Brasília, quarta-feira (14/10/2026) — Investigadores que atuam no inquérito sobre o financiamento de Dark Horse, filme centrado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, avaliam dividir a apuração para concluir primeiro o núcleo considerado mais avançado, relacionado a suspeitas de evasão de divisas atribuídas a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e aprofundar posteriormente a investigação sobre a eventual participação do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A hipótese de fatiamento surge porque o rastreamento das remessas já produziu elementos técnicos sobre operações atribuídas a Vorcaro, enquanto a vinculação criminal do presidenciável depende de informações bancárias ainda buscadas nos Estados Unidos e da comprovação do destino final dos recursos. Não há, até o momento, decisão judicial anunciada determinando o desmembramento.
Investigação pode separar núcleo financeiro de etapa relacionada a Flávio Bolsonaro
A possibilidade em análise não representa arquivamento da investigação sobre Flávio Bolsonaro. O senador permanece sob apuração por suspeitas que incluem corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, mas os investigadores ainda precisam estabelecer, com base documental, como o dinheiro enviado aos Estados Unidos circulou depois de chegar ao sistema financeiro norte-americano e quem foram seus beneficiários finais.
Na prática, o eventual fatiamento permitiria que a parte considerada mais madura do inquérito — relacionada às operações financeiras atribuídas a Vorcaro — avançasse sem depender da conclusão de diligências internacionais mais demoradas. A responsabilização de qualquer investigado, entretanto, exige individualização das condutas e comprovação dos elementos objetivos e subjetivos dos crimes examinados.
Segundo a apuração publicada pela Folha de S.Paulo, integrantes da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) consideram o rastreamento dos valores enviados aos Estados Unidos uma das etapas de maior complexidade. O pedido formal de cooperação às autoridades norte-americanas teria sido encaminhado pelo Brasil por intermédio do Ministério da Justiça na sexta-feira (09/10/2026).
PF já rastreou US$ 12,3 milhões enviados ao fundo Havengate
O financiamento de Dark Horse previa, segundo documentos encontrados durante as investigações, investimento total de US$ 24 milhões. Esse montante corresponde ao valor projetado para o financiamento e não deve ser confundido com os recursos efetivamente rastreados até agora.
Relatórios e documentos divulgados em setembro indicam que a PF identificou remessas de aproximadamente US$ 12,3 milhões ao Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos. Os recursos partiram da Entre Investimentos e Participações, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, que posteriormente firmou colaboração premiada com a PGR.
A estrutura contratual relacionada ao filme previa os US$ 24 milhões, enquanto os registros financeiros reunidos pela PF apontavam, naquele momento, cerca de metade desse valor efetivamente remetido. Esse contraste é decisivo para a investigação: uma coisa é o montante previsto em contrato; outra é quanto efetivamente saiu do Brasil, quanto chegou ao fundo e quanto foi posteriormente aplicado na produção ou destinado a outras finalidades.
O Havengate Development Fund havia sido estruturado inicialmente para um projeto imobiliário no Texas e permaneceu praticamente inativo durante anos, segundo informações reunidas nas investigações, até começar a receber recursos associados ao filme em 2025. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado relacionado profissionalmente a Eduardo Bolsonaro.
Delação de Antônio Carlos Freixo Júnior reforçou rastreamento das remessas
Um dos elementos considerados relevantes para reconstruir o circuito financeiro veio da colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior. O acordo foi homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em 09/09/2026.
Freixo relatou ter executado remessas para o fundo norte-americano a pedido de Vorcaro. Segundo as informações divulgadas, ele afirmou que não conhecia o destino final dos recursos e acreditava inicialmente que o dinheiro estava relacionado ao empreendimento imobiliário originalmente planejado para o Havengate.
A colaboração tem importância probatória porque permite confrontar depoimentos com extratos, mensagens, contratos e registros bancários. Ela não substitui, porém, a necessidade de confirmação independente das informações fornecidas pelo colaborador.
