Presidente Lula defende soberania digital, governança da IA e protagonismo do Sul Global no G20 e no IBAS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, neste domingo (23/11/2025), em Joanesburgo, uma agenda integrada que combina soberania digital, governança global da inteligência artificial, valorização de minerais críticos e trabalho decente no centro das decisões do G20 e do Fórum Índia-Brasil-África do Sul (IBAS). Em discursos e entrevistas durante a Cúpula de Líderes do G20 e a 6ª Cúpula do IBAS, Lula denunciou o risco de um “novo colonialismo digital”, pediu que a ONU seja o eixo da regulação da IA, defendeu que países detentores de recursos naturais participem da cadeia de valor e reforçou o papel do Sul Global no combate à desigualdade, na transição energética e na preservação do multilateralismo.

Soberania digital, minerais críticos e valor agregado

Ao intervir no painel “Um Futuro Justo e Equitativo para Todos”, Lula articulou a relação entre minerais críticos, inovação tecnológica e modelo de desenvolvimento industrial. Segundo ele, os países com grandes reservas de minerais estratégicos – como lítio, níquel, cobre e terras raras – não podem seguir presos ao papel de meros fornecedores de matéria-prima, reproduzindo um padrão histórico de dependência econômica.

Para o presidente, o centro do debate não é apenas quem possui os recursos, mas quem controla o conhecimento, a tecnologia e o valor agregado gerado a partir deles. Nesse contexto, Lula destacou que a transição energética e a digitalização da economia precisam ser acompanhadas por políticas de industrialização local, formação de mão de obra qualificada e transferência de tecnologia.

O Brasil foi apresentado como exemplo de país que tenta alinhar recursos naturais a estratégias de desenvolvimento. Lula mencionou a criação do Conselho Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, órgão voltado à formulação de políticas para garantir que a exploração desses bens esteja vinculada à agregação de valor, à inovação e à proteção ambiental. Para ele, soberania não se mede apenas pelo tamanho das reservas, mas pela capacidade de transformá-las em bem-estar social.

Inteligência artificial e o risco de “colonialismo digital”

No mesmo painel, Lula chamou a atenção para a dimensão geopolítica da inteligência artificial (IA) e da economia de dados. Ele apontou que 2,6 bilhões de pessoas permanecem fora do mundo digital, evidenciando uma divisão profunda entre sociedades altamente conectadas e regiões com acesso precário à internet.

O presidente advertiu que, quando poucos atores concentram algoritmos, dados e infraestrutura, a inovação tecnológica deixa de ser instrumento de inclusão e passa a aprofundar desigualdades, consolidando nova forma de dependência. Essa dinâmica, afirmou, pode configurar um “colonialismo digital”, no qual países ricos controlam plataformas, sistemas de IA e fluxos de dados, enquanto o restante do mundo se limita a consumir produtos e serviços sem participar das etapas de decisão e criação.

Diante desse cenário, Lula defendeu a construção de uma governança global da IA, com protagonismo das Nações Unidas, e elogiou a “Iniciativa IA para a África”, lançada pela África do Sul. Para ele, a regulação da inteligência artificial deve contemplar direitos humanos, proteção de dados, transparência algorítmica, combate à discriminação e acesso equitativo às tecnologias emergentes, sob pena de ampliar assimetrias entre Norte e Sul.

Trabalho decente, automação e proteção social

Outro eixo central do discurso de Lula foi a relação entre avanços tecnológicos e condições de trabalho. De acordo com dados apresentados pelo presidente, cerca de 40% dos trabalhadores do mundo estão em ocupações que podem ser automatizadas ou profundamente transformadas pela IA, o que coloca milhões de empregos em situação de vulnerabilidade.

Lula insistiu que não haverá “futuro justo e equitativo” sem a garantia de trabalho decente, com direitos preservados, renda digna e proteção social. Para ele, cada painel solar, cada chip e cada linha de código deve carregar a marca da inclusão social, em vez de concentrar ganhos nas mãos de poucos agentes econômicos.

