Nesta terça-feira (20/10/2026), quando São Paulo se prepara para a despedida pública de Benito di Paula, morto aos 84 anos no domingo (18), a música brasileira registra uma coincidência histórica ocorrida apenas cinco dias depois da morte do cantor baiano Netinho, aos 60 anos, em Salvador. Embora tenham desenvolvido trajetórias em épocas e universos musicais distintos, os dois intérpretes estão ligados por “Menina”, composição de Paulinho Nogueira, lançada originalmente em 1970, gravada por Benito em 1971 e transformada em sucesso nacional na voz de Netinho a partir de 1993, com posterior inclusão na trilha sonora da novela Tropicaliente.
A autoria de “Menina” pertence a Paulo Arthur Mendes Pupo Nogueira, o Paulinho Nogueira, conforme indicam os registros discográficos da obra. O compositor apresentou a canção como faixa de abertura do LP Paulinho Nogueira Canta Suas Composições, lançado pela RGE em 1970. No ano seguinte, Benito di Paula registrou sua interpretação, contribuindo para ampliar a circulação da música no repertório popular brasileiro. Mais de duas décadas depois, Netinho deu nova projeção à composição ao incorporá-la ao repertório que marcou o início de sua carreira solo.
Esse vínculo musical ganhou uma dimensão simbólica adicional após as mortes de Netinho e Benito em outubro de 2026. Na segunda-feira (19), durante a missa de sétimo dia de Netinho, realizada na Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador, um fã interpretou justamente “Menina”, retomando uma das gravações associadas à consolidação da primeira fase da carreira solo do artista baiano e reforçando, naquele momento de despedida, a ligação histórica entre os dois cantores e a obra de Paulinho Nogueira.
Netinho morreu aos 60 anos após tratamento contra linfoma
Ernesto de Souza Andrade Júnior, Netinho, morreu na manhã de terça-feira (13/10/2026), aos 60 anos, no Hospital Aliança Star, em Salvador. Segundo a assessoria do artista, ele enfrentava um linfoma não Hodgkin do tipo B, e o quadro evoluiu para falência renal e disfunção múltipla de órgãos.
O diagnóstico havia sido divulgado em 2025. Após tratamento e um período no qual exames não identificaram sinais detectáveis da doença, Netinho anunciou em maio de 2026 a recidiva do câncer. Nos meses seguintes, retomou a quimioterapia e permaneceu sob acompanhamento médico. Em 30/09/2026, sua equipe informou nova hospitalização e o afastamento temporário das redes sociais para que o cantor se concentrasse no tratamento.
A despedida inicial ocorreu de forma reservada, conforme desejo atribuído ao próprio artista. Velório e cremação foram restritos a familiares e pessoas próximas. Já a missa de sétimo dia, realizada em 19/10/2026, no Bonfim, foi aberta ao público e reuniu familiares, amigos e admiradores.
Natural de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, Netinho integrou a geração que ampliou nacionalmente o alcance da música produzida na Bahia a partir do final dos anos 1980. Ganhou projeção como vocalista da Banda Beijo e, posteriormente, construiu carreira solo marcada pela presença nos trios elétricos, rádios, programas de televisão e trilhas de novelas.
Entre os sucessos associados ao cantor estão “Beijo na Boca”, “Menina”, “Capricho dos Deuses” e “Milla”, esta última transformada em uma das canções mais identificadas com sua trajetória e com a expansão nacional do axé durante a década de 1990.
Benito di Paula morreu cinco dias depois de Netinho
Cinco dias após a morte de Netinho, a música brasileira perdeu Benito di Paula, nome artístico de Uday Vellozo. O cantor, compositor e pianista morreu no domingo, 18/10/2026, aos 84 anos, em São Paulo. Ele estava no Hospital 9 de Julho e enfrentava um câncer de próstata havia aproximadamente um ano, segundo informações divulgadas por sua equipe.
O velório foi programado para esta terça-feira, 20/10/2026, das 9h às 15h, no Theatro Municipal de São Paulo, com acesso aberto ao público. O sepultamento está previsto para as 17h, no Cemitério Morumby, em cerimônia restrita à família.
Nascido em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, em 28/11/1941, Benito construiu trajetória profissional superior a cinco décadas. Depois da experiência como crooner em casas noturnas, ganhou projeção sobretudo durante os anos 1970 ao desenvolver uma interpretação marcada pela presença do piano, por harmonias românticas e por elementos do samba. Sua produção passou a ser frequentemente associada ao chamado “samba-joia”, rótulo usado para caracterizar uma vertente popular e romântica do gênero.
Seu repertório inclui músicas como “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown”, “Se Não For Amor”, “Mulher Brasileira” e “Do Jeito Que a Vida Quer”. Em 2025, sua trajetória foi tema do desfile da escola de samba Águia de Ouro, no Carnaval de São Paulo.
“Menina” nasceu com Paulinho Nogueira antes das versões de Benito e Netinho
Embora a interpretação de Benito di Paula tenha contribuído para a circulação da música no início dos anos 1970 e a de Netinho tenha apresentado a obra a outra geração duas décadas depois, a autoria de “Menina” pertence a Paulinho Nogueira.
O Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) registra a faixa como composição de Paulinho no álbum Paulinho Nogueira Canta Suas Composições, da gravadora RGE, lançado em 1970. “Menina” aparece como a primeira faixa do disco.
O que ocorreu naquele em 1971 foi a gravação da música por Benito di Paula em seu primeiro LP, também intitulado Benito Di Paula. A faixa aparece na 11ª posição e os créditos disponíveis apontam novamente Paulinho Nogueira como autor.
O disco de estreia de Benito ajuda a compreender esse contexto. Naquele momento, ele ainda atuava fortemente como intérprete de obras de outros compositores. O álbum reunia gravações de músicas ligadas a nomes como Chico Buarque, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Taiguara, Vinicius de Moraes, Toquinho, Ivan Lins, Tim Maia e Paulinho Nogueira.
Entre elas estava “Apesar de Você”, de Chico Buarque. A presença da composição no repertório de 1971 insere o primeiro disco de Benito no ambiente cultural dos anos mais duros da ditadura militar, quando a produção musical brasileira convivia com censura e restrições à circulação de determinadas obras. O próprio Benito relataria posteriormente dificuldades relacionadas à censura durante sua carreira.
Netinho recuperou “Menina” mais de duas décadas depois
A segunda grande etapa da trajetória pública da canção ocorreu em 1993, quando Netinho deixou a Banda Beijo e lançou seu primeiro trabalho solo, “Um beijo pra você”, produzido por Guto Graça Mello e lançado pela Philips.
“Menina” aparece como a terceira faixa do álbum, novamente com Paulinho Nogueira identificado nos créditos de composição. O repertório também continha músicas que se tornariam importantes na primeira fase solo do cantor, como “Capricho dos Deuses” e “Total”.
A projeção nacional da interpretação aumentou em 1994, quando “Menina” passou a integrar a trilha sonora da novela “Tropicaliente”, da TV Globo. A música era associada à personagem Amanda, interpretada por Palomma Duarte.
A entrada na teledramaturgia ampliou a exposição de uma composição que já tinha mais de duas décadas. A gravação de Netinho colocou a obra em contato com o ambiente musical dos anos 1990, período em que artistas baianos conquistavam presença crescente em rádio, televisão, Carnaval e mercado fonográfico nacional.
A própria biografia oficial de Netinho identifica 1993 como o ano do primeiro disco solo e registra “Menina” entre os sucessos nacionais daquela fase, além de destacar sua posterior utilização em Tropicaliente.
O que diz “Menina” e qual é o significado da canção
A narrativa de “Menina” é construída em torno da passagem do tempo e da transformação de uma pessoa conhecida pelo narrador desde a infância. Logo no início, a composição estabelece essa memória por meio da expressão “Menina, que um dia conheci criança”.
A partir daí, o narrador descreve o reencontro com aquela pessoa já adulta e demonstra surpresa diante do surgimento de um sentimento amoroso. A letra contrapõe lembranças da infância, convivência anterior e transformação física e emocional provocada pelo amadurecimento.
O elemento estrutural da composição é, portanto, o tempo. A personagem é vista simultaneamente como lembrança do passado e como mulher no presente. O conflito narrativo nasce exatamente da sobreposição dessas duas imagens: a criança conhecida anteriormente e a pessoa adulta reencontrada depois.
Essa leitura permite compreender “Menina” como uma canção sobre memória, transformação, reencontro e deslocamento afetivo provocado pela passagem dos anos. O texto também registra padrões narrativos e sentimentais comuns à canção popular romântica produzida naquele período.
