O governador Jerônimo Rodrigues (PT) construiu, ao longo de sua trajetória pessoal e política, uma relação pública e continuada com a Igreja Católica na Bahia. Nascido no povoado de Palmeirinha, em Aiquara, no Médio Rio de Contas, Jerônimo é identificado em registros biográficos como cristão católico e devoto de Nossa Senhora da Conceição, tradição religiosa atribuída ao ambiente familiar em que foi criado. A relação com o catolicismo tornou-se também parte de sua atuação pública, por meio de encontros com bispos, participação em missas, romarias e festas religiosas e iniciativas governamentais de preservação do patrimônio sacro e fortalecimento do turismo religioso.
A conexão documentada vai além da participação protocolar em festas populares. Antes mesmo de assumir o Governo da Bahia, Jerônimo reuniu-se, em 10 de novembro de 2022, com 23 bispos integrantes do Regional Nordeste 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Salvador. O encontro contou com a presença do então arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, cardeal Dom Sérgio da Rocha, e tratou de fome, educação, meio ambiente, desenvolvimento social, segurança, saúde e infraestrutura. Na ocasião, Jerônimo declarou aos religiosos:
“Não estou vindo apenas como um católico, estou vindo como governador”, explicitando simultaneamente sua identidade religiosa e a natureza institucional daquele diálogo.
Essa aproximação adquiriu expressão concreta depois da posse. Patrimônio histórico, assistência social, turismo e manifestações da fé católica passaram a integrar diferentes ações do Governo do Estado, enquanto Jerônimo manteve presença pessoal em celebrações como a Festa do Senhor do Bonfim, a Quarta-feira de Cinzas, a Romaria de Bom Jesus da Lapa e encontros promovidos pela estrutura episcopal baiana.
Relação com a CNBB antecede o início do governo
O diálogo entre Jerônimo e a hierarquia católica já estava publicamente estabelecido durante o processo eleitoral de 2022. Em junho daquele ano, então pré-candidato ao governo, ele reuniu-se com Dom Sérgio da Rocha, na Cúria Metropolitana de Salvador. Na ocasião, afirmou que Estado e Igreja possuíam pontos de convergência em temas como combate à fome, trabalho, moradia e redução do sofrimento social, mas ressaltou que não pretendia transformar a Igreja em instrumento partidário ou eleitoral.
Após a eleição, no encontro com os 23 bispos do Regional Nordeste 3, Jerônimo assumiu compromisso de diálogo permanente com as dioceses. Os religiosos apresentaram demandas relacionadas à educação, ao Vale do São Francisco, ao meio ambiente, à saúde, à segurança e às rodovias. O então bispo de Bom Jesus da Lapa e presidente regional da entidade, Dom João Cardoso, destacou naquele encontro a autonomia entre Igreja e Estado, simultaneamente à possibilidade de cooperação em questões sociais.
A Campanha da Fraternidade de 2023, organizada nacionalmente pela CNBB sob o tema “Fraternidade e Fome”, estabeleceu outra convergência. Jerônimo participou, em 22 de fevereiro de 2023, da Missa da Quarta-feira de Cinzas na Catedral Basílica do Santíssimo Salvador. A celebração, presidida por Dom Sérgio da Rocha, marcou o início da Quaresma e o lançamento da campanha católica. O governador associou publicamente a iniciativa da Igreja ao programa estadual de combate à fome que sua administração começava a estruturar.
Essa relação também alcançou outras estruturas ligadas historicamente ao catolicismo social brasileiro. Em 2024, Jerônimo participou de agenda com a Pastoral Rural, em Cícero Dantas, entidade de presença histórica entre agricultores familiares e comunidades do semiárido. No evento, o governo entregou equipamentos e apoiou atividades produtivas vinculadas às comunidades rurais. Em outro exemplo, durante a campanha de 2022, Jerônimo aderiu a uma carta de compromisso contra o trabalho escravo promovida, entre outras entidades, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Salvador concentra parte expressiva da aproximação com a Igreja
Em Salvador, cidade que abriga a Arquidiocese Primacial do Brasil, essa relação tornou-se particularmente visível. Desde o início do mandato, Jerônimo participa regularmente das celebrações do Senhor do Bonfim, uma das manifestações religiosas e culturais mais importantes da Bahia.
