Temporal de 14 de outubro deixou carros submersos, metrô inundado, quase 1.000 km de congestionamentos e uma morte. Episódio recoloca uma pergunta incômoda: depois de décadas de poder político e bilhões gastos, por que a maior economia urbana do Brasil continua sucumbindo às chuvas?
Na tarde de quarta-feira (14), uma das cidades mais ricas e tecnologicamente complexas da América Latina voltou a oferecer imagens que parecem incompatíveis com sua dimensão econômica: automóveis submersos, ônibus presos, passageiros tentando escapar pela janela, água invadindo estações do Metrô, avenidas transformadas em rios e o Túnel do Anhangabaú completamente tomado pela enxurrada. No mesmo temporal, uma mulher de 47 anos morreu após um deslizamento na Brasilândia.
A tragédia não pode ser reduzida a uma disputa ideológica nem explicada simplesmente pela frase recorrente de que “choveu demais”. As precipitações foram, de fato, extraordinariamente intensas. Mas São Paulo conhece há muitas décadas a combinação de chuvas tropicais concentradas, impermeabilização do solo, ocupação das várzeas, canalização de rios e insuficiência de drenagem. Estudos, planos técnicos, alertas e obras existem há gerações.
É precisamente por isso que o episódio lança uma questão política legítima sobre capacidade de gestão, prioridades orçamentárias e velocidade de execução — especialmente num estado que está há mais de três décadas sob governos de centro-direita ou direita e numa capital administrada predominantemente pelo mesmo campo político desde os anos 1990.
E a cobrança adquire peso adicional porque o atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é engenheiro civil formado pelo Instituto Militar de Engenharia e mestre em Engenharia de Transportes, construiu sua carreira pública apresentando-se como gestor técnico de infraestrutura e chega ao fim de seu primeiro mandato justamente com esse capital político.
Tarcísio acaba, inclusive, de ser reeleito governador no primeiro turno, em 4 de outubro de 2026, com 62,65% dos votos válidos. Dez dias depois, a capital do estado estava novamente debaixo d’água.
Chuva excepcional, mas desastre previsível
É necessário separar duas coisas.
A chuva de 14 de outubro foi excepcional. No Anhangabaú, foram registrados 42 milímetros em apenas 40 minutos, cerca de 37% dos 112 mm esperados para todo o mês. As seis bombas do túnel funcionaram, segundo a Prefeitura, mas simplesmente não tinham capacidade para dar vazão ao volume recebido.
Em partes da cidade os acumulados foram ainda maiores. A rede do Alto Tietê registrou 67,8 mm no córrego Sapateiro, no Ibirapuera, 64 mm na Aclimação e 47,2 mm no córrego Anhangabaú. Houve registros ainda superiores por outras estações meteorológicas.
O resultado foi devastador.
No Túnel do Anhangabaú, 12 automóveis e dois ônibus ficaram presos, segundo levantamento publicado nesta quinta-feira. Pessoas tiveram de abandonar os veículos e algumas saíram pelas janelas.[
Na Avenida 23 de Maio, imagens registraram dezenas de automóveis submersos. A água invadiu estações como Japão-Liberdade e Paraíso. O lago do Ibirapuera transbordou. Houve cancelamentos e desvios de voos. Mais de 30 mil imóveis ficaram sem energia em determinado momento.[
A CET chegou a registrar 909 quilômetros de lentidão, enquanto outros levantamentos apontaram congestionamento próximo de 1.000 km. O rodízio municipal precisou ser suspenso.
Portanto, houve um fenômeno meteorológico severo. Mas chamar o desastre urbano de imprevisível é bem mais difícil.
Dois dias antes, em 12 de outubro, a própria Defesa Civil estadual havia alertado para chuvas fortes entre os dias 13 e 15, mencionando expressamente riscos de alagamentos, enxurradas e transbordamentos, agravados pela saturação do solo.
A chuva extrema explica a velocidade da inundação. Não explica, sozinha, por que estruturas vitais da maior cidade brasileira continuam incapazes de suportar eventos cuja frequência vem aumentando.
O problema é conhecido pelo menos desde 1963
A repetição histórica é talvez o aspecto mais constrangedor.
Em 1963, depois de grandes inundações, a Câmara Municipal de São Paulo criou uma comissão especial para investigar as enchentes do Tietê e seus afluentes. As causas identificadas há mais de seis décadas incluíam impermeabilização crescente, desmatamento, assoreamento, gargalos hidráulicos e urbanização inadequada. Biblioteca de Teses
São praticamente os mesmos elementos discutidos hoje.
A própria história urbana paulistana agravou o problema. Córregos foram canalizados; avenidas ocuparam fundos de vale; várzeas foram urbanizadas; rios foram retificados e confinados.
Pesquisas da USP mostram que a expansão urbana reduziu áreas naturais de armazenamento das águas e aumentou dramaticamente a impermeabilização. Um estudo sobre áreas densamente urbanizadas verificou que, em determinada bacia paulistana, o volume natural de armazenamento perdido pela ocupação chegou a superar em 22 vezes a capacidade das estruturas artificiais de reservação planejadas pelo poder público. Biblioteca de Teses
Outro estudo da USP concluiu que soluções paulistanas tiveram historicamente caráter predominantemente corretivo, com grandes obras hidráulicas sem eficiência completa quando desacompanhadas de controle do uso do solo e prevenção. Biblioteca de Teses
Não falta, portanto, diagnóstico técnico.
Desde 1998 existe um plano metropolitano específico
Há outro dado particularmente relevante para avaliar a responsabilidade política.
Em 1998, o então DAEE elaborou o primeiro Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê — PDMAT, justamente para combater as enchentes da Região Metropolitana. O planejamento incluía Tietê, Tamanduateí, Pirajuçara, Aricanduva e outras grandes bacias. DAEE
Ou seja: quando alguém afirma que São Paulo foi surpreendida por um problema novo, a cronologia responde.
O Estado dispõe de planejamento metropolitano específico há 28 anos.
E praticamente todo esse período coincide com uma característica política singular.
Mais de três décadas sem a esquerda governar o Estado
Desde a posse de Mário Covas, em janeiro de 1995, o governo estadual paulista não esteve sob administração da esquerda.
O PSDB comandou o Palácio dos Bandeirantes de forma ininterrupta entre 1995 e 2022, passando por Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra, João Doria e Rodrigo Garcia. Em 2023, Tarcísio de Freitas levou o governo mais claramente para a direita conservadora ligada ao bolsonarismo.
Pode-se discutir as diferenças profundas entre o antigo PSDB e o atual Republicanos. Não são o mesmo projeto político.
Mas, para uma análise histórica, é correto afirmar que São Paulo acumula quase 32 anos consecutivos de governos estaduais situados entre a centro-direita e a direita.
Portanto, já não é razoável atribuir o déficit de macrodrenagem paulista à alternância constante de projetos antagônicos.
Não houve essa alternância.
Na capital, cerca de 26 dos últimos 34 anos ficaram fora da esquerda
A capital teve maior alternância, mas também apresenta claro predomínio do campo conservador ou de centro-direita.
Desde 1993, São Paulo foi administrada sucessivamente por Paulo Maluf, Celso Pitta, Marta Suplicy, José Serra, Gilberto Kassab, Fernando Haddad, João Doria, Bruno Covas e Ricardo Nunes. A própria Prefeitura mantém essa cronologia oficial. Diário Oficial
Nesse período de quase 34 anos, os governos identificados claramente com a esquerda foram Marta Suplicy, entre 2001 e 2004, e Fernando Haddad, entre 2013 e 2016.
Em termos aproximados, 26 dos últimos 34 anos ficaram sob prefeitos de direita, centro-direita ou administrações não vinculadas à esquerda.
Pesquisa acadêmica publicada na SciELO que analisou as políticas paulistanas entre 1978 e 2016 também encontrou predominância temporal combinada de governos classificados como direita e centro-direita sobre aqueles classificados como esquerda. SciELO
Portanto, quando se questiona o resultado da drenagem urbana contemporânea, a responsabilidade histórica não pode ser deslocada indefinidamente para governos adversários que administraram a cidade durante uma fração minoritária do período.
