As eleições presidenciais nos Estados Unidos, com a disputa entre Kamala Harris e Donald Trump, despertam grande interesse na imprensa francesa, que acompanha de perto os desdobramentos desta votação acirrada. Descrita pelo jornal Le Monde como uma campanha “cheia de reviravoltas e amargura”, a escolha entre a candidata democrata e seu rival republicano é considerada decisiva para os rumos do país. A acirrada disputa vem marcada por um cenário de intensa polarização, levando à expectativa de uma definição apenas nos instantes finais.
Para aliviar a tensão entre os leitores e dar uma perspectiva sobre o possível desfecho da eleição, o jornal Le Parisien publicou as previsões do historiador americano Allan Lichtman, apelidado de “Nostradamus americano”. Aos 77 anos, Lichtman criou o modelo “As 13 Chaves da Casa Branca”, que utiliza treze critérios específicos para prever o vencedor da eleição presidencial dos Estados Unidos. Segundo Le Parisien, Lichtman errou apenas uma vez em 40 anos de previsões, no ano 2000, quando George W. Bush venceu após uma disputa judicial acirrada contra Al Gore.
De acordo com sua análise para 2024, Lichtman prevê que Kamala Harris será eleita a próxima presidente dos Estados Unidos, ao obter vantagem em nove dos treze critérios avaliados. Entre os pontos favoráveis à democrata, estão o apoio consolidado de seu partido, os resultados positivos da administração Biden, a estabilidade econômica e a ausência de escândalos ou revoltas sociais significativas. No entanto, Lichtman também assinala aspectos desfavoráveis para Harris, como a perda democrata na Câmara dos Representantes nas eleições de meio de mandato de 2022, o fato de ela não ser a presidente em exercício e a dificuldade em superar as divisões partidárias. Além disso, as críticas à política externa americana, especialmente no contexto da guerra na Faixa de Gaza, também são citadas como fatores que podem impactar negativamente sua candidatura.
O jornal Libération ressaltou, em editorial, que a eleição representa um divisor de águas para o país e pode desencadear consequências políticas intensas, caso o resultado seja contestado. Segundo o diário, a vitória de Kamala Harris poderia gerar insatisfação entre os apoiadores de Trump, levantando preocupações sobre uma possível reação insurrecional entre os republicanos caso seu candidato seja derrotado.
Já o jornal econômico Les Echos destaca a alta participação dos eleitores em estados-pêndulo, fator decisivo em uma eleição tão acirrada. Mais de 75 milhões de eleitores já votaram antecipadamente, sugerindo um engajamento elevado e antecipando uma das maiores taxas de comparecimento da história recente das eleições americanas. O foco nas votações dos estados-pêndulo e a participação elevada do eleitorado refletem a polarização e o elevado nível de interesse pela escolha presidencial.
Comunidade brasileira nos EUA divide preferências nas eleições presidenciais
A eleição presidencial nos Estados Unidos de 2024 se aproxima com expectativa, especialmente entre as comunidades de imigrantes, incluindo os brasileiros que vivem no país. Estimados em mais de dois milhões, os brasileiros têm relevância como eleitores, com cerca de 103 mil possuindo dupla cidadania e podendo votar. Esse grupo, historicamente alinhado ao Partido Democrata, agora mostra sinais de divisão, com Donald Trump ganhando terreno entre eleitores republicanos.
Uma pesquisa realizada entre 6 e 12 de outubro pelo instituto Ideia, liderado por Maurício Moura, entrevistou 802 brasileiros e mostrou que 60% pretendem votar em Kamala Harris, candidata democrata, enquanto 35% preferem Trump. Outros 2% indicaram apoio a outros candidatos, e 3% se declararam indecisos. Moura explica que a preferência pelo candidato republicano tem crescido desde 2016, refletindo uma maior polarização política entre brasileiros nos EUA.
