Relato de viagem de ACM Neto aos EUA não é confirmado; ex-prefeito apoiou Flávio Bolsonaro e é investigado na Overclean

Na manhã desta quarta-feira (28/10/2026), uma informação de que ACM Neto (União Brasil) teria embarcado para os Estados Unidos passou a ser associada à saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, ocorrida na terça-feira (27), dois dias após sua derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Até o fechamento desta reportagem, entretanto, não havia confirmação pública independente, registro oficial ou informação de fonte identificada que comprovasse a viagem do ex-prefeito de Salvador aos EUA. O contexto político que aproxima os dois é verificável: Neto declarou apoio formal a Flávio no segundo turno presidencial, prometeu mobilizar sua base na Bahia e, paralelamente, aparece como investigado em uma frente da Operação Overclean, na qual um relatório da Polícia Federal atribuiu a ele papel de liderança no grupo sob apuração — conclusão investigativa contestada por sua defesa e que não corresponde a condenação judicial.

Informação sobre viagem de ACM Neto aos Estados Unidos ainda não foi confirmada

O relato recebido afirma que ACM Neto teria deixado o Brasil com destino aos Estados Unidos depois da eleição. A informação, contudo, não pôde ser corroborada, até a manhã de 28 de outubro, por fontes oficiais ou por veículos nacionais e baianos consultados.

Por essa razão, não há base documental suficiente, neste momento, para afirmar como fato consumado que Neto tenha embarcado para os Estados Unidos ou que sua eventual viagem possua qualquer relação com a situação de Flávio Bolsonaro. A proximidade temporal entre os episódios, caso a viagem seja posteriormente confirmada, não demonstraria por si só coordenação entre os dois políticos.

Também não consta nas fontes consultadas medida cautelar semelhante àquela imposta a Flávio Bolsonaro que proíba ACM Neto de deixar o território nacional. O ex-prefeito é citado e investigado em procedimentos relacionados à Operação Overclean, mas investigação criminal, restrição de viagem, denúncia apresentada pelo Ministério Público e condenação judicial são situações jurídicas distintas.

Jerônimo Rodrigues derrotou ACM Neto pela segunda vez na Bahia

O elemento eleitoral apresentado no conteúdo original é confirmado pela Justiça Eleitoral. Jerônimo Rodrigues (PT) derrotou ACM Neto pela segunda vez consecutiva na disputa pelo Governo da Bahia. Em 2022, o petista venceu o segundo turno e foi eleito governador.

Quatro anos depois, em 4 de outubro de 2026, Jerônimo conseguiu a reeleição já no primeiro turno. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, obteve 55,80% dos votos válidos, enquanto ACM Neto terminou em segundo lugar, com 43,72%.

O resultado encerrou a segunda tentativa consecutiva do ex-prefeito de Salvador de chegar ao Palácio de Ondina. A diferença política em relação a 2022 foi que a disputa estadual terminou ainda no primeiro turno, liberando Neto para participar diretamente das articulações nacionais que antecederam a votação presidencial de 25 de outubro.

ACM Neto declarou apoio a Flávio Bolsonaro três dias depois da derrota

A aproximação pública entre ACM Neto e Flávio Bolsonaro ocorreu imediatamente após o primeiro turno. Em 7 de outubro de 2026, três dias depois de perder a eleição estadual, o vice-presidente nacional do União Brasil apareceu ao lado do candidato do PL, em Brasília, para anunciar apoio no segundo turno presidencial.

Na ocasião, Neto afirmou que mobilizaria prefeitos, deputados federais eleitos, candidatos e integrantes de seu grupo político na Bahia em favor de Flávio Bolsonaro. O ex-prefeito declarou: “Todos nós estaremos motivados, mobilizados e trabalhando a partir de hoje pela campanha de Flávio Bolsonaro para presidente.”

A decisão marcou uma alteração em relação ao primeiro turno. Durante a etapa inicial da eleição presidencial, ACM Neto havia declarado apoio a Ronaldo Caiado, enquanto procurava preservar uma candidatura estadual capaz de receber votos de eleitores com diferentes preferências nacionais. No segundo turno, porém, passou a participar diretamente da campanha de Flávio.

