Terça-feira, 27/10/2026 — Reeleito para um quarto mandato presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva chegará a 2027 com uma economia marcada por contrastes: o Brasil registra desemprego de 5,3%, renda do trabalho em alta e US$ 362,8 bilhões em reservas internacionais, mas convive com dívida bruta de 82,9% do PIB, inflação acima da meta, Selic de 13,75% ao ano, crédito caro e uma taxa de investimento de apenas 16,1% do PIB. Paralelamente, o novo governo terá de conduzir a etapa decisiva da reforma tributária do consumo, cuja cobrança efetiva começa a avançar em 2027, e administrar uma política fiscal na qual as projeções do mercado ainda apontam crescimento do endividamento público.
Lula foi reeleito no domingo, 25/10/2026, com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, obtidos por Flávio Bolsonaro. O resultado confirmou o quarto mandato pessoal do presidente, depois das vitórias de 2002, 2006 e 2022, e estabelece um novo ciclo de governo entre 2027 e 2030.
Mercado de trabalho é o principal ponto de força da economia
O mercado de trabalho constitui a área mais favorável do quadro econômico que Lula encontrará no início do novo mandato. A PNAD Contínua registrou taxa de desocupação de 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026, ante 5,6% no mesmo período do ano anterior. A população ocupada chegou a aproximadamente 103,5 milhões de pessoas.
O rendimento médio real habitual alcançou R$ 3.777, crescimento de 3,7% em relação ao mesmo período de 2025. A massa de rendimentos do trabalho atingiu R$ 385,6 bilhões, com expansão anual de 4,8%, sustentando o consumo e fornecendo uma base de renda relevante para o começo do próximo governo.
O quadro, entretanto, não elimina fragilidades estruturais. A taxa de informalidade estava em 37,5% da população ocupada, representando cerca de 38,8 milhões de trabalhadores. Portanto, desemprego baixo e expansão da renda coexistem com parcela expressiva da força de trabalho fora das relações formais de emprego.
O próprio Banco Central classificou o mercado de trabalho como “aquecido” ao reduzir a Selic para 13,75% em setembro. Para a política monetária, essa robustez possui dupla dimensão: sustenta renda e consumo, mas também pode dificultar uma queda mais rápida da inflação de serviços e limitar a velocidade da redução dos juros.
Inflação permanece acima da meta e limita queda dos juros
O IPCA avançou 0,82% em setembro de 2026 e acumulou 4,58% em 12 meses, depois de uma deflação de 0,32% em agosto. No acumulado de janeiro a setembro, a inflação chegou a 3,95%.
Desde janeiro de 2025, o Brasil utiliza o regime de meta contínua de inflação. O objetivo fixado pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. O regime considera formalmente descumprida a meta quando a inflação permanece fora desse intervalo por seis meses consecutivos.
Assim, os 4,58% registrados em setembro ficaram acima tanto do centro da meta quanto, naquele mês, do limite superior de 4,5%. A prévia da inflação de outubro, medida pelo IPCA-15, ficou em 0,32% no mês e 4,62% em 12 meses, indicando que a pressão inflacionária ainda não havia sido eliminada às vésperas da eleição.
As expectativas também permanecem desconfortáveis. A pesquisa Focus com dados coletados até 23/10/2026 apontava mediana de 5,19% para o IPCA de 2026 e 4,34% para 2027. A previsão para 2027 está abaixo do teto de tolerância, mas permanece significativamente acima da meta central de 3%.
Esse cenário ajuda a explicar por que o ciclo de queda dos juros tem sido gradual.
Selic cai, mas crédito continua caro para famílias e empresas
O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 13,75% ao ano em 16/09/2026, após cortes sucessivos desde o nível de 15% mantido no início do ano. A taxa ainda permanece elevada em termos nominais e restritiva para a atividade econômica.
As condições enfrentadas por consumidores e empresas são ainda mais severas do que sugere a taxa básica.
Nos últimos dados completos disponíveis sobre crédito, relativos a agosto, a taxa média das novas operações do sistema financeiro estava em 32,3% ao ano. Nas operações com recursos livres, a média chegava a 48,5% ao ano. Para pessoas físicas, o custo médio do crédito livre alcançava 61,7% ao ano.
O spread bancário estava em 21,2 pontos percentuais. Paralelamente, a inadimplência de toda a carteira do Sistema Financeiro Nacional alcançava 5%, chegando a 6% entre pessoas físicas. No crédito livre às famílias, o percentual de operações inadimplentes atingia 8%.