O presidente defendeu que governos, empresas e organismos internacionais adotem políticas de qualificação profissional, reconversão produtiva e fortalecimento dos sistemas de proteção social, de forma a evitar que a transição digital e energética produza um exército de trabalhadores descartados. A tecnologia, ressaltou Lula, deve fortalecer e não fragilizar direitos trabalhistas e sociais.

Desigualdade como emergência global e papel do G20

Nas sessões anteriores da Cúpula do G20, Lula já havia enfatizado que a desigualdade precisa ser tratada como “emergência global”. O presidente apresentou propostas como:

  • troca de dívida por investimento em desenvolvimento e ação climática,
  • taxação de super-ricos,
  • criação de novos instrumentos de financiamento para países de baixa e média renda,
  • reforço a políticas de proteção social e segurança alimentar.

Na avaliação do governo brasileiro, a combinação de crise climática, concentração de renda e restrições fiscais em países endividados exige uma revisão das regras de financiamento internacional. O G20, que reúne mais de 80% do PIB mundial, 75% do comércio internacional e 60% da população do planeta, foi apontado por Lula como fórum central para redesenhar instituições, mecanismos de crédito e normas econômicas.

O presidente apoiou o painel proposto pela África do Sul sobre redução do risco de desastres, destacando que, diante de eventos extremos, infraestruturas, sistemas de energia, transporte e abastecimento serão testados de forma contínua. Ele defendeu investimentos em adaptação climática, argumentando que cada dólar aplicado em resiliência evita múltiplos dólares em prejuízos futuros.

COP30 em Belém, Acordo de Belém e transição energética

Lula também utilizou a plataforma do G20 para fazer um balanço da COP30, concluída em Belém (PA), com aprovação por consenso do Acordo de Belém. O texto final reforça compromissos de aumento de investimentos em adaptação às mudanças do clima e em ações centradas nas pessoas, ainda que não tenha incorporado, de forma explícita, um cronograma detalhado para eliminação gradual dos combustíveis fósseis.

Segundo o presidente, o Brasil insistiu em incluir um “Mapa do Caminho” para o fim do uso de petróleo e carvão, mas enfrentou resistência de grandes produtores. O governo brasileiro decidiu apoiar um texto de consenso, complementado por documento paralelo apresentado pelo próprio Brasil, mantendo o tema em discussão. Para Lula, a COP30 mostrou que o debate sobre combustíveis fósseis é inevitável e que a “semente” dessa transição foi plantada.

Ele ressaltou que o Brasil já dá exemplos de reconversão energética com o uso de biodiesel no diesel e de etanol na gasolina, além da expansão de fontes renováveis. A posição brasileira é de que os recursos obtidos com petróleo devem ser redirecionados para financiar a transição energética, evitando que a exploração de combustíveis fósseis adie investimentos em novas matrizes.

Multilateralismo, ausência dos EUA e protagonismo do G20

Em coletiva de imprensa, Lula avaliou que os resultados do G20 e da COP30 comprovam que o multilateralismo segue vivo, apesar de episódios de ausência ou distanciamento de potências. O presidente minimizou a ausência de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, na Cúpula de Líderes do G20, lembrando que o fórum já realizou reuniões em outras ocasiões sem chefes de Estado de grandes países.

Lula destacou que, mesmo sem a participação norte-americana, o G20 aprovou por unanimidade a declaração final, com 19 países endossando o documento negociado em Joanesburgo. Para ele, os Estados Unidos permanecem como maior economia do mundo, mas isso não impede que as demais nações mostrem capacidade de tomar decisões conjuntas e estabelecer agendas próprias.

O presidente fez críticas ao protecionismo e ao unilateralismo, que, em sua avaliação, ressurgem como respostas simplistas a uma realidade complexa. Ele lembrou que, após a crise financeira de 2008, a combinação de austeridade fiscal, desigualdade crescente e tensões geopolíticas produziu efeitos ainda sentidos em diversas economias.