Tarcísio é engenheiro — mas o Anhangabaú não é responsabilidade exclusiva do governador
Aqui é necessário evitar uma simplificação.
O Túnel do Anhangabaú, galerias locais, bocas de lobo e grande parte da microdrenagem são responsabilidade municipal. Seria tecnicamente incorreto atribuir diretamente ao governador o funcionamento das seis bombas do túnel.
O Estado, porém, exerce papel central na macrodrenagem metropolitana, no Tietê, no Pinheiros, em grandes reservatórios, piscinões e na coordenação hídrica da Região Metropolitana.
O próprio PDMAT deixa claro que Estado e municípios precisam atuar conjuntamente. DAEE
E é precisamente aí que a aliança entre Tarcísio e Ricardo Nunes torna a cobrança maior, não menor.
Tarcísio declarou apoio público à reeleição de Nunes em 2024. Nunes acabou reeleito com 59,35% dos votos válidos, à frente de Guilherme Boulos, por uma coligação que incluía MDB, PL, PP, PSD, Republicanos, União Brasil e outros partidos. Folha de S.Paulo
Portanto, governo estadual e Prefeitura não estão politicamente em guerra.
São aliados.
Se a fragmentação administrativa entre Estado e Município constitui parte do problema histórico da drenagem paulistana — como apontam pesquisas acadêmicas —, justamente uma aliança política tão estreita deveria proporcionar coordenação excepcionalmente favorável para superá-la. Biblioteca de Teses
Quase quatro anos de Tarcísio: houve investimento, mas o problema está longe de resolvido
Também seria incorreto afirmar que a gestão Tarcísio “não fez nada”.
Até setembro de 2026, o governo informou ter retirado mais de 6,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos dentro do IntegraTietê, com mais de R$ 1,4 bilhão investido especificamente em desassoreamento desde 2023. Semil
O Estado também mantém 27 piscinões na Região Metropolitana, além de estruturas de controle das marginais. Saneamento Água e Esgoto de São Paulo
O programa IntegraTietê mobiliza valores muito superiores, superiores a R$ 20 bilhões, mas é preciso esclarecer que boa parte desse dinheiro refere-se a saneamento e coleta de esgoto, não exclusivamente à prevenção de enchentes. Casa Civil do Estado de São Paulo
Portanto, o problema não é simplesmente ausência de gasto público.
A pergunta mais séria é outra:
por que investimentos bilionários ainda não produziram uma cidade suficientemente resiliente?
Ricardo Nunes também apresenta bilhões em obras — e mesmo assim a água continua vencendo
A Prefeitura faz defesa semelhante.
A gestão Nunes afirma ter aplicado R$ 8,4 bilhões em obras, serviços e manutenção relacionados à drenagem e ter entregue seis novos piscinões nos últimos anos, além de outros oito em construção. Prefeitura de São Paulo
Em janeiro deste ano, depois que o casal Marcos da Mata Ribeiro, 68 anos, e Maria Deusdete Bezerra Ribeiro, 67, morreu dentro de um carro arrastado pela enxurrada na Avenida Carlos Caldeira Filho, Nunes afirmou que os investimentos acumulados em combate aos alagamentos ultrapassavam R$ 9 bilhões. Folha de S.Paulo
Nove meses depois, o Anhangabaú estava novamente submerso.
Gastar bilhões, evidentemente, não significa que nenhuma obra tenha funcionado. Existem áreas onde reservatórios reduziram ocorrências.
Mas o dinheiro gasto não pode substituir o indicador fundamental de uma política pública: o resultado entregue à população.
O símbolo mais incômodo: Anhangabaú, 1999 e 2026
Existe uma comparação quase perfeita para ilustrar o caráter crônico do problema.
Em 1999, uma inundação no Túnel do Anhangabaú deixou cerca de 160 veículos presos, episódio lembrado na cobertura do temporal desta semana. CNN Brasil
Vinte e sete anos depois, o túnel voltou a encher rapidamente.
As bombas funcionaram.
Os sensores funcionaram.
