Investigadores que acompanham as apurações do Caso Master avaliam que a situação do ministro Dias Toffoli, relator do processo no Supremo Tribunal Federal, tornou-se insustentável e tende a se agravar nos próximos meses. O diagnóstico, compartilhado com ministros da Corte, aponta risco de contaminação institucional do STF, diante do avanço de investigações paralelas fora do controle do relator e de decisões que suscitaram questionamentos internos e externos, revela Adréia Sadi, em reportagem desta segunda-feira (26/01/2026) publicada no G1
Desde dezembro, quando assumiu a relatoria do Caso Master e determinou a remessa das investigações ao STF, Toffoli passou a ser alvo de crescente escrutínio. Investigadores ouvidos por órgãos de imprensa avaliam que algumas decisões do ministro causaram estranheza técnica, como a determinação para que o material apreendido na segunda fase da Operação Compliance Zero fosse encaminhado diretamente ao Supremo, e não à Polícia Federal.
O Caso Master apura supostas fraudes financeiras envolvendo o Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, além de operações ligadas à tentativa de aquisição do banco pelo Banco de Brasília (BRB).
Negócio envolvendo familiares amplia desgaste
O cenário se agravou na última semana, após a revelação de que fundos ligados ao Banco Master adquiriram participações pertencentes a irmãos de Toffoli no Resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no Paraná. A transação foi divulgada pelo O Estado de S. Paulo e confirmada pela TV Globo.
Para investigadores, o episódio reforçou a percepção de conflito potencial e eliminou qualquer possibilidade de um “ponto de virada” capaz de encerrar a crise. A avaliação predominante é que os desdobramentos independem, inclusive, das decisões do próprio relator.
Investigações fora do STF e risco de novos fatos
Segundo fontes da investigação, o problema é estrutural. Há frentes de apuração que não estão sob a alçada do Supremo nem concentradas no gabinete de Toffoli. Em São Paulo, por exemplo, seguem em andamento investigações envolvendo fundos de investimento e estruturas financeiras relacionadas ao caso, com potencial para gerar novos fatos a qualquer momento.
Mesmo que o relator tente organizar ou concentrar o processo no STF, o desgaste pode surgir por fora, ampliando a pressão pública e institucional. Esse diagnóstico foi levado diretamente à maioria dos ministros da Corte, com o alerta de que o caso pode “arrastar o tribunal para a lama”, transformando um problema individual em uma crise de grandes proporções.
Defesa do envio à primeira instância
Nos bastidores do Supremo, a avaliação é dura, porém pragmática. Ministros ouvidos defendem que o Caso Master desça para a primeira instância, como forma de reduzir o desgaste imediato da Corte. Essa alternativa é descrita como o “feijão com arroz jurídico”: não cria tese nova, é tecnicamente defensável, retira Toffoli do centro do caso e diminui a pressão direta sobre o STF.
Trata-se, contudo, de uma saída considerada pouco honrosa, mas a menos traumática para o tribunal. A alternativa de o ministro simplesmente se afastar da relatoria não é vista como factível, uma vez que não há expectativa de afastamento voluntário.
Crise antecipada no cenário político
A falta de uma articulação institucional coordenada, segundo ministros, contribuiu para que a crise ganhasse dinâmica própria. Não houve uma tentativa consistente de convencimento interno antes que o caso extrapolasse os limites jurídicos e se projetasse no debate público.
O resultado é que o Supremo passou a figurar precocemente no cenário político-eleitoral. Avaliações internas indicam que o tribunal deixou de ser alvo exclusivo de segmentos mais radicalizados e passou a integrar o radar eleitoral de forma mais ampla, em um contexto de elevada sensibilidade institucional.
Impasse permanece nas mãos do relator
O impasse central persiste. Para uma ala da Corte, a decisão sobre o futuro do Caso Master está, essencialmente, nas mãos do próprio Toffoli. Manter o processo no Supremo concentra o desgaste no ministro e amplia o risco de o tribunal ser visto como juiz em causa própria.
Com a possibilidade de surgimento de novos fatos fora do alcance do relator, a estratégia de contenção pode se mostrar inviável. A leitura interna é que prolongar o impasse tende a agravar a situação e empurrar o STF para o centro de uma crise política de caráter permanente.











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