Acordo Mercosul–União Europeia: compromisso para dezembro

Na mesma coletiva, Lula anunciou que pretende assinar o acordo Mercosul–União Europeia em 20 de dezembro, classificando-o como “possivelmente o maior acordo comercial do mundo”, envolvendo cerca de 722 milhões de habitantes e um PIB combinado estimado em US$ 22 trilhões.

O presidente salientou que, após a assinatura, haverá “muita tarefa” até que o acordo gere resultados concretos, incluindo aprovação legislativa, adequações regulatórias e ajustes em cadeias produtivas. Ainda assim, o governo brasileiro vê o tratado como oportunidade para ampliar exportações industriais e agrícolas, atrair investimentos, modernizar normas de comércio e consolidar a inserção do país em cadeias globais de valor.

Relação com a Alemanha, Belém e Fundo Florestas Tropicais

Lula também se reuniu, em Joanesburgo, com o premiê alemão Friedrich Merz, em meio ao mal-estar provocado por declarações do líder europeu sobre Belém durante a COP30. Segundo comunicado oficial, ambos concordaram em fortalecer as relações comerciais, culturais, sociais e tecnológicas entre Brasil e Alemanha.

O governo brasileiro destacou o aporte alemão de 1 bilhão de euros no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), iniciativa lançada pelo Brasil para apoiar a preservação de florestas tropicais e garantir alternativas sustentáveis a comunidades tradicionais. Lula confirmou participação na abertura da feira industrial de Hannover, em 2026, evento que terá o Brasil como país parceiro, e convidou Merz para uma visita de Estado ao Brasil.

No plano simbólico, o encontro funcionou como tentativa de recompor a imagem de Belém no cenário internacional, após as críticas de Merz, e de reforçar a percepção de que a COP30 foi um sucesso logístico, político e diplomático, segundo avaliação do presidente brasileiro.

IBAS: retorno de um fórum do Sul Global

À margem do G20, Lula participou da 6ª Cúpula de Líderes do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (IBAS), retomada após mais de uma década sem encontros no mais alto nível. O presidente descreveu a reunião como passo central para “reavivar a coordenação trilateral” e gerar “sentimento de esperança”.

Lula argumentou que a condição de grandes democracias emergentes do Sul Global confere ao IBAS uma identidade própria. Brasil, Índia e África do Sul compartilham desafios relacionados a desigualdade, pobreza, desenvolvimento sustentável, segurança alimentar e acesso a tecnologias estratégicas, além de reivindicarem maior voz em organismos multilaterais, como ONU, G20 e BRICS.

O presidente defendeu que o IBAS assuma protagonismo em temas como:

  • governança de dados e inteligência artificial,
  • direitos humanos, equidade de gênero e direitos sexuais e reprodutivos,
  • combate ao extremismo e defesa da democracia,
  • acesso a vacinas, medicamentos, insumos de saúde e tecnologias industriais,
  • cooperação em segurança alimentar e combate à pobreza.

Fundo IBAS e cooperação Sul–Sul

Lula destacou o Fundo IBAS, criado em 2004 como instrumento de cooperação Sul–Sul “simples e eficaz”. O mecanismo já financiou 51 projetos em 40 países, com foco em redução da pobreza, segurança alimentar, fortalecimento de capacidades locais e desenvolvimento social.

Segundo o presidente, a atuação do Fundo IBAS serviu de embrião para a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, proposta brasileira que acabou endossada pelo G20 durante a presidência do Brasil no bloco. A ideia é que a coordenação trilateral entre Índia, Brasil e África do Sul se reflita de forma permanente em fóruns como ONU, G20 e BRICS, ampliando a influência do Sul Global na redefinição de regras econômicas, ambientais e tecnológicas.

Lula resumiu o espírito da reunião com uma frase de efeito: “O sentimento que tenho com esta reunião é de esperança.”