Em janeiro de 2023, poucos dias depois de assumir o governo, acompanhou a procissão marítima da imagem peregrina do Senhor do Bonfim, entre a Cidade Baixa e o Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Na ocasião, relacionou a celebração à religiosidade, ao turismo e à economia da Bahia.
A participação prosseguiu nos anos seguintes. Na Lavagem do Bonfim de 2025, Jerônimo afirmou estar agradecendo ao Senhor do Bonfim e a Nossa Senhora da Conceição e pediu proteção para continuar governando. Em 15 de janeiro de 2026, percorreu novamente aproximadamente oito quilômetros entre a Conceição da Praia e a Colina Sagrada, acompanhado por integrantes de sua administração, reiterando publicamente sua devoção.
Em 2026, o Governo da Bahia ampliou ainda o apoio institucional às atividades do Jubileu pelos 475 anos da criação da Diocese de Salvador e pelos 350 anos de sua elevação a Arquidiocese. A Secretaria de Turismo apoiou a Caminhada Penitencial realizada em março, que reuniu, segundo o governo, cerca de 300 mil fiéis e percorreu oito quilômetros até o Santuário do Senhor do Bonfim.
O secretário estadual do Turismo, Maurício Bacelar, chegou a informar que o apoio do governo não ficaria restrito à caminhada, alcançando outros eventos do ano jubilar. Segundo Dom Gilvan Pereira, bispo auxiliar de Salvador, a parceria reforçaria a dimensão formativa, cultural, espiritual e turística da Igreja baiana.
Outro projeto apoiado pela Setur-BA foi o Caminho de Antônio, lançado em 2026 pela Arquidiocese de Salvador. A peregrinação de seis quilômetros conecta sete igrejas do centro da capital e resgata a história da devoção a Santo Antônio, primeiro padroeiro de Salvador.
O reconhecimento da própria Igreja a essa cooperação também apareceu durante a Festa do Bonfim de 2026. A Setur-BA foi homenageada no Santuário Senhor do Bonfim pelas ações desenvolvidas em benefício do turismo religioso católico. O reitor do santuário, padre Edson Menezes, agradeceu publicamente o apoio da secretaria às manifestações religiosas.
Feira de Santana reúne patrimônio histórico, Igreja e Governo do Estado
Em Feira de Santana, a relação assumiu uma dimensão particularmente concreta por meio da recuperação do Santuário Senhor dos Passos, uma das construções religiosas mais emblemáticas do município.
Em 28 de maio de 2025, Jerônimo Rodrigues autorizou investimento de R$ 1,5 milhão, através do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), para recuperação e restauração da fachada neogótica do santuário. A intervenção contemplou estabilização e recuperação de revestimentos, pináculos, elementos estruturais e adornos superiores degradados pela ação do tempo.
A obra envolveu articulação entre Governo da Bahia, Prefeitura de Feira de Santana, Arquidiocese e Paróquia Senhor dos Passos. O próprio prefeito José Ronaldo de Carvalho participou da assinatura da ordem de serviço e destacou naquele momento a importância histórica e religiosa do templo para os feirenses.
Em 8 de maio de 2026, Jerônimo voltou ao Santuário Senhor dos Passos para participar da inauguração da restauração da fachada. Na mesma cerimônia, concedeu a Ordem 2 de Julho – Libertadores da Bahia ao arcebispo emérito Dom Itamar Vian, reconhecendo sua trajetória religiosa, educacional, intelectual e social.
O significado dessa atuação é ampliado pela própria história de Feira de Santana. A formação do município está profundamente relacionada à tradição católica e à devoção a Sant’Ana, em torno de cuja capela e fazenda se desenvolveu parte do núcleo urbano que originaria a cidade. O Santuário Senhor dos Passos e a Catedral Metropolitana de Sant’Ana permanecem entre os principais marcos dessa herança religiosa e arquitetônica.
Os dados do Censo 2022 ajudam a dimensionar essa presença. Em Feira de Santana, 249.740 pessoas, correspondentes a 46,7% dos habitantes com 10 anos ou mais, declararam-se católicas apostólicas romanas, enquanto os evangélicos representavam 31,67%.
