Na quinta-feira, 22/01/2026, a revista britânica The Economist publicou uma análise detalhada sobre a falência do Banco Master, apontando que o caso extrapolou o âmbito bancário e passou a envolver políticos influentes, membros do Judiciário e órgãos de controle, reforçando, segundo a publicação, a percepção de fragilidade institucional e falta de imparcialidade no Brasil. A reportagem destaca a atuação do Banco Central, pressões políticas para evitar a liquidação da instituição e relações indiretas entre investigados e ministros do Supremo Tribunal Federal.
Daniel Vorcaro assumiu a presidência do Banco Master em 2019 e, nos anos seguintes, passou a exibir um padrão de vida incompatível com o porte da instituição. A expansão acelerada do banco levantou questionamentos no mercado, sobretudo diante da ausência de lastro financeiro consistente.
As suspeitas se confirmaram quando o Banco Central do Brasil analisou os termos de uma tentativa de fusão e identificou grave insuficiência de liquidez. Investigações apontaram que o Master havia vendido carteiras de crédito sem valor econômico ao Banco de Brasília (BRB), em operações que ultrapassariam R$ 12,2 bilhões.
Com o avanço das apurações, Vorcaro foi preso ao tentar embarcar em um jato particular rumo a Dubai. A liquidação do banco resultou na maior intervenção da história do Fundo Garantidor de Créditos, com impacto estimado R$ 40,6 bilhões para ressarcir depositantes.
Impacto institucional além do sistema bancário
Segundo a The Economist, a falência poderia ter encerrado o episódio em novembro, não fosse a rede de relações políticas e institucionais construída por Vorcaro ao longo dos anos. O caso passou a expor conexões entre o mercado financeiro, o Congresso e o Judiciário, afetando a credibilidade de instituições centrais da República.
A publicação ressalta que o episódio atingiu a reputação do Supremo Tribunal Federal e do Legislativo, ao revelar vínculos indiretos entre investigados, doadores de campanhas eleitorais e figuras de alto escalão do Estado brasileiro.
Interferência política e atuação do TCU
O agravamento institucional ocorreu após o Tribunal de Contas da União abrir uma apuração sobre a decisão do Banco Central de liquidar o Master. A iniciativa partiu do ministro Jhonatan de Jesus, indicado pelo Congresso, que alegou suposta precipitação da autoridade monetária.
De acordo com fontes citadas pela revista, a interferência foi considerada incomum e preocupante, por colocar em xeque a autonomia do Banco Central. Procuradores envolvidos no caso alertaram que a medida poderia criar um precedente perigoso de ingerência política sobre a supervisão financeira.
Ligações com o Centrão e pressões legislativas
A reportagem associa Jhonatan de Jesus ao Centrão, bloco parlamentar historicamente marcado por pragmatismo político e recorrentes denúncias de corrupção. Antes da falência, parlamentares ligados ao grupo teriam atuado para blindar o Banco Master de investigações mais profundas.
Entre os episódios citados estão tentativas de barrar comissões parlamentares de inquérito, pressões para aprovar projetos que ampliariam o poder do Congresso sobre o Banco Central e manifestações públicas em defesa da absorção do Master por instituições estatais, apesar de alertas técnicos contrários.
Relações políticas e judiciais sob escrutínio
A The Economist também destaca doações eleitorais feitas por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, a campanhas de figuras centrais da política nacional. O empresário é investigado por vínculos financeiros com o banco e por investimentos em empreendimentos ligados a personagens do Judiciário.
Além disso, a revista menciona episódios envolvendo ministros do STF, como contratos advocatícios de familiares, viagens em aeronaves privadas compartilhadas com advogados do Master e negócios imobiliários com conexões indiretas a investigados. A publicação ressalta que não há comprovação de ilegalidades, mas afirma que tais relações reforçam a percepção pública de parcialidade institucional.
Reação do STF e proposta de código de ética
Diante do desgaste, o novo presidente do STF, ministro Edson Fachin, propôs a adoção de um código de ética inspirado no Tribunal Constitucional da Alemanha, com regras mais claras sobre conflitos de interesse e conduta institucional. Segundo a The Economist, a iniciativa foi recebida com resistência interna, o que aprofundou críticas sobre corporativismo e falta de transparência.
Banco Central emerge fortalecido
Na avaliação da revista, o principal vencedor do episódio foi Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, que resistiu às pressões políticas para salvar o Banco Master. Após o caso, Galípolo passou a defender publicamente a ampliação da autonomia administrativa, orçamentária e financeira da autoridade monetária.
A medida, segundo ele, fortaleceria a supervisão do sistema financeiro e reduziria a vulnerabilidade do Banco Central a interferências externas oriundas de Brasília.
Detalhes da liquidação e investigações em curso
A liquidação do Banco Master ocorreu em 18 de novembro de 2025, no mesmo dia da operação Compliance Zero, que resultou na prisão de Vorcaro e outros executivos. Dias depois, decisões judiciais concederam habeas corpus aos investigados, que passaram a cumprir medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica e proibição de atuar no sistema financeiro.
A Polícia Federal investiga fraudes na concessão de crédito, emissão de títulos irregulares e criação de carteiras fictícias, operações que teriam movimentado bilhões de reais e sustentado a tentativa de venda do banco ao BRB. Segundo o Fundo Garantidor de Créditos, cerca de R$ 40,6 bilhões poderão ser ressarcidos.
Crise financeira ou crise institucional?
O caso Banco Master revela uma crise que ultrapassa o sistema bancário e alcança o núcleo da governança institucional brasileira. A sobreposição entre interesses políticos, decisões administrativas e relações pessoais expõe fragilidades históricas no controle do poder econômico e na separação entre Estado e mercado.
Embora não haja comprovação judicial de irregularidades envolvendo ministros do STF, a percepção pública de promiscuidade institucional tende a corroer a confiança social. A resistência interna a mecanismos formais de ética e transparência agrava esse cenário, sobretudo em um contexto de crescente escrutínio internacional.
A defesa da autonomia do Banco Central surge, nesse ambiente, como um contraponto relevante, mas insuficiente se não vier acompanhada de reformas mais amplas de governança, capazes de restaurar credibilidade e previsibilidade ao sistema institucional brasileiro.
*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, da BBC e The Economist.











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