Outra proposta de colaboração relacionada ao caso Master foi apresentada pelo empresário João Carlos Mansur, ex-controlador da gestora Reag. Conforme informações publicadas, Mansur descreveu estruturas envolvendo fundos e pessoas que teriam operado ativos vinculados ao antigo controlador do Master.
Repasse de setembro elevou total rastreado a US$ 12,3 milhões
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) divulgado em setembro acrescentou uma remessa de aproximadamente US$ 1,6 milhão, equivalente a cerca de R$ 8,5 milhões pela cotação daquele período, realizada em 16/09/2025.
Com a operação, o volume relacionado a Vorcaro destinado ao Havengate teria passado de aproximadamente US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões.
O registro ganhou relevância porque ocorreu depois de contatos nos quais Flávio cobrava recursos para a continuidade da produção. Também colocou sob escrutínio declarações anteriores sobre o período em que os aportes teriam sido encerrados.
Mensagens posteriormente divulgadas indicaram ainda a possibilidade de outro pagamento em outubro de 2025, mas a existência, o montante e o destino dessa eventual parcela precisam ser distinguidos das transferências documentalmente identificadas.
Mensagens apontam contatos recorrentes entre Flávio e Vorcaro
Relatório da Polícia Federal divulgado em setembro identificou uma sequência de mensagens, telefonemas e articulações envolvendo Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Thiago Miranda e outros personagens desde o fim de 2024.
Em 08/12/2024, o publicitário Thiago Miranda procurou Flávio para organizar uma reunião com Vorcaro a respeito do filme. Dois dias depois, mensagem encaminhada ao banqueiro indicava que o então deputado Mário Frias (PL-SP) também participaria do encontro.
Em 20/01/2025, Miranda encaminhou a Vorcaro uma conversa em que Flávio cobrava posicionamento da equipe jurídica sobre o financiamento. Em março daquele ano, mensagens passaram a mencionar também Eduardo Bolsonaro, ao qual a PF atribuiu orientações relacionadas à administração dos recursos nos Estados Unidos.
Os registros se intensificaram no segundo semestre. Em 08/09/2025, Flávio enviou mensagem de áudio cobrando pagamentos e demonstrando preocupação com compromissos assumidos com profissionais da produção. Em 16/09/2025, senador e banqueiro conversaram por telefone no mesmo dia em que ocorreu uma das remessas identificadas para o Havengate.
A PF afirmou posteriormente que o senador aparece no material não apenas citado por terceiros, mas como interlocutor direto de Vorcaro, em contatos relacionados a cobranças, reuniões e andamento das filmagens.
Contatos continuaram até a véspera da primeira prisão de Vorcaro
Em 22/10/2025, conforme a cronologia reconstruída a partir do material investigativo, Flávio voltou a tratar da necessidade de novos recursos para o filme. Em 07/11/2025, enviou a Vorcaro um vídeo agradecendo a colaboração com o projeto.
Em 16/11/2025, um dia antes da primeira prisão do banqueiro, o senador tentou telefonar para Vorcaro e enviou mensagem reafirmando sua proximidade e pedindo orientação. Esses registros integram o conjunto de elementos analisados pela PF, mas, isoladamente, não comprovam corrupção, lavagem de dinheiro ou desvio de recursos.
O ponto juridicamente relevante será determinar se a interlocução se limitou à captação privada de financiamento para uma produção audiovisual, como sustenta Flávio, ou se alguma operação financeira relacionada ao projeto violou normas cambiais, ocultou beneficiários, desviou recursos de sua finalidade declarada ou envolveu contrapartidas ilícitas.
Flávio Bolsonaro tem negado irregularidades. Já afirmou que os recursos do filme eram privados, defendeu “transparência total” sobre o tema e disse que “não tem nada de errado em relação ao filme”. Ao longo da campanha eleitoral, também sustentou que a participação de Vorcaro ocorreu como investimento privado.