As câmeras funcionaram.
Mas a capacidade hidráulica não foi suficiente.
Este talvez seja o ponto central da discussão sobre gestão pública: um sistema pode estar tecnicamente funcionando de acordo com suas especificações e, ao mesmo tempo, estar estruturalmente inadequado para a realidade climática que precisa enfrentar.
A Prefeitura acaba de admitir que ainda necessita de 201 intervenções
Há um dado ainda mais contundente.
Em 9 de setembro de 2026, apenas cinco semanas antes do temporal, a Prefeitura publicou a terceira edição do Plano Diretor de Drenagem.
O documento prevê 201 intervenções, das quais 173 são consideradas prioritárias. O custo estimado somente dessas ações prioritárias chega a R$ 16,51 bilhões.
E o cronograma se prolonga até 2049. Prefeitura de São Paulo
Em outras palavras, depois de décadas de enchentes, planos e obras, a própria administração municipal reconhece que São Paulo ainda possui uma enorme dívida de infraestrutura cuja solução, no ritmo atualmente previsto, atravessará mais de duas décadas.
Isto não prova corrupção, negligência deliberada ou incompetência individual.
Mas constitui evidência objetiva de que o problema permanece estruturalmente não resolvido.
Mudança climática não pode se transformar em álibi
Outro argumento recorrente merece atenção.
As chuvas realmente estão mudando.
Pesquisa divulgada pela Fapesp, baseada em estudos do Cemaden, identificou aumento da frequência de dias com precipitações intensas e concentradas na Região Metropolitana ao longo das últimas sete décadas. Agência Fapesp
Portanto, mudanças climáticas precisam fazer parte da explicação.
Mas exatamente porque a tendência é conhecida há anos, ela não pode ser utilizada eternamente como justificativa para infraestrutura dimensionada para um regime pluviométrico do passado.
Quanto mais previsível se torna o aumento dos extremos climáticos, maior — e não menor — é a responsabilidade dos gestores pela adaptação.
Uma cidade que representa quase 10% da economia brasileira
O custo da inadequação urbana transcende os proprietários dos veículos destruídos.
Segundo os dados mais recentes do IBGE, o município de São Paulo teve PIB de R$ 1,066 trilhão em 2023, equivalente a aproximadamente 9,7% de toda a economia brasileira. Agência de Notícias IBGE
O Estado de São Paulo, por sua vez, representava 31,5% do PIB nacional em 2023. Agência de Notícias IBGE
Quando quase mil quilômetros de vias congestionam, trabalhadores não conseguem chegar às empresas, caminhões ficam retidos, voos são cancelados, estabelecimentos fecham e sistemas de transporte sofrem interrupções, o prejuízo não é apenas doméstico.
Atinge comércio, serviços, logística e indústria.
Ainda não existe, até a manhã desta quinta-feira (15), levantamento consolidado confiável sobre o prejuízo financeiro provocado especificamente pela tempestade de quarta-feira. Seria imprudente inventar um valor.
Os precedentes, contudo, dão dimensão do problema.
Nas grandes enchentes de fevereiro de 2020, a FecomercioSP estimou perdas próximas de R$ 110 milhões somente no comércio paulistano e metropolitano, considerando fechamento de lojas, dificuldade de deslocamento de funcionários e redução de consumidores. Poder360
Em janeiro de 2025, uma única loja paulistana de automóveis antigos calculou prejuízo superior a R$ 100 mil depois que veículos foram atingidos pela enchente. CNN Brasil
O custo real inclui mercadorias, equipamentos, automóveis, imóveis, horas de trabalho, frete, atrasos logísticos, seguros e produtividade.
A recorrência recente desmonta a ideia de excepcionalidade absoluta
O temporal de quarta-feira tampouco é um episódio isolado.
