Datafolha mostra recorde de desconfiança no STF e avanço da crise de imagem do Judiciário no Brasil

A desconfiança dos brasileiros no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Poder Judiciário atingiu os maiores níveis já registrados nas séries históricas do Datafolha, em meio a uma combinação de fatores que envolve decisões judiciais controversas, questionamentos éticos sobre ministros da Corte, resistência interna à adoção de mecanismos formais de controle de conduta e desgaste público causado pelos chamados penduricalhos salariais. Segundo o levantamento, 43% dos entrevistados dizem não confiar no STF, maior índice desde o início da série, em 2012, enquanto 36% afirmam não confiar no Judiciário, também recorde no recorte iniciado em 2017. O cenário revela uma crise de legitimidade institucional que se amplia para além de episódios isolados e atinge o núcleo da percepção pública sobre imparcialidade, transparência e responsabilidade no sistema de Justiça.

A pesquisa, divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (11/03/2026), mostra que o avanço da desconfiança foi acompanhado por uma queda relevante no nível de confiança intensa no Supremo. Em dezembro de 2024, 24% dos entrevistados declaravam confiar muito na Corte. Agora, esse percentual recuou para 16%, igualando numericamente o menor patamar da série, registrado em junho de 2018 dentro da margem de erro. Na direção oposta, o contingente dos que não confiam no tribunal subiu de 38% para 43%, sinalizando agravamento do desgaste institucional em pouco mais de um ano.

No caso do Judiciário como um todo, o movimento seguiu a mesma linha. A parcela dos brasileiros que diz não confiar na Justiça passou de 28% para 36%, o maior nível desde o início da série específica. O dado sugere que o desgaste não está restrito ao STF, embora a Corte concentre hoje o foco principal das críticas públicas por sua centralidade política, constitucional e simbólica.

Avaliação dos ministros piora e reforça percepção negativa

A deterioração da confiança institucional aparece também na forma como os entrevistados avaliam o trabalho dos ministros do Supremo. Apenas 23% consideram o desempenho da Corte ótimo ou bom, abaixo dos 32% apurados em dezembro. Já a avaliação ruim ou péssima avançou de 35% para 39%, consolidando uma percepção mais negativa sobre a atuação do tribunal.

O resultado indica que a crise não se resume a uma abstração sobre a instituição, mas alcança a imagem concreta de seus integrantes. Em democracias constitucionais, a autoridade de uma Suprema Corte depende menos da força material e mais da credibilidade pública de suas decisões. Quando essa base se enfraquece, cresce o risco de contestação política permanente, resistência social e erosão simbólica da função arbitral do tribunal.

O levantamento foi realizado com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, em 137 municípios brasileiros, entre os dias 3 e 5 de março de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com 95% de nível de confiança. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03715/2026.

Perfil da desconfiança revela clivagens sociais e políticas

Os dados do Datafolha apontam que a insatisfação com o STF é mais intensa em determinados segmentos da população. A desconfiança é particularmente elevada entre homens (46%), pessoas com maior escolaridade (45%) e entrevistados com renda superior a dez salários mínimos, grupo em que a reprovação ao tribunal chega a 65%. O recorte sugere que parte importante da resistência ao Supremo se concentra em estratos sociais mais politizados, mais informados e mais sensíveis ao debate institucional.

A pesquisa também expõe forte polarização política na avaliação da Corte. Entre eleitores de Lula, 44% se dizem satisfeitos com o STF e 12% insatisfeitos. Já entre eleitores de Flávio Bolsonaro, apenas 7% estão satisfeitos, enquanto 67% manifestam insatisfação. O contraste mostra que a imagem do tribunal passou a ser filtrada, em larga medida, pela identidade política do eleitorado.

Esse dado tem peso especial porque o STF deixou de ser percebido apenas como instância técnica de guarda da Constituição e passou a ocupar, no imaginário nacional, um lugar mais diretamente vinculado ao conflito político. A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, no ano anterior, ampliou esse processo ao associar o tribunal, para uma parcela do eleitorado, ao desfecho judicial de uma disputa política de grande intensidade.

Questionamentos éticos ampliam desgaste da Corte

Entre os fatores apontados para o agravamento da crise de imagem do Supremo em 2026 está o chamado caso Master, envolvendo relações suspeitas entre ministros da Corte e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco. O episódio produziu forte repercussão por tocar justamente o ponto mais sensível da legitimidade judicial: a aparência de independência e imparcialidade.

O ministro Dias Toffoli, que era relator de um inquérito relacionado ao caso e havia imposto sigilo total aos autos, deixou a relatoria após a Polícia Federal identificar que fundos ligados ao banco compraram participação de uma empresa de sua família em um resort de luxo. O episódio abriu questionamentos sobre conflito de interesses, transparência e limites éticos na condução de processos de alto impacto.

Já o ministro Alexandre de Moraes passou a ser alvo de novos questionamentos após a revelação de que sua esposa mantém contrato bilionário de prestação de serviços advocatícios com o Master. Embora as perícias da Polícia Federal que apontaram diálogos entre Moraes e Vorcaro tenham se tornado públicas depois da realização da pesquisa, a existência do contrato já era conhecida e alimentava críticas sobre eventual comprometimento da imparcialidade do magistrado.

População defende limites mais duros para ministros do STF

O levantamento Datafolha mostra que a percepção pública sobre a necessidade de impor barreiras éticas mais rígidas à atuação dos ministros é amplamente majoritária. Segundo a pesquisa, 79% discordam que um ministro julgue causas envolvendo clientes de parentes, 78% são contra ministros serem sócios de empresas e 76% rejeitam o recebimento de pagamentos por palestras promovidas por instituições privadas.

Esses números revelam uma disposição social muito clara em favor de padrões mais estritos de integridade judicial. O que está em jogo não é apenas a legalidade formal de determinadas condutas, mas a confiança pública na neutralidade do julgador. Em temas sensíveis, a aparência de independência vale quase tanto quanto a independência em si. Quando essa fronteira fica turva, a autoridade da decisão judicial começa a se corroer.

Apesar disso, a criação de um código de ética formal no STF enfrenta resistências internas. A Corte estaria dividida entre os que veem a medida como instrumento necessário para conter a erosão reputacional e os que consideram a iniciativa uma restrição excessiva à atuação dos ministros. A resistência indica que, no interior do tribunal, ainda não há consenso sobre a profundidade da crise nem sobre o custo político de manter o atual modelo de autorregulação frouxa.

Penduricalhos mantêm pressão sobre o Judiciário

No plano mais amplo do Judiciário, o desgaste também é alimentado pela persistência dos chamados penduricalhos, benefícios, auxílios e bônus que, na prática, permitem a juízes e membros do Ministério Público ultrapassar o teto constitucional de R$ 46.366,19. Em diversos casos, essas verbas elevam a remuneração líquida para valores superiores a R$ 100 mil mensais, o que amplia a sensação pública de privilégio e desconexão entre a cúpula do sistema de Justiça e a realidade fiscal do país.

A permanência desse modelo remuneratório tem forte impacto simbólico. Em um ambiente de cobrança por austeridade, equilíbrio fiscal e contenção de gastos públicos, a manutenção de mecanismos que burlam o teto constitucional reforça a percepção de que existem castas protegidas dentro do Estado. Esse tipo de percepção é corrosivo porque atinge diretamente a ideia republicana de isonomia e responsabilidade na administração do dinheiro público.

Para enfrentar o problema, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tem intensificado o monitoramento das folhas de pagamento com o objetivo de barrar benefícios criados sem base legal por tribunais estaduais. No entanto, embora haja maior vigilância, o avanço prático ainda é limitado. No STF, o debate se concentra na possibilidade de fixar entendimento segundo o qual toda verba de natureza salarial deve necessariamente respeitar o teto constitucional. Até o momento, porém, a agenda segue sem solução robusta.

Crise de confiança vai além do momento e atinge a legitimidade institucional

O conjunto dos dados do Datafolha sugere que o problema do STF e do Judiciário não é apenas conjuntural. Há um acúmulo de desgaste formado por decisões de alta voltagem política, exposição pública de relações impróprias ou mal explicadas, demora em corrigir distorções internas e dificuldade em estabelecer padrões convincentes de autocontenção institucional.

Em termos práticos, a crise de confiança pode produzir efeitos duradouros. Instituições judiciais dependem da aceitação social de seus pronunciamentos para exercer autoridade com estabilidade. Quando cresce a convicção de que faltam critérios uniformes, limites éticos claros e responsabilidade administrativa, abre-se espaço para contestação permanente, radicalização discursiva e enfraquecimento da função moderadora da Justiça.

O retrato revelado pela pesquisa indica, portanto, um ponto de inflexão. O Supremo e o Judiciário seguem formalmente investidos de suas competências constitucionais, mas enfrentam uma dificuldade crescente de preservar o capital simbólico indispensável ao exercício dessas competências. Sem credibilidade, até a autoridade legal mais sólida começa a perder eficácia perante a sociedade.


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