Evasão de divisas é uma das principais hipóteses jurídicas
A Lei nº 7.492/1986, que trata dos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, tipifica no artigo 22 a realização de operação de câmbio não autorizada com a finalidade de promover evasão de divisas. A norma também alcança quem promove, sem autorização legal, saída de moeda ou divisas para o exterior ou mantém depósitos no exterior não declarados à autoridade competente.
No caso Dark Horse, investigadores ouvidos pela Folha afirmam já haver elementos técnicos que sustentariam a hipótese de evasão relacionada a Vorcaro. Isso ainda constitui posição investigativa, não condenação judicial.
Quanto a Flávio Bolsonaro, a etapa crucial consiste em demonstrar se ele teve participação juridicamente relevante em eventuais operações irregulares, conhecimento sobre a forma de transferência dos recursos ou atuação sobre eventual destinação diversa daquela declarada.
Destino final do dinheiro é a principal lacuna
A investigação trabalha com a hipótese de que parte dos recursos remetidos aos Estados Unidos possa ter tido finalidade diferente da produção cinematográfica, inclusive para despesas relacionadas à permanência de Eduardo Bolsonaro naquele país. Essa hipótese, entretanto, ainda depende de comprovação bancária e documental.
É justamente nesse ponto que a cooperação internacional se torna determinante. O sistema bancário norte-americano é descentralizado e a obtenção de registros depende de procedimentos jurídicos próprios, identificação das instituições utilizadas e autorizações correspondentes.
Para transformar uma hipótese em elemento probatório, será necessário reconstruir a cadeia completa: origem dos recursos → remessa internacional → entrada no Havengate → transferências subsequentes → pagamentos da produção → eventuais beneficiários distintos do filme.
Sem essa reconstrução documental, não é possível afirmar que valores enviados ao fundo tenham sido desviados ou apropriados por pessoas determinadas.
Laudo da produtora aponta R$ 75 milhões em gastos, mas não encerra dúvidas
A produtora brasileira responsável por Dark Horse apresentou laudo privado segundo o qual aproximadamente R$ 75 milhões teriam sido empregados no projeto, com recursos provenientes do Havengate.
O documento informa gastos equivalentes a cerca de US$ 3,7 milhões no Brasil e US$ 9,6 milhões nos Estados Unidos. O próprio material, entretanto, não identificou de forma completa todos os financiadores nem anexou todos os documentos necessários para comprovação externa das despesas analisadas.
A diferença entre o orçamento projetado, o dinheiro rastreado pelos investigadores, os valores declarados pela produção e as despesas efetivamente comprováveis constitui uma das áreas que permanecem abertas à apuração.
Inquérito 5.070 tramita no STF
O Inquérito 5.070, protocolado no Supremo em 06/08/2026, reúne formalmente elementos da investigação e registra entre os investigados e interessados pessoas e estruturas como a Entre Investimentos e Participações, Antônio Carlos Freixo Júnior e o Havengate Development Fund. A página processual do STF ainda identifica o ministro André Mendonça como relator.
O quadro institucional, porém, tornou-se mais complexo em setembro. O presidente do Supremo, Edson Fachin, determinou a remessa de procedimentos relacionados ao caso Master ao seu gabinete e passou a avaliar os rumos processuais diante de conflitos envolvendo diferentes frentes da investigação. Até a atualização desta reportagem, não havia decisão pública definitiva de Fachin sobre o eventual fatiamento específico de Dark Horse.
Essa distinção é relevante: a hipótese de divisão da investigação está sendo discutida por investigadores, mas sua configuração processual dependerá das decisões do STF, da atuação da PGR e dos elementos apresentados pela PF.
Outra investigação apura possível uso de emendas parlamentares
Há uma segunda frente relacionada ao filme que não deve ser confundida com o núcleo financeiro envolvendo Vorcaro e Flávio.
Em 10/09/2026, o ministro Flávio Dino autorizou a Operação Make Up, destinada a investigar suspeitas de que recursos originários de emendas parlamentares tenham sido desviados por meio de entidades e posteriormente utilizados na produção de Dark Horse. Entre os alvos estava o deputado Mário Frias.
Segundo as informações disponíveis, Flávio Bolsonaro não é investigado nessa frente específica. O fato de diferentes procedimentos mencionarem o mesmo filme não significa que todos os investigados respondam pelas mesmas condutas ou que os núcleos estejam juridicamente conectados.
Liquidação do Banco Master ampliou dimensão do caso
O financiamento do filme passou a ter maior relevância institucional depois da crise do Banco Master.
Em 18/11/2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., do Banco Master de Investimento e de outras instituições do conglomerado. Segundo a autoridade monetária, a medida foi motivada por grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações das normas aplicáveis ao Sistema Financeiro Nacional.
A liquidação não prova que os valores aplicados em Dark Horse tenham origem ilícita. Ela, contudo, ampliou a necessidade de identificar a procedência dos recursos movimentados pelo então controlador da instituição, sobretudo porque outras frentes investigativas passaram a examinar operações, fundos, empresas e transferências relacionadas ao círculo empresarial de Vorcaro.
Segundo turno torna investigação politicamente sensível
O caso também possui dimensão eleitoral porque Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno da eleição presidencial de 2026 contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio terminou o primeiro turno com 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%. A votação do segundo turno está marcada para 25/10/2026.
A proximidade da eleição aumenta o impacto político de qualquer divulgação sobre o inquérito, mas não modifica os critérios jurídicos necessários para responsabilização penal.
Caso Flávio seja eleito, entra em discussão a regra prevista no artigo 86, § 4º, da Constituição Federal, segundo a qual o presidente da República, durante o mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções.
A reportagem da Folha registra que a investigação poderia continuar, embora eventual responsabilização por fatos anteriores ao mandato tenha tratamento constitucional específico. Por isso, o calendário processual passou a ter relevância política sem eliminar a necessidade de observância do devido processo legal.
Nova frente envolvendo Vorcaro é independente do caso Dark Horse
Paralelamente, outra investigação preliminar da Polícia Federal passou a examinar suspeitas relacionadas a uma possível estrutura de exploração sexual associada a Vorcaro, após a divulgação de mensagens extraídas de seus aparelhos.
Reportagem do UOL publicada em 13/10/2026 afirma que mensagens indicariam investimentos de pelo menos R$ 4,3 milhões em uma estrutura que envolveria intermediários, mulheres estrangeiras e eventos privados. A PF abriu apuração preliminar para verificar possíveis irregularidades.
Vorcaro rejeitou as acusações, afirmou não reconhecer a autoria, autenticidade ou contexto de parte do material divulgado e declarou: “Nego veementemente que tenha, em algum momento, explorado ou desrespeitado mulheres.” Também disse estar disposto a prestar esclarecimentos pelas vias legais.
Até o momento, não há elemento público demonstrando relação entre essa investigação preliminar e o financiamento de Dark Horse. As duas frentes devem, portanto, ser tratadas separadamente.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 08/12/2024 — Thiago Miranda inicia articulação para reunião entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o filme. A sequência documental passa a demonstrar interlocução sobre o financiamento.
- 20/01/2025 — Miranda encaminha a Vorcaro conversa na qual Flávio cobra resposta sobre a estrutura jurídica do financiamento da produção.
- 13/02/2025 — O Havengate recebe o primeiro repasse identificado pela PF como relacionado ao filme, depois de permanecer praticamente inativo durante anos.
- Março de 2025 — Mensagens mencionam Flávio e Eduardo Bolsonaro em tratativas sobre o projeto; a PF atribui a Eduardo orientações relacionadas à administração de recursos nos Estados Unidos.
- 08/09/2025 — Flávio envia mensagem a Vorcaro cobrando pagamentos necessários à continuidade da produção.
- 09/09/2025 — André Mendonça homologa a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, operador de remessas destinadas ao Havengate.