Três intérpretes e mais de meio século de circulação musical
Paulinho Nogueira, morto em 02/08/2003, aos 75 anos, foi violonista, compositor, cantor e professor e teve papel relevante na história do violão brasileiro. Além da atividade como intérprete, desenvolveu métodos de ensino e criou a craviola, instrumento derivado do violão.
Com “Menina”, uma obra originalmente associada à voz e ao violão de seu autor percorreu caminhos diferentes. Benito di Paula a levou para um álbum interpretativo situado no início de sua carreira fonográfica; Netinho, 22 anos depois, adaptou-a ao universo de uma geração marcada pela expansão do axé e pela forte integração entre música popular, televisão e indústria fonográfica.
Essa circulação ajuda a explicar por que uma composição de 1970 permaneceu reconhecível décadas depois. A obra não dependeu de uma única gravação: foi reintroduzida em diferentes ambientes musicais e alcançou públicos que não necessariamente tiveram contato com a versão original de Paulinho.
A coincidência das mortes de Netinho e Benito com apenas cinco dias de intervalo, em outubro de 2026, tornou visível uma conexão que poderia passar despercebida diante das diferenças entre suas carreiras: ambos participaram da transmissão da mesma obra entre diferentes gerações da música popular brasileira.
Feira de Santana também prestou homenagem a Netinho
A trajetória de Netinho manteve relação com a história recente da Micareta de Feira de Santana, onde o cantor participou de diferentes edições e integrou a memória do circuito de trios elétricos da cidade.
Após sua morte, a Câmara Municipal de Feira de Santana realizou minuto de silêncio em homenagem ao artista. A manifestação foi registrada na sessão de quarta-feira, 14/10/2026, após solicitação do presidente da Casa, Marcos Lima.
Em 2018, Netinho havia escolhido a Micareta de Feira para marcar seu retorno aos trios elétricos após um período de afastamento relacionado a problemas anteriores de saúde. Na ocasião, afirmou ter chegado a pensar que não voltaria a cantar em um trio.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 1970 — Paulinho Nogueira lança “Menina”: a composição abre o LP Paulinho Nogueira Canta Suas Composições, lançado pela RGE. O registro confirma Paulinho como autor da obra.
- 1971 — Benito di Paula grava “Menina”: o cantor inclui a composição de Paulinho Nogueira em seu primeiro álbum, ao lado de obras de outros autores da música brasileira.
- 1993 — Netinho inicia carreira solo: o cantor lança Um beijo pra você, com “Menina” como terceira faixa e Paulinho Nogueira creditado como compositor.
- 1994 — “Menina” entra em Tropicaliente: a interpretação de Netinho integra a trilha da novela e é utilizada como tema da personagem Amanda, vivida por Palomma Duarte.
- 02/08/2003 — morte de Paulinho Nogueira: o compositor e violonista morre em São Paulo, aos 75 anos.
- 2025 — Netinho recebe diagnóstico de linfoma: o cantor inicia tratamento contra linfoma não Hodgkin do tipo B.
- Carnaval de 2025 — homenagem a Benito: a Águia de Ouro leva para a avenida um enredo dedicado à trajetória do cantor e compositor.
- 09/05/2026 — Netinho anuncia recidiva: exames identificam o retorno da doença e o artista retoma tratamento oncológico.
- 30/09/2026 — nova internação: a equipe de Netinho informa que o cantor está hospitalizado e se afastará das redes sociais.
- 13/10/2026 — morte de Netinho: o cantor morre aos 60 anos, em Salvador, após evolução do linfoma para falência renal e disfunção múltipla de órgãos.
- 14/10/2026 — homenagem em Feira de Santana: a Câmara Municipal realiza minuto de silêncio em memória de Netinho.
- 18/10/2026 — morte de Benito di Paula: o cantor e pianista morre aos 84 anos, em São Paulo, após tratamento contra câncer de próstata.
- 19/10/2026 — missa de Netinho: familiares, amigos e fãs participam da missa de sétimo dia no Bonfim; durante a homenagem, um fã interpreta “Menina”.
- 20/10/2026 — despedida de Benito: o velório está programado para ocorrer das 9h às 15h no Theatro Municipal de São Paulo, seguido de sepultamento reservado à família às 17h no Cemitério Morumby.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.








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