Na quinta-feira, 25/06/2026, a Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal, divulgou o Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 113, com projeções que apontam deterioração estrutural das contas públicas brasileiras e indicam que o presidente da República a ser eleito em 2026 terá de enfrentar decisões fiscais de elevada complexidade. O documento estima que a dívida bruta do governo geral, situada em 80,1% do PIB, pode alcançar 82,5% do PIB em 2026, ultrapassar 100% em 2032 e chegar a 115% do PIB em 2036, caso sejam mantidas as atuais regras fiscais, orçamentárias e de expansão das despesas obrigatórias.
IFI aponta risco de perda de eficácia do arcabouço fiscal
O relatório da IFI apresenta um diagnóstico severo sobre a trajetória fiscal brasileira. Segundo a instituição, o atual arcabouço fiscal tende a perder eficácia a partir de 2028, diante do crescimento das despesas primárias e da dificuldade de compensar essa expansão com aumento permanente de receitas.
O diretor da IFI, Alexandre Andrade, afirmou que o próximo mandato presidencial exigirá discussões “duras” sobre a trajetória do gasto primário. Segundo ele, o debate envolve temas sensíveis, como aposentadorias, salários de servidores públicos e benefícios assistenciais, áreas que concentram parcela expressiva do Orçamento federal.
A avaliação técnica da IFI é que, sem mudanças no perfil dos gastos obrigatórios, nenhuma regra fiscal será suficiente para conter a trajetória de crescimento da dívida pública. O alerta ganha relevância em ano eleitoral, pois coloca o equilíbrio fiscal no centro da agenda econômica do próximo governo.
Dívida pública pode ultrapassar 100% do PIB em 2032
No cenário base da IFI, a dívida bruta do governo geral deve subir de 80,1% do PIB para 82,5% em 2026. A projeção indica avanço contínuo nos anos seguintes, com superação da marca de 100% do PIB em 2032 e chegada a 115% do PIB em 2036.
O próprio relatório classifica esse patamar como “extremamente elevado” para uma economia emergente. A IFI calcula que, para estabilizar a relação entre dívida e PIB, o país precisaria gerar superávit primário de 2,1% do PIB ao ano.
Esse resultado significa que as receitas primárias teriam de superar as despesas primárias em proporção relevante e de forma persistente. De acordo com a instituição, o Brasil não consegue alcançar esse desempenho nem no cenário mais otimista antes de 2029.
Projeções centrais da IFI
Os principais números do relatório indicam a dimensão do desafio fiscal:
- Dívida bruta atual: 80,1% do PIB;
- Dívida projetada para 2026: 82,5% do PIB;
- Dívida projetada para 2032: 102% do PIB;
- Dívida projetada para 2036: 115% do PIB;
- Superávit necessário para estabilizar a dívida: 2,1% do PIB ao ano;
- Déficit primário projetado para 2026: R$ 51,7 bilhões;
- Folga estimada para cumprimento da meta fiscal de 2026: R$ 18,2 bilhões acima do piso.
Gastos obrigatórios pressionam o Orçamento
A raiz do desequilíbrio fiscal, segundo a IFI, está na diferença entre o ritmo de crescimento das despesas e a capacidade de expansão das receitas. O relatório aponta que cerca de metade das despesas da União está vinculada direta ou indiretamente ao salário mínimo, incluindo benefícios previdenciários, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e seguro-desemprego.
A retomada da política de valorização do salário mínimo acima da inflação, em vigor desde 2023, amplia essa pressão sobre o Orçamento. O envelhecimento da população também contribui para o crescimento das despesas previdenciárias, tendência que tende a se intensificar ao longo da próxima década.
Além disso, a reativação dos pisos constitucionais da saúde e da educação eleva a rigidez orçamentária. Na prática, o governo passa a ter menor margem para ajustar despesas discricionárias, o que dificulta o cumprimento das metas fiscais sem reformas estruturais.
Despesas crescem enquanto receita perde força
As despesas primárias do governo central devem atingir 19,2% do PIB em 2026 e seguir crescendo até 19,9% do PIB em 2032, conforme as estimativas da IFI. Após esse período, a projeção é de acomodação em torno de 19,4% do PIB.
A receita primária líquida segue trajetória oposta. O relatório projeta que ela alcance 18,9% do PIB em 2026, recue para 18,7% em 2027 e caminhe gradualmente para 18,3% do PIB no médio prazo.
Esse descompasso entre receitas e despesas sustenta a previsão de déficits primários recorrentes até 2036. A IFI observa que essa tendência acompanha o quadro fiscal brasileiro desde 2014, quando o país passou a conviver com sucessivos resultados negativos nas contas públicas.
Divergência com projeções do governo
As projeções da IFI divergem das estimativas apresentadas pelo governo federal no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, o PLN 2/2026. Para a instituição, os números oficiais são mais otimistas em relação ao comportamento do resultado primário e à capacidade de cumprimento das metas fiscais.
A IFI reconhece melhora em relação às projeções divulgadas em dezembro de 2025, mas sustenta que a trajetória da dívida continua preocupante. O relatório atribui parte da revisão favorável ao aumento da arrecadação esperada com royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras.
Ainda assim, a instituição ressalta que o ganho de arrecadação provocado pelo petróleo mais caro não resolve o problema estrutural das contas públicas. Trata-se de um alívio de curto prazo, insuficiente para alterar a dinâmica de longo prazo da dívida.
Petróleo mais caro ajuda a meta fiscal, mas pressiona inflação
A alta dos preços do petróleo, provocada pelo agravamento do conflito no Oriente Médio, teve impacto direto nas projeções da IFI. Para as contas públicas de 2026, o efeito é positivo, pois aumenta a arrecadação federal vinculada ao setor de petróleo e gás.
Com essa melhora, a IFI considera factível o cumprimento formal da meta fiscal de 2026, levando em conta as deduções legais e o limite inferior da meta de resultado primário. O cenário base aponta uma folga de R$ 18,2 bilhões acima do piso estabelecido.
O efeito macroeconômico, entretanto, é distinto. Petróleo mais caro tende a elevar a inflação por meio dos combustíveis, do frete rodoviário e dos custos de produção. Essa pressão reduz o poder de compra das famílias e pode exigir manutenção de juros elevados por período mais prolongado.
Crescimento econômico desacelera em 2027
A IFI projeta crescimento do PIB de 2% em 2026 e desaceleração para 1,8% em 2027. Para os anos seguintes, o relatório trabalha com média próxima de 2,3% ao ano, em cenário de crescimento moderado.
No primeiro trimestre de 2026, o PIB cresceu 1,1% em relação ao trimestre anterior, na série com ajuste sazonal. O resultado elevou o carregamento estatístico para o ano, mas a IFI avalia que os efeitos defasados da política monetária restritiva devem contribuir para desaceleração gradual da atividade.
O mercado de trabalho aquecido, o crescimento da renda real e medidas de estímulo à demanda e ao crédito tendem a sustentar o consumo no curto prazo. Ainda assim, juros elevados, inflação resistente e incerteza internacional limitam o ritmo de expansão da economia.
Inflação permanece acima da meta e Selic deve seguir alta
A inflação medida pelo IPCA deve encerrar 2026 em 5%, acima da meta. Para 2027, a IFI projeta desaceleração para 4%, ainda em patamar que exige cautela da política monetária.
O relatório destaca a persistência da inflação de serviços, em torno de 6% ao ano, além dos impactos dos combustíveis e da energia elétrica. As medidas de núcleo também permanecem pressionadas, sinalizando dificuldade de convergência rápida da inflação para a meta.
A taxa Selic deve encerrar 2026 em 14% ao ano e recuar para 12% em 2027, segundo o cenário da IFI. O documento registra que o Comitê de Política Monetária reduziu a taxa em junho, mas manteve sinalização de prudência diante das expectativas de inflação e do ambiente externo mais incerto.
Isenção do Imposto de Renda amplia incerteza fiscal
O relatório também analisa os efeitos da ampliação da isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física para contribuintes com renda mensal de até R$ 5 mil, medida em vigor desde janeiro de 2026. A renúncia fiscal estimada varia entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões por ano.
O governo apresentou como compensação uma tributação maior sobre rendimentos mensais acima de R$ 50 mil. No entanto, dados observados até maio indicam que essa compensação ainda não se materializou na prática, segundo a IFI.
Alexandre Andrade ressaltou que parte dos contribuintes de renda mais elevada pode organizar sua atividade econômica como pessoa jurídica, o que reduz a efetividade da arrecadação adicional. O ponto é relevante porque uma renúncia permanente sem compensação robusta amplia a pressão sobre o resultado primário.
Próximo mandato terá de decidir entre receita, gasto e dívida
O relatório da IFI coloca o próximo governo diante de uma escolha fiscal clássica: elevar receitas de forma permanente, conter o crescimento das despesas obrigatórias ou aceitar uma trajetória de dívida cada vez mais elevada. A instituição não prescreve uma solução política, mas delimita tecnicamente o problema.
As projeções indicam que o ajuste não poderá depender apenas de ganhos extraordinários de arrecadação. Medidas pontuais, como receitas de petróleo, dividendos de estatais ou mudanças tributárias de curto prazo, podem ajudar no cumprimento de metas anuais, mas não substituem uma estratégia estrutural de controle do gasto.
Nesse contexto, o Congresso Nacional terá papel central. Alterações em aposentadorias, benefícios assistenciais, vinculações constitucionais, política de valorização do salário mínimo e regras fiscais dependem de debate legislativo amplo, negociação política e avaliação dos impactos sociais.
Ponto recorrente
O relatório da IFI reforça um ponto recorrente na história fiscal brasileira: regras formais perdem eficácia quando o crescimento das despesas obrigatórias supera, de forma persistente, a capacidade estrutural de arrecadação do Estado. O país já experimentou sucessivas tentativas de disciplinar o gasto público — teto de gastos, metas de resultado primário e novo arcabouço fiscal —, mas a rigidez orçamentária segue como obstáculo central à estabilização da dívida.
A relevância pública do documento está no fato de antecipar, com base técnica, o tamanho do problema que deverá marcar o próximo mandato presidencial. A disputa eleitoral poderá deslocar o debate para promessas de expansão de renda, crédito, benefícios ou investimentos, mas a trajetória projetada pela IFI indica que qualquer governo terá de enfrentar restrições fiscais concretas. O ponto sensível está em compatibilizar responsabilidade fiscal, proteção social, crescimento econômico e governabilidade legislativa.
O núcleo factual da reportagem é claro: a IFI projeta déficits recorrentes, crescimento da dívida pública e perda gradual de eficácia do arcabouço fiscal a partir de 2028. Os próximos desdobramentos dependerão do comportamento da arrecadação, da inflação, dos juros, dos preços do petróleo e, sobretudo, das escolhas do Executivo e do Congresso Nacional sobre gastos obrigatórios. O tema exige acompanhamento permanente porque seus efeitos alcançam inflação, juros, investimentos, políticas sociais, credibilidade econômica e capacidade do Estado de financiar serviços públicos.








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