O conservador Nasry Juan Asfura Zablah, do Partido Nacional de Honduras, foi declarado vencedor da eleição presidencial da República de Honduras pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) na quarta-feira (24/12/2025), após um processo de apuração prolongado, marcado por atrasos operacionais, falhas técnicas e contestação pública do resultado. Segundo a contagem final divulgada pelo órgão eleitoral, Asfura obteve 40,27% dos votos válidos, superando por margem estreita o candidato do Partido Liberal, Salvador Alejandro César Nasralla Salum, que alcançou cerca de 39,5% e rejeitou formalmente a proclamação, alegando irregularidades e fraude no processo. A candidata do governista Libertad y Refundación (LIBRE), Rixi Ramona Moncada Godoy, ficou em terceiro lugar, com pouco mais de 19%, resultado interpretado como um revés político direto para a presidente Iris Xiomara Castro Sarmiento.
O anúncio do CNE encerrou oficialmente um processo eleitoral iniciado em 30 de novembro de 2025, mas que se estendeu por mais de três semanas devido a problemas na transmissão de dados, inconsistências em atas eleitorais e disputas sobre a validação de votos em diferentes regiões do país. A demora agravou o ambiente de incerteza política e contribuiu para a escalada de desconfiança entre candidatos, partidos e eleitores.
A diferença reduzida entre o primeiro e o segundo colocados ampliou o grau de contestação e reforçou a polarização política. Em cenários dessa natureza, a legitimidade do resultado passa a depender menos do número final e mais da capacidade institucional do órgão eleitoral de demonstrar, com clareza técnica e transparência pública, que as etapas críticas do processo foram devidamente auditadas e que eventuais falhas não tiveram impacto determinante sobre o desfecho.
Nasralla declarou que não reconhece o resultado proclamado, sustentando que houve inconsistências na contagem e irregularidades em urnas contestadas. O candidato liberal afirmou que a vontade popular foi desrespeitada e indicou a possibilidade de judicialização do processo, além de cobrar posicionamentos mais firmes de missões de observação internacional.
Derrota do LIBRE e desgaste do governo Xiomara Castro
O desempenho de Rixi Moncada, candidata do partido governista, consolidou-se como um dos elementos centrais da leitura política pós-eleitoral. O terceiro lugar, com distância significativa em relação aos dois primeiros colocados, evidenciou perda de capacidade de mobilização do LIBRE após quatro anos no poder, em um contexto de frustrações econômicas, dificuldades institucionais e desgaste da coalizão que sustentou a eleição de Xiomara Castro.
O resultado pressiona diretamente o governo em fim de mandato e reorganiza o sistema partidário hondurenho às vésperas da transição. Internamente, o revés enfraquece a narrativa de continuidade política e amplia o isolamento do Executivo, ao mesmo tempo em que fortalece forças tradicionais que haviam sido afastadas do poder após a eleição de 2021.
A fragilidade percebida do sistema eleitoral hondurenho, já objeto de críticas em pleitos anteriores, voltou ao centro do debate público. O prolongamento da apuração, somado à possibilidade de disputas judiciais, reforça a imagem de um arranjo institucional ainda vulnerável a crises de confiança.
Influência externa e reação dos Estados Unidos
A eleição hondurenha ganhou dimensão internacional com o apoio público do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Nasry Asfura nos dias que antecederam o pleito. Para adversários políticos, o gesto foi interpretado como interferência externa em um processo eleitoral já altamente competitivo, adicionando um componente geopolítico a uma disputa doméstica sensível.
Essa leitura ganhou força à medida que a apuração se prolongava e acusações de pressão internacional passaram a circular no discurso político local. Em democracias institucionais frágeis, a associação explícita entre um candidato e lideranças estrangeiras tende a ampliar a resistência interna ao resultado, ainda que tal apoio não tenha impacto jurídico direto sobre a validade da eleição.
Após a proclamação oficial do CNE, autoridades dos Estados Unidos parabenizaram publicamente Nasry Asfura, sinalizando disposição para reconhecer rapidamente o novo governo e trabalhar com a administração eleita. O gesto foi interpretado como tentativa de estabilizar o cenário político pós-eleitoral e evitar um vácuo prolongado de poder em um país considerado estratégico para a política regional norte-americana.
Esse reconhecimento, no entanto, também alimenta a narrativa da oposição de que há uma assimetria entre a rapidez do aval externo e a persistência de dúvidas internas sobre a integridade do processo eleitoral, o que dificulta a pacificação política.
Repercussão interna e papel de organismos internacionais
Com a divulgação do resultado oficial, apoiadores de Asfura realizaram atos de celebração em diferentes regiões do país, enquanto setores da oposição promoveram protestos e manifestações de rejeição ao desfecho. A disputa política passou a se deslocar do campo estritamente eleitoral para o terreno da legitimidade institucional e da narrativa pública.
De um lado, a vitória foi apresentada como expressão legítima da soberania popular; de outro, como produto de um processo contaminado por falhas e irregularidades. Esse choque de versões tende a prolongar a instabilidade no curto prazo.
Organismos internacionais acompanharam o processo eleitoral hondurenho e manifestaram preocupação com o ambiente institucional, especialmente diante da demora na conclusão da apuração. Houve apelos públicos para que as autoridades eleitorais encerrassem o processo de forma transparente e dentro de um calendário que preservasse a credibilidade democrática, em um contexto regional marcado por recorrentes crises eleitorais.
Legitimidade, influência externa e governabilidade
A proclamação de Nasry Juan Asfura Zablah como presidente eleito da República de Honduras evidencia um problema estrutural recorrente em democracias de institucionalidade frágil: quando o órgão eleitoral demora a apresentar um resultado tecnicamente robusto, verificável e amplamente compreendido pela sociedade, a legitimidade política se erosiona, independentemente da legalidade formal do desfecho.
A margem estreita entre os dois primeiros colocados não é, por si só, a raiz da crise. O ponto central reside na incapacidade do sistema eleitoral de comunicar, com transparência e didatismo, como eventuais falhas foram corrigidas, auditadas e neutralizadas. Nesse vácuo, prosperam narrativas de fraude, mesmo quando carecem de comprovação conclusiva.
A dimensão externa agrava o quadro. O apoio explícito de Donald Trump e o reconhecimento rápido por autoridades norte-americanas introduzem um elemento de assimetria simbólica: reforçam a governabilidade internacional do novo presidente, mas enfraquecem sua legitimidade doméstica junto a setores que já se sentem politicamente derrotados e institucionalmente desprotegidos.
A governabilidade do novo governo dependerá de três fatores decisivos: a capacidade de reduzir a conflagração interna, a disposição para lidar com demandas por auditoria e esclarecimento sem ceder à paralisia institucional e o equilíbrio entre respaldo internacional e construção de legitimidade interna. Sem isso, a transição corre o risco de se consolidar apenas no plano formal, mantendo aberta uma fratura política que pode comprometer a estabilidade do próximo mandato.
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