Segunda-feira (16/02/2026) — Um sócio do banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, cobra quase R$ 500 milhões da instituição após perdas associadas à derrocada do Banco Master, da empresa de investimentos Reag e da holding Fictor. A disputa envolve o fundo de investimento em direitos creditórios EXP 1 e expõe novos desdobramentos da crise financeira que atingiu essas companhias ao longo de 2025.
O empresário Roberto Campos Marinho Filho, sócio do Digimais e dono da gestora Yards Capital, afirma que títulos vinculados às três empresas que lastreavam a participação do banco no fundo perderam valor ou não possuíam documentação adequada. O Digimais, por sua vez, acusa o sócio de reter R$ 88 milhões em rendimentos do fundo sem explicações e já recorreu à Justiça, revela reportagem do UOL, assinada por Júlio Wiziack.
Estrutura do fundo e origem do conflito
O fundo EXP 1 iniciou suas operações em fevereiro de 2025 com cerca de R$ 720 milhões. O Digimais detinha 80% das cotas, enquanto os outros 20% pertenciam à Yards Capital, gestora de Marinho Filho.
A participação do banco foi integralizada por meio de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), que representavam direitos de recebimento de empréstimos consignados originados por Master, Reag e Fictor. Esses créditos deveriam alimentar o fundo com pagamentos regulares.
Os problemas começaram quando Master e Reag foram liquidados pelo Banco Central após escândalos envolvendo fraudes financeiras. A Fictor, que havia anunciado a compra do Master por R$ 3 bilhões, entrou posteriormente com pedido de recuperação judicial envolvendo R$ 4,2 bilhões em dívidas, provocando corrida de investidores para resgatar aplicações.
Notificação para recompra de créditos
Em fevereiro de 2026, a Yards Capital notificou o Digimais para recomprar uma carteira de R$ 462,2 milhões supostamente sem lastro, formada por:
- R$ 316,6 milhões em papéis do Master e da Reag
- R$ 145,6 milhões em títulos da Fictor
No jargão financeiro, a ausência de lastro indica que não há documentação suficiente para comprovar a existência ou validade das operações de crédito.
Segundo Marinho Filho, auditoria identificou 22.185 CCBs sem lastro, com problemas como:
- Falta de documentação comprobatória
- Inconsistências na originação
- Má formalização contratual
- Falhas que comprometem a execução jurídica dos ativos
O sócio sustenta que o contrato do fundo previa a recompra desses papéis em situações desse tipo e afirma que, caso não haja recomposição financeira, adotará medidas judiciais.
Acusações de retenção de recursos
O gestor também acusa o Digimais de interferir indevidamente na cadeia de pagamentos dos créditos cedidos ao fundo, direcionando repasses para a própria instituição. Segundo ele, essa conduta poderia caracterizar apropriação indébita.
O banco nega as acusações. Em nota, o Digimais afirma que:
- Não possui coobrigação sobre os créditos
- A responsabilidade por eventuais problemas é das instituições originadoras
- Já repassou mais de R$ 88 milhões ao fundo desde sua criação
Segundo o diretor jurídico da instituição, os repasses foram comprovados judicialmente com documentos e transferências bancárias.
O Digimais também sustenta que não teve acesso à destinação final desses recursos e afirma que entrou na Justiça contra a Yards por falta de informações sobre a política de investimentos do fundo desde novembro de 2025.
Amortização das cotas e incerteza financeira
A disputa ocorre no momento em que os cotistas se preparam para a amortização das cotas, prevista para 28 de fevereiro de 2026. Esse é o procedimento que transforma o patrimônio do fundo em dinheiro, distribuído entre os investidores.
Entretanto, o futuro da operação é incerto. Parte dos ativos do fundo está bloqueada por decisões judiciais em favor de credores das empresas envolvidas.
Diante da falta de informações, o Digimais afirma ter optado por depositar valores em juízo até o desfecho do litígio.
Reestruturação do banco
O conflito ocorre enquanto o Digimais passa por um processo de reestruturação e busca compradores. Para conduzir essa fase, o banco contratou Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, para assumir a presidência da instituição.
Em meio à disputa judicial, Marinho Filho tem levantado dúvidas sobre a saúde financeira do banco, ampliando a tensão entre os sócios.
*Com informações do UOL.










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