STJ enfrenta desgaste com investigação fragilizada sobre venda de decisões e atuação controversa de delegado afastado

A investigação sobre o suposto esquema de tráfico de influência e venda de decisões no Superior Tribunal de Justiça (STJ) permanece fragilizada, marcada por contradições internas, ausência de provas materiais e pelo impacto institucional provocado pelo relatório extraoficial elaborado pelo delegado Marco Bontempo, afastado do caso após produzir um documento repleto de suposições e vazado à imprensa. O inquérito, sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, tenta reconstruir fatos que envolvem grilagem de terras, manipulação de informações e a atuação de um estelionatário que se passava por advogado, mas ainda carece de elementos sólidos.

A apuração conduzida pela Polícia Federal ganhou novos contornos após a constatação de que o procedimento acumula falhas estruturais. Segundo integrantes da corporação, o material recolhido até o momento não sustenta a tese de interferência direta de ministros do STJ em supostos acordos ilícitos. A análise interna revela que o relatório de Bontempo, embora extenso, carece de provas robustas, apresentando apenas ilações, conexões frágeis e interpretações subjetivas.

Paralelamente, a investigação expôs vulnerabilidades profundas no Judiciário em regiões específicas, sobretudo nos tribunais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Indícios concretos envolvendo desembargadores, servidores e intermediários locais demonstram a existência de práticas administrativas irregulares, decisões questionáveis e favorecimentos pontuais. Esses elementos, considerados mais consistentes, têm concentrado a atenção das diligências complementares.

Outro ponto sensível do inquérito envolve as mensagens localizadas no celular de Roberto Zampieri e os relatos prestados por Andreson, personagem central que se passava por advogado e construía narrativas para pressionar agentes públicos, negociar benefícios legais e obter vantagens processuais. Grande parte das denúncias que ganharam a imprensa, conforme apurado nos autos, derivava exclusivamente das versões produzidas por Andreson.

Enquanto isso, o STJ enfrenta desgaste institucional crescente. Mesmo sem comprovações formais, a Corte permanece alvo de desconfiança pública devido à repercussão dos vazamentos e à dificuldade de responder, em tempo real, às acusações difundidas antes da consolidação dos autos. A existência de chefes de gabinete e servidores citados de forma mais consistente reforça a percepção de vulnerabilidade, ampliando a pressão sobre o sistema.

No Supremo Tribunal Federal, onde o inquérito tramita, o ministro Cristiano Zanin aguarda a conclusão das diligências determinadas à PF. Entre as prioridades estão a identificação da cadeia de vazamentos, a análise da origem das mensagens consideradas manipuladas e a apuração do papel desempenhado por intermediários que orbitavam a suposta rede de favorecimentos. O desafio central permanece o mesmo: separar versões fabricadas de fatos comprováveis com base em dados objetivos.

O impacto de investigações frágeis em instituições centrais

A principal implicação deste caso é o impacto institucional provocado por uma investigação que, até agora, carece de sustentação técnica. A circulação de versões incompletas ou manipuladas cria um terreno fértil para questionamentos generalizados, alimentando desconfiança e dificultando a defesa pública de instituições que deveriam operar na mais alta esfera de confiança.

Ao mesmo tempo, a crise expõe falhas internas de governança e comunicação. A demora em responder oficialmente a narrativas disseminadas na imprensa abriu espaço para a consolidação de percepções negativas. Esse fenômeno, conhecido na teoria da comunicação pública como vácuo narrativo, tende a ampliar o dano reputacional.

Outro ponto relevante é a constatação de que o sistema judicial brasileiro continua vulnerável à ação de intermediários e lobistas que exploram brechas formais para simular influência, negociar favores ou manipular decisões. Mesmo que ministros do STJ estejam, até o momento, distantes de comprovações diretas, a simples circulação dessas hipóteses já impacta a legitimidade da Corte.

