Empresas investigadas pelo Gaeco receberam R$ 321,1 milhões da Prefeitura de Salvador nas gestões de ACM Neto e Bruno Reis

Nesta terça-feira (14/07/2026), levantamento realizado com base no Portal da Transparência de Salvador indicou que cinco empresas alcançadas pela investigação do Ministério Público do Estado da Bahia receberam, juntas, R$ 321.163.273,89 da Prefeitura entre 2015 e julho de 2026, período que abrange as administrações de ACM Neto e Bruno Reis. A apuração do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais — Gaeco — investiga a possível atuação de um grupo estruturado em núcleos empresarial, operacional e de agentes públicos, com suspeitas de fraudes licitatórias, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e superfaturamento. O montante pago às empresas, entretanto, não corresponde automaticamente ao prejuízo investigado, estimado preliminarmente em R$ 38,3 milhões.

Empresas investigadas receberam R$ 321,1 milhões desde 2015

O levantamento reúne pagamentos destinados a empresas que prestaram serviços a secretarias, autarquias e unidades administrativas do Município de Salvador. Os registros abrangem contratos de manutenção urbana, construção, infraestrutura, fornecimento de materiais, logística, transporte, locação de equipamentos e outros serviços operacionais.

As cinco empresas mencionadas na investigação receberam os seguintes valores entre 2015 e julho de 2026:

  • G3 Polaris Serviços: R$ 124.839.733,73;
  • Podium Distribuidora: R$ 85.496.159,40;
  • LN Distribuidora e Comércio: R$ 45.402.729,70;
  • WLSP Logística e Transportes: R$ 37.673.075,97;
  • MP2 Construções: R$ 27.751.575,09.

A soma alcança R$ 321.163.273,89. A G3 Polaris e a Podium Distribuidora concentram aproximadamente 65,5% do total, com R$ 210,3 milhões recebidos no período analisado.

O valor representa a dimensão das relações contratuais mantidas pelo conglomerado investigado com o poder público municipal, mas não significa que todos os contratos ou pagamentos estejam sob suspeita. A individualização dos procedimentos possivelmente fraudados, dos serviços efetivamente executados e dos valores supostamente desviados dependerá da análise dos autos, das perícias e das provas recolhidas pelo Gaeco.

G3 Polaris concentra quase R$ 125 milhões

A G3 Polaris Serviços aparece como a maior beneficiária dos pagamentos identificados, com R$ 124,8 milhões. Depois de receber menos de R$ 1 milhão no primeiro ano do período analisado, a empresa ampliou progressivamente sua participação nos contratos municipais e superou R$ 25 milhões em pagamentos em 2022. Em 2026, os registros já somavam mais de R$ 8,8 milhões até o levantamento.

Em sua apresentação institucional, a companhia afirma atuar nos segmentos de engenharia, construção, saneamento, infraestrutura, terceirização, locação de equipamentos e serviços operacionais. A própria empresa relaciona a Prefeitura de Salvador entre os clientes públicos atendidos.

Reportagens publicadas após a operação informaram que a G3 Polaris possui contratos ativos e anteriores com diferentes órgãos municipais, incluindo serviços de drenagem, recuperação de estruturas urbanas, manutenção e fornecimento de equipamentos e mão de obra. Até a divulgação inicial do caso, o MPBA não havia apresentado publicamente uma relação definitiva de todos os contratos da empresa submetidos à investigação.

Podium, LN, WLSP e MP2 também mantiveram contratos milionários

A Podium Distribuidora recebeu R$ 85,4 milhões desde 2015. O levantamento registra relações contratuais com áreas como Saúde, Manutenção da Cidade e Gabinete do Prefeito. Em 2018, durante a administração de ACM Neto, a empresa prestou serviços diretamente ao gabinete municipal.

A LN Distribuidora e Comércio acumulou R$ 45,4 milhões, enquanto a WLSP Logística e Transportes recebeu R$ 37,6 milhões. Dados cadastrais públicos indicam que a WLSP atua no setor de transporte rodoviário de cargas e mantém sede empresarial em Salvador.

A MP2 Construções, por sua vez, recebeu R$ 27,7 milhões. Uma das pessoas formalmente vinculadas à empresa é mencionada na investigação como possível representante interposta do grupo empresarial. Em 2026, mesmo antes da deflagração da operação, a companhia já contabilizava aproximadamente R$ 1,68 milhão em contratos ou pagamentos municipais.

Operação apura suposto prejuízo de R$ 38,3 milhões

Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos na segunda-feira (13/07/2026) em endereços relacionados a empresários, servidores municipais, ao então secretário de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro, Luciano Ricardo Gomes Sandes, e ao vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como Gordinho da Favela.

A investigação alcançou residências, sedes empresariais e salas comerciais situadas em diferentes regiões da capital baiana. A Justiça autorizou diligências contra pessoas físicas e jurídicas, o acesso a aparelhos eletrônicos e serviços de armazenamento em nuvem, além da apreensão de documentos fiscais, registros contábeis, contratos, mensagens e outros elementos considerados relevantes para a apuração.

A representação do Ministério Público aponta a existência de uma suposta organização criminosa que teria atuado por aproximadamente dez anos em contratos vinculados principalmente à Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade — Seman e à Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador — Desal.

O prejuízo investigado foi estimado preliminarmente em R$ 38,3 milhões, valor diferente dos R$ 321,1 milhões pagos às cinco empresas desde 2015. O primeiro montante corresponde à perda que os investigadores atribuem às irregularidades inicialmente identificadas; o segundo representa o volume global de recursos públicos recebido pelas empresas durante todo o período levantado.

Justiça afasta agentes públicos e rejeita prisões preventivas

O Ministério Público solicitou a prisão preventiva de investigados, incluindo Luciano Sandes, George Gordinho da Favela e o empresário Lázaro de Carvalho Nunes. A juíza Martha Carneiro Terrin e Souza, da 3ª Vara das Garantias de Salvador, considerou que outras medidas cautelares seriam suficientes nesta etapa e não decretou as prisões requeridas.

A decisão determinou o afastamento de agentes públicos, a suspensão do exercício das funções, a proibição de contato entre investigados e o bloqueio de bens. O objetivo declarado das medidas é preservar documentos, sistemas administrativos e provas digitais, impedir eventual interferência na investigação e evitar a possível continuidade das condutas investigadas.

Além de Sandes e Gordinho da Favela, outros servidores tiveram as atividades suspensas. Entre eles aparecem pessoas que teriam exercido funções técnicas, administrativas, operacionais ou de fiscalização em contratos municipais.

Os afastamentos possuem natureza cautelar. Eles não representam condenação, antecipação de culpa ou conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos investigados.

Grupo teria sido organizado em três núcleos

Núcleo empresarial

Segundo a representação do Ministério Público citada na decisão judicial, o núcleo empresarial seria liderado por Lázaro de Carvalho Nunes, Caroline Xavier da Cruz, Jandson de Carvalho Nunes e Ivan Rodrigo Ferreira de Almeida.

Os investigadores sustentam que essas pessoas seriam as gestoras ou controladoras de fato do conglomerado composto por G3 Polaris, MP2 Construções, LN Distribuidora, Podium Distribuidora e WLSP Logística. As empresas teriam sido utilizadas alternadamente em procedimentos licitatórios, criando uma aparência formal de concorrência entre companhias submetidas aos mesmos interesses econômicos.

O Ministério Público também menciona Camilla Ribeiro Cruz Barreto Costa Ferreira e Daniel Pinheiro de Morais como possíveis representantes formais ou pessoas interpostas. Essa condição ainda depende de comprovação no processo e poderá ser contestada pelas respectivas defesas.

Núcleo operacional

O núcleo operacional seria composto por Marcelo Cerqueira de Lima, Antonio Matheus Montenegro Dourado Cardoso e Enison Oliveira Pinto. Conforme a investigação, eles teriam atuado na intermediação financeira entre empresas e agentes públicos.

A hipótese investigativa sustenta que esse grupo seria responsável pela movimentação de recursos, transferências bancárias, depósitos e eventual distribuição de vantagens indevidas. O Ministério Público menciona pagamentos destinados a servidores ou integrantes de comissões vinculadas aos procedimentos administrativos examinados.

Essas movimentações deverão ser confrontadas com extratos bancários, documentos fiscais, contratos, declarações de renda e informações obtidas a partir dos aparelhos eletrônicos apreendidos.

Núcleo de agentes públicos

No núcleo de agentes públicos aparecem Luciano Sandes e George Gordinho da Favela, além de servidores municipais que teriam participado da elaboração de termos de referência, fiscalização, medições, pagamentos e procedimentos licitatórios.

A investigação sustenta que agentes públicos teriam produzido exigências técnicas destinadas a restringir a concorrência e favorecer empresas ligadas ao conglomerado. Também são apuradas suspeitas de boletins de medição incompatíveis com os serviços executados, omissões na fiscalização e autorizações administrativas que teriam possibilitado aditivos ou pagamentos irregulares.

A atribuição de responsabilidade individual, entretanto, dependerá da demonstração de que cada investigado participou conscientemente das condutas e obteve ou proporcionou alguma vantagem indevida.

Contratos da Seman e da Desal estão entre os procedimentos examinados

Entre os procedimentos mencionados na apuração está o Pregão Eletrônico nº 25/2018, realizado pela Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade. O contrato, inicialmente firmado por aproximadamente R$ 8,9 milhões, teria alcançado cerca de R$ 15,2 milhões após alterações e aditivos.

Outro contrato examinado teria sido celebrado pela Desal em 2020 para o fornecimento de grama sintética. O valor inicial, de aproximadamente R$ 434 mil, teria ultrapassado R$ 1,4 milhão após modificações contratuais.

A existência de aditivos, isoladamente, não comprova irregularidade. A investigação deverá verificar se os acréscimos respeitaram os limites legais, decorreram de necessidades administrativas justificadas, corresponderam a serviços efetivamente realizados e mantiveram preços compatíveis com o mercado.

