PSD libera apoio a Lula ou Flávio Bolsonaro no 2º turno após Caiado obter 2,18%; sigla elege 44 deputados e 4 governadores

O Partido Social Democrático (PSD) decidiu não estabelecer apoio nacional a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial e liberou seus diretórios estaduais, parlamentares, lideranças, filiados e militantes para definir individualmente o posicionamento na nova etapa da disputa. A decisão, comunicada pelo presidente nacional da legenda e candidato a vice-presidente Gilberto Kassab após o primeiro turno de domingo (04/10/2026), encerra a primeira campanha presidencial própria do partido, conduzida por Ronaldo Caiado, que recebeu cerca de 2,60 milhões de votos, equivalentes a 2,18% dos votos válidos, e terminou na quinta colocação. Nesta segunda-feira (05/10/2026), com a totalização nacional concluída, Flávio e Lula avançaram para a votação de 25/10/2026, enquanto o PSD passou a concentrar sua estratégia na força parlamentar e estadual obtida nas urnas.

PSD adota neutralidade nacional e preserva autonomia nos estados

Na nota divulgada depois da votação, Kassab sustentou que a posição adotada para o segundo turno é uma continuidade da estratégia praticada durante a própria campanha presidencial. Segundo o dirigente, os diretórios estaduais tiveram liberdade para formar alianças compatíveis com as respectivas realidades políticas e, por isso, não haveria razão para impor uma orientação nacional uniforme na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro

Na prática, a decisão significa neutralidade institucional da direção nacional. O PSD não declarou apoio coletivo a nenhum dos dois finalistas, mas também não proibiu que suas estruturas regionais ingressem formalmente nas campanhas do PT ou do PL.

A orientação está diretamente relacionada à heterogeneidade política do partido. Ao longo de 2026, setores do PSD participaram de alianças estaduais com forças que, na eleição presidencial, estavam em campos adversários. A própria direção nacional reconheceu essa diversidade ao permitir que os arranjos regionais fossem preservados durante o primeiro turno.

Caiado termina primeira candidatura presidencial do PSD com 2,18%

Ronaldo Caiado recebeu aproximadamente 2,60 milhões de votos, ou 2,18% dos válidos, ficando em quinto lugar na eleição presidencial. Ele terminou atrás de Flávio Bolsonaro, Lula, Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão). A totalização baseada nos dados do Tribunal Superior Eleitoral colocou Flávio em primeiro, com 47,03%, e Lula em segundo, com 45,16%.

Os dois finalistas concentraram, juntos, 92,19% dos votos válidos. O dado demonstra objetivamente o elevado grau de concentração eleitoral em torno das duas principais candidaturas, embora a classificação desse fenômeno como resultado de “extremismos”, utilizada na manifestação do PSD, constitua uma avaliação política do partido, e não uma conclusão objetiva derivada da apuração.

Kassab afirmou que a candidatura de Caiado apresentou uma alternativa aos principais polos eleitorais e declarou que “não eleger Caiado presidente em 2026 significa que o Brasil perdeu uma oportunidade”. A frase expressa a avaliação partidária sobre seu candidato e deve ser compreendida como posicionamento político da direção nacional.

Após a apuração, Caiado disse que havia “caído de pé” e afirmou inicialmente que não anunciaria uma posição pessoal no segundo turno antes de conversar com Kassab. Pouco depois, a direção partidária tornou pública a decisão de liberar as bases estaduais.

Aprovação em Goiás não se converteu em votação presidencial

Um dos principais argumentos apresentados pelo PSD ao longo da campanha foi o desempenho administrativo de Caiado como governador de Goiás. A direção partidária voltou a classificá-lo, na nota pós-eleitoral, como o governador mais bem avaliado do país.

A afirmação encontra respaldo em levantamentos específicos, mas exige delimitação metodológica. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho de 2026 registrou 87% de aprovação da gestão de Caiado em Goiás e o colocou na primeira posição entre os governadores dos dez estados pesquisados. Em levantamento anterior da própria Quaest, realizado em 2025, ele também aparecia na liderança entre os estados avaliados.

Essa popularidade estadual, entretanto, não se transferiu proporcionalmente para a eleição presidencial. Em Goiás, Caiado recebeu 12,33% dos votos válidos e terminou em terceiro lugar, atrás de Flávio Bolsonaro, com 53,60%, e Lula, com 31,06%.

O contraste se torna mais relevante porque Daniel Vilela (MDB), sucessor político de Caiado no governo estadual, venceu a eleição para governador já no primeiro turno, com aproximadamente 59% dos votos válidos. Caiado havia deixado o Palácio das Esmeraldas em 31/03/2026, e Vilela assumiu formalmente o governo em 01/04/2026.

