Na quinta-feira (16/07/2026), em Salvador, a vereadora Aladilce Souza (PCdoB) classificou como “escandalosa” a sucessão de operações policiais e investigações relacionadas a contratos, servidores e órgãos da administração municipal e afirmou que os episódios expõem, em sua avaliação, um padrão de patrimonialismo que teria atravessado as gestões do ex-prefeito ACM Neto e do atual prefeito Bruno Reis. A manifestação ocorre após uma operação do Ministério Público da Bahia afastar cautelarmente agentes públicos e levar ao bloqueio de aproximadamente R$ 38,3 milhões, além de se somar a apurações anteriores nas áreas de manutenção urbana, educação, saúde, assistência social e promoção de eventos.
Vereadora relaciona investigações ao conceito de patrimonialismo
Aladilce afirmou que a sequência de casos envolvendo estruturas da Prefeitura de Salvador indicaria uma relação inadequada entre a administração pública e interesses políticos, empresariais ou privados. Segundo a parlamentar, cargos, contratos e recursos municipais estariam sendo submetidos, de maneira recorrente, a questionamentos de órgãos de investigação e controle.
“Isso expõe o patrimonialismo que atravessa as gestões de ACM Neto e Bruno Reis”, declarou a vereadora. No campo das Ciências Sociais, o patrimonialismo descreve uma forma de exercício do poder marcada pelo enfraquecimento da separação entre as esferas pública e privada. A aplicação do conceito ao caso de Salvador, contudo, representa uma interpretação política da parlamentar e não uma conclusão jurídica estabelecida pelos procedimentos em andamento.
A acusação central apresentada por Aladilce está relacionada à capacidade dos mecanismos municipais de fiscalização de impedir que eventuais irregularidades se prolonguem por diferentes órgãos e administrações. A vereadora sustenta que a duração dos contratos e a permanência de determinados agentes e empresas na estrutura municipal exigem esclarecimentos dos gestores responsáveis pela supervisão administrativa.
Investigação do Gaeco apura contratos da Seman e da Desal
O episódio mais recente mencionado pela parlamentar é a investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (Gaeco), do Ministério Público da Bahia, sobre contratos celebrados pela Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade (Seman) e pela Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal).
A apuração examina a possível atuação de uma organização dividida em três núcleos: empresarial, operacional e de agentes públicos. A hipótese investigativa envolve suspeitas de fraude em licitações, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro, direcionamento de contratos, falhas na fiscalização e pagamentos relacionados a serviços públicos municipais. Até o encerramento da investigação, os fatos permanecem sujeitos à produção de provas, ao contraditório e à ampla defesa.
Na segunda-feira (13/07), foram cumpridos 20 mandados de busca e apreensão. A Justiça determinou o afastamento cautelar do secretário municipal Luciano Sandes, então titular da Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro, e suspendeu o exercício do mandato do vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como Gordinho da Favela. Também foram determinadas proibições de contato entre investigados e a indisponibilidade de bens no limite de R$ 38.321.127,95, valor indicado preliminarmente como possível prejuízo ao Município. As medidas cautelares não representam condenação.
Empresas e contratos passaram a ser objeto de inquérito civil
O Ministério Público também instaurou, com data de 13/07/2026, inquérito civil destinado a apurar supostos atos de improbidade administrativa relacionados à contratação das empresas G3 Polaris Serviços, MP2 Construções, Podium Distribuidora, LN Distribuidora e Comércio e WLSP Logística e Transportes pelo Município de Salvador. A portaria foi publicada no Diário da Justiça Eletrônico disponibilizado em 16/07.
Levantamento realizado pelo Jornal Grande Bahia com base no Portal da Transparência indicou que essas cinco empresas receberam, conjuntamente, R$ 321.163.273,89 da Prefeitura entre 2015 e julho de 2026. O período abrange as administrações de ACM Neto e Bruno Reis e inclui pagamentos por serviços de manutenção, infraestrutura, construção, fornecimento de materiais, logística, transporte e locação de equipamentos.
Aladilce questiona duração das relações administrativas
Para a vereadora, a suposta permanência do esquema durante aproximadamente uma década exige uma análise que vá além da responsabilidade individual dos investigados. Ela argumenta que as suspeitas atravessaram duas administrações municipais e envolveram setores responsáveis por contratos, fiscalização, manutenção urbana e execução de serviços essenciais.
Luciano Sandes ingressou no primeiro escalão municipal durante a gestão de ACM Neto e ocupou diferentes funções relacionadas à infraestrutura, às obras públicas, à manutenção urbana e à articulação comunitária. Sua trajetória administrativa é citada pela oposição para questionar a eficiência dos mecanismos de controle interno, mas não constitui, isoladamente, prova de participação nas irregularidades investigadas.