Bom Jesus da Lapa torna-se eixo estratégico do turismo religioso
Outro ponto central da política estadual está em Bom Jesus da Lapa, onde religião, cultura, patrimônio e economia regional se encontram.
Em 6 de agosto de 2023, durante seu primeiro ano de governo, Jerônimo participou da missa da tradicional Romaria do Senhor Bom Jesus da Lapa e anunciou o reconhecimento da celebração como Patrimônio Imaterial da Bahia. No mesmo período, entregou o novo aeroporto do município e lançou uma estratégia estadual de fortalecimento do turismo religioso.
A Romaria do Bom Jesus constitui uma das principais peregrinações católicas do país. Em 2025, cerca de 700 mil romeiros e peregrinos participaram dos dez dias de celebrações, segundo a Secretaria de Turismo da Bahia. A própria Setur passou a classificar o incentivo ao turismo religioso católico entre as prioridades estaduais para o setor.
O reconhecimento estadual foi posteriormente acompanhado pelo reconhecimento da manifestação no âmbito nacional. O evento, iniciado no século XVII e estruturado em torno do Santuário do Bom Jesus da Lapa, tornou-se um dos principais polos de peregrinação religiosa brasileiros.
Política alcança outros santuários e igrejas do interior
O apoio estadual ao patrimônio católico não ficou restrito a Salvador, Feira de Santana e Bom Jesus da Lapa.
Em Abaíra, na Chapada Diamantina, o Governo da Bahia autorizou em maio de 2026 aproximadamente R$ 976,1 mil para obras emergenciais na Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso, localizada em Catolés. Construído no século XVIII e tombado pelo Ipac desde 2010, o templo possui cerca de 250 anos. Nesse caso, apesar de a conservação dos imóveis tombados caber normalmente aos proprietários, o Estado assumiu diretamente a execução da intervenção em razão da relevância histórica e cultural da igreja.
Em Salvador, o Estado destinou ainda R$ 195 mil, em 2025, à restauração da Igreja de Bom Jesus dos Passos, na ilha de mesmo nome, patrimônio com quase três séculos de existência. A intervenção incluiu telhado, pintura interna, pintura externa e fachada.
Por meio da Secretaria de Turismo, a Bahia também passou a promover nacionalmente seus destinos de peregrinação. Na Expocatólica de 2025, em São Paulo, considerada uma das principais feiras do segmento católico, foram apresentados sete santuários baianos: Senhor do Bonfim, Nossa Senhora da Conceição da Praia, Santa Dulce dos Pobres e Nossa Senhora dos Alagados, em Salvador; Nossa Senhora da Pena, em Porto Seguro; Bom Jesus da Lapa; e Nossa Senhora das Candeias, em Candeias.
Santa Dulce e a dimensão social do catolicismo baiano
A presença de Santa Dulce dos Pobres nesse circuito possui significado especial. Canonizada em 2019, a religiosa baiana tornou-se uma das principais referências contemporâneas do catolicismo brasileiro e transformou Salvador em destino internacional de peregrinação.
As celebrações dedicadas à santa estão entre as manifestações apoiadas pelo Governo do Estado no calendário turístico. O modelo procura articular devoção religiosa, circulação de visitantes, patrimônio cultural e atividade econômica, repetindo estratégia semelhante à adotada em Bom Jesus da Lapa e no Bonfim.
Essa vertente social também ajuda a compreender a interlocução de Jerônimo com a Igreja. Combate à fome, agricultura familiar, assistência aos pobres, trabalho e inclusão social aparecem repetidamente nos encontros documentados entre o governador e representantes católicos.
Catolicismo ainda reúne maioria dos baianos
A dimensão política e institucional dessa interlocução deve ser compreendida também à luz da composição religiosa do Estado.
Dados preliminares da amostra do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo IBGE, mostram que 57% da população da Bahia com 10 anos ou mais se declarou católica apostólica romana. No Brasil, a proporção foi de 56,7%, equivalente a aproximadamente 100,2 milhões de pessoas.