Lula venceu Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial

A eleição presidencial foi decidida no domingo (25/10/2026). O Tribunal Superior Eleitoral proclamou a reeleição de Lula, que recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro alcançou 59.826.041 votos, ou 48,21%.

A derrota ocorreu menos de três semanas depois do apoio público anunciado por ACM Neto. Na Bahia, a articulação do ex-prefeito integrou o esforço da oposição para ampliar a presença eleitoral do candidato do PL em um estado historicamente favorável ao PT nas eleições presidenciais.

O encerramento da disputa presidencial, entretanto, foi seguido por uma crise jurídica envolvendo Flávio Bolsonaro que não possui, até o momento, equivalente documentado na situação de ACM Neto.

STF determinou que Flávio entregasse passaportes e permanecesse no Brasil

Na segunda-feira (26/10/2026), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes à Polícia Federal e o proibiu de deixar o Brasil. A medida foi adotada em investigação que envolve o senador e o advogado Willer Tomaz.

Flávio recebeu prazo de 24 horas para cumprir a determinação. Inicialmente, publicou vídeo afirmando que permaneceria no país e entregaria os documentos. O prazo terminou na manhã de terça-feira (27) sem que os passaportes fossem apresentados à Polícia Federal. Os documentos brasileiros foram então cancelados.

A PF não havia identificado, naquele momento, registro migratório regular de saída do senador. A circunstância levou investigadores a apurar como ele teria deixado o território brasileiro.

Reuters confirmou saída de Flávio para os Estados Unidos

Ainda na terça-feira, a Reuters informou, com base em fontes próximas ao senador e no governo dos Estados Unidos, que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil com destino ao território norte-americano. Uma fonte ligada à família afirmou que ele chegou à Flórida.

Um alto funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos confirmou que o governo norte-americano emitiria vistos para Flávio e seus familiares e permitiria sua entrada no país. A informação também foi confirmada à CNN Brasil.

A saída ocorreu apesar da determinação judicial que proibia Flávio de deixar o Brasil. A situação, porém, deve ser descrita com precisão jurídica: até as informações disponíveis no período analisado, não havia mandado de prisão contra o senador, razão pela qual sua saída irregular e o descumprimento da ordem não o tornavam automaticamente um foragido da Justiça.

Relação política entre ACM Neto e Flávio Bolsonaro foi explicitada no segundo turno

O apoio de ACM Neto a Flávio Bolsonaro não se limitou a uma manifestação protocolar. O dirigente do União Brasil anunciou empenho direto de sua estrutura política no quarto maior colégio eleitoral do país e participou de atos da campanha presidencial na Bahia.

Em 17 de outubro, Neto foi ao aeroporto de Salvador receber Flávio antes de uma mobilização na Barra e o apresentou publicamente como seu candidato à Presidência.

Esse histórico permite afirmar que os dois construíram uma aliança eleitoral explícita no segundo turno de 2026. Não permite, entretanto, concluir que uma eventual viagem de ACM Neto aos Estados Unidos, caso confirmada, tenha sido organizada conjuntamente com a saída de Flávio ou tenha motivação jurídica semelhante.

Operação Overclean investiga contratos públicos em Belo Horizonte

Separadamente do episódio eleitoral, ACM Neto aparece em uma linha de investigação da Operação Overclean. Em 17 de setembro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a décima fase da operação para investigar suspeitas de irregularidades em contratos da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, celebrados entre 2024 e 2025.

Segundo comunicado oficial da PF, ao menos três procedimentos examinados resultaram em contratos que, somados, ultrapassam R$ 80 milhões. A operação cumpriu 24 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Tocantins, Paraná e Espírito Santo. Os fatos apurados podem configurar, em tese, crimes contra a Administração Pública, fraudes em licitações e contratos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Entre os investigados aparece o empresário José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, personagem que já figurava em outras fases da Overclean.

PF pediu busca contra ACM Neto, mas Nunes Marques negou

A Polícia Federal pediu autorização para realizar busca e apreensão contra ACM Neto. A solicitação estava relacionada à suspeita de que o político teria participado da indicação de Bruno Barral, ex-secretário municipal de Educação de Salvador, para assumir a mesma área na Prefeitura de Belo Horizonte.