Até o momento, as informações públicas não indicam que ACM Neto ou Bruno Reis figurem como investigados criminalmente nesse procedimento específico. A menção aos dois gestores decorre da duração das relações contratuais, que alcançaram períodos de seus governos, e da responsabilidade político-administrativa dos prefeitos pelo funcionamento da estrutura de fiscalização municipal.
Ofício questiona R$ 293 milhões em contratos de manutenção
Aladilce também relacionou a discussão aos contratos firmados pela Seman com Jotagê Engenharia, Roble Serviços, Construtora BSM e Metro Engenharia, cujo valor conjunto informado pelo mandato alcança aproximadamente R$ 293 milhões.
Em maio de 2026, após alagamentos registrados em diferentes áreas de Salvador, a vereadora encaminhou ofício à Seman, com cópia para a Secretaria Municipal da Fazenda, solicitando informações sobre os objetos contratados, os valores executados, as medições, a fiscalização e os resultados dos serviços de manutenção.
Segundo a parlamentar, o pedido ainda não havia recebido resposta até a divulgação de sua manifestação. Esses quatro contratos constituem uma cobrança administrativa distinta da investigação do Gaeco envolvendo G3 Polaris, MP2, Podium, LN e WLSP. Não há, nas informações apresentadas, base para afirmar que Jotagê, Roble, BSM e Metro integrem a organização investigada na operação de 13/07.
Pagamentos à consultoria de ACM Neto são citados no debate
A vereadora também incluiu em sua argumentação o caso envolvendo a A&M Consultoria, empresa da qual ACM Neto é sócio. Relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontaram pagamentos de R$ 3,6 milhões realizados pelo Banco Master e pela gestora Reag à consultoria.
De acordo com as informações publicadas, o relatório registrou movimentação considerada superior à capacidade financeira declarada pela empresa. A manifestação divulgada por Aladilce também menciona dados fiscais que elevariam o total examinado para aproximadamente R$ 5,45 milhões, embora o valor de R$ 3,6 milhões seja o montante detalhado nas reportagens baseadas diretamente no documento do Coaf.
ACM Neto afirmou que os pagamentos remuneraram serviços de consultoria efetivamente prestados, classificou as atividades como lícitas e contestou a interpretação dos dados. O político também declarou que as informações teriam sido apresentadas de maneira manipulada. A existência de um relatório de inteligência financeira não equivale, por si só, à comprovação de crime ou irregularidade.
Operação Overclean alcançou servidor da Educação
A Operação Overclean, deflagrada inicialmente em dezembro de 2024 pela Polícia Federal, Controladoria-Geral da União, Ministério Público Federal e Receita Federal, investiga uma organização suspeita de fraudar licitações, desviar recursos públicos e lavar dinheiro. A estimativa inicial dos investigadores apontou movimentação de aproximadamente R$ 1,4 bilhão em contratos públicos relacionados principalmente ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas e a diferentes municípios.
Na primeira fase, foi preso Flávio Henrique de Lacerda Pimenta, que exercia a função de diretor administrativo da Secretaria Municipal da Educação de Salvador. Segundo a investigação, ele teria compartilhado informações privilegiadas sobre um procedimento licitatório com o objetivo de beneficiar uma empresa. Após a prisão, a Prefeitura anunciou sua exoneração.
Em abril de 2025, a terceira fase da Overclean teve entre os alvos o ex-secretário de Educação de Salvador Bruno Barral, que ocupava, naquele momento, o comando da pasta educacional de Belo Horizonte. Ele foi afastado do cargo por decisão do Supremo Tribunal Federal. A condição de investigado e a adoção de medida cautelar não significam reconhecimento de culpa.
Operação Dia Zero investiga contrato de tecnologia na Saúde
Na área da saúde, a Operação Dia Zero, deflagrada pela Polícia Federal e pela CGU em 12/06/2025, apura suspeitas de corrupção, fraude em licitações e desvio de recursos federais destinados ao sistema municipal de saúde de Salvador.
A investigação examina um contrato de tecnologia da informação firmado com uma organização social e as relações entre empresas, dirigentes privados e agentes públicos. Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, e a Justiça determinou o bloqueio de R$ 100 milhões em bens e valores dos investigados.
A apuração permanece em andamento. A organização social citada como principal alvo informou que estava à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Assim como nas demais operações, buscas, bloqueios e medidas cautelares não substituem o julgamento definitivo das condutas.
Operação Sponsor apura recursos de eventos culturais
Em 26/05/2026, o Ministério Público da Bahia deflagrou a Operação Sponsor, destinada a investigar suspeitas de peculato, fraude em processos administrativos e desvio de recursos originalmente destinados a entidades carnavalescas e organizadores das Paradas LGBTI+ de Salvador.