O endividamento das famílias correspondia a 49,9% da renda acumulada em 12 meses, e o comprometimento da renda com dívidas alcançava 28,7%. Esses indicadores ajudam a explicar por que a combinação de juros elevados, endividamento e inadimplência pode limitar a transmissão do crescimento da renda do trabalho para o consumo e o investimento.
Dívida pública será um dos principais desafios do novo mandato
A situação fiscal apresenta o contraste mais evidente com os indicadores positivos de emprego e reservas internacionais.
Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026, equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões. O indicador aumentou 4,2 pontos percentuais do PIB apenas em 2026 até aquele mês.
O avanço foi explicado principalmente pelo efeito dos juros nominais, que adicionaram 6,5 pontos percentuais do PIB à dívida no ano, além de emissões líquidas equivalentes a 1,5 ponto. O crescimento do PIB nominal exerceu efeito redutor de 3,6 pontos percentuais.
A dívida líquida do setor público estava em 69,3% do PIB, ou R$ 9,2 trilhões. O déficit nominal acumulado em 12 meses — que incorpora o resultado primário e o pagamento de juros — alcançava R$ 1,264 trilhão, correspondente a 9,48% do PIB.
A dinâmica futura permanece adversa nas projeções privadas reunidas pelo próprio Ministério da Fazenda. O Prisma Fiscal de outubro aponta dívida bruta equivalente a 83,4% do PIB no encerramento de 2026 e 87% do PIB em 2027.
As mesmas projeções indicam déficit primário de R$ 53,048 bilhões para o Governo Central em 2026 e de R$ 44 bilhões em 2027. Esses valores são expectativas do mercado e não resultados já realizados.
Orçamento de 2027 expõe diferença entre meta oficial e expectativa do mercado
O Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027, encaminhado pelo governo ao Congresso, trabalha com uma perspectiva mais favorável do que o Prisma Fiscal.
A proposta prevê superávit primário cheio de R$ 18,6 bilhões. Considerados os ajustes e descontos autorizados pelo regime fiscal para fins de verificação da meta, o governo calcula resultado de R$ 83,4 bilhões, ante um centro da meta equivalente a 0,5% do PIB, ou R$ 73,2 bilhões.
O limite de despesas primárias previsto para 2027 é de R$ 2,576 trilhões, aumento nominal de R$ 183,8 bilhões, ou 7,7%, em relação ao limite de 2026.
A comparação com o Prisma exige cautela porque governo e mercado utilizam hipóteses econômicas, metodologias e tratamentos de receitas e despesas que não são idênticos. Ainda assim, a distância entre um Orçamento elaborado para cumprir a meta fiscal e uma mediana privada que projeta déficit de R$ 44 bilhões evidencia uma das questões centrais de 2027: a capacidade de transformar objetivos fiscais legais em resultados efetivos sem comprometer serviços públicos, investimentos ou estabilidade econômica.
Reservas externas continuam funcionando como proteção contra crises
Se as contas públicas representam uma vulnerabilidade, a posição externa oferece uma proteção que o Brasil não possuía em diversos episódios de crise de décadas anteriores.
As reservas internacionais somaram US$ 362,8 bilhões em setembro de 2026, apesar de uma queda de US$ 9,8 bilhões em relação a agosto. No mês anterior, haviam alcançado US$ 372,6 bilhões.
A diminuição em setembro decorreu, segundo os dados do Banco Central divulgados sobre o setor externo, de variações de preços e paridades cambiais, vendas de moeda no mercado à vista e operações de linhas com recompra.
Mesmo depois da queda mensal, o volume permanece elevado em termos históricos e constitui um colchão relevante diante de choques cambiais ou dificuldades de financiamento externo.
Outro indicador favorável foi o Investimento Direto no País, que registrou ingresso líquido de US$ 11,3 bilhões em setembro e acumulou US$ 88,3 bilhões em 12 meses, o equivalente a 3,43% do PIB.
Esses dados reduzem o risco de que um choque fiscal doméstico se transforme automaticamente em crise de balanço de pagamentos. Eles não substituem, contudo, a necessidade de sustentabilidade da dívida pública e estabilidade de preços.
PIB continua crescendo, mas ritmo perde força
A atividade econômica segue em expansão, embora em velocidade inferior à observada no início do ano.
O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 em comparação com os três primeiros meses do ano. No primeiro trimestre, a expansão havia sido de 1,1%. Na comparação com o mesmo trimestre de 2025, o crescimento foi de 2%.
No primeiro semestre, a economia avançou 1,9%. Em quatro trimestres, a taxa acumulada também ficou em 1,9%.
