Na quinta-feira (01/10/2026), a controvérsia eleitoral envolvendo Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida ganhou um elemento documental distinto da informação falsa segundo a qual o candidato à Presidência teria proposto retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. Reportagens publicadas nos últimos dias recuperaram trechos do livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva, lançado em 2001 pelo bispo JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações, nos quais o religioso questiona a legalidade do reconhecimento nacional de Aparecida, critica a devoção católica a Maria e defende mobilização para alterar essa condição. Flávio e sua mulher, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na igreja fundada por Carvalho em 2024, mas não há evidência documental de que o presidenciável tenha adotado a proposta do bispo de retirar o título da padroeira.
A distinção é fundamental. O Projeto de Lei nº 2.623/2007, que efetivamente tentou substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, foi apresentado pelo então deputado federal Professor Victório Galli (PMDB-MT) em 12/12/2007. Os registros oficiais da Câmara mostram que a proposta não foi apresentada, subscrita ou articulada por Flávio Bolsonaro e acabou arquivada.
O que está documentado agora é outro fato: uma liderança religiosa com a qual o candidato mantém relação próxima já havia defendido, anos antes, justamente a retirada da referência nacional a Nossa Senhora Aparecida e desenvolvido, em seus escritos, uma interpretação teológica de confronto com elementos centrais da tradição católica. A existência dessa posição não permite transferi-la automaticamente a Flávio Bolsonaro, mas acrescenta contexto relevante à atual disputa sobre religião, política e liberdade de crença.
Livro de JB Carvalho questiona Padroeira do Brasil
No livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001, JB Carvalho sustenta que a legislação referente a Nossa Senhora Aparecida seria incompatível com a separação entre religião e Estado. Em trecho reproduzido por diferentes veículos, o bispo escreveu que “a lei que estabelece Aparecida como padroeira no Brasil é ilegal”. A afirmação representa a interpretação jurídica do autor; não corresponde a uma declaração de inconstitucionalidade emitida pelo Supremo Tribunal Federal ou por outro órgão judicial competente.
A legislação questionada pelo religioso permanece em vigor. A Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, sancionada pelo então presidente João Figueiredo, estabelece que 12 de outubro é feriado nacional e define expressamente Nossa Senhora Aparecida como “Padroeira do Brasil”.
Segundo a reprodução de trechos da obra, Carvalho não se limitou a uma discussão jurídica sobre laicidade. O autor defendeu que cristãos e parlamentares se mobilizassem para alterar a situação e contrapôs o reconhecimento de Aparecida à afirmação de Jesus Cristo como único Senhor do Brasil.
Essa formulação ganhou atualidade porque Flávio Bolsonaro afirmou, em vídeo publicado em 24/08/2026, que, se eleito, um de seus primeiros atos seria declarar simbolicamente que o Brasil pertence a Jesus Cristo. Posteriormente, sua campanha esclareceu que não se trataria de decreto com efeitos jurídicos, mas de uma oração ou manifestação religiosa durante a posse, e reiterou que o candidato respeita diferentes religiões.
Obra associa devoção mariana a cultos pagãos
As passagens recuperadas de A Bomba revelam que o argumento de JB Carvalho vai além do debate institucional sobre Estado laico. Em capítulo dedicado à chamada “Rainha dos Céus”, o bispo utiliza os capítulos 7 e 44 do livro bíblico de Jeremias para condenar o culto a uma divindade feminina mencionada no Antigo Testamento e afirma: “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”.
Na interpretação apresentada pelo religioso, as ofertas feitas à divindade pelos antigos habitantes de Judá representariam uma transferência da glória que deveria pertencer exclusivamente ao Deus bíblico. Carvalho relaciona essa narrativa à destruição de Judá e ao exílio na Babilônia e aproxima o episódio das práticas de devoção mariana existentes no cristianismo.
Outra seção da obra, identificada como “A Lenda”, apresenta uma narrativa envolvendo Ninrode, Semíramis e Tamuz e estabelece paralelos entre antigas representações religiosas de uma mãe com uma criança e a iconografia cristã de Maria com o menino Jesus. A interpretação é apresentada pelo autor como fundamento para associar determinadas práticas católicas a tradições pagãs anteriores. Não se trata, contudo, de consenso historiográfico sobre a origem da devoção mariana.
