No domingo (07/09/2025), Tarcísio de Freitas (Republicanos) liderou um dos principais atos de 7 de Setembro na avenida Paulista, defendendo anistia ampla aos condenados do 8 de Janeiro, atacando o STF e chamando Alexandre de Moraes de “ditador”. Diante de 42 mil pessoas, o governador pressionou o presidente da Câmara, Hugo Motta, a pautar a proposta e sustentou que o julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo é “injusto” e baseado em “narrativas”.
O evento contou ainda com discursos emocionados de Michelle Bolsonaro, que falou em “humilhação” e garantiu que o ex-presidente “não vai desistir”, além da pregação do pastor Silas Malafaia, que exaltou Tarcísio como liderança da direita. Bandeiras dos Estados Unidos e de Israel foram exibidas em meio a faixas em línguas estrangeiras, numa tentativa de internacionalizar a pauta bolsonarista. Paralelamente, no Rio de Janeiro, o senador Flávio Bolsonaro classificou o julgamento como “farsa” e “segunda facada”, em protesto que reuniu número semelhante de manifestantes e reforçou a cobrança por anistia ampla, incluindo o ex-presidente.
Paulista como palco político: discurso e narrativa
Ataques ao STF e pedido de anistia
Tarcísio afirmou que “não haverá ditadura de um Poder sobre outro”, defendeu que Bolsonaro possa concorrer em 2026 e disse que a delação de Mauro Cid seria “coagida” e “mentirosa”. O governador rechaçou a existência de crime na acusação de trama golpista e pediu a Hugo Motta (Republicanos-PB) a inclusão do projeto de anistia na pauta do Plenário.
Retórica de ruptura e mobilização
Sob gritos de “fora, Moraes”, Tarcísio chamou o ministro de “ditador” e associou a pauta da anistia à defesa da “liberdade” e do “Estado de Direito”. A fala consolidou a guinada do governador para um discurso mais alinhado ao núcleo bolsonarista, deslocando-se do tom moderado que vinha sendo cultivado em agendas administrativas.
Simbologia e internacionalização do protesto
Bandeiras estrangeiras e recados ao exterior
O ato exibiu bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, além de faixas em inglês e espanhol, numa estratégia para internacionalizar a narrativa. Em meio a tensões diplomáticas e disputas sobre tarifas e sanções, organizadores buscaram amplificar o alcance do evento, conectando a pauta doméstica a audiências externas.
Música, emoção e linguagem religiosa
A presença de Michelle Bolsonaro, que discursou às lágrimas, e do pastor Silas Malafaia, com oratória de forte teor religioso, reforçou a estética ritualizada de mobilizações à direita. A combinação de símbolos nacionais e estrangeiros, música e doutrinação confere coesão emocional à base e aumenta a permanência do público nos atos.
Metodologia de público e comparação histórica
Números e séries comparativas
Em São Paulo, a estimativa foi de 42,2 mil pessoas às 16h03. No Rio, 42,7 mil às 13h. A medição utilizou imagens de drones e sistemas de inteligência artificial, com margem de erro de 12% para mais ou para menos, método aceito em levantamentos recentes.
Tendência dos atos
A série histórica indica que a mobilização superou o ato de agosto de 2025 em São Paulo (37,6 mil), ficou abaixo de setembro de 2024 (45,4 mil) e distante do pico de fevereiro de 2024 (185 mil). A flutuação sugere resiliência da base, mas sem ruptura em escala nacional.
Copacabana e o tom da oposição
Flávio Bolsonaro eleva a tensão
Em Copacabana, Flávio Bolsonaro chamou o julgamento do STF de “farsa” e “segunda facada” contra o pai, previu reação nas ruas em caso de condenação e exigiu que a anistia contemple Jair Bolsonaro, defendendo o slogan: “anistia é sobre fatos, não pessoas”.
Enquadramento jurídico-político
O discurso ataca a legitimidade do STF e costura a pauta da anistia como solução política pós-condenação. O enquadramento transfere o foco do mérito jurídico para a vontade popular — estratégia que tensiona a relação entre jurisdição constitucional e representação majoritária.