Na Bahia, portanto, apesar da expansão das igrejas evangélicas e do crescimento da população sem religião, o catolicismo continua sendo a maior identificação religiosa do Estado. Em Salvador, entretanto, sua participação caiu para cerca de 44%, evidenciando uma sociedade religiosamente mais diversificada.
Esse quadro ajuda a explicar a importância social das grandes festas católicas sem permitir confundir participação religiosa da população com alinhamento político partidário.
Campanha de 2026 recupera simbolismo do Bonfim
A dimensão religiosa também voltou a aparecer na campanha eleitoral de 2026. Em 16 de agosto, Jerônimo iniciou oficialmente sua agenda de candidato à reeleição participando de missa na Basílica Santuário do Senhor do Bonfim, antes de iniciar uma caminhada pela Cidade Baixa de Salvador. Segundo o governador, o objetivo da ida ao santuário era pedir proteção para a campanha e para que o processo eleitoral transcorresse dentro da legalidade.
Poucos dias depois, em 22 de agosto, Jerônimo reuniu-se em Feira de Santana com Dom Itamar Vian, Dom Zanoni Demettino Castro e padre Júlio, em encontro realizado na residência do religioso na Praça da Matriz. A reunião foi divulgada pela própria campanha e abordou questões sociais e políticas públicas. Por sua origem eleitoral, essa fonte deve ser tratada como comunicação de campanha, e não como manifestação institucional da Igreja Católica.
Fé pessoal, cooperação institucional e Estado laico
Do ponto de vista constitucional, o Estado brasileiro é laico. O artigo 19 da Constituição proíbe União, estados e municípios de estabelecer cultos, subvencioná-los ou manter relações de dependência ou aliança com igrejas. O mesmo dispositivo, entretanto, ressalva expressamente a “colaboração de interesse público”.
Essa fronteira jurídica permite compreender a maior parte das políticas observadas durante o governo Jerônimo. Recuperação de bens tombados, proteção do patrimônio histórico, segurança em grandes eventos, promoção turística e cooperação em programas sociais podem constituir atividades de interesse público, desde que respeitados os princípios constitucionais da impessoalidade, igualdade religiosa e laicidade.
O próprio governo também mantém iniciativas relacionadas a outras tradições religiosas. A Setur-BA, por exemplo, desenvolve o projeto Agô Bahia, destinado ao fortalecimento de manifestações de matriz africana e do afroturismo, enquanto Jerônimo também estabeleceu diálogo público com lideranças evangélicas. Esses fatos ajudam a diferenciar uma política pública de promoção do patrimônio e da diversidade religiosa de uma eventual vinculação exclusiva do Estado a determinada confissão.
Relação de Jerônimo com catolicismo combina identidade pessoal e ação de governo
O conjunto documental analisado permite identificar uma linha de continuidade. A relação de Jerônimo Rodrigues com a Igreja Católica começa em sua formação familiar, passa por sua identificação pública como católico e devoto de Nossa Senhora da Conceição e chega à interlocução política com bispos, pastorais, santuários e organizações ligadas ao catolicismo.
No exercício do governo, essa ligação aparece materialmente em investimentos para recuperar igrejas históricas, apoio às peregrinações, estruturação do turismo religioso, reconhecimento de manifestações como patrimônio cultural e cooperação em questões sociais — entre elas o combate à fome e o fortalecimento das comunidades rurais.
Salvador, com o Bonfim, a Conceição da Praia, Santa Dulce e o Jubileu da Arquidiocese; Feira de Santana, com o Santuário Senhor dos Passos e sua Arquidiocese; Bom Jesus da Lapa, com uma das maiores romarias brasileiras; Abaíra, Candeias, Porto Seguro e outras cidades compõem hoje uma rede na qual fé, patrimônio, cultura e atividade econômica se interligam.
O elemento mais preciso, portanto, não é caracterizar essa relação simplesmente como uma aliança político-religiosa. Os documentos apontam para algo mais complexo: um governador que professa publicamente a fé católica e mantém interlocução frequente com a Igreja, enquanto sua administração incorporou o patrimônio e o turismo religioso católicos a diferentes políticas públicas do Estado da Bahia. Essa aproximação ocorre justamente em um período em que a Bahia continua majoritariamente católica, mas apresenta crescente pluralização religiosa.








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