No marco de seu centenário, o jornal O GLOBO publica um editorial histórico assinado pelos herdeiros de Roberto Marinho, reafirmando os valores fundacionais da empresa, revisitando marcos de sua trajetória e projetando os desafios que se impõem à imprensa profissional em um mundo marcado por transformação digital, desinformação e disputas pela confiança pública. Intitulado “Um século de compromisso com o leitor e o futuro”, o texto é assinado por Roberto Irineu Marinho, José Roberto Marinho e João Roberto Marinho e integra a edição especial de aniversário, que celebra os 100 anos do jornal fundado em 1925 por Irineu Marinho.
A história de O GLOBO tem início em 29 de julho de 1925, quando Irineu Marinho, então afastado do jornal A Noite, decidiu criar um novo vespertino. Com base em sua experiência anterior e cercado de colaboradores leais, lançou O GLOBO com o objetivo de estabelecer um novo padrão de jornalismo urbano, acessível e comprometido com a modernização do país. No entanto, Irineu faleceu menos de um mês após o lançamento do jornal, aos 49 anos, deixando a missão de consolidar o projeto nas mãos de seu filho, então muito jovem, Roberto Marinho.
O editorial destaca que foi sob a liderança de Roberto que o jornal se transformou em um dos pilares da comunicação brasileira, alicerçando um conglomerado de mídia que se expandiu para a rádio, a televisão, a edição de livros e revistas, o jornalismo digital e as plataformas de streaming. A atuação de Roberto Marinho foi decisiva para conectar o GLOBO à própria história do Brasil republicano no século XX.
Inovação tecnológica como motor da permanência editorial
Segundo o texto, o GLOBO nunca enxergou a inovação como fim em si mesmo, mas como instrumento para qualificar o ofício de informar. O jornal foi o primeiro a publicar uma telefoto no Brasil (1936), a empregar radiofoto colorida (1959), e um dos pioneiros na informatização e digitalização de processos jornalísticos nos anos 1990. Ainda em 1996, foi também um dos primeiros jornais brasileiros a lançar um portal na internet.
O editorial observa que essas transformações técnicas ocorreram sem abrir mão dos valores editoriais centrais: precisão, agilidade, relevância e responsabilidade com o público. “A tecnologia não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta a serviço da informação”, escreveram os autores, pontuando que o jornalismo deve acompanhar o tempo sem abdicar de sua essência.
O jornalismo como ferramenta democrática e de compreensão do mundo
A família Marinho reforça que o jornalismo, mais do que profissão, é um método de produção de conhecimento, comparável à história. “Um rascunho da história”, como definem, por sua relação direta com o tempo presente. A apuração dos fatos, a ética editorial e o compromisso com a veracidade são, segundo o editorial, indispensáveis à saúde democrática de qualquer nação.
No atual ambiente de redes sociais — descrito como “cacofonia de vozes” onde emoção suplanta razão e verdades convivem com boatos —, os autores veem no jornalismo profissional um porto seguro. Ainda que falível, sua credibilidade decorre de práticas reconhecíveis, revisão constante e disposição para corrigir erros publicamente.
O legado de uma empresa familiar e o olhar para o futuro
O editorial destaca o papel da gestão familiar do Grupo Globo como um diferencial que permite à empresa pensar a longo prazo, preservando valores, investindo na qualidade editorial e resistindo à volatilidade do mercado.
“Empresas familiares bem conduzidas têm esta virtude distintiva: a capacidade de manter princípios que não se medem em trimestres, mas em décadas”, afirma o texto.
Além disso, a nova geração da família — como Paulo Daudt Marinho e Roberto Marinho Neto — já ocupa posições estratégicas e é preparada para enfrentar os novos desafios da era da inteligência artificial, da personalização algorítmica da informação e das transformações do comportamento do público leitor.
A experiência pessoal dos autores também é evocada. Eles contam como, ainda adolescentes, iniciaram suas trajetórias profissionais na redação do GLOBO, aprendendo com repórteres, editores e revisores o valor da responsabilidade jornalística. Essa formação de base, afirmam, moldou sua visão de mundo e orientou a condução do grupo nos anos seguintes.
Reconhecimento de erros e compromisso com a pluralidade
Ao longo do editorial, os irmãos Marinho reconhecem que, em cem anos de existência, houve falhas, equívocos editoriais e decisões que poderiam ter sido diferentes. A autocrítica, segundo eles, é parte essencial da trajetória de qualquer veículo jornalístico sério. “Erramos, como qualquer atividade humana”, admitem, reiterando que o mais importante é manter a disposição de rever posições e corrigir rumos.
Essa visão está vinculada ao respeito à pluralidade. O GLOBO, segundo os autores, nunca exigiu pensamento único de seus jornalistas, incentivando o confronto respeitoso de ideias e a diversidade nas redações como forma de produzir conteúdo mais equilibrado, com múltiplas visões e proximidade com a complexidade da realidade brasileira.