Também será necessário identificar se houve participação coordenada das empresas nos mesmos certames, compartilhamento de estrutura, elaboração combinada de propostas ou uso de documentação técnica pertencente a integrantes do mesmo grupo econômico.

Luciano Sandes ocupou cargos estratégicos em duas administrações

Luciano Sandes integrou a estrutura administrativa de Salvador durante as gestões de ACM Neto e Bruno Reis. Engenheiro sanitarista e ambiental urbano, com mestrado em Engenharia Ambiental e Urbana, ele exerceu funções relacionadas à infraestrutura, manutenção, fiscalização de obras e gestão de contratos.

Na administração de ACM Neto, atuou na Diretoria de Manutenção da Infraestrutura Urbana da Seman e ocupou a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas. Com a posse de Bruno Reis, permaneceu no primeiro escalão como secretário municipal de Manutenção da Cidade.

Em janeiro de 2023, foi transferido para a Secretaria de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro. Ao anunciar a mudança, a própria Prefeitura destacou que Sandes possuía aproximadamente duas décadas de experiência na gestão de infraestrutura urbana, obras e contratos.

A permanência prolongada em setores responsáveis por contratos e serviços urbanos torna sua atuação relevante para a investigação, mas não constitui, por si só, prova de participação em crimes.

Contratos atravessaram as gestões de ACM Neto e Bruno Reis

Os registros analisados começam em 2015, durante o primeiro mandato de ACM Neto, e avançam até julho de 2026, na administração de Bruno Reis. O período demonstra continuidade contratual das empresas ao longo de mais de uma década.

Não há, nas informações tornadas públicas até o momento, indicação de que ACM Neto ou Bruno Reis sejam investigados no procedimento. A referência às duas gestões decorre do período em que os contratos foram assinados, renovados, executados ou pagos e da responsabilidade administrativa dos respectivos governos pela estrutura de controle interno da Prefeitura.

A apuração deverá verificar quais autoridades assinaram contratos, autorizaram aditivos, homologaram licitações, atestaram serviços e liberaram pagamentos. A responsabilidade política pela supervisão da administração não se confunde automaticamente com responsabilidade criminal, que exige prova individualizada de participação, conhecimento ou benefício.

Prefeitura anuncia colaboração e apuração administrativa

Após a operação, a Prefeitura de Salvador informou que cumpriria a determinação judicial e colaboraria com as investigações conduzidas pelo Ministério Público.

A administração municipal também anunciou a abertura de procedimento interno para avaliar se houve prejuízo ao erário relacionado aos fatos investigados.

A iniciativa administrativa deverá examinar os contratos, as fiscalizações, os pagamentos realizados e a atuação dos servidores. Caso sejam constatadas irregularidades, o Município poderá buscar ressarcimento, aplicar sanções administrativas, rescindir contratos e encaminhar informações aos órgãos de controle.

Defesas negam irregularidades e pedem acesso aos autos

A defesa de George Gordinho da Favela declarou inicialmente que o parlamentar ainda não havia obtido acesso integral ao processo e desconhecia os elementos utilizados para fundamentar as medidas judiciais. O vereador afirmou confiar no devido processo legal, permanecer à disposição das autoridades e esperar demonstrar a legalidade de sua atuação.

As defesas de Lázaro de Carvalho Nunes e Caroline Xavier da Cruz solicitaram habilitação no processo para consultar integralmente os autos. Reportagens informaram que Luciano Sandes e representantes da G3 Polaris foram procurados, mas não haviam apresentado manifestação pública até as respectivas publicações.

Todos os investigados possuem direito à presunção de inocência, assistência jurídica, contraditório e ampla defesa. A responsabilização criminal, administrativa ou civil dependerá da comprovação das condutas atribuídas a cada pessoa ou empresa.

Diferença fundamental

A diferença entre os R$ 321,1 milhões recebidos pelas empresas e os R$ 38,3 milhões de prejuízo preliminarmente investigado é fundamental para a compreensão correta do caso. O volume total de pagamentos demonstra a extensão econômica das relações contratuais, mas não autoriza concluir que todos os recursos foram desviados. O trabalho investigativo deverá separar contratos regulares, serviços efetivamente prestados, despesas eventualmente superfaturadas e valores destinados a vantagens ilícitas.

A duração apontada pelo Ministério Público também impõe questionamentos sobre a eficiência dos mecanismos de controle interno da Prefeitura, a fiscalização dos contratos, a segregação de funções e a capacidade de identificar vínculos econômicos entre empresas concorrentes. A eventual confirmação de uma atuação coordenada durante aproximadamente dez anos indicaria falhas administrativas que atravessaram diferentes secretarias e duas gestões municipais, exigindo respostas institucionais além da responsabilização individual.

Leia +

Gaeco cumpre buscas contra vereador Gordinho da Favela e secretário Luciano Sandes; Justiça determina afastamentos em Salvador


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading