STF um negócio de família para família e amigos: Folha revela que nove ministros e parentes mantêm participação em ao menos 31 empresas

Reportagem exclusiva da Folha de S.Paulo revelou neste sábado (14/02/2026) que nove ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e 12 parentes diretos mantêm participação societária em pelo menos 31 empresas. Os registros incluem principalmente escritórios de advocacia, institutos jurídicos e companhias ligadas ao setor imobiliário, segundo dados obtidos em registros públicos e analisados pela reportagem.

O mapeamento considera empresas em nome dos próprios ministros, de filhos e de cônjuges, além de três companhias nas quais não há registro direto dos magistrados, mas há indícios de vínculo. Também foram localizadas sociedades em nome de ex-cônjuges com separação recente. O número total pode ser superior, já que estruturas societárias podem incluir participações indiretas ou não identificadas em registros abertos.

Atividades empresariais são permitidas, mas geram questionamentos

A Lei Orgânica da Magistratura permite que juízes integrem o quadro societário de empresas e recebam dividendos, desde que não exerçam funções de administração. A legislação não impõe restrições específicas a filhos ou cônjuges de magistrados.

Apesar da legalidade, especialistas e observadores apontam que a participação societária pode gerar questionamentos sobre suspeição ou conflitos de interesse, dependendo da natureza das empresas e de eventuais processos em análise no tribunal.

Em sessão do STF no início de fevereiro, o ministro Alexandre de Moraes defendeu a possibilidade de magistrados serem sócios de empresas e classificou as críticas como “má-fé”. Já o ministro Dias Toffoli afirmou que juízes não poderiam ser obrigados a abrir mão de heranças ou patrimônios familiares apenas por exercerem a magistratura.

A reportagem tentou contato com ministros e familiares por meio da assessoria do tribunal, mas a maioria não respondeu. Apenas dois parentes e uma ex-cônjuge apresentaram manifestações.

Caso Toffoli e suspeição em processo

O levantamento menciona a participação do ministro Dias Toffoli na holding Maridt, que teve participação no resort Tayayá, posteriormente vendido a fundo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A ligação entre o magistrado e operações financeiras relacionadas ao caso levou a Polícia Federal a apontar elementos de suspeição, o que resultou em seu afastamento da relatoria do processo.

Toffoli afirmou ser sócio da Maridt, embora não haja registros societários públicos acessíveis diretamente em seu nome. A ex-esposa do ministro, a advogada Roberta Rangel, é sócia de duas empresas com capital social conjunto de R$ 20 mil.

Gilmar Mendes lidera número de empresas

O ministro Gilmar Mendes aparece como o integrante da Corte com maior número de vínculos societários, com participação direta ou indireta em seis empresas. Entre elas está a Roxel Participações, com capital social de R$ 9,8 milhões, que integra estruturas ligadas ao Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e a empresas do setor agropecuário e de insumos agrícolas.

Filhos do ministro também possuem participações societárias, incluindo escritório de advocacia e sociedade individual. A ex-esposa de Mendes, a advogada Guiomar Lima, é sócia de um escritório que atua em tribunais superiores e afirmou nunca ter atuado no STF por opção pessoal.

Empresas de familiares de Moraes, Zanin e outros ministros

O levantamento identificou ainda participações societárias de familiares de outros ministros.

A esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci, é sócia de três empresas, incluindo escritório de advocacia, instituto jurídico e outra sociedade aberta em 2025. As companhias somam capital social superior a R$ 5,6 milhões.

O ministro Cristiano Zanin e sua esposa são sócios de duas empresas, entre elas a Attma Participações. A advogada Valeska Zanin também mantém participações em três outras sociedades, incluindo empresas de incorporação imobiliária e escritório de advocacia.

O ministro Kassio Nunes Marques é sócio de duas empresas administradas por familiares. O filho possui escritório próprio e participação em instituto tributário. A assessoria do advogado afirmou que as empresas não têm relação com o ministro.

Institutos jurídicos e empresas educacionais

O levantamento inclui empresas ligadas a atividades acadêmicas e institutos jurídicos. O ministro André Mendonça e sua esposa são sócios de empresa de cursos aberta após sua posse no STF. A esposa também teve participação em instituto ligado a editora, que teria firmado contratos públicos milionários.

O ministro Flávio Dino é sócio de instituto de estudos jurídicos com capital social de R$ 10 mil.

Já os ministros Luiz Fux e Edson Fachin não possuem empresas em seus nomes, mas familiares mantêm participações societárias. O filho de Fux tem escritório de advocacia, enquanto filhas de Fachin possuem empresas nas áreas jurídica, imobiliária e de saúde.

Estrutura geral das participações

O levantamento identificou que as empresas ligadas aos ministros e familiares concentram-se principalmente em três áreas:

  • Advocacia e institutos jurídicos: 13 empresas
  • Gestão e exploração imobiliária: 6 empresas
  • Outros setores (educação, agropecuária, participações e serviços): demais registros

Segundo a reportagem, a existência de sócios ocultos e participações indiretas pode ampliar o número total de empresas associadas aos ministros e familiares.

Relação nominal dos ministros, familiares e empresas citadas

A seguir está a relação completa dos nomes, vínculos familiares e dados societários citados no levantamento do jornal Folha de S.Paulo.

