinamização da Cadeia Produtiva do Coco, com meta de elevar a produção de cerca de 620 milhões para 1 bilhão de frutos por ano até 2023 e fortalecer a agroindustrialização.
  • 28/07/2015 — Debate sobre importações: Seagri e representantes da cadeia discutem os efeitos das importações asiáticas de produtos derivados do coco e medidas de defesa da produção nacional.
  • 16/03/2016 — Gargalos estruturais: produtores e órgãos ligados ao setor debatem comercialização, agroindustrialização, fitossanidade, crédito, assistência técnica, tecnologia e concorrência de importados.
  • 26/03/2018 — Produtividade entra no centro do debate: encontro da cadeia do coco aponta o envelhecimento das plantações baianas como fator prejudicial ao rendimento da atividade.
  • 01/12/2025 — Seagri e Flem formalizam revitalização: acordo prevê até R$ 10 milhões, implantação ou reativação de até 22 Câmaras Setoriais e prazo de execução de 12 meses.
  • 2026 — Programa amplia agenda: a política de revitalização estabelece uma programação de 76 reuniões com diferentes cadeias agropecuárias da Bahia.
  • 2025, dados divulgados posteriormente pelo IBGE — Ceará na liderança: a PAM registra o Ceará como maior produtor nacional de coco, com 587,252 milhões de frutos; a produção brasileira alcança 2,018 bilhões de frutos.
  • 15/10/2026 — Câmara da Cocoicultura é retomada: Governo da Bahia, Seagri, Flem e representantes da cadeia reativam o colegiado. Reinaldo Nascimento, da Aprococo, é eleito presidente e o setor estabelece como prioridades diagnóstico, plano de desenvolvimento, crédito, produtividade e recuperação da competitividade.

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