A arte de escrever pouco | Por Joseval Carneiro

O artigo defende a concisão como sinal de maturidade intelectual e domínio do pensamento. A partir de experiências no jornalismo, no Direito e na tradição retórica clássica, argumenta que escrever pouco exige mais rigor, clareza e responsabilidade. Expressões latinas, limites editoriais e exemplos da oratória ilustram como a síntese amplia o significado, evita a redundância e preserva a autoridade do discurso, em contraste com a prolixidade vazia.
A concisão como técnica jornalística, valor estético e herança do Direito Romano, em defesa da clareza, da precisão semântica e do respeito ao tempo do leitor.

Em um cenário dominado pelo excesso verbal e pela repetição improdutiva, a escrita concisa ressurge como virtude intelectual e técnica profissional. neste contexto, proponho uma análise a arte de escrever pouco à luz do jornalismo, da retórica clássica e do Direito Romano, demonstrando como a síntese, longe de empobrecer a linguagem, fortalece o argumento, valoriza a estética do texto e expressa respeito ao leitor, ao tempo e à inteligência compartilhada.

A prolixidade é fácil. Em certos contextos, chega a ser abusiva. Escrever muito, quase sempre, é o caminho natural de quem ainda não dominou o essencial do que pretende dizer.

Aprendi a concisão em um Curso Livre de Jornalismo e levei esse rigor para os livros que publiquei. Não sem consequências curiosas: leitores chegaram a escrever à editora reclamando que eu escrevia pouco demais. A crítica, nesse caso, era um elogio involuntário. A síntese incomoda porque exige atenção, interpretação e inteligência ativa do leitor.

A tendência à repetição é particularmente forte entre advogados. O excesso de palavras costuma ser confundido com força argumentativa. Durante muito tempo, insistiu-se na ideia de que repetir é convencer. A maturidade profissional ensina o contrário: uma palavra bem escolhida vale mais que um parágrafo redundante. Venci essa etapa ao aprender a confiar em termos-chave, capazes de condensar raciocínios inteiros.

O Direito Romano foi uma escola decisiva. Nele, duas ou três palavras dizem muito — e dizem com precisão. Expressões como ad quem e a quo dispensam longas explicações sobre instâncias judiciais. Ex nunc e ex tunc resolvem, em segundos, debates inteiros sobre efeitos temporais das decisões. O mesmo ocorre fora do Direito: Dominus vobiscum, ao final da missa, carrega séculos de significado espiritual em apenas duas palavras. Nos contratos, rebus sic stantibus fixa limites e condições com clareza lapidar.

Essa economia verbal não é pobreza de linguagem; é densidade semântica. O linguista Roman Jakobson já demonstrava que a força de uma mensagem está menos na quantidade de signos e mais na relação entre forma, sentido e contexto. George Orwell, em seu célebre ensaio sobre política e linguagem, alertava que palavras desnecessárias não apenas empobrecem o texto, mas obscurecem o pensamento.

O jornalismo, por sua vez, ensina essa lição de maneira prática e implacável. Os espaços apertados das páginas sempre exigiram disciplina. Aprende-se, ali, que escrever pouco não é uma opção estética apenas, mas uma necessidade técnica. Dizer muito em pouco espaço é uma virtude profissional.

Além da economia, há a beleza. Existe uma estética própria na frase curta que diz muito. Blaise Pascal reconhecia essa dificuldade ao afirmar que escrever menos dá mais trabalho do que escrever mais. A concisão exige reflexão prévia, corte rigoroso e humildade intelectual.

A tradição clássica da retórica também é clara nesse ponto. Aos oradores excessivamente melífluos, recomendava-se: Esto brevis et placebis — sê breve e agradarás. O excesso cansa, dispersa e, ao final, compromete a autoridade de quem fala.

Recordo um discurso de paraninfo em que os afilhados, já exaustos, bocejavam toda vez que o orador anunciava “por último” — e prosseguia indefinidamente. O silêncio só se impôs quando ele finalmente disse: “Por fim”. A síntese, ali, foi libertadora.

Escrever pouco é, no fundo, um ato de respeito: ao leitor, ao tempo alheio e à inteligência compartilhada. A palavra enxuta não empobrece o pensamento; ao contrário, revela quem realmente sabe o que está dizendo.

Sobre o autor

Advogado, escritor e professor, Joseval Carneiro (joseval@plenus.net) reúne sólida trajetória no serviço público e na vida intelectual baiana. Delegado de Polícia aposentado, com especialização nos Estados Unidos, exerceu funções de direção no Detran do Distrito Federal e no Conselho Estadual de Trânsito da Bahia. Integra a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e ocupa a vice-presidência da Academia de Cultura da Bahia, destacando-se por sua atuação jornalística, produção literária e dedicação às instituições culturais.


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