As manifestações em defesa da democracia realizadas em pelo menos 80 cidades brasileiras após o primeiro turno das eleições de 2026 evidenciaram os limites das chamadas bolhas digitais na interpretação do cenário político nacional. Para o pesquisador Luiz Signates, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), a ocupação de espaços públicos permite observar mobilizações sociais que nem sempre são percebidas por usuários expostos predominantemente a conteúdos selecionados por algoritmos nas redes sociais.
Os atos ocorreram em capitais como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Fortaleza, Curitiba e Porto Alegre, sem a presença dos dois candidatos à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), ou de outras figuras políticas de destaque, conforme o relato da reportagem. Na avaliação de Signates, as manifestações demonstram que a dinâmica política não pode ser compreendida exclusivamente a partir das publicações, dos comentários e das interações observadas no ambiente virtual.
O pesquisador considera que houve uma mudança no ambiente político entre o primeiro e o segundo turnos, com maior participação de jovens de diferentes orientações ideológicas. Embora os protestos possam contribuir para alterações na intenção de voto, ele ressalta que a presença de manifestantes nas ruas não comprova, isoladamente, uma mudança na preferência do eleitorado. A avaliação exige considerar outros fatores, como o comportamento dos eleitores indecisos, a polarização política e a influência das relações sociais fora da internet.
Manifestações de rua ampliam a percepção sobre o cenário político
Na análise de Signates, as manifestações presenciais permitem observar expressões coletivas que podem permanecer pouco visíveis para quem acompanha a política exclusivamente pelas redes sociais. O pesquisador afirma que a ocupação de ruas e espaços públicos constitui uma forma de escapar dos filtros digitais e perceber diretamente a mobilização de diferentes grupos sociais.
Segundo ele, a reação ao resultado do primeiro turno estimulou especialmente a participação de jovens de esquerda, embora os atos também estejam inseridos em um ambiente de mobilização política que envolve diferentes segmentos ideológicos. Parte dos participantes já havia votado em Lula ou Flávio Bolsonaro, o que significa que a presença nas manifestações não corresponde necessariamente à mudança de preferência eleitoral.
Signates avalia que os protestos podem sinalizar alterações no ambiente político e contribuir para a formação de novas opiniões. Entretanto, a intensidade de uma manifestação não equivale automaticamente à proporção de eleitores que apoiam determinada candidatura. Para estimar uma possível mudança na disputa, é necessário observar também pesquisas eleitorais, comparecimento às urnas e comportamento dos segmentos que ainda não consolidaram o voto.
Redes sociais influenciam a comunicação das campanhas
A eleição de 2026 também evidenciou a importância das plataformas digitais para a comunicação política. A linguagem das redes, baseada em vídeos curtos, frases de impacto e conteúdos de rápida circulação, passou a ocupar espaço relevante nas estratégias de candidatos e partidos.
Signates observa que o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro realizado na TV Band foi estruturado, em parte, para gerar trechos que pudessem circular na internet. Segundo o pesquisador, a produção de cortes audiovisuais favorece a disseminação de declarações específicas, que podem alcançar públicos muito maiores do que os que acompanham integralmente os debates televisivos.
O pesquisador também menciona a projeção de políticos com presença expressiva nas redes, como Erika Hilton (PSOL) e Lucas Pavanato (PL), em contraste com candidaturas de nomes com trajetórias políticas mais longas, como Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PSDB), que não obtiveram os resultados eleitorais esperados no pleito mencionado. O exemplo é utilizado para ilustrar a transformação das formas de comunicação e disputa por atenção no ambiente político.
Ruas e redes funcionam em uma dinâmica de mão dupla
Embora as plataformas digitais tenham ampliado a capacidade de mobilização política, as manifestações presenciais continuam desempenhando um papel relevante. Os atos alteram a rotina das cidades, reúnem pessoas em espaços públicos e produzem imagens e vídeos que voltam a circular na internet.
Essa relação cria uma dinâmica de mão dupla. As redes podem ajudar a organizar protestos e divulgar convocatórias, enquanto as manifestações geram novos conteúdos que alimentam debates digitais. No entanto, quando as imagens retornam às plataformas, sua distribuição continua sujeita aos sistemas de recomendação e aos padrões de consumo de cada usuário.
Signates ressalta que o ambiente virtual integra a realidade social e não deve ser tratado como uma esfera separada da vida cotidiana. O problema, segundo ele, está em reduzir a interpretação da sociedade ao conteúdo disponível nas redes, sem considerar a diversidade de experiências, opiniões e relações que se desenvolvem fora delas.
O componente emocional também influencia as decisões eleitorais. O receio de mudanças em benefícios sociais, políticas públicas e direitos pode interferir nas escolhas, assim como a rejeição ao governo em exercício ou a determinados candidatos. Esses sentimentos podem orientar tanto a participação em manifestações quanto a interpretação de informações divulgadas durante a campanha.
Algoritmos podem reforçar opiniões já consolidadas
As chamadas bolhas digitais são ambientes nos quais usuários recebem conteúdos semelhantes às suas preferências, convicções e interações anteriores. Sistemas de recomendação utilizam dados de comportamento para selecionar publicações, vídeos e perfis que possam despertar interesse, o que pode reduzir a exposição a opiniões divergentes.