Brasília reage: riscos institucionais e cálculo legislativo
PT e Planalto contra a anistia
O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, disse que Tarcísio “cruzou o Rubicão” e insinuou coação no curso do processo. A ministra Gleisi Hoffmann articula reunião com ministros de centro e centro-direita para frear a anistia no Congresso, sinalizando coordenação para barrar a urgência e desidratar versões que incluam o ex-presidente.
Câmara, Senado e o papel de Alcolumbre
Na Câmara, Hugo Motta avalia cenários de votação sob pressão do Centrão. No Senado, Davi Alcolumbre indica preferência por redução de penas e exclusão da cúpula dos beneficiados. A divergência entre as Casas pode retardar a tramitação e elevar o custo político de um eventual perdão amplo.
2026 no horizonte: herança, moderação e risco
Tarcísio entre a gestão e o palanque
Ao adotar retórica de confronto, Tarcísio consolida a herança bolsonarista e busca a bênção eleitoral da família, mas arrisca alienar o eleitorado de centro. O movimento fortalece a narrativa do Planalto de que a disputa tende à polarização, facilitando o contraste com “golpismo” e anistia.
Planos A e B da direita
A direita testará arranjos como Tarcísio + Michelle ou Michelle cabeça de chapa, com Tarcísio buscando a reeleição em SP. Ambos dependem do cálculo sobre a força de Lula e do efeito de uma eventual condenação de Bolsonaro na coesão da base.
Opinião pública e dados de pesquisa
Posição da maioria e medidas restritivas
Levantamentos recentes indicam maioria favorável às medidas cautelares contra Bolsonaro (tornozeleira e restrições de circulação) e rejeição majoritária à anistia ampla. Esses dados funcionam como freio político à pauta de perdão generalizado e incentivo a versões restritivas no Congresso.
Disputa pela narrativa
Enquanto os atos preservam capilaridade e energia, pesquisas sugerem limites à expansão para além do núcleo duro. O centro volátil — decisivo em 2018 e 2022 — permanece sensível a excessos, punindo radicalizações que comprometam estabilidade institucional e resultados econômicos.
Direito, história e o paralelo da anistia
1979 x 2025: semelhanças e diferenças
Tarcísio comparou a proposta atual à Anistia de 1979. Especialistas lembram que o texto de então contemplou perseguidos políticos, torturadores e agentes do regime, produzindo efeitos ambíguos sobre memória, verdade e justiça. O paralelo exige cautela: o contexto democrático atual e o escopo dos crimes são distintos.
Separação dos Poderes e Estado de Direito
A crítica frontal a ministros do STF desafia a separação de poderes. Para juristas, tensionar o árbitro constitucional durante julgamento em curso pode ser lido como pressão indevida, ainda que protegido por liberdade de expressão. O equilíbrio repousa em distinguir crítica institucional de ataques deslegitimadores.
O Congresso no centro do tabuleiro
Cenários de tramitação e custo político
Há quatro vias em debate:
- Anistia ampla (inclui Bolsonaro e cúpula);
- Anistia restrita (fatos de menor gravidade, sem liderança);
- Redução de penas (modulação punitiva);
- Engavetamento (sem avanço em Plenário).
Efeitos colaterais
Uma anistia ampla pode desorganizar incentivos de responsabilização futura; a restrita enfrenta desgaste com a base; a redução de penas vira acordo de meio-termo; o engavetamento preserva status quo, mas prolonga a crise narrativa.
Confronto explícito
O 7 de Setembro cristalizou a estratégia de escalada retórica de Tarcísio, que troca ambiguidade moderada por confronto explícito com o STF. O cálculo é claro: herdar o eleitorado de Bolsonaro e pressionar o Congresso por anistia enquanto testa a viabilidade presidencial. O risco também é nítido: perder centro, reforçar a posição do governo ao polarizar a disputa e elevar custos de governabilidade em São Paulo.
No plano institucional, a naturalização de ataques personalistas a ministros durante julgamentos em curso fragiliza o ambiente de legalidade, embaralha fronteiras entre crítica e intimidação e dificulta soluções de compromisso no Legislativo. A fotografia do momento indica campanha de extremos e um Congresso compelido a arbitrar limites entre clemência política e responsabilização penal.
*Com informações do Jornal Folha de S.Paulo.











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