Livro contém formulações de confronto com símbolos católicos
Reportagens que tiveram acesso ou reproduziram partes da obra registram formulações ainda mais contundentes. Carvalho associa a figura que denomina “Rainha dos Céus” a diferentes tradições religiosas antigas e sustenta que, no Brasil, ela teria assumido a forma de Nossa Senhora Aparecida. Outros trechos vinculam elementos da tradição católica àquilo que o autor interpreta como continuidade ou assimilação de cultos pagãos.
Há também referências críticas aos santos católicos, apresentados dentro de uma narrativa segundo a qual antigos deuses teriam sido incorporados e reinterpretados no desenvolvimento histórico do cristianismo. Esse argumento aparece igualmente em outras obras atribuídas ao bispo, segundo reportagens recentes.
A classificação dessas posições como “sectárias” exige precisão. Em sentido sociológico e político, o termo costuma ser empregado para descrever discursos que estabelecem fronteiras rígidas entre uma comunidade considerada detentora da verdade religiosa e outras tradições apresentadas como erro, corrupção, idolatria ou ameaça. Os textos atribuídos a Carvalho contêm elementos usados por críticos para formular essa acusação — especialmente quando deixam o campo da discordância doutrinária e associam práticas de outra religião a forças malignas, paganismo ou decadência social. A existência desses elementos, porém, deve ser apresentada como conteúdo documentado e objeto de interpretação, e não como atribuição automática de intenção discriminatória ao autor.
Estratégia dos “Sete Montes” propõe influência sobre política, mídia e educação
Outro elemento relevante para compreender o pensamento público de JB Carvalho aparece em material publicado pela própria Comunidade das Nações em 25/08/2022. O texto apresenta uma estratégia denominada “Sete Montanhas” ou “Sete Montes”, destinada ao exercício de influência cristã sobre política, economia, arte e entretenimento, mídia, família, religião e educação.
No material institucional, Carvalho afirma: “Temos uma estratégia de conquista” e explica que as sete áreas deveriam constituir esferas de influência. O texto emprega linguagem segundo a qual haveria “inimigos a serem vencidos” e afirma que seguidores seriam comissionados a ocupar seus respectivos espaços de influência.
Essa formulação é frequentemente relacionada por estudiosos e críticos religiosos à chamada Teologia do Domínio, expressão utilizada para correntes cristãs que defendem a ampliação sistemática da influência religiosa sobre instituições sociais e políticas. A associação, entretanto, deve ser feita com cautela: diferentes grupos empregam a metáfora dos Sete Montes com graus variados de ambição política, e a presença da linguagem de influência não demonstra, isoladamente, intenção de substituir formalmente o Estado laico por um governo confessional.
No caso da Comunidade das Nações, existe documentação primária suficiente para afirmar que seu fundador defende influência cristã organizada sobre áreas que incluem explicitamente política, mídia e educação. O alcance político concreto desse projeto e sua eventual tradução em propostas governamentais exigem análise específica de ações, programas, alianças e declarações de cada ator envolvido.
Relação de Flávio Bolsonaro com a Comunidade das Nações
A relevância eleitoral das posições de Carvalho decorre da aproximação de integrantes da família Bolsonaro com sua igreja. Flávio Bolsonaro e Fernanda Bolsonaro foram batizados na Comunidade das Nações em 2024. Reportagens também registram vínculos da instituição com Michelle Bolsonaro, além da circulação de livros do bispo entre integrantes da família.
Em 7/12/2025, dois dias depois do anúncio de sua pré-candidatura à Presidência, Flávio fez na Comunidade das Nações sua primeira aparição pública depois da decisão de disputar o Planalto, segundo levantamento publicado pela imprensa.
A proximidade, entretanto, não autoriza concluir que o candidato subscreva integralmente a teologia, as interpretações históricas ou a posição de Carvalho sobre Nossa Senhora Aparecida. Até o momento, as fontes consultadas não apresentam declaração de Flávio defendendo a retirada do título de Padroeira do Brasil. Pelo contrário, ele negou publicamente essa intenção e afirmou respeitar a diversidade religiosa.