Na avaliação de Signates, algoritmos, robôs e ferramentas de inteligência artificial podem contribuir para esse processo ao direcionar conteúdos conforme os interesses que as plataformas atribuem aos usuários. Quando uma pessoa recebe repetidamente mensagens favoráveis a determinado candidato, pode interpretar essa exposição como sinal de que sua preferência é majoritária na sociedade.
Essa percepção pode gerar dificuldades para compreender resultados eleitorais diferentes dos esperados. O usuário que acredita que sua rede de contatos representa fielmente o conjunto da população pode ter dificuldade para explicar a vitória de um candidato que aparecia pouco em seu ambiente digital. Em situações extremas, essa discrepância pode alimentar suspeitas infundadas de fraude eleitoral.
O pesquisador, contudo, adverte que as bolhas digitais não determinam sozinhas o comportamento do eleitorado. A sociedade brasileira reúne interesses, experiências e preferências políticas distintas, que não podem ser reduzidos às informações consumidas em uma plataforma. A polarização também demonstra que a influência dos sistemas de recomendação encontra limites diante de fatores econômicos, sociais, culturais e territoriais.
Polarização limita o diálogo entre eleitores
Signates afirma que as redes sociais frequentemente funcionam como espaços de manifestação de opiniões já formadas, em vez de ambientes de debate capaz de modificar convicções. Para ele, usuários com posições políticas consolidadas tendem a interpretar informações novas de acordo com suas crenças anteriores.
Esse comportamento pode levar à rejeição de conteúdos desfavoráveis ao candidato apoiado. Acusações de corrupção, controvérsias políticas e críticas à atuação de um governo, por exemplo, podem ser relativizadas por eleitores que consideram a identidade ideológica, os valores ou as convicções religiosas mais importantes na decisão de voto.
A identificação partidária, nesse contexto, atua como um filtro para a interpretação dos acontecimentos. Informações semelhantes podem produzir reações diferentes entre apoiadores de candidaturas adversárias, mesmo quando ambos os grupos têm acesso ao mesmo conteúdo.
O pesquisador considera que, em um ambiente de forte polarização, eleitores convictos dificilmente mudam de posição apenas porque foram expostos a argumentos contrários. Isso ajuda a explicar por que o aumento da circulação de conteúdos políticos não se traduz necessariamente em alterações imediatas nas intenções de voto.
Eleitores indecisos podem reagir de maneira diferente
Embora os eleitores com posições consolidadas tendam a preservar suas escolhas, existe uma parcela do eleitorado que mantém ressalvas em relação aos candidatos ou não se identifica plenamente com nenhum deles. Esse grupo pode apresentar maior abertura para reconsiderar o voto diante de novas informações, críticas de lideranças ou conversas com familiares, amigos e colegas de trabalho.
Entre as possibilidades estão a mudança de preferência, a escolha do candidato considerado menos desfavorável ou a decisão de votar em branco ou anular o voto, conforme as circunstâncias e as regras eleitorais aplicáveis. A influência das redes e das manifestações pode variar de acordo com o grau de identificação política e a importância atribuída a cada tema.
Signates observa que a decisão eleitoral não decorre exclusivamente de uma avaliação racional de propostas. Sentimentos de identificação, receio, rejeição e pertencimento também interferem na maneira como os eleitores processam informações e avaliam as candidaturas.
Essa combinação entre convicções consolidadas e eleitores ainda dispostos a reconsiderar suas escolhas ajuda a explicar por que manifestações expressivas, conteúdos virais e mudanças no ambiente digital não garantem, por si só, uma virada eleitoral.
Como interpretar manifestações e tendências eleitorais
A análise de Signates indica que manifestações de rua, redes sociais e pesquisas eleitorais representam fontes diferentes para compreender a disputa política. Os protestos permitem observar a capacidade de mobilização de grupos sociais, enquanto as plataformas digitais revelam padrões de circulação de informações e interação entre usuários. Nenhum desses elementos, isoladamente, permite determinar o resultado de uma eleição.
Para avaliar mudanças na intenção de voto, é necessário considerar a metodologia das pesquisas, a composição do eleitorado, o comportamento dos indecisos e os fatores que influenciam a decisão individual. A presença de milhares de pessoas em uma manifestação pode demonstrar mobilização, mas não constitui uma amostra representativa de todos os eleitores.
Da mesma forma, a frequência com que uma candidatura aparece no ambiente digital de determinado usuário não significa que ela tenha maior apoio na população. Os sistemas de recomendação selecionam conteúdos com base em critérios próprios, e a experiência de cada pessoa pode diferir significativamente da vivenciada por outros segmentos da sociedade.
A principal conclusão do pesquisador é que as redes sociais influenciam o debate político, mas não representam integralmente a realidade social nem determinam, de forma hegemônica, as escolhas eleitorais. Compreender a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro exige observar a interação entre mobilização presencial, circulação de informações, convicções políticas e fatores emocionais que orientam o comportamento dos eleitores.
*Com informações da Sputnik News.








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