MPRJ pede falência da Refit após quase 10 anos de recuperação judicial e dívida fiscal de R$ 25,7 bilhões

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) pediu à Justiça, na terça-feira, 26/05/2026, a conversão da recuperação judicial da Refinaria de Petróleos de Manguinhos (Refit) em falência, sob o argumento de que o processo, iniciado há quase 10 anos, não teria cumprido a finalidade legal de promover a reestruturação econômico-financeira da empresa. Segundo o órgão, o passivo fiscal da refinaria cresceu de cerca de R$ 5 bilhões para aproximadamente R$ 25,7 bilhões, em um cenário marcado por inadimplência tributária recorrente, suspeitas de sonegação fiscal, indícios de ocultação patrimonial e descumprimento de obrigações previstas no plano de recuperação judicial.

Ministério Público questiona efetividade da recuperação judicial

A manifestação foi apresentada pelo Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (Gaesf), estrutura do MPRJ voltada ao enfrentamento de práticas associadas à sonegação e à proteção da ordem tributária.

No documento enviado à Justiça, o grupo sustenta que, após quase uma década de recuperação judicial, a Refit não teria alcançado o objetivo previsto na legislação: reorganizar suas finanças, preservar a atividade econômica viável, manter empregos e permitir o pagamento de credores.

Para o MPRJ, o caso teria seguido caminho oposto. A dívida fiscal, segundo o órgão, aumentou de cerca de R$ 5 bilhões para R$ 25,7 bilhões, o que foi apresentado como sinal de ineficácia do processo de recuperação judicial.

Passivo fiscal cresceu durante o processo

Um dos pontos centrais da manifestação é o crescimento do passivo tributário da refinaria ao longo do período em que a empresa permaneceu sob recuperação judicial.

De acordo com o MPRJ, a recuperação deveria funcionar como instrumento de reorganização empresarial, mas, no caso da Refit, teria contribuído para a ampliação contínua das dívidas fiscais.

O Gaesf afirma que a empresa manteve, nos últimos anos, uma situação de inadimplência tributária recorrente. Dados apresentados por órgãos fazendários, segundo o Ministério Público, indicam que mais de 80% dos tributos devidos entre 2022 e 2024 deixaram de ser pagos.

Essa conduta é apontada pelo órgão como característica de devedor contumaz, expressão usada para descrever contribuintes que deixam de recolher tributos de forma reiterada, em padrão considerado incompatível com a normalidade da atividade econômica.

MPRJ aponta suspeitas de fraude estruturada e sonegação fiscal

Além do aumento da dívida tributária, o MPRJ cita investigações e operações conduzidas por órgãos de controle e persecução penal que indicariam a existência de um modelo de atuação baseado em sonegação fiscal e fraude estruturada.

Segundo o órgão, haveria indícios de ocultação patrimonial e de mecanismos voltados a dificultar a cobrança de tributos. A manifestação também menciona possíveis práticas de esvaziamento patrimonial, com retirada de bens e recursos da empresa, o que poderia comprometer o pagamento dos créditos, especialmente os de natureza tributária.

O Ministério Público afirma ainda que houve tentativas frustradas de bloqueio de ativos e decisões judiciais que reconheceram a existência de grupo econômico de fato associado à ocultação patrimonial.

Descumprimento do plano de recuperação é citado pelo Gaesf

Outro elemento destacado na manifestação é o suposto descumprimento de obrigações previstas no plano de recuperação judicial.

Entre os pontos citados estão a ausência de informações atualizadas sobre o passivo tributário e a falta de medidas efetivas para pagamento das dívidas, mesmo após prazo concedido pela Justiça.

Na avaliação do MPRJ, essas omissões reforçam a tese de que a recuperação judicial não estaria cumprindo sua função legal. O órgão sustenta que a continuidade do processo, nas condições atuais, produziria efeito contrário ao esperado, ao permitir a expansão do passivo e dificultar a atuação de credores e autoridades fiscais.

Ministério Público vê uso indevido da recuperação judicial

A manifestação do MPRJ afirma que o instituto da recuperação judicial estaria sendo utilizado de forma indevida, como mecanismo de proteção contra medidas legítimas de cobrança.

Para o órgão, a recuperação judicial não pode servir como blindagem permanente para empresas que não demonstram capacidade efetiva de reorganização, regularização fiscal e cumprimento das obrigações pactuadas.

O argumento central é que a preservação da empresa, princípio que orienta a recuperação judicial, deve estar associada à viabilidade econômica e ao respeito aos credores. Quando o processo deixa de cumprir essa finalidade, a falência passa a ser considerada alternativa jurídica possível.

Procuradorias devem se manifestar sobre parcelamentos e bloqueio de bens

Diante do cenário descrito, o MPRJ pediu à Justiça a intimação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e das Procuradorias dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.

O objetivo é que esses órgãos se manifestem sobre quatro pontos principais: o cumprimento dos parcelamentos tributários, eventual enquadramento da empresa como devedora contumaz, possíveis práticas de esvaziamento patrimonial e a efetividade das medidas de bloqueio de bens.

Essas informações poderão subsidiar a análise judicial sobre a continuidade da recuperação ou a conversão do processo em falência.

Caso envolve interesse público e ordem econômica

A manifestação do MPRJ atribui ao caso dimensão que ultrapassa a relação entre empresa e credores privados. O órgão sustenta que a evolução da dívida tributária e as suspeitas de práticas voltadas a dificultar a cobrança fiscal afetam a ordem econômica e o interesse público.

O argumento se apoia no impacto coletivo da inadimplência tributária, sobretudo quando os valores envolvidos alcançam dezenas de bilhões de reais. Para o Ministério Público, a manutenção da recuperação judicial, sem resultados concretos de reestruturação, teria potencial de prejudicar a arrecadação pública e a concorrência no setor.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading