O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirmou nesta terça-feira, 28/07/2026, durante entrevista à Baiana FM, que Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista precisam ampliar a participação das redes municipais na assistência hospitalar e na atenção básica. O chefe do Executivo estadual criticou a inexistência de hospitais municipais gerais em Feira e Conquista, questionou o acesso predominantemente regulado às unidades hospitalares próprias da capital e ofereceu apoio estadual para novos investimentos. Registros oficiais, entretanto, mostram que Feira e Vitória da Conquista mantêm hospitais municipais especializados, o que exige distinguir a ausência de uma unidade geral da inexistência absoluta de estrutura hospitalar municipal.
Jerônimo defende parceria e cobra responsabilidade municipal
A manifestação ocorreu em meio à disputa política entre o Governo da Bahia e administrações municipais comandadas pelo União Brasil, partido liderado no estado pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto. Jerônimo sustentou que os problemas enfrentados pelo Sistema Único de Saúde não podem ser atribuídos exclusivamente à rede estadual e defendeu uma divisão mais equilibrada das responsabilidades entre os entes públicos.
“Saúde não tem partido. Eu desci do palanque.”
O governador afirmou estar disposto a apoiar financeiramente a construção de hospitais municipais, unidades básicas, policlínicas e outros equipamentos. Segundo ele, as prefeituras precisam fortalecer suas próprias redes antes de responsabilizar o Estado pelas filas da regulação e pela pressão sobre os hospitais regionais.
Jerônimo também criticou o uso de expressões pejorativas contra o sistema regulatório e contra os profissionais responsáveis pela organização do acesso aos leitos. O governador declarou que não pretende explorar politicamente o sofrimento dos pacientes e reiterou que continuará prestando contas sobre os investimentos realizados com apoio do Governo Federal e dos municípios.
A gestão do SUS é compartilhada entre União, estados e municípios. O Governo Federal participa do financiamento e da formulação das políticas nacionais; os estados organizam regionalmente a assistência e articulam as redes municipais; e as prefeituras administram serviços locais, com papel central na atenção primária. A divisão, portanto, não elimina a responsabilidade comum pela integração dos diferentes níveis de atendimento.
Feira de Santana possui hospital especializado, mas ainda projeta unidade geral
Ao mencionar Feira de Santana, Jerônimo afirmou que a segunda maior cidade da Bahia não dispõe de hospital municipal. A declaração corresponde à ausência de um hospital geral municipal, com atendimento clínico, cirúrgico e de retaguarda para diferentes perfis de pacientes, mas não significa que o Município esteja completamente desprovido de estrutura hospitalar própria.
A Prefeitura administra o Hospital Municipal Inácia Pinto dos Santos, conhecido como Hospital da Mulher. A unidade, inaugurada em 30/01/1992, é vinculada à Fundação Hospitalar de Feira de Santana e especializada na assistência materno-infantil, obstétrica, ginecológica e pediátrica. A estrutura possui aproximadamente 120 leitos, UTI neonatal, centro obstétrico, centro cirúrgico, ambulatórios e atendimento de emergência obstétrica.
Entre janeiro e março de 2026, o Hospital da Mulher registrou 15.082 atendimentos de gestantes na emergência, que funciona durante 24 horas. No mesmo período, foram contabilizados 3.453 internamentos e 2.100 partos. