Will Bank pertence ao Banco Master: liquidação extrajudicial amplia pressão sobre o FGC e afeta milhões de clientes

O Banco Central do Brasil decretou, em 21/01/2026, a liquidação extrajudicial do Will Bank (Will Financeira S.A.), banco digital criado em 2017 e controlado pelo Banco Master, cuja própria liquidação havia sido determinada em novembro de 2025. A medida interrompeu imediatamente as operações da instituição, bloqueou contas, cartões e transferências via Pix e ampliou a pressão sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), cujo desembolso potencial para ressarcimentos do conglomerado se aproxima de R$ 50 bilhões, valor equivalente a quase 30% dos recursos disponíveis do fundo.

Fundado em 2017, o Will Bank consolidou-se como banco digital voltado ao público de baixa renda, com ampla base de contas de pagamento. Em 30/08/2024, a instituição foi adquirida pelo Banco Master, passando a integrar o conglomerado financeiro. Segundo dados informados ao Banco Central, o Will Bank atendia quase 6 milhões de clientes, número que representava mais da metade da base total do conglomerado Master.

A incorporação, contudo, expôs o Will Bank às fragilidades financeiras do controlador. Com a deterioração da situação do Banco Master ao longo de 2025, o banco digital passou a operar sob Regime de Administração Especial Temporária (RAET), mecanismo utilizado pelo regulador como tentativa de recuperação ou venda da operação. Nenhuma alternativa se concretizou.

Liquidação extrajudicial e fundamentos da decisão

Ao decretar a liquidação extrajudicial do Will Bank, o Banco Central apontou comprometimento da situação econômico-financeira, insolvência e vínculo direto de controle com o Banco Master, já sob regime especial. A decisão foi tomada após a constatação de que a instituição deixou de honrar pagamentos relevantes à bandeira Mastercard, inviabilizando a continuidade das operações.

Na prática, a liquidação extrajudicial — procedimento administrativo conduzido pelo Banco Central, sem intervenção do Judiciário — implica interrupção imediata das atividades, bloqueio de contas, suspensão de Pix, inoperância de cartões e nomeação de um liquidante, responsável por levantar ativos, apurar passivos e pagar credores conforme a ordem legal.

Impacto financeiro e pressão sobre o FGC

Os ressarcimentos aos clientes do conglomerado Master recaem majoritariamente sobre o FGC, mecanismo de proteção do Sistema Financeiro Nacional que funciona como um seguro para depósitos e investimentos elegíveis. Dados do balanço patrimonial de setembro de 2025 indicavam R$ 160 bilhões em recursos disponíveis no fundo.

Com base no censo de novembro de 2025, o próprio FGC estimou desembolso de R$ 6,3 bilhões apenas para o Will Bank. No caso do Banco Master, a retirada potencial pode alcançar R$ 40,6 bilhões, totalizando R$ 46,9 bilhões — cifra próxima de R$ 50 bilhões, a depender da consolidação final das informações pelo liquidante.

O fundo esclareceu que, por se tratar de instituições do mesmo conglomerado, os valores são consolidados por CPF ou CNPJ, respeitando o limite de R$ 250 mil por pessoa e por instituição, além do teto de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Clientes que já atingiram o limite máximo em liquidações anteriores do grupo não terão valores adicionais a receber.

O que o FGC cobre — e o que fica fora

O FGC garante, dentro dos limites legais, produtos como conta-corrente, poupança, CDB, RDB, LCI, LCA, LCD, letras hipotecárias, letras de câmbio, conta-salário e operações compromissadas emitidas após março de 2012.

Não estão cobertos títulos públicos, fundos de investimento, letras financeiras, LIG, CRI, CRA, debêntures, depósitos judiciais ou no exterior, entre outros instrumentos.

Com base nos dados mais recentes, o FGC informa que avaliza R$ 2,604 trilhões em depósitos e investimentos do sistema financeiro.

Consequências práticas para os clientes do Will Bank

A liquidação extrajudicial produziu efeitos imediatos para os clientes. Saldos em conta, Pix, pagamentos, boletos e cartões ficaram bloqueados. Transferências futuras, inclusive salários, deixaram de ser processadas, retornando à origem.

Há distinções relevantes quanto à forma de ressarcimento:

  • Saldo em conta de pagamento: como o Will Bank operava majoritariamente como instituição de pagamento, os recursos dos clientes eram depositados diariamente em conta no Banco Central. Nesses casos, o ressarcimento não passa pelo FGC e não está sujeito a limite de valor, dependendo das orientações do liquidante.
  • Investimentos (como CDBs): são ressarcidos pelo FGC, até R$ 250 mil por CPF, mediante solicitação no aplicativo oficial do fundo. O prazo médio para início dos pagamentos varia entre 30 e 60 dias, podendo se estender conforme a complexidade do processo.

O Banco Central e o FGC alertam para tentativas de golpe, destacando que não solicitam senhas, códigos ou transferências por telefone ou mensagens.

Pix, cartões e reorganização financeira

Com a liquidação, todas as chaves Pix vinculadas ao Will Bank foram inativadas. A reativação exige portabilidade para outra instituição, realizada diretamente no novo banco escolhido pelo cliente. Cartões de crédito e débito permaneceram inoperantes, e novas compras não são autorizadas.

Especialistas recomendam que os clientes guardem extratos e comprovantes, acompanhem apenas canais oficiais e reorganizem suas operações financeiras em instituições sólidas, enquanto aguardam a conclusão do processo de liquidação.

Investigações e contexto institucional

A liquidação do Will Bank ocorre no rastro das investigações envolvendo o Banco Master, alvo de apurações da Polícia Federal sobre um suposto esquema de emissão e negociação de títulos de crédito falsos no Sistema Financeiro Nacional. A defesa do banco nega as acusações. O decreto do Banco Central também determinou a indisponibilidade de bens de controladores e ex-administradores, conforme a legislação vigente.

Riscos sistêmicos e limites do modelo

A liquidação do Will Bank expõe a interdependência entre bancos digitais e seus controladores, sobretudo quando operações são adquiridas por conglomerados fragilizados. O impacto sobre milhões de clientes evidencia que escala digital não equivale a resiliência financeira.

O possível desembolso próximo a R$ 50 bilhões coloca o FGC diante de um teste de estresse real, embora o fundo disponha de recursos robustos. A concentração de eventos de liquidação em curto intervalo levanta questionamentos sobre governança, supervisão e timing regulatório.

Persistem dúvidas sobre a demora entre a liquidação do Banco Master e a decisão final sobre o Will Bank, período em que a instituição continuou operando sob RAET. O episódio reforça a necessidade de transparência regulatória e de comunicação clara para reduzir incertezas e riscos aos consumidores financeiros.

*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.


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