Às vésperas da reunião do G20 na África do Sul, um relatório divulgado na segunda-feira (03/11/2025) alerta que as desigualdades socioeconômicas estão tornando as pandemias mais prováveis, letais e duradouras. O estudo, intitulado “Quebrando o Ciclo da Pandemia da Desigualdade, Construindo Segurança da Saúde na Era Global”, foi conduzido ao longo de dois anos pelo Conselho Global sobre Desigualdade, Aids e Pandemias.
Desigualdade como causa e consequência das crises sanitárias
Segundo o relatório, sociedades mais desiguais são mais vulneráveis a surtos e menos capazes de responder de forma eficaz. Durante a pandemia de Covid-19, países com maior disparidade social registraram taxas de mortalidade mais elevadas e impactos econômicos mais profundos.
A falta de acesso a educação, habitação adequada e sistemas de saúde resilientes aumentou o contágio e dificultou a recuperação econômica. Ao mesmo tempo, as pandemias aprofundaram as desigualdades, empurrando milhões para a pobreza e ampliando o fosso entre países ricos e pobres.
Impactos sociais e econômicos da pandemia
Desde o início da Covid-19, 165 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza extrema, enquanto a riqueza dos mais ricos aumentou 25%. Grupos como mulheres, trabalhadores informais e minorias étnicas foram os mais afetados, enfrentando perdas significativas de emprego e renda.
O estudo conclui que as desigualdades de gênero, sociais e econômicas afetam diretamente a capacidade de resposta dos países a emergências de saúde pública, tornando indispensável o investimento em políticas inclusivas e sustentáveis.
Quatro áreas prioritárias para romper o ciclo desigualdade-pandemia
O relatório propõe quatro eixos de ação interligados para prevenir futuras crises sanitárias e reduzir vulnerabilidades globais.
Em primeiro lugar, recomenda suspender pagamentos de dívidas de países em desenvolvimento durante períodos de crise e criar mecanismos automáticos de financiamento emergencial. Em segundo, defende investimentos nos determinantes sociais da saúde, como educação, habitação, trabalho digno e nutrição.
Acesso equitativo à tecnologia e fortalecimento da governança
O terceiro ponto enfatiza a necessidade de garantir acesso igualitário a medicamentos e tecnologias, promovendo produção regional e compartilhamento de conhecimento científico. O relatório propõe também o levantamento temporário de patentes durante pandemias para acelerar a resposta global.
Por fim, recomenda estruturas de governança mais inclusivas, com participação de comunidades locais e organizações de base, fortalecendo a confiança pública e a eficácia das políticas sanitárias.
Financiamento internacional em declínio e apelo à solidariedade global
O estudo alerta para uma redução de até 40% na ajuda internacional à saúde, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). A queda ameaça serviços essenciais, como vacinação e saúde materna, e amplia as lacunas entre países com diferentes níveis de recursos.
Os autores destacam que as pandemias não são inevitáveis, mas resultado de decisões políticas e econômicas que mantêm desigualdades. A segurança sanitária global, defendem, deve ser reconcebida como uma questão de equidade e justiça, e não apenas como estratégia técnica de contenção de doenças.
Influência nas discussões do G20 e perspectivas futuras
O Conselho Global pretende influenciar as discussões do G20 e fortalecer compromissos multilaterais por um sistema global de saúde mais justo e resiliente. Entre os líderes do estudo estão o prêmio Nobel da Economia Joseph Stiglitz, a ex-primeira-dama da Namíbia Monica Geingos e o epidemiologista britânico Michael Marmot.
A diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, afirmou que reduzir desigualdades dentro e entre países é essencial para prevenir novas pandemias. O relatório conclui que romper o ciclo desigualdade-pandemia é uma questão de sobrevivência coletiva e responsabilidade compartilhada.
*Com informações da ONU News.










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