Marxismo, capitalismo e crises sistêmicas: David Harvey defende atualidade da teoria de Karl Marx para compreender o mundo contemporâneo

Na segunda-feira (23/02/2026), o geógrafo e teórico social britânico David Harvey publicou no New Statesman um artigo no qual defende que o marxismo continua relevante para compreender as crises e contradições do capitalismo contemporâneo. O texto acompanha o lançamento de seu livro A História do Capital e retoma conceitos centrais da obra de Karl Marx, argumentando que a análise das contradições internas do sistema capitalista permanece essencial para interpretar fenômenos como crises financeiras, instabilidade econômica e desigualdade social.

Harvey sustenta que os economistas tradicionais frequentemente negligenciam riscos sistêmicos estruturais do capitalismo, o que, segundo ele, contribuiu para a incapacidade de prever a crise financeira global de 2008. Para o autor, a teoria marxista oferece instrumentos analíticos capazes de revelar tensões internas do sistema econômico que permanecem invisíveis em abordagens convencionais da economia.

Crise financeira de 2008 e a falha da economia dominante

Harvey inicia sua reflexão recordando um episódio emblemático ocorrido em novembro de 2008, durante o auge da crise financeira global. Na ocasião, a Rainha Elizabeth II visitou a London School of Economics (LSE) e questionou economistas sobre por que ninguém havia previsto a crise que abalou o sistema financeiro internacional.

A pergunta expôs uma fragilidade significativa da teoria econômica dominante. Meses depois, economistas da instituição enviaram uma carta à monarca reconhecendo que uma combinação de arrogância intelectual e negligência em relação aos riscos sistêmicos contribuiu para o fracasso da previsão da crise.

Para Harvey, esse episódio simboliza um problema mais amplo. Segundo ele, grande parte da economia contemporânea trata o capitalismo como um sistema estável e autorregulado, ignorando as tensões internas que podem gerar colapsos periódicos. A teoria marxista, em contraste, teria sido construída justamente para analisar essas tensões.

A proposta do livro A História do Capital

O novo livro de Harvey busca examinar as disfunções estruturais do capitalismo, utilizando ferramentas conceituais derivadas da análise de Marx sobre a economia política.

Embora Marx tenha afirmado que o objetivo não deveria ser apenas compreender o mundo, mas transformá-lo, Harvey observa que o pensador alemão dedicou décadas à investigação teórica do funcionamento do capital. Para ele, essa dedicação revela uma convicção metodológica clara: não é possível transformar um sistema social sem antes compreendê-lo profundamente.

Entre as obras utilizadas por Harvey como referência está Grundrisse, conjunto de manuscritos de Marx escritos entre 1857 e 1858, considerado um dos textos preparatórios de O Capital. Nesses escritos, Marx sustenta que o capital constitui o conceito fundamental da economia moderna e o fundamento da sociedade burguesa.

Contradições internas do capitalismo

O conceito central da teoria marxista

Um dos conceitos mais enfatizados por Harvey é o de contradição estrutural. Para Marx, o capitalismo não é um sistema harmonioso, mas um arranjo social atravessado por tensões internas que impulsionam transformações históricas.

Segundo Harvey, esse conceito está praticamente ausente da maior parte da teoria econômica dominante. Manuais neoclássicos, ricardianos ou mesmo keynesianos raramente utilizam a noção de contradição como categoria analítica central.

Na abordagem marxista, porém, as contradições são consideradas forças estruturais que moldam o movimento do sistema econômico.

Microeconomia e macroeconomia: uma tensão estrutural

Harvey argumenta que a economia política convencional divide-se em duas áreas principais:

  • Microeconomia, que analisa o comportamento de empresas e consumidores
  • Macroeconomia, que examina o funcionamento das economias nacionais e globais

Apesar de décadas de pesquisa, economistas ainda enfrentam dificuldades para integrar plenamente essas duas dimensões analíticas.

Para Marx, entretanto, essa tensão não é um problema metodológico a ser eliminado, mas uma contradição constitutiva do próprio capitalismo.

Empresas individuais, pressionadas pela concorrência, buscam aumentar a produtividade do trabalho por meio de tecnologia e reorganização da produção. Esse processo reduz o número de trabalhadores necessários para produzir bens e serviços.

Trabalho, valor e a crise da lucratividade

A teoria marxista parte do princípio de que o trabalho humano é a fonte do valor econômico. Quando o avanço tecnológico reduz a quantidade de trabalho empregada na produção, o resultado pode ser uma redução da criação de valor no sistema.

Harvey argumenta que esse processo gera uma tensão fundamental. Enquanto capitalistas individuais agem racionalmente ao aumentar a produtividade para ampliar seus lucros, o efeito agregado pode ser a redução da lucratividade global do sistema.

Essa dinâmica cria um paradoxo:
as estratégias racionais das empresas podem produzir resultados coletivos que enfraquecem o próprio sistema capitalista.

Segundo Harvey, esse mecanismo ajuda a explicar crises recorrentes de rentabilidade e instabilidade econômica.

Instituições e tentativas de administrar as contradições

Harvey observa que diversas instituições foram criadas para lidar com as tensões do capitalismo moderno. Entre elas estão:

  • centros de pesquisa econômica
  • organismos internacionais
  • institutos de políticas públicas
  • organizações financeiras globais

Essas instituições buscam desenvolver políticas capazes de estabilizar o sistema econômico, mitigando crises e desequilíbrios.

Contudo, Harvey sustenta que existe uma diferença fundamental entre problemas técnicos e contradições estruturais.

Problemas podem ser resolvidos por meio de políticas econômicas ou ajustes institucionais. Contradições, por outro lado, são tensões permanentes inerentes ao próprio sistema social.

Segundo o autor, essas tensões só desapareceriam caso o próprio sistema que as produz fosse transformado ou substituído.

Dependência abstrata e transformação das relações sociais

Harvey também destaca uma observação feita por Marx nos Grundrisse: à medida que o capitalismo se expande, relações pessoais de dependência são substituídas por relações mediadas por estruturas abstratas de mercado.

Nas sociedades pré-capitalistas, relações econômicas eram frequentemente baseadas em vínculos pessoais, hierarquias sociais ou obrigações diretas entre indivíduos.

Com o avanço do capitalismo, essas relações passam a ser organizadas por mercados, contratos e instituições financeiras, criando uma rede de dependências indiretas entre indivíduos e organizações.

Segundo Marx, essas relações abstratas tornam-se forças sociais que condicionam a vida econômica e social, frequentemente escapando ao controle individual.

A persistência do debate sobre capitalismo e marxismo

O texto de David Harvey se insere em um debate intelectual de longa duração sobre a capacidade do capitalismo de se adaptar às crises que ele próprio gera. Desde o século XIX, economistas, sociólogos e filósofos discutem se as tensões identificadas por Marx representam falhas estruturais do sistema ou simplesmente ciclos econômicos administráveis.

O argumento de Harvey ganha nova relevância em um contexto marcado por crises financeiras recorrentes, desigualdade econômica crescente e transformações tecnológicas aceleradas. Esses fatores reativaram o interesse acadêmico por abordagens críticas da economia política.

Por outro lado, críticos do marxismo argumentam que a resiliência histórica do capitalismo e sua capacidade de inovação tecnológica demonstram a flexibilidade do sistema. O debate permanece aberto, refletindo uma disputa intelectual que atravessa mais de um século de pensamento econômico.


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