Roubo de mercadorias apreendidas expõe cadeia de falsificação chinesa em Feira de Santana e reacende debate sobre controle do comércio ilegal

A Polícia Civil apura o furto de grande parte das mercadorias apreendidas durante a Operação Contraface, que desarticulou, no início de dezembro de 2025, um ponto de venda, denominado Feira Premium, com cerca de R$ 2 milhões em produtos falsificados, majoritariamente de possível origem chinesa, em Feira de Santana. Segundo o delegado Rafael Almeida, responsável pela investigação, o lacre colocado pela SEFAZ Bahia no estabelecimento foi rompido, e cerca de 70% dos itens apreendidos desapareceram entre os dias do fechamento e a vistoria técnica seguinte. A suspeita preliminar é de que o acesso ao local tenha ocorrido com chave, o que aponta para suposta participação de pessoas ligadas aos responsáveis pelo comércio.

A apreensão original envolveu roupas, perfumes, tênis e relógios, muitos deles classificados como contrafeitos ou fruto de descaminho, além de máquinas de cartão utilizadas para comercialização. A Polícia Civil, em parceria com a Secretaria da Fazenda da Bahia (Sefaz-BA) e com apoio da perícia técnica, agora conduz um segundo inquérito, ampliado para investigar o furto e rastrear a cadeia de fornecimento das mercadorias.

A Operação Contraface e o avanço de produtos piratas em Feira de Santana

A ação policial ocorreu em quinta-feira (04/12/2025), na Avenida Getúlio Vargas, principal corredor comercial da cidade, dois dias antes da inauguração da loja, que funcionava sem CNPJ e sem alvará. No local, foram encontrados produtos falsificados catalogados por faixa de preço — tênis marcados com lacres de valores distintos e perfumes com indícios de contrafação. O gerente foi conduzido para depoimento, e a Polícia Civil deu início às diligências para identificar oficialmente o proprietário do negócio.

O caso reacende a discussão sobre o crescimento da circulação de mercadorias falsificadas em Feira de Santana, impulsionado por rotas nacionais e internacionais de contrabando que abastecem o comércio informal. Relatórios da Sefaz indicam que parte do material apreendido pode ter origem chinesa, ingressando no país sem tributação adequada e sendo redistribuído em centros de médio porte como o município baiano, segundo maior mercado consumidor do estado.

Como foi descoberta a subtração das mercadorias

Nesta segunda-feira (08/11/2025), durante inspeção conjunta entre Polícia Civil e Sefaz, constatou-se que o lacre municipal havia sido rompido. O coordenador da Sefaz Bahia, Eliezer Oliveira Santos, afirmou que aproximadamente 70% do estoque havia sumido. A cena indicava tentativa de reorganização estética do ambiente, com roupas distribuídas em araras para simular normalidade.

Trechos confirmados pela Polícia Civil:

  • Não houve arrombamento da porta, sugerindo uso de chave.
  • Máquinas de cartão sumiram, restando apenas parte delas.
  • Produtos de maior valor — especialmente tênis e perfumes — foram os mais visados.
  • As câmeras de segurança registraram movimentação de veículos e indivíduos que agora são alvos da investigação.

As autoridades agora separam o material restante entre mercadorias nacionais falsificadas e itens importados sem comprovação fiscal. O que for classificado como descaminho será encaminhado à Receita Federal, enquanto produtos nacionais piratas seguem para processamento da Sefaz e posterior destinação legal.

O crime além da pirataria: desobediência, furto e agravamento das penas

O rompimento do lacre configura crime de desobediência, somado ao novo enquadramento por furto qualificado, agravando a situação dos investigados. O delegado Rafael Almeida declarou que as imagens coletadas e os documentos apreendidos permitem rastrear os responsáveis pelas mercadorias e também pelos equipamentos financeiros vinculados à loja. A investigação segue em fase de escutas, confrontos de imagens e análise dos registros de emissão de boletos.

A pirataria, além de gerar prejuízo à indústria formal, impacta no mercado de trabalho, arrecadação tributária e concorrência leal, estimulando circuitos informais de revenda. Feira de Santana, por ser entroncamento logístico do Nordeste, enfrenta desafio crescente no controle desse fluxo, especialmente com a elevação do comércio online informal e do transporte rodoviário interestadual.

O que é descaminho?

Descaminho é o ato de ingressar mercadorias estrangeiras no país sem o devido recolhimento de tributos, configurando crime previsto no artigo 334 do Código Penal. Diferentemente do contrabando, que envolve produtos proibidos, o descaminho trata de bens permitidos, mas sem pagamento de impostos e documentação fiscal.

No caso investigado:

  • Parte do material pode ser de origem chinesa sem comprovação de importação regular.

  • Produtos assim são encaminhados à Receita Federal, que decide pela destruição, leilão ou destinação oficial.