- 16/09/2025 — Novo repasse de aproximadamente US$ 1,6 milhão eleva para cerca de US$ 12,3 milhões o total rastreado relacionado ao fundo; Flávio e Vorcaro também mantêm contato telefônico na data.
- 22/10/2025 — Flávio volta a comunicar a Vorcaro a necessidade de recursos para o filme.
- 16/11/2025 — O senador tenta contato com Vorcaro e envia mensagem ao banqueiro na véspera de sua primeira prisão.
- 18/11/2025 — O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master, citando crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações regulatórias.
- 13/05/2026 — Reportagens tornam públicos documentos, áudios e mensagens relativos à negociação de financiamento de até US$ 24 milhões para Dark Horse.
- 06/08/2026 — É protocolado no STF o Inquérito 5.070, relacionado às operações examinadas no caso.
- 01/09/2026 — Torna-se público o registro de remessa adicional de aproximadamente US$ 1,6 milhão feita em setembro de 2025 ao Havengate.
- 10/09/2026 — O STF autoriza a Operação Make Up, investigação separada sobre eventual desvio de emendas para a produção do filme, tendo Mário Frias entre os alvos.
- 09/10/2026 — Segundo investigadores, é formalizado pedido brasileiro de cooperação aos Estados Unidos para avançar no rastreamento financeiro.
- 14/10/2026 — Investigadores avaliam fatiar a apuração, concluir primeiro o núcleo mais avançado atribuído a Vorcaro e deixar para etapa posterior a definição sobre os indícios relacionados a Flávio Bolsonaro.
Análise crítica jornalística e conclusão editorial
O eventual fatiamento do caso Dark Horse reflete uma diferença concreta de maturidade entre as linhas investigativas. Há um conjunto já rastreado de transferências internacionais, operadores identificados, documentação bancária e colaboração premiada relacionado a Daniel Vorcaro. Em relação a Flávio Bolsonaro, existem comunicações diretas e participação documentada nas tratativas do financiamento, mas a caracterização de eventual crime depende de demonstrar conhecimento, participação e finalidade ilícita das operações. Contato político ou participação em captação privada, isoladamente, não são suficientes para estabelecer responsabilidade penal.
A principal lacuna permanece nos Estados Unidos. Para confirmar ou rejeitar a hipótese de desvio de finalidade, os investigadores precisam seguir o dinheiro depois de sua entrada no Havengate, determinar os beneficiários finais e confrontar transferências com contratos, notas, faturas e serviços efetivamente prestados. O volume projetado de US$ 24 milhões, os US$ 12,3 milhões rastreados e os cerca de R$ 75 milhões declarados como gastos pela produção constituem números diferentes, relacionados a etapas distintas da operação, e não devem ser apresentados como equivalentes.
Também é necessário separar os vários procedimentos derivados do caso Master. A investigação sobre as transferências privadas para o filme, o inquérito sobre eventual desvio de emendas parlamentares e a apuração preliminar envolvendo acusações de exploração sexual contra Vorcaro possuem objetos e bases probatórias diferentes. A existência simultânea dessas frentes aumenta o escrutínio sobre o ex-banqueiro, mas não autoriza a transferência automática de suspeitas de um procedimento para outro.
O núcleo factual que deverá orientar os próximos desdobramentos é, portanto, delimitado: recursos milionários associados a Vorcaro foram enviados dos Brasil aos Estados Unidos para uma estrutura financeira ligada ao financiamento de Dark Horse; Flávio Bolsonaro participou de tratativas e cobranças relacionadas ao projeto; investigadores examinam possíveis crimes financeiros, mas ainda buscam estabelecer o percurso completo do dinheiro e individualizar responsabilidades. Caberá à Polícia Federal concluir as diligências, à PGR avaliar a suficiência dos elementos para eventual acusação e ao STF decidir sobre desmembramento, competência, continuidade das investigações e demais medidas processuais.









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