Linha do Tempo do Caso Sisamnes

2019–2020 — Atuação criminosa de Andreson Gonçalves e Roberto Zampieri

Entre o fim de 2019 e o início de 2020, o estelionatário Andreson Gonçalves, que utilizava identidade falsa de advogado da OAB/PA, e o advogado Roberto Zampieri estruturam um esquema de grilagem e “regularização” fraudulenta de terras. Os dois falsificavam documentos, transferiam propriedades legítimas para terceiros pagantes e mantinham contatos em múltiplos estados.

2020 — Conflitos violentos e retaliação

Em meados de 2020, Zampieri é acusado por um fazendeiro de articular a perda de uma fazenda avaliada em R$ 100 milhões. O proprietário contrata um grupo de extermínio. Zampieri é assassinado. Seu celular é encontrado ao lado do corpo, contendo registros detalhados de operações fraudulentas, mensagens e nomes, desencadeando os primeiros vazamentos na imprensa.

2021 — Primeiros indícios chegam ao Judiciário

Após a morte de Zampieri, as conversas extraídas de seu aparelho começam a circular informalmente entre agentes públicos, policiais e advogados. Essas mensagens mencionam tentativas de influência em decisões judiciais e contatos que sugerem uma rede de intermediários. A Polícia Federal inicia mapeamento preliminar dos envolvidos.

Início de 2022 — Surgimento do nome de Andreson Gonçalves como possível delator

Detido no decorrer de 2022, Andreson passa a manipular informações para tentar obter vantagens processuais. Ele passa a distribuir versões contraditórias, atribuir responsabilidades a terceiros e inflar sua suposta capacidade de influenciar decisões judiciais.

Setembro de 2022 — Laudos médicos controversos

No segundo semestre de 2022, Andreson obtém um laudo médico particular atestando polineuropatia diabética, documento posteriormente confirmado pelo Instituto Médico Legal. Com base nisso, ele obtém prisão domiciliar humanitária, após expressivo emagrecimento — cerca de 30 quilos — que mais tarde será interpretado como parte de uma estratégia deliberada de simulação.

2023 — Relatos de manipulação e surgimento de confissões

Em 2023, um criminoso de alta periculosidade declara ter sido instruído por Andreson sobre métodos para obter laudos médicos fraudulentos e conseguir benefícios legais. As autoridades começam a suspeitar de manipulação coordenada.

Dezembro de 2023 — Reversão dos benefícios

Com a suspeita de fraude, a Justiça revoga a prisão domiciliar de Andreson. A defesa sustenta que o laudo era legítimo. A PGR altera sua versão diversas vezes, incapaz de contestar de forma definitiva a autenticidade do documento.

Janeiro–Agosto de 2024 — PF amplia investigação sobre grilagem

A Polícia Federal concentra-se no eixo Mato Grosso–Mato Grosso do Sul, onde diversas vítimas relatam perda de propriedades por transferências fraudulentas. Surge a informação de que operações policiais no estado ocorreram dois dias antes da autorização oficial do ministro Francisco Falcão, levantando suspeitas de irregularidade procedimental.

Outubro de 2024 — Delegado Marco Bontempo assume posto estratégico

Bontempo passa a integrar a Coordenação de Inquéritos Especiais (Cinq), responsável por conduzir casos que tramitam no STF. Internamente, ele ganha a imagem de servidor impulsivo e de métodos não convencionais.

Início de 2025 — Conflitos internos e produção de relatório extraoficial

Entre janeiro e agosto de 2025, Bontempo reúne um grande volume de documentos, porém sem coerência investigativa. Ele produz um pseudo-relatório, não reconhecido pela PF, no qual mistura fatos, conjecturas e frases recorrentes como “o aprofundamento das investigações dirá…”.

Outubro de 2025 — Afastamento de Bontempo

Após sucessivos conflitos internos e questionamentos sobre sua conduta, Bontempo é afastado. Àquela altura, seu relatório já havia sido vazado à imprensa, ampliando suspeitas no STJ e provocando intensa repercussão pública.

Novembro de 2025 — Bontempo é internado e torna-se alvo de inquérito

Com diagnóstico de surto psicológico, o delegado passa a receber cuidados médicos. Ele se torna investigado por possível responsabilidade no vazamento dos documentos, por ordem do ministro Cristiano Zanin, relator do caso no STF.


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