O senador Jaques Wagner (PT-BA) afirmou nesta sexta-feira (09/10/2026) que o Brasil poderá enfrentar consequências sociais semelhantes às registradas atualmente na Argentina caso Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito presidente e adote medidas econômicas inspiradas no governo de Javier Milei. A declaração foi feita em entrevista à Piatã FM, durante o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras.
Segundo Wagner, propostas atribuídas à equipe econômica de Flávio Bolsonaro teriam como referência medidas de ajuste fiscal implementadas pelo governo argentino. O senador relacionou essa orientação a possíveis mudanças na Previdência, na política de valorização do salário mínimo e nas despesas públicas obrigatórias, áreas que se tornaram parte do debate econômico da campanha presidencial.
“A pregação econômica do Flávio e da senhora que ele está anunciando como ministra da Fazenda passa pelas ideias do Milei. Quando falo que o Brasil pode virar uma Argentina, não é uma ameaça, é a minha opinião do que pode acontecer”, declarou Wagner.
A comparação representa uma avaliação política do senador petista, e não uma projeção econômica produzida por instituição independente.
Dados do INDEC mostram aumento da pobreza e retração da atividade argentina
Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC) mostram que 32,3% da população dos 31 aglomerados urbanos pesquisados estava abaixo da linha da pobreza no primeiro semestre de 2026. No segundo semestre de 2025, a proporção havia sido de 28,2%, o que indica aumento de 4,1 pontos percentuais entre os dois períodos. A parcela da população em situação de indigência passou de 6,3% para 7,5%.
O mercado de trabalho argentino também registrou taxa de desemprego de 7,9% no segundo trimestre de 2026, segundo o INDEC. Na atividade econômica, o Estimador Mensal de Atividade Econômica (EMAE) apresentou em julho uma queda dessazonalizada de 2,9% em relação a junho. Na comparação com julho de 2025, a retração foi de 1,4%.
Os números exigem distinção entre os diferentes indicadores. Os 32,3% de pobreza correspondem ao primeiro semestre, e não especificamente a setembro. Da mesma forma, a queda de 2,9% da atividade econômica corresponde à comparação mensal dessazonalizada, enquanto a variação interanual foi negativa em 1,4%.
Wagner relaciona Previdência e salário mínimo ao debate eleitoral
Na entrevista, Jaques Wagner afirmou que uma eventual alteração das regras previdenciárias e da política de reajuste do salário mínimo teria efeitos diretos sobre aposentados e pensionistas. “A primeira coisa é mexer na Previdência, depois congelar o salário mínimo. O salário mínimo paga a aposentadoria”, declarou o senador.
A discussão sobre benefícios previdenciários ganhou espaço na campanha depois da divulgação de informações de que integrantes da equipe econômica de Flávio Bolsonaro avaliariam medidas de contenção das despesas obrigatórias, entre elas a possibilidade de desvincular reajustes da Previdência e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) dos ganhos reais do salário mínimo. Reportagens apontaram que o objetivo em discussão seria produzir um ajuste fiscal próximo de 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
Javier Milei participou da convenção que lançou Flávio Bolsonaro
A aproximação política entre Flávio Bolsonaro e Javier Milei é um dos elementos utilizados por Wagner para sustentar a comparação. O presidente argentino participou, em 25 de julho de 2026, da convenção nacional do PL que oficializou a candidatura de Flávio à Presidência, realizada em São Paulo. Milei discursou no encontro e manifestou afinidade com a agenda econômica liberal defendida por setores da candidatura brasileira.
A presença do presidente argentino também provocou repercussões diplomáticas. Nos meses seguintes, declarações de Milei sobre o governo brasileiro elevaram a tensão entre Brasília e Buenos Aires, enquanto autoridades brasileiras criticaram sua participação no debate político interno do país.
No Jornal Grande Bahia, a relação política entre os dois países já havia sido abordada após a convenção do PL e durante os episódios de tensão diplomática entre os governos brasileiro e argentino.
Wagner cita empobrecimento argentino ao criticar modelo econômico
Durante a entrevista, Jaques Wagner também utilizou a situação de Buenos Aires como referência para sua crítica ao governo Milei. Segundo o senador, a capital argentina, historicamente associada a indicadores sociais elevados em comparação com outras grandes cidades latino-americanas, atualmente refletiria o aumento das dificuldades econômicas enfrentadas por parte da população.
“Dá para ver o volume de gente empobrecida, ou na extrema pobreza, na Argentina. Todo mundo via Buenos Aires como a Paris da América do Sul”, afirmou Wagner.
O senador concluiu sua avaliação dizendo que observa um processo de empobrecimento na cidade.
Os números nacionais divulgados pelo INDEC confirmam que houve deterioração recente do indicador de pobreza: a proporção de pessoas abaixo da linha da pobreza passou de 28,2% no segundo semestre de 2025 para 32,3% no primeiro semestre de 2026. O resultado mais recente, porém, permanece abaixo dos 52,9% registrados no primeiro semestre de 2024, durante o período inicial do governo Milei.
Debate econômico ganha peso no segundo turno entre Lula e Flávio
A declaração de Wagner ocorre durante a disputa do segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, realizado em domingo (04/10/2026), Flávio terminou na primeira posição nacional, com 56.104.503 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 53.879.538 votos, ou 45,16%. A diferença foi de 2.224.965 votos.
Os dois candidatos voltarão às urnas em domingo (25/10/2026). Na Bahia, o cenário do primeiro turno foi diferente do resultado nacional: Lula obteve 66,17% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro registrou 28,53%. Jaques Wagner, por sua vez, foi reeleito senador pelo estado com 3.986.690 votos, equivalentes a 27,65%.
Com a aproximação da votação decisiva, política fiscal, Previdência, salário mínimo, despesas sociais e comparação entre modelos econômicos tendem a ocupar espaço crescente na campanha. O debate deverá exigir a diferenciação entre propostas formalmente registradas, medidas estudadas por assessores econômicos e acusações feitas por adversários durante a disputa eleitoral.








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