Presença militar dos EUA no Caribe e preocupação com a Venezuela

Ao tratar de temas geopolíticos, Lula demonstrou preocupação com a intensificação da presença militar dos Estados Unidos no Mar do Caribe, especialmente na costa da Venezuela. Segundo ele, a América do Sul é historicamente uma zona de paz, sem armas nucleares ou bombas atômicas, e a escalada militar na região pode desestabilizar o continente.

O presidente afirmou que pretende conversar com Donald Trump sobre o tema, para evitar que a situação se transforme em conflito aberto. Ele comparou o cenário ao da guerra entre Rússia e Ucrânia, ressaltando que “para começar, basta dar um tiro; para terminar, não se sabe como termina”. Lula insistiu que é preciso buscar soluções diplomáticas antes do início de qualquer confronto, lembrando que o Brasil tem responsabilidade regional e faz fronteira com a Venezuela.

Agenda africana: África do Sul, Moçambique e os 50 anos de relações diplomáticas

A viagem de Lula à África inclui, além da participação no G20 e no IBAS, uma visita de trabalho a Moçambique, em Maputo, nesta segunda-feira (24/11/2025). A agenda se insere nas comemorações dos 50 anos de relações diplomáticas entre os dois países.

Antes, em Joanesburgo, Lula se reuniu com o presidente Cyril Ramaphosa, que conduz a presidência do G20 sob o lema “Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade”. A pauta bilateral inclui ampliação do comércio, cooperação em políticas de inclusão social e segurança alimentar, além da possibilidade de aprofundar o acordo entre o Mercosul e a União Aduaneira da África Austral.

O governo brasileiro avalia que os êxitos da COP30 em Belém e da Cúpula do G20 em Joanesburgo são “ativos essenciais” para o fortalecimento do multilateralismo e da presença do Sul Global nos principais fóruns internacionais.

Multilateralismo ambicioso, desafios internos

A estratégia diplomática exposta por Lula no G20, na COP30 e no IBAS combina três eixos principais: defesa do multilateralismo, reconfiguração das regras econômicas globais e valorização do papel do Sul Global. Ao articular soberania digital, governança da IA, transição energética e combate à desigualdade, o governo brasileiro busca posicionar o país como mediador entre Norte e Sul, capaz de dialogar com potências tradicionais e emergentes.

Há, contudo, desafios evidentes. A denúncia do “colonialismo digital” e a defesa de protagonismo em IA exigem do Brasil investimentos consistentes em pesquisa, infraestrutura digital, indústria de semicondutores e formação de especialistas, sob risco de o discurso não se traduzir em capacidade concreta. Da mesma forma, a ênfase em minerais críticos e agregação de valor demanda políticas industriais de longo prazo, estabilidade regulatória e coordenação com o setor privado.

No plano regional, a preocupação com o Caribe e a Venezuela reforça a intenção de projetar o Brasil como fiador da paz na América do Sul, mas coloca o país diante de tensões com os Estados Unidos e de um contexto interno complexo, em que divergências políticas podem influenciar a condução da política externa. O acordo Mercosul–União Europeia e a cooperação com a Alemanha surgem como testes importantes da capacidade brasileira de transformar capitais diplomáticos em resultados econômicos, preservando, ao mesmo tempo, compromissos ambientais e sociais.

Lula utilizou o G20, o IBAS e o balanço da COP30 para defender uma agenda centrada em soberania digital, governança global da inteligência artificial, valorização de minerais críticos e trabalho decente. O presidente propôs tratar a desigualdade como emergência global, criticou o risco de “colonialismo digital”, reforçou o protagonismo do Sul Global e o valor do multilateralismo, ao mesmo tempo em que articulou acordos comerciais, cooperação ambiental e preocupação com tensões no Caribe e na Venezuela.
Presidente Lula articula soberania digital, IA, minerais críticos e trabalho decente no G20 e IBAS, reforçando multilateralismo, Sul Global e efeitos da COP30 em Belém.

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