Alexandre de Moraes

Empresas de familiares

  • Viviane Barci (esposa)
    • Barci de Moraes Sociedade de Advogados
      • Sócios: esposa e dois filhos
      • Capital social: R$ 500 mil
    • Barci e Barci Sociedade de Advogados
      • Sócios: esposa e filha
      • Capital social: R$ 100 mil
    • Lex – Instituto de Estudos Jurídicos Ltda
      • Sócios: esposa e três filhos
      • Capital social: R$ 5 milhões

Capital social conjunto: cerca de R$ 5,6 milhões

André Mendonça

Empresa ligada ao ministro

  • Integre Cursos e Pesquisa em Estado de Direito e Governança Global Ltda
    • Sócios: ministro e esposa
    • Aberta após sua posse no STF (2022)

Empresas de familiares

  • Instituto Iter
    • Esposa foi sócia
    • Instituto segue comercializando cursos do ministro
  • Editora Iter
    • Instituto Iter como sócio
  • Faturamento citado: R$ 4,8 milhões em contratos públicos (pouco mais de um ano)

Cristiano Zanin

Empresas ligadas ao ministro

  • Attma Participações Ltda
    • Sócio: ministro
    • Capital social: R$ 260 mil
  • Instituto Lawfare
    • Sócio: ministro
    • Atividades: cursos

Empresas de familiares

  • Valeska Zanin (esposa)
    • Triza Participações Ltda
      • Incorporação imobiliária
    • Mito Participações Ltda
      • Incorporação imobiliária
    • Zanin Martins Advogados
      • Escritório aberto em 2022
      • Atuação: crimes financeiros

Capital social conjunto das empresas citadas: cerca de R$ 1,46 milhão

Dias Toffoli

Empresa ligada ao ministro

  • Maridt Participações S.A
    • Participação: sócio oculto
    • Holding com participação no resort Tayayá
    • Resort posteriormente vendido a fundo ligado a Daniel Vorcaro

Empresas de familiares

  • Roberta Rangel (ex-esposa)
    • Rangel Advocacia
      • Aberta em 2005
    • Ibed – Instituto Brasiliense de Estudos em Direito

Capital social conjunto das duas empresas: R$ 20 mil

Edson Fachin

Empresas de familiares

  • Melina Fachin (filha, advogada)
    • Mahalta Participações Ltda
      • Gestão imobiliária
      • Capital social: R$ 720 mil
    • Fachin Advogados Associados
      • Fundado pelo ministro
  • Camila Fachin (filha, médica)
    • Anfabi Serviços Médicos Ltda
    • Empresa Paranaense de Locação de Equipamentos Médicos para Cirurgia Fetal Ltda

Capital social conjunto conhecido: cerca de R$ 731 mil

Flávio Dino

Empresa ligada ao ministro

  • Idej – Instituto de Estudos Jurídicos (Dinamo Educacional)
    • Sócio: ministro
    • Capital social: R$ 10 mil

Gilmar Mendes

Empresas ligadas ao ministro

  • Roxel Participações Ltda
    • Capital social: R$ 9,8 milhões
  • GMF Agropecuária
    • Roxel é sócia
    • Capital social: R$ 2,2 milhões
  • Mt Crops (M&F Armazéns Ltda)
    • Roxel é sócia
    • Capital social: R$ 500 mil
  • Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP)
    • Roxel é sócia
  • IDP Cursos e Projetos Ltda
    • Roxel é sócia
  • Loja IDP Ltda
    • IDP como sócio

Empresas de familiares

  • Francisco Schertel Mendes (filho)
    • Schertel Ferreira Mendes Advogados
    • Sócio do IDP
  • Laura Schertel Mendes (filha)
    • Sociedade individual de advocacia

Ex-esposa

  • Guiomar Lima
    • Sócia do escritório Sergio Bermudes

Luiz Fux

Empresas de familiares

  • Rodrigo Fux (filho)
    • Fux Advogados
    • Rodrigo Fux Advogados Associados
    • Capital social conjunto: R$ 82 mil

Nunes Marques

Empresas ligadas ao ministro

  • Nunes & Marques Administradora de Imóveis
    • Capital social: parte dos R$ 130 mil totais
  • Educacional e Capacitação Ltda
    • Capital social conjunto: R$ 130 mil

Empresas de familiares

  • Kevin de Carvalho Marques (filho)
    • Kevin de Carvalho Marques Sociedade Individual de Advocacia
    • IPGT – Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária Ltda
    • Capital social conjunto: R$ 150 mil

Síntese

  • Ministros com participação societária direta: 9
  • Parentes diretos com empresas: 12
  • Total mínimo de empresas identificadas: 31
  • Principais setores:
    • Advocacia e institutos jurídicos: 13
    • Imobiliário: 6
    • Outros (educação, agropecuária, saúde, participações): 12

Quando se coloca todos os nomes e vínculos numa mesma página, surge um retrato quase cartográfico do poder: a Suprema Corte não é apenas um colegiado de julgadores, mas um nó dentro de uma rede patrimonial, acadêmica e empresarial. Isso não é, por si só, prova de irregularidade — a lei permite. Mas, na história das instituições, a legitimidade costuma depender menos da letra fria da norma e mais da confiança difusa da sociedade. E confiança, como reputação, é um ativo que se perde em silêncio e raramente volta com discursos.


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