Após a vitória de Donald Trump na eleição presidencial de 2024, questões sobre o futuro da política externa dos Estados Unidos tomam o centro do debate internacional. Stephen Kotkin, historiador e especialista em geopolítica, traz uma análise profunda sobre as implicações desse novo mandato. Em entrevista, Kotkin explora como os EUA enfrentam um contexto de competição global crescente, ao mesmo tempo em que lidam com tensões internas e pressões para manter sua posição de liderança.
A seguir, são apresentados os principais pontos abordados pelo historiador, organizados em temas centrais para facilitar a compreensão do cenário geopolítico e das estratégias americanas diante das potências emergentes.
Percepção de Declínio: A Visão de Moscou e Pequim
Segundo Kotkin, a política externa americana dos últimos anos tem sido percebida por adversários como um sinal de “declínio irreversível”. Para ele, eventos como a Guerra do Iraque, a retirada do Afeganistão e a crise financeira de 2008 reforçaram, na visão de países como Rússia e China, a imagem de uma potência em perda de hegemonia. A vitória de Trump pode acentuar essa percepção, uma vez que ele adota uma postura cética em relação a alianças tradicionais e vê aliados como “aproveitadores”, o que pode acelerar uma política de retração americana no cenário global.
Kotkin ressalta que Moscou e Pequim estão atentos a essa dinâmica, mas destaca a imprevisibilidade de Trump como um fator relevante. Embora o novo governo possa adotar políticas que fortaleçam adversários, há também a possibilidade de Trump surpreender e adotar posições contrárias às expectativas, como apoiar a entrada da Ucrânia na OTAN, uma medida pouco provável sob a liderança de Biden.
A Crise Ucraniana e o Impacto na Relação EUA-Rússia
O conflito na Ucrânia surge como um dos principais desafios na agenda internacional. Para Kotkin, a postura de Trump sobre a Ucrânia é complexa e depende menos de ideologia e mais de pragmatismo. Trump pode adotar tanto uma postura que desagrade a Moscou quanto uma que beneficie o Kremlin, dependendo do contexto e de interesses estratégicos mais amplos. A imprevisibilidade do presidente americano, segundo o historiador, torna qualquer cenário possível, incluindo medidas que favoreçam ou dificultem as ambições russas na Ucrânia.
Kotkin observa que a falta de pressão política significativa sobre Vladimir Putin permitiu que o regime russo mantivesse sua posição, explorando recursos e sacrifícios populacionais para continuar no conflito. Sem uma mudança estratégica que ameace o poder interno de Putin, a Ucrânia, em sua visão, permanecerá em uma guerra de atrito, que compromete a estabilidade regional e desafia as capacidades americanas.
Risco de Conflito com a China e o Equilíbrio no Pacífico
Na Ásia, o risco de uma guerra entre os EUA e a China é uma preocupação crescente. Kotkin destaca que, ao contrário de décadas anteriores, os Estados Unidos enfrentam agora uma rivalidade militar mais equilibrada com a China, especialmente no que se refere a tecnologia e mobilização de tropas. A proximidade de jovens chineses aptos para o serviço militar contrasta com a base demográfica dos EUA, onde a população em idade militar é menor, o que representa uma dificuldade no caso de um conflito prolongado.
Segundo Kotkin, enquanto os EUA mantiveram uma superioridade tecnológica em guerras passadas, hoje essa vantagem está enfraquecida. A possibilidade de uma guerra no Estreito de Taiwan coloca os EUA diante de uma difícil decisão: manter seu compromisso com a defesa de aliados e parceiros regionais, ao mesmo tempo em que enfrenta limitações orçamentárias e operacionais.
Trump e a Ordem Internacional Liberal: Desafios de Adaptação
A liderança dos EUA na ordem internacional liberal foi, por décadas, uma força promotora de crescimento e integração global. Kotkin observa que o sistema internacional, baseado em uma economia aberta e em instituições multilaterais, foi benéfico para muitos países, como China, Índia e México, que experimentaram crescimento e prosperidade. Entretanto, a ascensão dessas economias impõe novos desafios à ordem global.
O retorno de Trump, com sua política isolacionista e protecionista, representa um ponto de inflexão na postura americana. Para Kotkin, Trump reflete a insatisfação de uma parcela da sociedade americana com o sistema internacional, que, em sua opinião, não preparou o país para lidar com o sucesso econômico e diplomático de nações emergentes. O desafio, agora, é acomodar as novas potências em uma ordem que ainda responde majoritariamente aos interesses ocidentais.
O Fenômeno Trump e a Cultura Política Americana
Kotkin aponta que a figura de Trump representa aspectos culturais profundamente enraizados na sociedade americana, como a cultura das celebridades, o papel das redes sociais e o consumo de teorias da conspiração. A capacidade de Trump de se conectar com o público por meio dessas plataformas e seu estilo direto são reflexos da era digital, onde a informação circula de forma rápida e pouco filtrada.
Para Kotkin, essa dinâmica desestabiliza o que ele chama de “regime da verdade”, ou seja, o consenso social sobre os métodos de verificação e reconhecimento da verdade. A fragmentação desse consenso compromete a coesão social e a confiança nas instituições, dificultando a governabilidade e tornando o sistema político mais vulnerável à polarização.