Os resultados indicam uma distinção importante entre aprovação administrativa, influência em uma eleição estadual e capacidade de produzir identificação eleitoral numa disputa presidencial. O desempenho demonstra que o capital político construído em Goiás foi suficiente para fortalecer o grupo governista local, mas não para transformar Caiado em uma alternativa competitiva nacionalmente.

PSD amplia presença estadual apesar do resultado presidencial

A derrota na disputa pelo Palácio do Planalto contrasta com os resultados obtidos pela legenda em outros níveis. Segundo o balanço apresentado por Kassab, o PSD encerrou o primeiro turno com 44 deputados federais, 103 deputados estaduais, dois novos senadores, quatro governadores eleitos no primeiro turno e dois candidatos a governador classificados para o segundo turno.

Os quatro governadores eleitos pelo partido são Dr. Furlan, no Amapá; Eduardo Braide, no Maranhão; Raquel Lyra, em Pernambuco; e Fábio Mitidieri, em Sergipe. O PSD ficou atrás apenas do PL no número de governos estaduais definidos no primeiro turno.

No segundo turno estadual, marcado também para 25/10, o partido permanece na disputa com Omar Aziz, no Amazonas, e Eduardo Paes, no Rio de Janeiro. Aziz enfrentará Professora Maria do Carmo (PL), enquanto Paes disputará o governo fluminense contra Douglas Ruas (PL).

No Senado, os dois candidatos eleitos pelo PSD foram Lucas Barreto, no Amapá, e Júlio César, no Piauí. A lista oficial divulgada pela Agência Senado confirma os dois nomes entre os 54 senadores escolhidos para mandatos que começarão em fevereiro de 2027.

A direção nacional também afirma que a legenda reúne atualmente cerca de 1.350 prefeitos e aproximadamente 7 mil vereadores. Esses números integram o balanço político apresentado pelo próprio partido e devem ser tratados como dados declarados pelo PSD.

Bahia exemplifica modelo de autonomia adotado pelo partido

A configuração do PSD na Bahia ajuda a explicar por que Kassab optou por não impor uma decisão presidencial uniforme. Mesmo com Caiado concorrendo pelo partido ao Palácio do Planalto, o diretório baiano permaneceu integrado à aliança estadual formada em torno do PT, do governador Jerônimo Rodrigues e do presidente Lula.

Durante a montagem da chapa baiana, o PSD indicou Edvaldo Brito para a primeira suplência do então candidato ao Senado Jaques Wagner (PT). Wagner foi eleito no domingo, juntamente com Rui Costa (PT). A composição já demonstrava que o projeto presidencial próprio do PSD conviveria com alianças estaduais construídas com adversários nacionais de Caiado.

A estratégia não é um detalhe periférico. Ela evidencia uma característica estrutural do sistema partidário brasileiro: legendas nacionais frequentemente precisam administrar interesses regionais distintos, especialmente quando controlam governos, prefeituras e bancadas formadas por coalizões diferentes.

Ao manter a autonomia no segundo turno, Kassab evita impor às estruturas estaduais uma escolha capaz de produzir rupturas em alianças locais construídas para as eleições de governador, Senado e Legislativo.

Campanha tentou apresentar agenda de desenvolvimento e segurança

O discurso da direção do PSD de que Caiado apresentou um “projeto” para o país também encontra correspondência no plano registrado durante a campanha. O documento apresentado à Justiça Eleitoral organizou propostas em diferentes áreas e definiu como eixos a responsabilidade fiscal, a segurança pública, o crescimento baseado em investimento e produtividade, a gestão profissional do Estado, a cooperação institucional e uma inserção internacional descrita como pragmática.

Entre as propostas associadas à candidatura estavam mudanças no sistema político, incluindo o fim da reeleição, medidas de ajuste fiscal, maior rigor penal contra organizações criminosas e ampliação da atuação federal na segurança pública.

O programa buscava transformar a experiência administrativa de Goiás em credencial para uma candidatura nacional. A estratégia, entretanto, enfrentou a dificuldade central que marcou toda a campanha: construir espaço eleitoral entre dois candidatos que chegaram às últimas semanas concentrando praticamente todo o voto presidencial competitivo.

A própria votação final mostra que o objetivo de formar uma terceira alternativa de dimensão nacional não foi alcançado em 2026, apesar de a candidatura ter permitido ao PSD apresentar programa próprio, testar uma chapa exclusivamente partidária e ampliar sua exposição na disputa pelo Executivo federal.

