Fraude no INSS: Lulinha, advogada companheira de José Dirceu e ‘Careca do INSS’ entram no epicentro de crise ética que expõe necessidade de depurar a Nação

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga a fraude bilionária no INSS rejeitou, por 19 votos a 12, a convocação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para depor sobre sua suposta relação com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, acusado de operar um esquema que desviou R$ 6,3 bilhões por meio de descontos irregulares em benefícios de aposentados entre 2019 e 2024. A decisão ocorreu apesar do depoimento que cita repasses de R$ 25 milhões e suposto pagamento de mesada de R$ 300 mil ao filho do presidente.

O episódio ganhou contornos políticos delicados após Danyelle Galvão, advogada e companheira de José Dirceu, nomeada juíza substituta do TRE-SP por Lula, assumir a defesa de Careca, reacendendo o debate sobre promiscuidade entre política, advocacia de alto impacto e relações familiares no poder.

Enquanto o Governo Lula afirma não haver provas materiais contra Lulinha, a oposição sustenta que os indícios justificam sua oitiva e revelam conexões sensíveis entre famílias de governantes, operadores privados e estruturas estatais, num cenário que expõe a crise ética e o desgaste institucional do país.

CPMI do INSS barra convocação de Lulinha

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que apura a fraude bilionária no INSS rejeitou na quinta-feira (04/12/2025), por 19 votos a 12, a convocação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula (PT), para esclarecer sua suposta relação com o operador do esquema, Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. A decisão veio após a divulgação de depoimento que atribui ao empresário o pagamento de uma “mesada” de R$ 300 mil e o suposto repasse de 25 milhões ao filho do presidente, além de viagens em comum ao exterior.

Ao mesmo tempo, o caso ganhou contornos políticos mais delicados quando se tornou público que a advogada Danyelle Galvão, companheira do ex-ministro José Dirceu e nomeada por Lula como juíza substituta do TRE-SP, passou a integrar a defesa de Careca do INSS. O cruzamento entre negócios, advocacia de alto impacto e relações políticas históricas reavivou o debate sobre nepotismo informal, captura do Estado e deterioração ética das instituições.

Enquanto o governo argumenta que não há provas materiais que justifiquem a convocação de Lulinha, a oposição sustenta que o conjunto de indícios já é suficiente para exigir transparência, intensificar as investigações e expor publicamente os vínculos entre setor público, famílias de autoridades e esquemas privados de enriquecimento.

O pedido de convocação foi apresentado pelo partido Novo, com assinatura de parlamentares como Marcel van Hattem, Eduardo Girão, Adriana Ventura e Luiz Lima. A justificativa central era apurar uma eventual utilização de estruturas contábeis ou empresariais ligadas a Lulinha em operações relacionadas às fraudes contra aposentados e pensionistas.

A pressão aumentou após a divulgação do depoimento de Edson Claro, ex-funcionário de Careca do INSS, à Polícia Federal. Segundo o relato, ainda sem prova documental exibida ao público, Lulinha teria mantido proximidade empresarial e política com Antônio Carlos, recebido valores milionários e atuado como articulador em interesses do empresário, inclusive em viagens a Portugal.

A base do governo, contudo, classificou a tentativa de convocação como manobra política destinada a desgastar o presidente e sua família. Parlamentares governistas argumentaram que Lulinha não é formalmente investigado pela PF neste caso e que não haveria, até agora, elementos técnicos para justificar sua oitiva na CPMI.

Advogada ligada a José Dirceu assume defesa de Careca do INSS

Outro componente sensível do caso foi a mudança na estratégia de defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes, apontado pela PF como operador do esquema de descontos indevidos. Após atritos públicos entre seu antigo advogado e o relator da CPMI, o empresário passou a ser representado pela advogada Danyelle Galvão.

Danyelle é companheira de José Dirceu, um dos nomes mais influentes do PT e figura histórica do núcleo político que orbitou os governos petistas. Além disso, exerce a função de juíza substituta do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), cargo para o qual foi nomeada pelo presidente Lula. A combinação de vínculos pessoais, atuação profissional em caso de alta repercussão e função em tribunal eleitoral reforça o debate sobre conflitos de interesse, promiscuidade entre política e advocacia e a fragilidade das barreiras éticas no setor público.

A advogada afirma que sua atuação é estritamente técnica e questionou a tentativa de reduzir sua trajetória profissional a uma relação pessoal. Entretanto, a presença simultânea de Dirceu, Danyelle, Careca do INSS e citações a Lulinha no mesmo tabuleiro político-judicial projeta a imagem de um sistema fechado, onde círculos de poder se defendem mutuamente em investigações sensíveis.

Como funcionava a fraude bilionária contra aposentados

As apurações da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal identificaram um esquema de fraudes no INSS envolvendo R$ 6,3 bilhões em descontos entre valores legais e ilegais, no período de 2019 a 2024.

