A nova classe trabalhadora e os desafios do lulismo no contexto atual na análise do cientista político André Singer

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda mantém apoio significativo entre os brasileiros com renda familiar mensal de até dois salários mínimos. Essa conexão, denominada “lulismo” pelo cientista político André Singer, permanece uma marca das gestões do ex-metalúrgico. Entretanto, os desafios são evidentes em segmentos da população com maior renda e inserção no mercado formal de trabalho. Em entrevista à BBC News Brasil, Singer analisa o impacto de mudanças estruturais no capitalismo, o custo de vida e a fragmentação do mercado de trabalho, destacando os efeitos desses fatores no apoio ao governo.

O “lulismo”, conceito desenvolvido por Singer, identifica a estreita relação entre Lula e as camadas mais pobres da população. Esse fenômeno foi consolidado em 2006, durante o segundo mandato de Lula, mas atualmente enfrenta novos desafios. Dados recentes mostram que o apoio ao governo entre aqueles com renda até dois salários mínimos chega a 46%. Contudo, entre os que ganham entre dois e cinco salários mínimos, o apoio cai drasticamente para 27%, um indicativo das dificuldades em dialogar com essa nova configuração da classe trabalhadora.

Transformações do Mercado de Trabalho

Segundo Singer, a reconfiguração do mercado de trabalho é um dos principais desafios enfrentados pelo governo Lula. Após a reforma trabalhista de 2017 e uma década de avanços tecnológicos, a classe trabalhadora tradicional foi substituída por uma geração de trabalhadores inseridos de forma precária, marcados pelo trabalho em plataformas digitais.

“Essas pessoas não têm a experiência do trabalho sindicalizado e enfrentam uma superexploração que as torna vulneráveis a discursos de extrema direita”, afirma o cientista político.

Além disso, a precarização do trabalho afeta diretamente as possibilidades de organização coletiva. Singer destaca que a fragmentação da classe trabalhadora dificulta a articulação de greves e movimentos sindicais, uma vez que os trabalhadores atuam de forma individualizada em plataformas digitais. Essa desorganização estrutural representa um desafio histórico para o PT, que nasceu de movimentos sindicais e tem sua base política ligada à luta por direitos trabalhistas.

O Papel do Custo de Vida

Outro fator que impacta a popularidade do governo é o aumento persistente do custo de vida. Singer destaca que o fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas reflete uma tendência global associada à desorganização das cadeias produtivas durante a pandemia de Covid-19 e agravada pela guerra na Ucrânia. No Brasil, essa situação afeta particularmente as classes com maior poder aquisitivo, que percebem um governo distante de suas demandas.

O impacto do custo de vida também é perceptível nas camadas mais pobres, ainda que o governo mantenha programas sociais como o Bolsa Família. Singer avalia que essas políticas são insuficientes para compensar o aumento generalizado de preços, especialmente em áreas como alimentação, energia e combustíveis, que comprometem significativamente o orçamento familiar.

Desafios Políticos e a Nova Direita

A ascensão da extrema direita também coloca obstáculos para o governo. Singer observa que a comunicação direta e agressiva, empregada por lideranças como Jair Bolsonaro, encontrou eco em uma população frustrada com as condições socioeconômicas. A fragmentação do eleitorado de direita tradicional, historicamente ligado ao PSDB, reforçou a base bolsonarista.

“O PT não pode adotar a mesma estratégia de comunicação, pois isso contraria os princípios da esquerda”, argumenta.

Além disso, a oposição ao governo se intensifica nas classes médias urbanas, que historicamente foram menos receptivas ao lulismo. Singer alerta para a necessidade de o PT encontrar novas formas de diálogo com esses setores, evitando a reprodução de discursos que reforcem a lógica neoliberal e o individualismo, características associadas ao empreendedorismo contemporâneo.

Possibilidades e Limites para 2026

A perspectiva de uma frente ampla em 2026 é vista como uma alternativa para conter a ascensão da direita radical. Singer acredita que o PT precisará intensificar o diálogo com setores vulneráveis e propor soluções que fortaleçam a inclusão social. Medidas como a isenção do Imposto de Renda para rendas até R$ 5 mil e a revisão das condições trabalhistas são vistas como estratégias necessárias, mas a resistência do Congresso conservador é um desafio.

O cientista político também destaca que o sucesso eleitoral em 2026 dependerá da capacidade do governo de comunicar resultados concretos de suas políticas. Programas voltados para a melhoria da qualidade de vida, como investimentos em educação e saúde, podem ser decisivos para reconquistar a confiança de setores da população que hoje demonstram insatisfação.


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