Essa diferenciação ganhou respaldo adicional no debate eleitoral recente. A apuração do Projeto Comprova concluiu que era falso atribuir a Flávio Bolsonaro a proposta de retirar o título da santa. O episódio histórico existente é o projeto apresentado por Victório Galli em 2007, sem participação documental de Flávio.
Victório Galli apresentou projeto semelhante seis anos depois do livro
Há, contudo, uma coincidência histórica relevante entre a tese defendida por Carvalho em 2001 e uma iniciativa legislativa posterior.
Em 12/12/2007, o então deputado Professor Victório Galli apresentou o PL 2.623/2007, destinado a alterar a Lei nº 6.802/1980. A ementa registrada pela Câmara explica que o objetivo era substituir o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como “Padroeira do Brasil” pela denominação “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”
Não há, nas fontes examinadas, prova de que Carvalho tenha participado da elaboração do projeto de Galli ou de que exista relação causal entre o livro e a proposição legislativa. A semelhança reside no conteúdo: ambos questionaram o alcance nacional da designação de Nossa Senhora Aparecida em um país constitucionalmente laico.
A Câmara registra que a proposta foi rejeitada e posteriormente arquivada. A norma de 1980 continuou intacta, mantendo Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil e 12 de outubro como feriado nacional.
TSE diferencia notícia falsa de crítica política
A controvérsia chegou ao Tribunal Superior Eleitoral porque publicações nas redes sociais passaram a atribuir a Flávio Bolsonaro a autoria, apoio ou intenção de promover a retirada do título da padroeira.
Na noite de quarta-feira (30/09/2026), o TSE concluiu julgamento mantendo a remoção de conteúdos que apresentam como fato uma participação de Flávio Bolsonaro nessa iniciativa. Ao mesmo tempo, a Corte restringiu o alcance da medida e permitiu a permanência de publicação do humorista Antonio Tabet que fazia crítica política sem atribuir nominalmente ao candidato a apresentação ou apoio ao projeto.
A solução adotada pela Justiça Eleitoral reforça uma distinção que também é indispensável jornalisticamente: é falso afirmar, com as informações disponíveis, que Flávio Bolsonaro apresentou, apoiou ou anunciou um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil; é verdadeiro, por outro lado, que o fundador da igreja que o candidato frequenta publicou uma obra defendendo medida dessa natureza e formulando críticas severas à devoção católica.
O TSE validou oficialmente a candidatura de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar (PL) à Presidência e Vice-Presidência nas eleições de 2026. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Controvérsia alcança CNBB e relações entre católicos e evangélicos
A circulação da informação falsa também provocou conflito entre Flávio Bolsonaro e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O candidato acusou pessoas ligadas à entidade de colaborar com o PT na disseminação da narrativa, enquanto a CNBB negou participação em estrutura político-partidária e rejeitou a acusação.
O episódio adicionou tensão a uma relação que já registrava conflitos entre integrantes da família Bolsonaro e setores da Igreja Católica. Levantamento publicado pelo Jornal Grande Bahia nesta quinta-feira documenta declarações anteriores de Jair, Eduardo e Flávio Bolsonaro envolvendo a CNBB, ao mesmo tempo em que registra aproximações da família com segmentos católicos conservadores.
A controvérsia, portanto, não pode ser reduzida a uma oposição simples entre católicos e evangélicos. O campo evangélico reúne diferentes denominações, teologias e posições políticas; da mesma forma, o catolicismo brasileiro abriga correntes distintas. Transformar posições de um líder religioso específico em representação automática de milhões de fiéis produziria uma generalização sem base factual.
O ponto documentalmente verificável é mais delimitado: JB Carvalho, liderança religiosa próxima de Flávio Bolsonaro, publicou posições frontalmente críticas à devoção mariana, questionou juridicamente o reconhecimento nacional de Nossa Senhora Aparecida e posteriormente defendeu uma estratégia de influência cristã sobre áreas centrais da sociedade, incluindo política, comunicação e educação.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2001 — JB Carvalho publica A Bomba: A verdade pode ser explosiva. Trechos recuperados em 2026 mostram críticas à devoção mariana, associação de práticas católicas a cultos pagãos e defesa da retirada da referência nacional a Nossa Senhora Aparecida.