  • Mercadorias falsificadas produzidas no Brasil seguem sob responsabilidade da Sefaz e da Polícia Civil.

Comparativo econômico — Mercado formal x mercado pirata

Indicador Mercado formal Mercado pirata/descaminho
Tributação Recolhe impostos (ICMS, PIS, Cofins, importação) Opera sem recolhimento tributário
Geração de empregos Formaliza vínculos e benefícios Emprego sem vínculo e sem proteção
Preço ao consumidor Maior, devido a custos legais Reduzido, criando competição desleal
Fiscalização Certificação, nota e rastreabilidade Cadeia clandestina e opaca
Impacto econômico Reforça indústria nacional Erosiona arrecadação e setor produtivo
Risco ao consumidor Produtos certificados Possível baixa qualidade e falsificação

Estudos da Fiesp indicam que o Brasil perde mais de R$ 200 bilhões ao ano com pirataria e contrabando, somando evasão fiscal e impacto sobre a indústria. Feira de Santana, por ser polo atacadista, sente efeitos diretos desse desequilíbrio.

Linha do tempo da Operação Contraface e o furto posterior

04/12/2025 — Quinta-feira

Polícia Civil deflagra a Operação Contraface e apreende cerca de R$ 2 milhões em produtos falsificados em loja na Avenida Getúlio Vargas. Estabelecimento é lacrado pela Prefeitura por falta de alvará.

06/12/2025 — Sábado

Loja seria inaugurada ao público, mas permanece fechada após ação policial. Mercadorias são catalogadas e passam por perícia inicial. Parte do material é separada para análise fiscal e técnica.

08/12/2025 — Segunda-feira

Equipe da Polícia Civil e Sefaz retorna ao local e constata rompimento do lacre e furto de aproximadamente 70% das mercadorias catalogadas. Identificado indício de acesso com chave.

Delegado Rafael Almeida anuncia abertura de novo inquérito para apurar furto qualificado e aprofundar investigação sobre cadeias de fornecimento, máquinas de cartão e movimentações financeiras.

Polícia aguarda laudo definitivo do Departamento de Polícia Técnica (DPT) para confirmar autoria do rompimento, estimar prejuízo e definir responsabilização criminal.

O impacto da falsificação estrangeira na economia local

O caso expõe a fragilidade do controle sobre mercadorias de origem externa no comércio regional. Quando produtos falsificados entram no mercado com preços muito abaixo do praticado pela indústria formal, a base produtiva nacional perde competitividade, especialmente setores como calçados, vestuário e perfumaria. A penetração de artigos piratas com origem provável na China — fenômeno observado em diversos centros comerciais brasileiros — se consolida em canais varejistas que operam sem registro fiscal, estimulando a informalidade.

O roubo do material apreendido, ocorrido após ação oficial e com rompimento de lacre público, também reforça a percepção de que grupos organizados atuam com confiança na sensação de impunidade, explorando brechas administrativas e logísticas. A resposta estatal dependerá da celeridade na identificação dos envolvidos, do reforço de fiscalização integrada e da adoção de medidas que reduzam o custo de formalização comercial, evitando que o mercado informal prospere sobre o legal.

*Áudio das entrevistas cedidos ao Jornal Grande Bahia pelo radialista Edvaldo Peixoto Filho (Edvaldinho).

A Operação Contraface apreendeu cerca de R$ 2 milhões em produtos falsificados em Feira de Santana, mas 70% deles foram furtados após rompimento de lacre municipal. A Polícia Civil investiga a autoria, suspeitando de acesso com chave. Mercadorias indicam possível origem chinesa e descaminho. Um novo inquérito foi aberto por furto, além dos crimes já apurados. O caso evidencia avanço do comércio ilegal e seus impactos econômicos e fiscais no município.
Delegado Rafael Almeida e fiscais da Sefaz inspeccionam loja lacrada na Avenida Getúlio Vargas após furto de mercadorias apreendidas na Operação Contraface. Ação investiga origem chinesa de produtos falsificados e violação de lacre público.
A Operação Contraface apreendeu cerca de R$ 2 milhões em produtos falsificados em Feira de Santana, mas 70% deles foram furtados após rompimento de lacre municipal. A Polícia Civil investiga a autoria, suspeitando de acesso com chave. Mercadorias indicam possível origem chinesa e descaminho. Um novo inquérito foi aberto por furto, além dos crimes já apurados. O caso evidencia avanço do comércio ilegal e seus impactos econômicos e fiscais no município.
“Ao retornarmos ao local, constatamos que cerca de 70% das mercadorias apreendidas haviam sido subtraídas, incluindo itens de maior valor como tênis e perfumes”, afirmou Eliezer Oliveira Santos, coordenador da Sefaz Bahia em Feira de Santana.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner da Prefeitura de Santo Estêvão: Campanha Encerramento do Projeto Verão 2026.
Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading