Deputado do PP defende “coragem de perder” e critica bolsonarismo como entrave à construção de uma direita democrática

Em entrevista publicada neste sábado (24/01/2026) na Revista Veja, o deputado federal Fausto Pinato (PP) afirmou que a polarização entre lulismo e bolsonarismo tem bloqueado o surgimento de uma direita democrática e consistente no país. Ao avaliar o cenário político-eleitoral, o parlamentar defendeu que o campo conservador precisa reconhecer erros recentes, abandonar a obsessão pela vitória imediata e ter “coragem de perder” para construir um projeto sólido de país, capaz de romper o dilema eleitoral do “menos pior” e preparar o terreno para um novo ciclo político.

Pinato sustenta que os elevados índices de rejeição tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo criaram um ambiente de impasse para partidos de centro e centro-direita. Na sua avaliação, a disputa binária sufoca alternativas e impede a consolidação de uma direita comprometida com valores democráticos e institucionais.

O deputado observou que, em cenários altamente polarizados, quem ocupa o Palácio do Planalto tende a largar em vantagem, em razão do controle da máquina administrativa e da visibilidade institucional. Para ele, insistir em vencer a qualquer custo apenas reforça a lógica de curto prazo e perpetua o ciclo de antagonismos.

Nesse contexto, Pinato defendeu que a prioridade do campo conservador deveria ser a formulação de um projeto nacional consistente, mesmo que isso implique aceitar derrotas eleitorais no presente como parte de uma estratégia de reconstrução política mais ampla.

Reconciliação com a democracia e reconhecimento de erros

Ao abordar os desafios internos da direita, o parlamentar foi direto ao afirmar que é necessária uma reconciliação explícita com a democracia. Segundo ele, erros cometidos nos últimos anos afastaram eleitores moderados e comprometeram a credibilidade do campo conservador.

Pinato citou de forma explícita a condução da pandemia e os ataques às instituições como exemplos de equívocos que precisam ser reconhecidos. Para o deputado, a recusa em admitir falhas relacionadas à vacinação e a episódios de ruptura institucional fragilizou a direita perante a sociedade.

Ele também criticou a minimização de eventos que atentaram contra o Estado Democrático de Direito, apontando a carência de formação histórica como um fator que contribui para a naturalização de discursos autoritários ainda presentes no debate público.

“Vale tudo” eleitoral e o custo da vitória imediata

Questionado sobre os limites éticos da disputa política, Pinato rejeitou a lógica do “vale tudo” para vencer eleições. Para ele, a obsessão pela vitória imediata empobrece o debate público e aprisiona o eleitorado em escolhas defensivas, baseadas no medo dos extremos.

Nesse sentido, o deputado afirmou que “temos que ter coragem de perder”, defendendo a construção de candidaturas que, mesmo sem chances reais de vitória, possam contribuir para a pacificação do país e para a reorganização do campo político visando o médio e longo prazo.

Segundo Pinato, muitos eleitores se sentem hoje encurralados entre opções que rejeitam, votando não por convicção, mas por temor. Esse ambiente, avalia, corrói a legitimidade do processo eleitoral e bloqueia o surgimento de novas lideranças.

Lideranças possíveis e o bloqueio à terceira via

Ao tratar da ausência de nomes competitivos fora da órbita bolsonarista, o deputado reconheceu que são raras as lideranças de centro-direita capazes de se descolar dessa agenda. Entre os poucos exemplos citados, mencionou o governador do Paraná, Ratinho Junior, embora tenha admitido que uma candidatura com esse perfil poderia terminar em terceiro lugar.

Para Pinato, o problema central não é a derrota eleitoral em si, mas a falta de disposição das lideranças de centro para assumir riscos políticos. Ele criticou o ambiente interno dos partidos, que, segundo sua avaliação, inibe o surgimento de novos projetos e impede que alternativas viáveis ganhem espaço.

O custo da acomodação e o dilema da direita brasileira

As declarações de Fausto Pinato expõem um diagnóstico recorrente, mas raramente assumido de forma tão direta por integrantes do campo conservador: a dependência do bolsonarismo tornou-se um obstáculo estrutural à reorganização da direita brasileira. Ao defender a aceitação de derrotas como parte de uma estratégia política, o deputado confronta a lógica imediatista que domina o sistema partidário.

O discurso também evidencia uma tensão central do atual cenário político: a dificuldade de romper com bases eleitorais mobilizadas pelo confronto permanente, mesmo quando esse confronto compromete a governabilidade e o diálogo institucional. A ausência de autocrítica consistente aprofunda esse bloqueio.

Por fim, a fala de Pinato sugere que a construção de uma direita democrática exigirá não apenas novos nomes, mas uma mudança cultural profunda, com disposição para enfrentar perdas, rever narrativas e reocupar o espaço do centro político hoje abandonado ou fragmentado.


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