Caiado chegou ao PSD poucos meses antes da eleição

A candidatura também foi resultado de uma reorganização partidária ocorrida poucos meses antes do primeiro turno. Caiado formalizou sua filiação ao PSD em 14/03/2026, depois de deixar o União Brasil, com o objetivo declarado de disputar internamente a indicação presidencial da nova legenda.

Na ocasião, ele concorria internamente com os governadores Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. A direção nacional anunciou Caiado como seu nome para a Presidência no fim de março.

A desincompatibilização do governo goiano ocorreu em 31/03/2026. No dia seguinte, Daniel Vilela assumiu definitivamente o Executivo estadual.

Em 01/07/2026, Caiado anunciou Gilberto Kassab como candidato a vice-presidente. A chapa foi formalmente confirmada pela convenção nacional do PSD realizada em São Paulo em 26/07/2026.

O TSE posteriormente deferiu o registro da chapa Ronaldo Caiado–Gilberto Kassab, permitindo a participação na eleição de 4 de outubro.

Primeira candidatura presidencial ocorre aos 15 anos do PSD

O episódio possui também dimensão histórica para o partido. O atual Partido Social Democrático teve seu registro aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 27/09/2011, por seis votos a um, e completou 15 anos poucos dias antes do primeiro turno de 2026.

A direção nacional caracteriza a campanha de Caiado como a primeira candidatura presidencial própria da legenda desde sua fundação. Por isso, mesmo diante dos 2,18% obtidos nas urnas, Kassab procurou separar o desempenho presidencial do crescimento institucional do partido em governos estaduais e casas legislativas.

Essa leitura explica o teor da nota: o PSD reconhece implicitamente que não rompeu a polarização presidencial, mas apresenta como ativo político a rede de governadores, congressistas e dirigentes regionais que continuará exercendo influência após a eleição.

Os votos de Caiado entram na disputa entre Lula e Flávio

O segundo turno será realizado em 25/10/2026, conforme o calendário do Tribunal Superior Eleitoral. Flávio Bolsonaro chegou à nova etapa após receber 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%.

A diferença entre os dois foi de aproximadamente 2,22 milhões de votos. Caiado, sozinho, recebeu cerca de 2,60 milhões, quantidade numericamente superior à vantagem obtida por Flávio no primeiro turno. Isso não significa, porém, que seus eleitores possam ser automaticamente transferidos para um dos finalistas.

A decisão do PSD torna essa transferência ainda menos previsível. Como cada diretório e liderança poderá adotar posição própria, o eleitorado que acompanhou Caiado poderá receber sinais políticos distintos conforme o estado, o município e as alianças locais.

O peso da legenda no segundo turno, portanto, não deve ser avaliado apenas pelos votos presidenciais recebidos por Caiado. Governadores eleitos, candidatos ainda em campanha, prefeitos, parlamentares e estruturas regionais podem oferecer capacidade de mobilização, palanques e redes partidárias. A efetiva conversão dessa estrutura em votos para Lula ou Flávio, contudo, somente poderá ser medida após novos posicionamentos e a votação de 25 de outubro.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 27/09/2011 — O Tribunal Superior Eleitoral aprova o registro do atual PSD. A legenda inicia sua trajetória institucional nacional.
  • 14/03/2026 — Ronaldo Caiado formaliza sua filiação ao PSD, após deixar o União Brasil, e passa a disputar internamente a candidatura presidencial.
  • 30/03/2026 — A direção do PSD anuncia Caiado como nome escolhido para liderar o projeto presidencial da legenda.
  • 31/03/2026 — Caiado deixa o governo de Goiás para disputar a Presidência; Daniel Vilela assume o Executivo estadual em 01/04/2026.
  • 01/07/2026 — Gilberto Kassab é anunciado como candidato a vice-presidente na chapa do PSD.
  • 26/07/2026 — Convenção nacional do PSD oficializa as candidaturas de Caiado e Kassab.
  • Agosto de 2026 — O plano de governo é apresentado, com propostas sobre segurança, responsabilidade fiscal, produtividade, reformas institucionais e gestão pública.
  • 04/10/2026 — Caiado termina o primeiro turno com 2,18% dos votos válidos e fica em quinto lugar; Flávio Bolsonaro e Lula avançam ao segundo turno.
  • 04/10/2026 — Kassab divulga nota em que avalia positivamente a candidatura de Caiado e libera diretórios, parlamentares e filiados para escolherem seus apoios na etapa seguinte.
  • 05/10/2026 — A Justiça Eleitoral confirma o segundo turno presidencial entre Flávio Bolsonaro e Lula, marcado para 25/10/2026.
  • 25/10/2026 — Eleitores voltarão às urnas para definir a Presidência e os governos estaduais onde houve segundo turno.

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