O mecanismo funcionava por meio de convênios entre sindicatos, associações de aposentados e o INSS, que permitiam o desconto automático de mensalidades diretamente nos benefícios. Segundo as investigações, em muitos casos não havia autorização expressa dos aposentados, o que configuraria prática abusiva e, em larga escala, apropriação indevida de recursos de pessoas vulneráveis.

Entre os investigados na primeira fase estavam seis servidores públicos, incluindo o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, que foi demitido e posteriormente preso. Na sequência, a operação alcançou Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, considerado um elo central entre associações, entidades de fachada e empresas que atuavam como intermediárias financeiras do esquema.

Quem é Lulinha e por que seu nome reaparece em grandes casos

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, é o filho mais velho de Lula com Marisa Letícia. Formado em biologia, tornou-se conhecido no meio empresarial ao atuar na Gamecorp, ligada ao setor de tecnologia e entretenimento digital. A partir dos anos 2000, passou a ser citado em diversos casos de supostas vantagens indevidas obtidas durante governos petistas.

Em 2019, o Ministério Público Federal o denunciou, junto com outros investigados, por eventual recebimento de recursos do grupo Oi/Telemar entre 2004 e 2016. Em 2020, no contexto da Lava Jato, ele foi alvo de investigações por repasses de mais de R$ 100 milhões a empresas de seu grupo, em troca de decisões favoráveis do governo. Esses casos foram posteriormente arquivados.

Reportagem do portal Metrópoles revelou que Lulinha se mudou para a Espanha, onde teria assumido funções em uma empresa com sede em Madri, retornando ao país apenas de forma esporádica. Mesmo distante fisicamente, seu nome continua a surgir em investigações que cruzam interesses empresariais, decisões de governo e redes políticas historicamente associadas ao PT.

World Cannabis e suspeita de lavagem de dinheiro

Documentos que circulam na CPMI e na PF mencionam a empresa World Cannabis, registrada em Brasília, com atuação declarada no mercado de cannabis medicinal e operações em países como Brasil, Portugal, Estados Unidos e Colômbia.

A razão social da companhia, Camilo Comércio e Serviços S/A, tem como sócios públicos Antônio Carlos Camilo Antunes e Romeu Carvalho Antunes. A suspeita dos investigadores é de que a estrutura empresarial possa ter sido utilizada como canal para lavagem de recursos oriundos das fraudes em descontos associativos no INSS.

Não há, até o momento, documentos tornados públicos que comprovem formalmente a participação de Lulinha nessa empresa. As citações a seu nome surgem em depoimentos, trocas de mensagens e relatos indiretos, o que reforça a necessidade de investigação rigorosa e transparente, mas também exige cuidado jornalístico na apresentação dos fatos como alegações, e não como sentenças definitivas.

Depurar a Nação: romper laços promíscuos entre famílias de poder e a máquina estatal

O escândalo da fraude no INSS vai além da esfera criminal e financeira. Ele desnuda uma degeneração persistente dos padrões éticos no setor público brasileiro. Casos recorrentes envolvem esposas, filhos, filhas e companheiras de ministros e ex-ministros que atuam em causas com desdobramentos em STF, STJ, tribunais eleitorais e grandes órgãos de Estado.

A presença de uma companheira de ex-ministro poderoso na defesa de um operador de esquema bilionário, associada à citação do filho do presidente da República em depoimentos relevantes, reforça a percepção de que a Esfera Pública se tornou um terreno de privilégios cruzados, blindagens recíprocas e seletividade na responsabilização. Não se trata de criminalizar relações familiares, mas de constatar que quando quase sempre são os mesmos sobrenomes que aparecem em casos sensíveis, a sociedade passa a desconfiar, com razão, da neutralidade do sistema.

A corrupção estatal não pode ser naturalizada como norma em um país que afirma aspirar a padrões civilizatórios elevados. A população observa, com cansaço, que as engrenagens da República são ocupadas por grupos que atuam como máfias organizadas, operando em consórcios de poder onde partidos, escritórios de advocacia de elite, empresas contratadas pelo Estado e segmentos do Judiciário formam alianças de autoproteção.

Nessa moldura, não é exagero falar em traços de Narcoestado: estruturas públicas capturadas, recursos drenados de aposentados e pensionistas, milícias políticas e econômicas disputando territórios de influência, enquanto o cidadão comum paga a conta.

Depurar a Nação deixa de ser figura retórica e torna-se imperativo moral: identificar, punir e extirpar agentes corruptos de todos os Poderes — Executivo, Legislativo, Judiciário — e de instituições como o Ministério Público, recuperando a ideia de serviço público como missão, não como oportunidade de enriquecimento e proteção de castas.

Sem uma depuração institucional séria, o Brasil seguirá girando em torno dos mesmos escândalos, com novos nomes e velhos métodos. A descrença em ser brasileiro — hoje amplamente perceptível nos debates públicos, nas redes e no cotidiano — nasce precisamente da sensação de que as gangues de colarinho branco se alternam, mas o sistema permanece intocado.

*Com informações da BBC Brasil e do Poder360.


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