Para Moura, o aumento no apoio a Trump entre brasileiros com dupla cidadania reflete uma mudança na visão política após a legalização, onde muitos que regularizam seu status no país passam a se identificar com pautas conservadoras. Esse movimento é visível também em outras comunidades de imigrantes, que demonstram maior volatilidade no voto. No entanto, os brasileiros, concentrados em estados como Massachusetts, Nova York e Flórida, raramente são foco de estratégias específicas de campanha, uma vez que esses estados não são considerados decisivos.
O conservadorismo entre brasileiros nos EUA cresce com o fortalecimento de pautas republicanas como a imigração restritiva, posicionamento que vem dividindo opiniões. Para Sandra, moradora de Nova Jersey há mais de 30 anos, a oposição de Trump à imigração ilegal é vista como justa. Ela critica a entrada irregular no país e apoia as políticas do ex-presidente nesse sentido.
“Vim de forma legal e considero errado quem infringe as regras,” comenta.
Já Lidia Souza, que vive em Massachusetts e trabalha com apoio a imigrantes, aponta que a postura conservadora entre brasileiros se deve à segurança jurídica conquistada após obterem cidadania. Ela afirma que imigrantes documentados tendem a buscar posições mais conservadoras, valorizando estabilidade e ordem. Souza nota que, embora muitos brasileiros apoiem Trump, há preocupação com as políticas anti-imigração que afetam a comunidade brasileira.
No entanto, nem todos compartilham dessa visão. Ester Sanches, ex-atleta que atua junto à comunidade brasileira em Connecticut, declara apoio a Harris, afirmando que a candidata tem uma visão mais inclusiva sobre imigração, alinhada aos seus valores. Para Ester, é essencial que brasileiros se envolvam na política local para dar voz às pautas da comunidade e garantir maior integração.
O conservadorismo crescente também se reflete na postura de muitos brasileiros sobre temas como o direito ao aborto. Igrejas frequentadas por brasileiros, especialmente nas comunidades conservadoras da Flórida e de Massachusetts, têm reforçado esse tema, influenciando eleitores. O pastor Josimar Salum, há mais de três décadas nos EUA, apoia Trump por considerar que suas pautas refletem valores conservadores que são bem recebidos entre brasileiros. Salum observa, no entanto, que a campanha de 2024 apresenta eleitores mais cautelosos em demonstrar suas preferências.
Leidmar Lopes, coordenador da Brazilian American Coalition, uma organização que apoia brasileiros na Flórida, também apoia Trump. Ele considera que as propostas republicanas estão mais próximas dos valores culturais brasileiros, tradicionalmente conservadores. Ele observa que as pautas democratas são vistas como liberais demais para boa parte da comunidade brasileira.
Por outro lado, uma voluntária democrata na Flórida, que pediu para não ser identificada, enxerga o apoio a Trump como uma questão de interesses pessoais. Para ela, a preferência de alguns brasileiros pelo ex-presidente está menos associada aos valores republicanos e mais a um foco nos benefícios individuais, em detrimento de causas mais amplas.
Pedro Neves, jovem eleitor brasileiro na Pensilvânia, estado considerado “pêndulo” por sua importância decisiva nas eleições, mostra um cenário de divisões dentro da própria comunidade. Ele conta que, embora muitos brasileiros sejam firmemente democratas ou republicanos, o apoio a Trump não significa necessariamente alinhamento ao Partido Republicano, mas sim ao candidato. Segundo Neves, essa polarização reflete a falta de consenso entre os imigrantes em relação aos valores representados por cada partido.
Especialistas e líderes comunitários concordam que, para muitos brasileiros nos EUA, o voto nas eleições americanas é decidido mais pelo impacto local do que pela relação dos candidatos com o Brasil. Os interesses e valores individuais acabam sendo determinantes na escolha do candidato, enquanto as implicações para o Brasil ficam em segundo plano.
*Com informações da RFI e DW.
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