A linha investigativa procura esclarecer se a indicação teria relação com a atuação de empresários interessados em contratos públicos. A Procuradoria-Geral da República manifestou-se favoravelmente à diligência, segundo informações divulgadas a partir dos autos.

O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, entretanto, negou a busca contra ACM Neto, por considerar que os elementos apresentados não forneciam fundamento suficiente para autorizar a medida naquele estágio da investigação. O magistrado autorizou diligências contra outros investigados.

Relatório da PF atribuiu papel de liderança a ACM Neto

Um novo elemento tornou-se público em 30 de setembro de 2026, quando a CNN Brasil revelou conteúdo de um relatório sigiloso produzido pela Polícia Federal em novembro de 2025.

Segundo a reportagem, os investigadores atribuíram a ACM Neto posição de liderança política na organização investigada. O documento afirma que, na interpretação da equipe policial sobre o conjunto probatório então reunido, Neto exerceria “a função de liderança da organização criminosa” voltada à obtenção de recursos por contratos públicos supostamente superfaturados.

Essa afirmação constitui uma conclusão investigativa da Polícia Federal, não uma condenação. A posição da PF também deve ser confrontada com a decisão judicial posterior de Nunes Marques, que considerou insuficientes os elementos apresentados para autorizar busca e apreensão contra o político.

PF identificou 232 chamadas entre ACM Neto e o “Rei do Lixo”

Entre os elementos citados pela investigação estão registros de 232 chamadas pelo WhatsApp entre ACM Neto e José Marcos de Moura, realizadas entre agosto e dezembro de 2024. Os registros foram obtidos a partir do aparelho do empresário.

A quantidade demonstra frequência de comunicação entre os dois, mas não revela, isoladamente, o conteúdo das conversas nem comprova que cada contato estivesse relacionado aos fatos sob investigação. A qualificação penal de eventual conduta depende da análise conjunta de documentos, mensagens, fluxos financeiros, depoimentos e outros elementos submetidos às autoridades competentes.

A Polícia Federal estima que o conjunto mais amplo do esquema investigado em diferentes frentes da Overclean tenha movimentado aproximadamente R$ 1,4 bilhão em contratos considerados fraudulentos pelos investigadores. Esse valor não pode ser atribuído individualmente a ACM Neto nem confundido com os mais de R$ 80 milhões referentes aos contratos específicos mencionados pela PF na décima fase da operação.

ACM Neto nega participação em irregularidades

ACM Neto rejeita as suspeitas. Quando vieram a público informações sobre a tentativa da PF de realizar buscas contra ele, afirmou que a divulgação representava uma tentativa de interferir no processo eleitoral por meio de “vazamentos seletivos”, “factoides” e insinuações que considerou falsas.

O político declarou não ter participação nos fatos investigados e sustentou que a negativa de Nunes Marques demonstraria fragilidade dos elementos apresentados contra ele.

O contraditório é central para a interpretação do caso: a Polícia Federal atribuiu ao ex-prefeito papel relevante no grupo investigado e pediu medidas cautelares; a PGR apoiou diligências; ACM Neto nega ilícitos; e o relator no Supremo rejeitou a busca por entender que, naquele momento, não existiam elementos suficientes para autorizá-la.

Situação de ACM Neto não se confunde juridicamente com a de Flávio Bolsonaro

A associação política entre os dois nomes é documentada, mas suas situações jurídicas são diferentes.

Flávio Bolsonaro estava submetido a uma decisão expressa do Supremo determinando entrega de passaportes e proibindo sua saída do Brasil. Mesmo assim, deixou o território nacional, segundo fontes confirmadas pela Reuters e pelo governo norte-americano.

