Banco Master usou empresa com capital de R$ 2 milhões em esquema de ciranda financeira bilionária, aponta investigação

Investigações conduzidas a partir de denúncias do Banco Central do Brasil ao Ministério Público Federal apontam que o Banco Master utilizou uma empresa com capital social de apenas R$ 2 milhões como peça-chave em uma ciranda financeira bilionária, destinada ao desvio e à lavagem de recursos por meio de fundos de investimento. A empresa, Brain Realty Consultoria e Participações, tomou empréstimo de quase R$ 459 milhões, cujos recursos teriam sido direcionados a fundos administrados pela Reag Asset Management, estrutura central do esquema investigado.

Empresa de capital reduzido no centro da operação

A Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias S.A. aparece pela primeira vez de forma explícita nas investigações que apuram a suposta fraude financeira estruturada pelo Banco Master. Segundo apuração, a empresa, apesar do capital social modesto, obteve financiamento vultoso, incompatível com sua estrutura econômica declarada.

De acordo com os investigadores, os valores não foram utilizados em atividades empresariais próprias, mas reaplicados integralmente em fundos de investimento geridos pela Reag, mecanismo que teria permitido mascarar a origem e o destino final dos recursos.

A denúncia do Banco Central indica que ao menos R$ 11,5 bilhões podem ter sido lavados por meio desse arranjo financeiro, envolvendo sucessivas operações entre empresas, fundos e ativos de baixa liquidez artificialmente valorizados.

Vínculos societários e executivos sob apuração

A Brain Realty tem como presidente Marisa Nassar, ex-funcionária da Reag. Procurada, ela afirmou não poder comentar o caso e indicou contato com Leonardo Donato, ex-executivo da Reag até 2023.

Donato aparece como representante legal da empresa I9, controlada pela Brain, e figura como administrador da Blum Capital Partners, acionista da Reag Asset Management. Questionado, informou que não se manifestaria. O Banco Master também foi procurado, mas não respondeu até a publicação.

Documentos da Receita Federal mostram que o capital social da Brain Realty saltou de R$ 100 para R$ 2,2 milhões em dezembro de 2023, poucos meses antes da concessão do empréstimo. A ata da reunião que formalizou o aumento de capital foi presidida por João Carlos Mansur, fundador da Reag.

Fundos, ativos de baixa liquidez e inflação patrimonial

O empréstimo de R$ 459 milhões foi transferido ao Brain Cash Fundo de Investimento Financeiro Multimercado, cujo único cotista era a própria Brain Realty. Poucas horas depois, os recursos migraram para o fundo D Mais, também administrado pela Reag.

Esse fundo tinha como principal ativo certificados físicos de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Segundo os investigadores, esses papéis, de baixo valor e liquidez restrita, eram registrados como se valessem milhões, inflando artificialmente o patrimônio dos fundos.

A prática permitia justificar retiradas e novas aplicações em outros fundos, criando uma cadeia de movimentações que, ao final, teria direcionado recursos a “laranjas” ligados ao controlador do Banco Master, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Outras frentes de investigação contra o banco

O uso de fundos para inflar patrimônio e ocultar a origem de recursos integra um conjunto mais amplo de denúncias apresentadas pelo Banco Central ao MPF. Entre elas, está a revenda de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes ao Banco de Brasília (BRB).

Outra linha de apuração envolve a sobreposição de fundos de investimento abastecidos inicialmente por empréstimos do próprio Master, recursos captados junto a investidores por meio de CDBs.

Parte dos fundos investigados também já havia sido citada na operação Carbono Oculto, da Receita Federal, que apura o uso de estruturas financeiras ligadas à Reag por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Como funcionava o esquema, segundo os investigadores

As apurações descrevem um modelo padronizado de fraude financeira. O Banco Master concedia empréstimos a empresas formalmente desvinculadas do banco, mas integrantes do mesmo esquema. Essas empresas aplicavam os valores em fundos da Reag.

Nos sistemas de fiscalização, as operações aparentavam respeitar as regras prudenciais, como os limites de Basileia. Em seguida, gestores dos fundos adquiriam ativos de baixa qualidade por valores inflados, elevando artificialmente o patrimônio dos fundos.

O dinheiro retornava ao mercado por meio de novas aplicações, atravessando sucessivos fundos até alcançar carteiras controladas por intermediários ligados ao grupo investigado.

Estrutura financeira, lacunas regulatórias e impacto institucional

O caso revela fragilidades estruturais na fiscalização do mercado de fundos de investimento, sobretudo quando operações formalmente regulares são usadas para encobrir esquemas sofisticados de desvio de recursos. A utilização de empresas com capital mínimo para movimentar centenas de milhões expõe lacunas na avaliação de risco e na análise de capacidade econômica dos tomadores de crédito.

Também chama atenção a convergência entre instituições financeiras, gestores de fundos e ativos de baixa liquidez, criando um ambiente propício à manipulação contábil. A repetição de padrões já observados em outros escândalos financeiros sugere que os mecanismos de controle ainda operam de forma reativa, e não preventiva.

Do ponto de vista institucional, o volume estimado de recursos envolvidos e a recorrência de nomes e estruturas apontam para a necessidade de revisão dos modelos de supervisão prudencial, além de maior integração entre órgãos reguladores, fiscais e o sistema de justiça.

*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner do TJBA Campanha ZELA 728x90px.
Banner do INSV 20260303.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading