O Supremo Tribunal Federal (STF) atravessa um novo momento de exposição pública com a decisão do ministro Dias Toffoli de retirar o sigilo e autorizar a divulgação dos vídeos de depoimentos relacionados ao chamado caso Master. A medida, adotada nos últimos dias de janeiro de 2026, foi interpretada por uma ala da Corte como uma tentativa deliberada de reduzir críticas, esclarecer questionamentos recorrentes sobre a investigação e recompor o ambiente interno do tribunal antes da reabertura do ano judiciário.
Nos bastidores, ministros avaliam que a iniciativa teve repercussão positiva, inclusive entre magistrados que vinham demonstrando desconforto com decisões anteriores do relator no processo envolvendo o Banco Master. Para integrantes do tribunal, a liberação do material audiovisual representou um “saldo positivo”, ao ampliar a transparência e permitir maior compreensão pública sobre o andamento das apurações.
Além da divulgação dos vídeos, Toffoli também encaminhou uma nota explicativa aos gabinetes do STF, detalhando pontos sensíveis da tramitação do inquérito sob sua relatoria. O comunicado foi interpretado como um esforço adicional para reposicionar o ministro na narrativa dos fatos, sobretudo diante de críticas externas e internas à Corte.
Transparência como estratégia institucional
A expectativa entre ministros é que a exposição dos depoimentos contribua para demonstrar como a investigação vem sendo conduzida no âmbito do STF, afastando acusações de obscuridade ou direcionamento. As medidas também são vistas como uma tentativa de melhorar o clima interno do tribunal, que retoma oficialmente suas atividades na próxima segunda-feira, em sessão solene.
Apesar disso, permanece entre uma ala do Supremo a avaliação de que o relator ainda precisa prestar esclarecimentos mais amplos sobre suas conexões com personagens centrais do caso Master. A liberação dos vídeos, embora relevante, não teria sido suficiente para dissipar todas as dúvidas existentes nos bastidores da Corte.
Depoimentos e versões conflitantes
Os vídeos divulgados revelam detalhes dos depoimentos prestados por Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master; por Paulo Henrique Costa, então presidente afastado do Banco de Brasília; e por Ailton Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central, que não figura como investigado e não participou de acareação.
Um dos pontos centrais revelados pelas gravações é a divergência entre Vorcaro e Costa durante a acareação sobre a origem das carteiras de crédito consideradas problemáticas e adquiridas pelo BRB a partir de 2025. Vorcaro sustentou que o banco público tinha conhecimento de que parte dos créditos não havia sido originada pelo Master, mas por outra empresa, a Tirreno, dentro de um modelo de negócios que previa a compra de carteiras estruturadas por terceiros. Costa negou essa versão e afirmou que sempre entendeu que os ativos eram de origem do próprio Master, relatando que dúvidas só surgiram posteriormente.
Nota do relator e encaminhamentos possíveis
Na nota enviada aos gabinetes do STF, Toffoli apresentou 11 pontos explicativos sobre a condução do processo. O ministro reconheceu expressamente a possibilidade de remeter a investigação, total ou parcialmente, à primeira instância após a conclusão das diligências, afastando a ideia de que o caso permanecerá indefinidamente sob a jurisdição do Supremo.
O relator também destacou que assumiu o inquérito por sorteio regular, sem questionamentos da Procuradoria-Geral da República, e que atendeu a pedidos da Polícia Federal para prorrogar o inquérito por mais 60 dias. Segundo o texto, todos os pedidos das defesas para reconhecimento de nulidades processuais foram rejeitados, assim como uma proposta de composição amigável apresentada pela defesa de Daniel Vorcaro.
Sobre a imposição de sigilo absoluto em etapas anteriores, Toffoli justificou a medida pela necessidade de preservar diligências ainda em andamento. Diante da repercussão negativa, contudo, passou a divulgar decisões e atos processuais relevantes, numa tentativa de ampliar a transparência.
Pressões políticas e institucionais ampliam desgaste
Paralelamente às discussões formais no STF, o caso Master tem provocado forte tensão política em Brasília. A investigação alcança não apenas o sistema financeiro, mas também relações envolvendo o Executivo, o Congresso e órgãos de controle. Episódios como reuniões fora da agenda pública entre Vorcaro e o presidente Lula, além de contratos do banco com o escritório do ex-ministro do Supremo Ricardo Lewandowski, ampliaram o desgaste institucional.
Outros nomes de peso também surgem no entorno do caso, como o ex-ministro Guido Mantega, cuja contratação pelo Master teria ocorrido por indicação política, segundo relatos. No campo do controle, questionamentos recaem sobre a atuação do Banco Central, acusado de demora excessiva para agir diante de indícios de irregularidades, e sobre a CVM, que teria firmado acordos considerados brandos em investigações antigas contra o grupo.
No Tribunal de Contas da União, a postura do TCU também entrou no radar, após manifestações críticas à liquidação do banco e tentativas de atribuir responsabilidade ao Banco Central pela condução do processo.
*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.











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