Em 24 de janeiro de 2025, São Paulo recebeu aproximadamente 122 mm de chuva em três horas, quase metade da precipitação prevista para o mês. Houve 219 chamados por enchentes e inundações; carros foram arrastados e a estação Jardim São Paulo do Metrô foi inundada. UOL Notícias
Em 1º de fevereiro de 2025, a Marginal Tietê voltou a sofrer alagamento generalizado após quatro anos sem ocorrência daquele porte. O governo estadual sustentou que o rio não transbordara e atribuiu o problema ao refluxo e à incapacidade da microdrenagem da marginal — distinção tecnicamente relevante, mas pouco consoladora para quem teve o automóvel cercado pela água. CBN
Em 16 de janeiro de 2026, Marcos e Maria Deusdete morreram após o automóvel no qual estavam ser arrastado pela enxurrada na zona sul. Folha de S.Paulo
E agora, em outubro, São Paulo volta a assistir carros literalmente boiando no centro.
É correto chamar isso de inaptidão administrativa?
Como afirmação factual, seria excessivo concluir que um único episódio comprova “inaptidão” pessoal de Tarcísio de Freitas ou Ricardo Nunes.
Os dados demonstram investimentos e obras efetivamente realizadas pelos dois governos.
Mas uma reportagem crítica deve formular outra pergunta:
quantas décadas, quantos bilhões e quantos planos serão necessários antes de o poder público aceitar que execução parcial e resposta emergencial não equivalem a uma política de resiliência concluída?
No caso de Tarcísio, sua formação técnica torna a cobrança especialmente simbólica.
O governador chegou ao Palácio dos Bandeirantes apresentando-se como especialista em infraestrutura. Ao término de praticamente quatro anos de mandato — seu primeiro governo termina apenas em janeiro de 2027 — a maior região urbana sob sua responsabilidade continua apresentando vulnerabilidades históricas severas.
No caso de Ricardo Nunes, a cobrança é igualmente direta: ele ocupa a Prefeitura desde maio de 2021, está em seu segundo mandato e governa com uma coalizão amplíssima justamente no período em que a cidade dispõe de receita e capacidade de investimento extraordinárias.
A hegemonia política elimina uma das principais desculpas
Há, finalmente, uma questão essencial.
Durante décadas, enchentes paulistanas foram atribuídas à falta de integração entre diferentes governos, municípios e órgãos públicos.
Hoje, governador e prefeito são aliados políticos, compartilharam palanque eleitoral e executam projetos conjuntos. Um exemplo é o sistema de piscinões do córrego Antonico, no Morumbi, no qual Prefeitura e Estado anunciaram R$ 335 milhões em investimentos. Prefeitura de São Paulo
Portanto, se existe um momento histórico particularmente favorável para integração metropolitana, ele é este.
A velha explicação da disputa política entre Estado e Prefeitura perde força.
Resta a pergunta sobre planejamento, prioridades, velocidade de execução e qualidade da gestão.
O problema de São Paulo não nasceu com a direita — mas a longevidade do poder impede fugir da responsabilidade
Seria intelectualmente desonesto afirmar que a direita criou as enchentes paulistanas.
O problema nasceu do modelo de urbanização construído ao longo de mais de um século, atravessando governos autoritários, democráticos, conservadores, centristas e progressistas.
Mas existe diferença entre origem histórica e responsabilidade contemporânea.
Depois de quase 32 anos contínuos de governos estaduais de centro-direita e direita e cerca de 26 dos últimos 34 anos da Prefeitura fora da esquerda, o campo político que domina São Paulo não pode continuar tratando a deficiência estrutural como uma herança externa.
Ele próprio já é parte predominante dessa história.
A chuva de 14 de outubro caiu durante algumas dezenas de minutos.
A vulnerabilidade que ela revelou vem sendo documentada há mais de seis décadas.
E esta é, talvez, a pergunta mais incômoda para um dos estados mais ricos da Federação:
se São Paulo dispõe do dinheiro, da engenharia, das universidades, dos técnicos, dos planos e de continuidade política suficiente para realizar grandes concessões, rodovias, túneis e projetos bilionários, por que ainda aceita que uma chuva intensa transforme o coração econômico do Brasil em um arquipélago de carros submersos?
O temporal é um fenômeno natural.
A permanência da vulnerabilidade, depois de décadas de diagnóstico e poder, é uma questão política e administrativa.








Deixe um comentário