- 12/12/2007 — O deputado Victório Galli apresenta o PL 2.623/2007, propondo substituir “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
- 2008 — A proposta de Galli é rejeitada e arquivada, sem alteração da Lei nº 6.802/1980.
- 25/08/2022 — A Comunidade das Nações publica texto no qual JB Carvalho descreve a estratégia dos Sete Montes, com atuação em política, economia, mídia, educação, religião, família, arte e entretenimento.
- 2024 — Flávio Bolsonaro e Fernanda Bolsonaro são batizados na Comunidade das Nações, em Brasília.
- 07/12/2025 — Flávio comparece à Comunidade das Nações em sua primeira aparição pública após anunciar a pré-candidatura presidencial, segundo reportagens sobre a relação com a igreja.
- 24/08/2026 — Flávio afirma que, se eleito, faria uma declaração de que o Brasil pertence a Jesus Cristo; posteriormente, sua campanha explica que se trataria de um ato simbólico e religioso, sem efeito jurídico.
- Setembro de 2026 — Circula nas redes a informação falsa de que Flávio pretende retirar o título de Nossa Senhora Aparecida; o candidato nega. Apurações independentes identificam o PL 2.623/2007, de Victório Galli, como origem legislativa histórica da discussão.
- 26 e 27/09/2026 — Reportagens recuperam trechos de A Bomba nos quais JB Carvalho critica a devoção mariana e defende a alteração do reconhecimento nacional de Aparecida.
- 30/09/2026 — O TSE conclui julgamento que mantém medidas contra conteúdos que atribuem falsamente a Flávio participação concreta na retirada do título, mas preserva manifestações críticas que não contenham essa imputação factual.
- 01/10/2026 — A ligação entre Flávio, Michelle Bolsonaro e a Comunidade das Nações permanece no debate público após a divulgação das posições históricas do fundador da igreja.
Análise crítica jornalística e conclusão editorial
A documentação disponível estabelece duas verdades que precisam permanecer separadas. A primeira é que não há prova de que Flávio Bolsonaro tenha proposto ou assumido compromisso de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A segunda é que JB Carvalho, líder da igreja na qual Flávio e sua mulher foram batizados, efetivamente publicou argumentos favoráveis a essa mudança e críticas teológicas profundas à devoção católica. Confundir as duas situações produziria desinformação; ignorar a segunda eliminaria um contexto político e religioso documentalmente relevante.
As passagens atribuídas a A Bomba também justificam investigação jornalística para além da discussão eleitoral imediata. Elas mostram uma concepção religiosa que não apenas diverge da teologia católica, mas estabelece relações entre símbolos marianos, paganismo e práticas consideradas espiritualmente condenáveis pelo autor. Em paralelo, textos posteriores da própria Comunidade das Nações defendem influência organizada sobre instituições como política, mídia e educação. Esses fatos não demonstram, por si mesmos, um programa político de Flávio Bolsonaro, mas tornam legítimo perguntar quais elementos dessas concepções o candidato compartilha e quais rejeita.
É também necessário evitar que a controvérsia produza uma generalização contra os evangélicos. Críticas protestantes à veneração de santos são historicamente anteriores ao atual conflito político, remontando a divergências doutrinárias associadas à Reforma. O interesse público surge quando concepções religiosas passam a se relacionar com leis, símbolos oficiais, políticas públicas, campanhas eleitorais ou projetos de ocupação institucional, circunstâncias em que liberdade religiosa e laicidade do Estado passam a integrar a mesma discussão constitucional.
A lei brasileira continua reconhecendo Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil; o único projeto identificado para modificar essa denominação foi apresentado por Victório Galli em 2007 e está arquivado; Flávio Bolsonaro nega intenção de retomá-lo; e JB Carvalho, liderança religiosa próxima do candidato, defendeu publicamente ideia semelhante e mantém discurso de forte confrontação teológica com práticas católicas. Caberá à campanha de Flávio esclarecer o grau de convergência entre suas próprias posições e as do religioso, ao TSE delimitar os efeitos jurídicos da desinformação eleitoral e às instituições religiosas e à imprensa distinguir divergência doutrinária legítima de iniciativas destinadas a produzir efeitos sobre direitos, legislação ou instituições do Estado.








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