O debate público brasileiro permanece marcado pela polarização ideológica, crítica que norteia o artigo “Brasil: um caldeirão de ódio”, de autoria de Joaci Góes, publicado na Tribuna da Bahia. O texto recupera reflexões de Ruy Barbosa para contextualizar o atual ambiente político, destacando a degradação do diálogo entre os Poderes, a desconfiança social nas instituições e a disputa partidária intensa, fatores que, segundo o autor, dificultam o avanço do país rumo a um modelo democrático maduro.
O artigo argumenta que o Brasil encontra-se imerso em um cenário no qual valores se invertem e a mediocridade assume posições de mando, em detrimento da competência técnica e ética. Góes utiliza citações atribuídas a Ruy Barbosa para ilustrar sua tese de que inteligência e virtude cedem terreno à improvisação e ao personalismo político. A crítica central aponta que parte das decisões públicas estaria orientada mais por interesses eleitorais do que pela busca de estabilidade institucional.
No texto, o autor afirma que o país estaria transformado em um “caldeirão de ódio”, fruto da rivalidade entre grupos que tratam adversários como inimigos irreconciliáveis. Esse antagonismo, escreve, compromete a cooperação em temas essenciais, como segurança pública, desenvolvimento econômico, saúde e educação. A polarização, segundo o artigo, tem custo direto sobre indicadores sociais e na capacidade do Estado de formular políticas de longo prazo.
Outro ponto enfatizado é a percepção de que o Poder Judiciário teria assumido protagonismo excessivo na arena política, aproximando-se do Executivo e enfraquecendo a autonomia entre os poderes. O autor classifica esse movimento como um fenômeno histórico grave, capaz de gerar desconfiança pública e insegurança jurídica. Para ele, decisões judiciais de forte impacto político alimentam tensões e refletem a ausência de estadistas comprometidos com reformas duradouras.
Instituições sob pressão e desafios de governabilidade
Ainda que reconheça exceções, o artigo destaca que a atual convivência entre Executivo, Legislativo e Judiciário é marcada por conflitos e disputas por protagonismo, limitando a aprovação de medidas estruturantes. O caso do combate ao crime organizado é citado como exemplo de pauta urgente que, apesar de consenso nacional, enfrenta entraves institucionais.
O texto menciona o deputado Hugo Motta, presidente da Câmara, como liderança emergente na defesa de reformas legislativas voltadas à segurança pública, apresentando-o como contraponto em meio ao cenário de paralisia e desconfiança mútua entre instituições.
Segundo Góes, o governo federal, movido pelo objetivo de manter apoio político, contribui para o desgaste institucional e para a redução da credibilidade dos órgãos públicos. Ele cita o processo de indicação a uma vaga no Supremo Tribunal Federal como episódio que expôs fragilidades políticas e tensionou a relação entre governo, Senado e comunidade jurídica.
Resgate histórico e referência à tradição política
O artigo retoma a célebre declaração de Ruy Barbosa, proferida em 1914, sobre corrupção moral e triunfo das nulidades, conectando-a ao presente para reforçar a ideia de que o país vive ciclo de repetição histórica. Para o autor, ao ignorar exemplos de estadistas do passado, o Brasil distancia-se do ideal civilizatório e da construção de instituições sólidas.
Na mesma direção, a citação de Joseph de Maistre — “cada povo tem o governo que merece” — surge como advertência sobre a responsabilidade coletiva no processo democrático. O texto sugere que mudanças institucionais dependem não apenas de líderes, mas da sociedade, da imprensa, dos agentes políticos e do próprio eleitorado.
*Joaci Góes é advogado, jornalista, escritor, empresário e político brasileiro, nascido em Ipirá (BA), em 1938. Figura de destaque na vida intelectual e pública da Bahia, ele preside o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) — instituição fundada em 1894 e considerada a mais antiga e uma das mais relevantes entidades culturais do estado, com sede em Salvador. Sua trajetória combina atuação nas áreas jurídica, política, empresarial e literária, refletindo uma vida dedicada ao pensamento crítico, à defesa da cultura baiana e ao fortalecimento das instituições democráticas.











Deixe um comentário