Pela ótica da oferta, a agropecuária cresceu 2,8% no segundo trimestre frente ao primeiro, enquanto os serviços avançaram 0,2% e a indústria, apenas 0,1%. O consumo das famílias recuou 0,4% na comparação trimestral.
A pesquisa Focus divulgada em 26/10/2026, ainda com informações coletadas antes do resultado do segundo turno eleitoral, reduziu a estimativa de crescimento do PIB de 2026 para 1,80% e a de 2027 para apenas 1,31%.
Essas projeções não constituem previsão oficial nem resultado garantido. Elas mostram, porém, que o mercado não antecipa, neste momento, aceleração significativa da economia no primeiro ano do quarto mandato.
Investimento de 16,1% do PIB limita crescimento potencial
Uma das principais fragilidades estruturais está na formação de capital.
A taxa de investimento ficou em 16,1% do PIB no segundo trimestre de 2026, abaixo dos 16,6% registrados no mesmo trimestre de 2025.
A Formação Bruta de Capital Fixo avançou 1,2% frente ao primeiro trimestre e 1,4% na comparação anual, mas permaneceu estagnada em 0% de crescimento no primeiro semestre em relação aos seis primeiros meses de 2025.
O nível corrente está significativamente abaixo dos patamares próximos a 20% do PIB observados no fim de 2013, conforme análise do BNDES sobre as Contas Nacionais.
O problema tem dimensão de longo prazo. Sem crescimento consistente do investimento em máquinas, infraestrutura, construção, tecnologia e capacidade produtiva, aumentam as dificuldades para elevar produtividade, expansão potencial do PIB e renda de maneira sustentável.
Reforma tributária passará do teste para a cobrança efetiva
O quarto mandato também começará no momento mais sensível da Reforma Tributária do Consumo, iniciada constitucionalmente pela Emenda Constitucional nº 132, de 20/12/2023.
A regulamentação avançou com a Lei Complementar nº 214, de 16/01/2025, que instituiu o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto Seletivo, e com a Lei Complementar nº 227, de 13/01/2026, responsável, entre outras medidas, pela estruturação do Comitê Gestor do IBS.
O ano de 2026 funciona como etapa de teste operacional. Pela arquitetura estabelecida para a transição, CBS e IBS possuem alíquotas de teste de 0,9% e 0,1%, respectivamente, com mecanismos de compensação e dispensa da arrecadação quando observadas as obrigações determinadas pela legislação.
A partir de 2027, começa uma nova etapa: PIS e Cofins são extintos, a CBS passa à cobrança efetiva, o IPI é reduzido a zero para a maior parte dos produtos, ressalvadas as exceções previstas para a Zona Franca de Manaus, e entra em funcionamento o Imposto Seletivo.
A substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS ocorrerá entre 2029 e 2032, com vigência integral do novo sistema prevista para 2033.
A Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS já estabeleceram cronogramas técnicos para documentos fiscais eletrônicos, declarações e leiautes que alcançam diferentes operações entre agosto de 2026 e janeiro de 2027. Trata-se de uma transformação que não depende apenas da legislação: exige adaptação de sistemas empresariais, administrações tributárias, contabilidade, faturamento e procedimentos fiscais em União, estados e municípios.
As vantagens e fragilidades que Lula levará para 2027
O ponto de partida econômico do quarto mandato é, portanto, muito diferente de uma situação de crise clássica.
O país não enfrenta desemprego elevado nem escassez de reservas internacionais. Ao contrário: registra mercado de trabalho robusto, renda real crescente, elevado estoque de divisas e fluxo expressivo de investimento estrangeiro direto.
As principais vulnerabilidades estão concentradas na combinação entre dívida crescente, juros elevados, inflação resistente, baixo investimento e restrição fiscal.
Essas variáveis estão conectadas. Uma trajetória fiscal percebida como pouco sustentável pode manter elevado o prêmio de risco e dificultar a queda dos juros de longo prazo. Juros altos aumentam o custo financeiro do governo, das famílias e das empresas. Crédito caro, por sua vez, reduz consumo financiado e investimento produtivo. Menor investimento limita a capacidade futura de crescimento da economia.
O desafio não será apenas estimular a atividade, mas compatibilizar crescimento, convergência da inflação, sustentabilidade fiscal e execução da reforma tributária.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 20/12/2023 — Reforma tributária: promulgação da Emenda Constitucional nº 132, que redesenhou a tributação sobre o consumo e criou as bases constitucionais para IBS e CBS. A medida abriu o processo de transição para o novo sistema.
- 16/01/2025 — Regulamentação: a Lei Complementar nº 214 instituiu IBS, CBS e Imposto Seletivo e definiu parte central das regras da reforma.
- 13/01/2026 — Comitê Gestor: a Lei Complementar nº 227 estruturou o CGIBS e disciplinou aspectos administrativos do novo imposto compartilhado entre estados e municípios.
- 29/04/2026 — CBS: o Decreto nº 12.955 regulamentou a Contribuição sobre Bens e Serviços e avançou na preparação operacional da reforma.
- 31/07/2026 — Sistemas tributários: Receita Federal e Comitê Gestor divulgaram o cronograma de documentos fiscais eletrônicos e obrigações necessárias à implantação do novo regime.
- Segundo trimestre de 2026 — Atividade e investimento: PIB cresceu 0,5% frente ao trimestre anterior; a taxa de investimento ficou em 16,1% do PIB.
- Agosto de 2026 — Trabalho: desemprego ficou em 5,3%, com aproximadamente 103,5 milhões de ocupados e rendimento médio real de R$ 3.777.
- Agosto de 2026 — Dívida pública: a dívida bruta atingiu 82,9% do PIB, ou R$ 11,1 trilhões, acumulando avanço de 4,2 pontos percentuais no ano.
- 16/09/2026 — Política monetária: Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano, mantendo avaliação de que o mercado de trabalho seguia aquecido e a inflação acima da meta.
- Setembro de 2026 — Inflação: IPCA subiu 0,82% e atingiu 4,58% em 12 meses.
- Setembro de 2026 — Reservas: estoque de reservas internacionais encerrou o mês em US$ 362,8 bilhões.
- 15/10/2026 — Prisma Fiscal: mediana do mercado passou a indicar dívida bruta de 83,4% do PIB em 2026 e 87% em 2027.
- 23/10/2026 — Inflação e expectativas: IPCA-15 de outubro ficou em 0,32% e 4,62% em 12 meses; pesquisa Focus coletada até a mesma data projetou IPCA de 5,19% em 2026 e 4,34% em 2027.
- 25/10/2026 — Eleição presidencial: Lula venceu Flávio Bolsonaro no segundo turno e conquistou o quarto mandato presidencial.
- 26/10/2026 — Resultado e projeções: TSE confirmou a reeleição com 51,79% dos votos válidos; o Focus divulgado no mesmo dia apontou crescimento projetado de apenas 1,31% para o PIB de 2027.
O início do quarto mandato de Lula não se enquadra nem em um cenário de crise econômica generalizada nem em uma situação de estabilidade consolidada. Os indicadores revelam uma economia sustentada por emprego elevado, expansão real da renda e forte proteção cambial, mas cujo crescimento potencial permanece limitado por investimento baixo e pelo custo elevado do capital. Essa combinação permite preservar atividade e consumo no curto prazo, mas não assegura, por si só, expansão econômica mais intensa nos anos seguintes.
O principal desequilíbrio está nas contas públicas. A dívida bruta já se aproxima de 83% do PIB pela metodologia do Banco Central, enquanto as projeções privadas apontam 87% em 2027. O problema não decorre apenas do resultado primário: juros elevados exercem peso relevante sobre a dinâmica da dívida. Por isso, política fiscal e política monetária estão estreitamente relacionadas. A consolidação fiscal pode contribuir para reduzir prêmios de risco; em sentido inverso, taxas de juros persistentemente altas aumentam o esforço necessário para estabilizar o endividamento.
A reforma tributária acrescenta um segundo desafio de natureza estrutural. Seu potencial benefício está na simplificação da tributação do consumo e na redução de distorções acumuladas ao longo de décadas, mas o período entre 2027 e 2033 será operacionalmente complexo. Erros de regulamentação, integração tecnológica ou transição podem elevar custos de conformidade; uma implementação eficiente poderá produzir o efeito oposto. Os resultados dependerão de decisões administrativas e legislativas ainda distribuídas ao longo dos próximos anos.
O núcleo factual que deverá orientar o acompanhamento do novo governo é claro: Lula assumirá em 2027 com emprego forte e reservas externas elevadas, mas com dívida crescente, inflação acima da meta central, crédito caro, investimento reduzido e uma reforma tributária entrando na fase efetiva de execução. Banco Central, Ministério da Fazenda, Congresso Nacional, Receita Federal, Comitê Gestor do IBS, estados e municípios terão papéis decisivos. A capacidade dessas instituições de compatibilizar estabilidade fiscal, queda sustentável da inflação, redução dos juros e aumento do investimento será determinante para saber se o desempenho favorável do mercado de trabalho poderá ser convertido em crescimento duradouro durante o quarto mandato.








Deixe um comentário