A Marinha do Brasil inaugurou nesta quarta-feira (07/12/2022) um busto em homenagem ao Almirante Joaquim Marques Baptista de Leão, figura central da história naval brasileira, que se destacou tanto em operações militares quanto em momentos de forte tensão política na Primeira República. A cerimônia ocorreu em local simbólico da capital baiana, próximo à Avenida que leva o seu nome, e reuniu autoridades civis e militares. O Comandante da Marinha destacou que a trajetória do almirante segue como exemplo de honra, fidelidade, abnegação e patriotismo.
A solenidade contou ainda com a participação do Poder Judiciário da Bahia (PJBA). O Desembargador Baltazar Miranda Saraiva, presidente da Comissão de Segurança do Tribunal, representou a Corte baiana no ato realizado em 07 de dezembro de 2022 (quarta-feira), no Porto da Barra, no cruzamento da Avenida Princesa Isabel com a Rua Barão de Sergy.
Na ocasião, o então Comandante da Marinha, Almir Garnier Santos, sublinhou a relevância histórica do homenageado, destacando que Marques de Leão foi um líder que soube servir ao país com espírito público e respeito à sociedade baiana.
O valor da memória nacional
A instalação do monumento representa mais que uma reverência histórica: simboliza a preservação de princípios cívicos e morais fundamentais. Em discurso, o Comandante da Marinha enfatizou que a homenagem é também um ato pedagógico, capaz de inspirar gerações futuras em um momento em que se intensificam debates sobre ética, responsabilidade institucional e limites do poder estatal.
A escolha de Salvador reforça o vínculo entre o almirante e a cidade, cenário de sua decisão mais emblemática: em 1912, Marques de Leão renunciou ao cargo de Ministro da Marinha ao recusar cumprir uma ordem judicial que determinava o bombardeio da capital baiana em meio a disputas políticas.
Um “velho lobo do mar”
Nascido no Rio de Janeiro em 6 de janeiro de 1847, Marques de Leão ingressou na Escola de Marinha em 1863 e, dois anos depois, já estava embarcado rumo à Guerra do Paraguai (1864–1870). Atuou em operações decisivas, como a célebre Passagem de Humaitá, que abriu caminho para a vitória das forças brasileiras.
Ao longo da carreira, comandou navios, foi diretor da Escola Naval, integrou o Conselho Naval e assumiu cargos estratégicos de comando. Em 1910, chegou ao posto de Ministro da Marinha, onde implementou a chamada Reforma Marques de Leão, que descentralizou processos e fortaleceu a administração naval.
Modernização da Marinha
Durante sua gestão, deu início à construção do Arsenal de Marinha na Ilha das Cobras, criou divisões operacionais especializadas e expandiu o sistema de faróis e comunicações, inaugurando estações radiográficas. Também ampliou a frota com o Iate Presidencial Tenente Ribeiro e o Transporte Itajubá, fortalecendo a logística e a operacionalidade da Força Naval.
Esse conjunto de iniciativas consolidou sua imagem de gestor moderno e inovador, atento às transformações tecnológicas do início do século XX e à necessidade de preparar a Marinha para novos desafios.
A “Carta de Ouro”: símbolo de resistência moral
O gesto que imortalizou o almirante ocorreu em 1912. Diante da ordem de bombardear Salvador, renunciou ao cargo e escreveu ao Presidente da República uma carta que denunciava a decisão como “uma iniquidade que atenta menos contra a Constituição que contra a civilização e a dignidade humana”.
A população baiana, em reconhecimento, mandou gravar suas palavras em folhas de ouro, dando origem à célebre “Carta de Ouro”. Esse documento consolidou sua imagem como militar que colocou os valores éticos e a proteção da sociedade acima da obediência hierárquica.
Reconhecimento e homenagens
O legado de Marques de Leão ultrapassa seu tempo. A Marinha batizou com seu nome o Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão (Camaleão), uma das mais modernas unidades de capacitação militar. Ele também recebeu diversas condecorações, como medalhas da Campanha do Paraguai e da Passagem de Humaitá, além de ordens honoríficas do Cruzeiro, da Rosa, de Cristo e de Avis.
Em Salvador, seu nome está eternizado na Avenida Marques de Leão, importante via da Barra, e agora reforçado com o busto inaugurado, símbolo de um legado que permanece vivo na memória cívica da cidade.
Marco de resistência cívica
A homenagem a Marques de Leão revela como a memória histórica pode servir de guia em momentos de crise institucional. Sua renúncia em 1912 simboliza a tensão permanente entre disciplina militar e consciência ética. A “Carta de Ouro” não é apenas um documento, mas um marco de resistência cívica, capaz de dialogar com os dilemas contemporâneos da democracia.
Ao resgatar esse episódio, a Marinha reafirma que sua história não se limita a feitos bélicos, mas também à defesa de valores que sustentam a vida em sociedade. O exemplo de Marques de Leão ecoa como um convite à reflexão: a verdadeira autoridade se exerce quando os princípios se sobrepõem às conveniências políticas.









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