ACM Neto, por sua vez, aparece em investigação da Overclean, mas as fontes examinadas não registram ordem de apreensão de passaporte, proibição de deixar o Brasil ou mandado de prisão relacionado ao caso. Portanto, mesmo que sua alegada viagem aos Estados Unidos seja posteriormente comprovada, o deslocamento não pode ser apresentado, sem novos elementos, como equivalente juridicamente à saída de Flávio.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 30/10/2022 — Bahia: Jerônimo Rodrigues derrota ACM Neto no segundo turno e é eleito governador. A vitória estabelece o primeiro revés de Neto em uma disputa estadual contra o petista.
  • Agosto a dezembro de 2024 — Brasil: registros analisados pela PF apontam 232 chamadas de WhatsApp entre ACM Neto e José Marcos de Moura, o “Rei do Lixo”. O material passa a integrar a investigação da Overclean.
  • Novembro de 2025 — Operação Overclean: relatório da PF posteriormente revelado pela CNN atribui a ACM Neto função de liderança no grupo investigado. Trata-se de conclusão policial, não judicial.
  • 17/09/2026 — Belo Horizonte e outros estados: a PF deflagra a 10ª fase da Overclean, com 24 mandados. Nunes Marques nega pedido de busca contra ACM Neto por considerar insuficientes os elementos apresentados para a medida.
  • 30/09/2026 — Brasília: torna-se público o relatório da PF que atribui a Neto posição de liderança na organização sob investigação. O político nega as acusações.
  • 04/10/2026 — Bahia: Jerônimo Rodrigues é reeleito governador no primeiro turno com 55,80%, enquanto ACM Neto obtém 43,72%. É a segunda derrota consecutiva do ex-prefeito para o petista.
  • 07/10/2026 — Brasília: ACM Neto anuncia formalmente apoio a Flávio Bolsonaro e promete mobilizar prefeitos, deputados e integrantes de sua base na Bahia.
  • 17/10/2026 — Salvador: Neto recebe Flávio Bolsonaro no aeroporto e participa da mobilização do candidato presidencial na capital baiana.
  • 25/10/2026 — Brasil: Lula é reeleito presidente com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.
  • 26/10/2026 — Brasília: Alexandre de Moraes determina que Flávio entregue seus passaportes em 24 horas e o proíbe de deixar o Brasil.
  • 27/10/2026 — Brasil/EUA: Flávio não entrega os documentos; a PF cancela seus passaportes. Reuters confirma, por fontes independentes, que o senador deixou o país rumo aos Estados Unidos.
  • 28/10/2026 — Bahia: circula a afirmação de que ACM Neto também teria embarcado para os Estados Unidos. Até o fechamento desta reportagem, a informação não havia sido confirmada de forma independente, e não havia base documental para relacionar uma eventual viagem às medidas judiciais impostas a Flávio.

O episódio reúne três planos que precisam permanecer separados para evitar conclusões que os documentos disponíveis não sustentam. O primeiro é eleitoral: ACM Neto perdeu novamente para Jerônimo Rodrigues e, poucos dias depois, aderiu formalmente à candidatura de Flávio Bolsonaro. Essa relação política está documentada e permite avaliar os efeitos eleitorais da aliança, mas não comprova coordenação entre eventuais deslocamentos internacionais dos dois políticos.

O segundo plano é jurídico. Flávio Bolsonaro deixou o país depois de receber ordem expressa do STF para entregar passaportes e permanecer no Brasil. A eventual viagem de ACM Neto, mesmo que confirmada, ocorreria em situação diferente: não foi localizada medida judicial equivalente contra o ex-prefeito de Salvador. Equiparar automaticamente os dois casos produziria uma inferência sem suporte documental.

O terceiro plano é investigativo. A situação de ACM Neto na Overclean é relevante porque a Polícia Federal chegou a atribuir a ele posição de liderança no grupo investigado, registrou 232 contatos com José Marcos de Moura e pediu busca e apreensão. Ao mesmo tempo, Nunes Marques rejeitou a medida por insuficiência dos elementos apresentados. O ponto jornalisticamente correto é preservar simultaneamente essas duas informações: há investigação e suspeitas formalizadas pela PF, mas não há condenação, e a principal medida coercitiva solicitada contra Neto foi recusada judicialmente.

A relevância pública do caso está, portanto, na convergência entre o encerramento das eleições, a aliança entre duas importantes lideranças da oposição e investigações criminais que alcançam seus ambientes políticos. Os próximos desdobramentos dependem da Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e Supremo Tribunal Federal, no caso Overclean; do STF e da PF quanto à saída de Flávio Bolsonaro; e, especificamente sobre ACM Neto, de confirmação documental ou manifestação de sua assessoria acerca da alegada viagem aos Estados Unidos. Até que essa confirmação exista, o deslocamento deve permanecer classificado como informação não comprovada.


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