Desafios Internos e o Soft Power Americano
Além dos desafios externos, Kotkin argumenta que o retorno de Trump afeta diretamente o soft power americano. Ele observa que a imagem dos EUA, construída ao longo de décadas, é impactada pela percepção internacional de instabilidade política e pelo “berserk indígena americano” — termo cunhado pelo escritor Philip Roth para descrever o comportamento imprevisível e intenso dos americanos. Muitos aliados e parceiros estrangeiros veem Trump como uma ameaça à estabilidade que esperavam dos EUA, e isso pode enfraquecer a influência americana no mundo.
Kotkin, no entanto, pondera que o soft power dos EUA, apesar de enfraquecido, ainda possui força. Ele acredita que a administração de Trump poderá restaurar parte dessa imagem, caso promova políticas que demonstrem a estabilidade e a força do país, em contraste com as críticas de isolamento e retração.
Dados relevantes da entrevista
Percepção de Declínio:
- Adversários como Rússia e China veem os EUA em declínio, especialmente após a Guerra do Iraque e a crise financeira de 2008.
- A política de Trump em relação a alianças reforça essa percepção de declínio americano.
Conflito na Ucrânia:
- A imprevisibilidade de Trump pode beneficiar ou prejudicar a Ucrânia, dependendo de sua postura em relação ao apoio à OTAN.
- A falta de pressão política sobre Putin é vista como um fator que prolonga o conflito e prejudica a estabilidade regional.
Risco no Pacífico:
- A paridade tecnológica entre China e EUA enfraquece a superioridade americana em um eventual conflito militar.
- A diferença demográfica entre China e EUA é um desafio para a mobilização de tropas americanas em um conflito prolongado.
Ordem Internacional Liberal:
- A ascensão de economias emergentes desafia a ordem liderada pelos EUA, exigindo uma reavaliação de seu papel.
- Trump reflete a insatisfação com o sistema internacional entre setores da sociedade americana.
Soft Power e Imagem Internacional:
- A imagem dos EUA é abalada pela percepção de instabilidade e pela polarização interna.
- A administração Trump pode tentar restaurar o soft power americano por meio de políticas de estabilidade e força, mas enfrenta desconfiança externa.
Perfil biográfico de Stephen Kotkin
Stephen Kotkin é um historiador e acadêmico renomado, amplamente reconhecido por seu trabalho sobre a história da Rússia e por suas análises profundas de geopolítica contemporânea. Ele é membro da Hoover Institution da Universidade de Stanford, além de ser associado ao Freeman Spogli Institute for International Studies, uma das principais instituições acadêmicas focadas em estudos internacionais na Stanford.
Kotkin é mais famoso por sua biografia monumental de Joseph Stalin, que abrange três volumes, com o último previsto para ser lançado em breve. Essa biografia tem sido amplamente elogiada por sua pesquisa meticulosa, análise detalhada e pela abordagem histórica inovadora, que combina a política interna da União Soviética com as dinâmicas internacionais da época. Kotkin revela a complexidade do personagem Stalin, sua ascensão ao poder e os aspectos de sua liderança que moldaram a história da União Soviética e do século 20.
Além de seu trabalho sobre Stalin, Kotkin tem se destacado em suas análises sobre temas contemporâneos, especialmente sobre a geopolítica, as fontes de poder dos Estados Unidos e as transformações ocorridas durante a presidência de Donald Trump. Seus escritos abordam as grandes questões de política internacional, examinam a ascensão de potências como a China e a Rússia e avaliam a política americana de maneira crítica e ponderada.
Kotkin tem uma abordagem interdisciplinar, combinando história, política, economia e sociologia para fornecer uma visão completa e esclarecedora dos fenômenos que ele estuda. Sua carreira acadêmica e suas publicações influenciam amplamente os campos da história contemporânea e da ciência política, especialmente no que se refere à história da Rússia e à política global.
Em seus estudos, Kotkin não apenas examina as figuras centrais da história, mas também as forças estruturais e as mudanças sociais e políticas que moldaram os eventos e movimentos históricos. Ele é amplamente citado em círculos acadêmicos e seus livros são recursos indispensáveis para estudiosos, jornalistas e profissionais interessados nas questões complexas de poder, liderança e política.
Fonte bibliográfica
A reportagem “O presidente eleito Donald Trump: Perspectivas sobre a nova configuração geopolítica, riscos e estratégias para o futuro dos EUA, segundo o historiador Stephen Kotkin”, é parte da série de publicações do Jornal Grande Bahia com o tema ‘Fundamental Para Quem Pensa’.
O artigo “Trump e o futuro do poder americano: Uma conversa com Stephen Kotkinr”, de autoria de Stephen Kotkin, publicado nesta quinta-feira (07/11/2024) na Revista Foreign Affairs, aborda o retorno de Donald Trump à presidência americana e lança dúvidas sobre o futuro da política externa dos EUA. Em entrevista, ele explora os desafios geopolíticos e internos que a nova administração enfrentará, desde a Rússia e a China até o impacto das redes sociais na coesão social.








Deixe um comentário