Intolerância religiosa entra no debate eleitoral de 2026 enquanto terreiros relatam violência e ameaças

Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, a discussão sobre liberdade religiosa também envolve relatos de violência contra comunidades de matriz africana. Em Pindoretama, na Região Metropolitana de Fortaleza (CE), a ialorixá Mirela, responsável pelo Ilê Axé Oxum Omolú, afirma acompanhar o processo eleitoral tendo como uma das principais preocupações a possibilidade de exercer sua fé sem medo de ataques.

À frente do terreiro e de uma associação comunitária na região do Pratiú, Mirela também desenvolve atividades sociais destinadas a crianças, adolescentes, mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade. Segundo ela, a atuação religiosa e comunitária está relacionada à defesa da liberdade de crença e à preservação da ancestralidade das populações tradicionais.

O primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 será realizado em 04/10/2026, enquanto eventual segundo turno está previsto para 25 de outubro de 2026. Nesse contexto, a liderança religiosa afirma esperar que o próximo governo assegure condições para que diferentes grupos possam exercer suas crenças sem sofrer violência ou discriminação.

Ialorixá relata temor de ataques a terreiros

Mirela afirma que acompanha com preocupação episódios de violência contra espaços religiosos de diferentes tradições e considera que os terreiros de matriz africana enfrentam uma situação específica de vulnerabilidade. Ao falar sobre o período eleitoral, ela utiliza a expressão “fascismo religioso” para definir aquilo que identifica como perseguição contra essas comunidades.

A expressão corresponde à avaliação apresentada pela própria ialorixá. Seus relatos incluem preocupação com invasões, depredações, ameaças e ataques contra espaços religiosos, além dos efeitos desse ambiente sobre lideranças responsáveis pela manutenção dos terreiros.

Dados do Disque 100 registram denúncias de intolerância religiosa no Brasil e indicam a presença de religiões de matriz africana entre aquelas identificadas nos registros. Pesquisas específicas sobre terreiros também apontam relatos de racismo religioso, ameaças e outras formas de violência.

Dados mostram presença de religiões de matriz africana entre registros de intolerância

Em 2024, o Disque 100 registrou 3.853 denúncias relacionadas à intolerância religiosa, segundo dados divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Entre as religiões identificadas nos registros, Umbanda e Candomblé apareceram entre as mais atingidas.

Outro levantamento, realizado pela Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) em parceria com o terreiro Ilê Omolu Oxum, ouviu lideranças de 511 terreiros. A pesquisa apontou que 80% dos terreiros participantes relataram ter sofrido racismo religioso, enquanto 76% relataram diferentes formas de violência.

O levantamento também identificou relatos de ameaças, depredação ou destruição em parte significativa das casas pesquisadas. Os dados foram produzidos a partir dos relatos das próprias lideranças religiosas e ajudam a contextualizar a preocupação apresentada por Mirela.

Medo influencia até estrutura física do terreiro

A preocupação com possíveis ataques, segundo Mirela, ultrapassou os limites da atividade religiosa e passou a interferir em decisões relacionadas à estrutura do próprio terreiro. Ela relata que havia considerado utilizar telhado de palha de carnaúba em parte da sede, mas desistiu diante do receio de que a característica arquitetônica pudesse facilitar uma eventual ação criminosa.

A construção do espaço foi realizada coletivamente pelos integrantes da comunidade. O terreiro possui diferentes ambientes destinados às atividades religiosas e sociais e também funciona como espaço de convivência para moradores da região.

Mirela afirma que a experiência levou a uma reflexão sobre a necessidade de conciliar a preservação das características tradicionais do espaço com medidas de segurança. Para ela, a liberdade religiosa precisa ser acompanhada da possibilidade concreta de manter os locais de culto protegidos contra violência.

Mulheres ocupam posição de liderança e enfrentam riscos

A ialorixá também chama atenção para a situação das mulheres que exercem liderança religiosa e comunitária. Segundo Mirela, terreiros dirigidos por mulheres podem se tornar alvos de ataques e intimidações.

A avaliação é apresentada a partir da experiência da própria dirigente, que está há 15 anos à frente do terreiro. Nesse período, a instituição ampliou sua atuação para além das atividades religiosas e passou a desenvolver iniciativas sociais destinadas à comunidade.

O cenário apresentado por Mirela reúne, segundo seu relato, diferentes formas de vulnerabilidade. A violência religiosa se soma às dificuldades enfrentadas por mulheres que ocupam posições de liderança em suas comunidades.

Terreiro ampliou atuação durante a pandemia

Durante a pandemia de covid-19, a associação vinculada ao terreiro direcionou parte de sua atuação para a distribuição de alimentos a famílias em situação de vulnerabilidade. A iniciativa contou com doações e parcerias para obtenção de produtos na Ceasa e recebimento de alimentos do programa Mesa Brasil.