Um século feito a muitas mãos
O editorial também homenageia os profissionais de diferentes áreas que ajudaram a construir o jornal, dos jornalistas e gráficos aos técnicos, motoristas e leitores. Citam ainda outros membros da família Marinho, como Ricardo, Rogério, Ana Luiza e Luiz Eduardo, que participaram ativamente da gestão do jornal e da expansão do grupo.
“O patrimônio de uma empresa de comunicação não são apenas seus ativos financeiros ou tecnológicos, mas também sua credibilidade — conquistada dia a dia, notícia a notícia”, reforçam os autores, sublinhando a relação de confiança construída com os leitores ao longo de gerações.
Um jornalismo renovado, mas fiel à sua missão
O texto finaliza reafirmando que o jornalismo atual não é o mesmo de 1925 — e não poderia ser. O Brasil mudou, o mundo mudou e os leitores também. Ainda assim, os princípios fundadores permanecem: a busca pela verdade, a coragem editorial e o compromisso com o pluralismo democrático.
Diante do cenário de incerteza, os irmãos Marinho projetam um futuro em que o jornalismo precisará lidar com formatos e ferramentas que ainda nem se consolidaram. Porém, independentemente da tecnologia, a missão do GLOBO permanece intacta: oferecer informação confiável, apuração rigorosa e análise aprofundada, sempre a serviço da sociedade.
Quem são os irmãos Marinho: herdeiros e gestores do Grupo Globo
José Roberto Marinho, Roberto Irineu Marinho e João Roberto Marinho são os três filhos de Roberto Marinho (1904–2003), fundador do Grupo Globo, e atualmente são os principais acionistas e dirigentes do conglomerado, que se consolidou como o maior grupo de mídia da América Latina.
José Roberto Marinho
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Atua como vice-presidente do Grupo Globo.
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É diretor da Fundação Roberto Marinho, entidade responsável por projetos sociais e educacionais de grande impacto, como o Telecurso e o Canal Futura.
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Tem atuação destacada no setor do meio ambiente e da educação, integrando iniciativas como o Movimento Viva Água, o Conselho do Instituto Arapyaú e o conselho curador da Fundação Amazonas Sustentável.
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É visto como o irmão com perfil mais voltado à responsabilidade social, filantropia e sustentabilidade.
Roberto Irineu Marinho
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Foi o presidente executivo do Grupo Globo de 2004 a 2017, sendo o responsável pela transição geracional e tecnológica do grupo após a morte do pai.
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Atualmente, integra o Conselho de Administração da empresa.
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É também empresário no setor agroindustrial: é proprietário da Fazenda Sertãozinho, em Minas Gerais, onde é produzido o Café Orfeu, marca reconhecida por sua qualidade gourmet.
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É associado à imagem de gestor conservador e institucional, com forte ênfase em governança corporativa.
João Roberto Marinho
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É o atual presidente do Conselho de Administração do Grupo Globo.
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Também ocupa o cargo de presidente do Comitê Editorial e Institucional, sendo o responsável por zelar pelos princípios editoriais, a linha jornalística e os valores institucionais do grupo.
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Tem papel central nas decisões sobre conteúdo e posicionamento da empresa diante de questões políticas, éticas e culturais.
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É o mais influente entre os três irmãos em relação ao jornalismo e à imagem pública do conglomerado.
Grupo Globo: abrangência e importância
O Grupo Globo controla empresas nas áreas de:
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Televisão: TV Globo, canais pagos (GloboNews, Multishow, SporTV etc.)
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Imprensa escrita: Jornal O Globo, Extra, Valor Econômico (em sociedade com a Folha)
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Rádio: CBN, Rádio Globo
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Editoração e Educação: Fundação Roberto Marinho, Globo Livros
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Streaming: Globoplay, um dos principais concorrentes do setor no Brasil
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Tecnologia e Publicidade: Globo.com, Globo Ads
É reconhecido pela sua influência política, econômica e cultural no Brasil e no exterior, mantendo presença significativa em debates sobre democracia, liberdade de imprensa, sustentabilidade e inovação.
Memória institucional
O editorial de centenário do jornal O GLOBO é uma peça de memória institucional e reposicionamento estratégico. Ao mesmo tempo em que celebra a trajetória de sucesso da empresa — marcada por inovações e expansão —, que busca ancorar a legitimidade do grupo em seus valores históricos e familiares. Apesar de reconhecer erros, evita revisitar episódios específicos de controvérsia editorial, como o apoio a regimes autoritários no século XX, optando por uma narrativa mais genérica sobre acertos e falhas.
O conteúdo editorial reafirma o jornalismo como serviço público essencial e propõe um modelo de empresa baseado em responsabilidade social, longevidade e confiança no Brasil. Trata-se, portanto, de uma reafirmação de princípios num momento com forte carga simbólica para o futuro da imprensa no país.












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