Segundo as informações divulgadas, aproximadamente R$ 1,1 milhão teria sido movimentado por meio de uma associação suspeita de funcionar como entidade de fachada. A operação cumpriu mandados contra servidores municipais e dirigentes privados e alcançou a então diretora-geral da Secretaria Municipal da Reparação, a ex-vereadora Léo Kret, posteriormente exonerada do cargo.
Léo Kret negou ter sido presa durante a operação. Não há condenação decorrente do caso, que permanece submetido à apuração do Ministério Público e à avaliação do Poder Judiciário.
Casos anteriores são incorporados à crítica da oposição
A manifestação de Aladilce também resgata o caso do ex-secretário municipal de Gestão Alexandre Paupério, que deixou o cargo em 2015 após ser alcançado por uma ação relacionada a supostos desvios de aproximadamente R$ 39,4 milhões. A Justiça determinou o bloqueio de bens de Paupério e de outros envolvidos. Em procedimento posterior, o Tribunal de Contas dos Municípios aplicou multa ao ex-secretário e determinou a representação do caso ao Ministério Público.
Outro episódio citado envolve declarações prestadas por executivos da Odebrecht em 2017. Delatores afirmaram que a campanha de ACM Neto à Prefeitura de Salvador, em 2012, teria recebido R$ 2,2 milhões, dos quais R$ 1,8 milhão supostamente não teria sido contabilizado. Também foram levantadas suspeitas sobre a licitação das obras de requalificação da orla da Barra. ACM Neto negou ter recebido recursos por meio de caixa dois.
Em março de 2018, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia arquivou a denúncia por insuficiência de elementos capazes de sustentar a acusação. O arquivamento impede que o episódio seja tratado como irregularidade comprovada ou condenação contra o ex-prefeito.
A nota divulgada pelo mandato de Aladilce ainda menciona um processo relacionado à ausência de comprovação da aplicação de aproximadamente R$ 1,9 milhão em contrato de assistência social de 2016, posteriormente atingido pela prescrição, e questionamentos eleitorais apresentados naquele mesmo período. Esses fatos foram utilizados pela parlamentar como antecedentes políticos, mas possuem natureza processual e resultados distintos das investigações atualmente em curso.
Linha do tempo das investigações e dos principais episódios
- 2012: campanha de ACM Neto à Prefeitura de Salvador recebe os recursos posteriormente mencionados por delatores da Odebrecht.
- 2015: Alexandre Paupério deixa a Secretaria Municipal de Gestão após ação envolvendo supostos desvios de R$ 39,4 milhões; a Justiça determina bloqueio de bens.
- 2015 a 2026: cinco empresas posteriormente alcançadas pela investigação do Gaeco recebem conjuntamente R$ 321,1 milhões da Prefeitura de Salvador.
- 2017: delatores da Odebrecht mencionam supostos pagamentos de R$ 2,2 milhões relacionados à campanha municipal de 2012.
- 2018: a Justiça Eleitoral arquiva a denúncia contra ACM Neto por insuficiência de provas.
- 10/12/2024: primeira fase da Operação Overclean prende servidor da Secretaria Municipal da Educação de Salvador, posteriormente exonerado.
- 03/04/2025: terceira fase da Overclean tem Bruno Barral, ex-secretário de Educação de Salvador, entre os alvos.
- 12/06/2025: Operação Dia Zero cumpre 25 mandados e resulta no bloqueio de R$ 100 milhões.
- Maio de 2026: Aladilce solicita informações sobre R$ 293 milhões em contratos de manutenção urbana.
- 26/05/2026: Operação Sponsor investiga recursos destinados ao Carnaval e às Paradas LGBTI+.
- 13/07/2026: Gaeco cumpre 20 mandados; Justiça afasta Luciano Sandes, suspende o exercício do mandato de Gordinho da Favela e bloqueia R$ 38,3 milhões.
- 13/07/2026: Ministério Público instaura inquérito civil sobre contratações de cinco empresas pelo Município de Salvador.
- 16/07/2026: Aladilce atribui a sucessão de investigações a um suposto padrão patrimonialista nas gestões de ACM Neto e Bruno Reis.
A reunião de operações policiais, inquéritos civis e procedimentos de controle demonstra que diferentes áreas da Prefeitura de Salvador foram alcançadas, ao longo dos últimos anos, por suspeitas relevantes envolvendo contratos, servidores e empresas. Essa sequência justifica o escrutínio político e institucional sobre a qualidade dos mecanismos de fiscalização municipal, mas não autoriza transformar acusações, bloqueios cautelares ou mandados de busca em provas antecipadas de culpa.







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