Segundo Mirela, a alimentação passou a ser uma das principais preocupações da comunidade durante o período mais crítico da emergência sanitária. A estrutura construída em torno do terreiro foi utilizada para organizar a distribuição dos alimentos e atender famílias que enfrentavam dificuldades.

Após a pandemia, as ações sociais foram mantidas e ampliadas. Atualmente, a associação desenvolve atividades para crianças, adolescentes e mulheres, mantendo o espaço religioso também como ponto de organização comunitária.

Projetos atendem crianças, mulheres e adolescentes

Entre as iniciativas está o Tempo de Brincar, realizado anualmente e frequentado por aproximadamente 200 crianças. O projeto utiliza atividades de convivência e formação como instrumentos de integração da comunidade.

Outra ação reuniu 20 mulheres em um curso de corte e costura desenvolvido em parceria com a Secretaria da Proteção Social do Ceará. Ao término da formação, as participantes receberam máquinas de costura para dar continuidade às atividades.

A associação também mantém atividades voltadas a adolescentes em privação de liberdade, desenvolvidas em parceria com a Secretaria da Igualdade Racial. As ações incluem discussões sobre identidade, ancestralidade e racismo religioso.

Ancestralidade é tema de atividades de formação

Em uma das oficinas, as adolescentes participaram de uma atividade inspirada no conceito de ori, associado à cabeça e à dimensão espiritual na tradição iorubá. Cada participante produziu em argila uma representação de si mesma.

Segundo a ialorixá, a atividade buscou trabalhar identidade e ancestralidade a partir de referências culturais de matriz africana. A iniciativa integra o conjunto de ações sociais realizadas pela associação junto a diferentes públicos.

A atuação do terreiro reúne prática religiosa, formação cultural, assistência comunitária e ações de inclusão social. Para Mirela, a preservação da fé está relacionada também à manutenção de espaços de convivência e transmissão de conhecimentos entre gerações.

Religião também aparece na disputa eleitoral de 2026

A relação entre religião e política ganhou espaço no debate eleitoral de 2026, inclusive a partir de uma controvérsia envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida. Nesse episódio, circularam conteúdos que atribuíam ao candidato uma suposta intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil.

A alegação foi posteriormente contestada por verificações jornalísticas. O projeto citado como origem da narrativa havia sido apresentado em 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli e arquivado em 2008, sem relação com a autoria de Flávio Bolsonaro.

O episódio também chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em meio à discussão sobre conteúdos publicados durante o período eleitoral. A controvérsia contribuiu para recolocar no debate público a relação entre religião, política e circulação de informações durante a campanha.

Liberdade religiosa integra debate sobre direitos fundamentais

Para Mirela, a discussão eleitoral deve abranger não apenas as religiões de matriz africana, mas também indígenas, quilombolas, ciganos e outras comunidades tradicionais. Na avaliação da ialorixá, esses grupos enfrentam questões relacionadas à preservação de territórios, crenças, práticas culturais e modos de vida.

O entendimento apresentado por ela amplia o debate para o campo dos direitos fundamentais e da liberdade religiosa. A Constituição brasileira assegura a liberdade de consciência e de crença e determina a proteção aos locais de culto e suas liturgias.

No âmbito das políticas públicas, órgãos federais mantêm iniciativas destinadas aos povos e comunidades tradicionais de matriz africana e de terreiros, incluindo ações relacionadas à garantia de direitos e ao enfrentamento do racismo religioso.

Eleições colocam proteção às comunidades no centro do relato

O relato da ialorixá ocorre em uma fase de definição eleitoral no Brasil. O primeiro turno das eleições de 2026 acontece em 04/10/2026, quando serão escolhidos presidente e vice-presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais.

Para Mirela, a expectativa em relação ao próximo governo está associada à possibilidade de manter as atividades religiosas e comunitárias sem que a expressão da fé represente um fator de risco. Sua reivindicação é apresentada como uma demanda por liberdade de culto, proteção e respeito à diversidade religiosa.

Os registros disponíveis indicam que a intolerância religiosa permanece presente entre as violações de direitos denunciadas no país, enquanto pesquisas específicas sobre terreiros apontam ocorrências de ameaças, depredações e outras formas de violência.

Às vésperas da votação, o caso de Mirela coloca uma dimensão local dentro de uma discussão nacional: como garantir a liberdade religiosa e a proteção de diferentes comunidades em um ambiente democrático. No terreiro de Pindoretama, a expectativa da ialorixá é continuar realizando os rituais, preservando a ancestralidade e mantendo as ações sociais sem que o exercício da fé seja acompanhado pelo medo da violência.


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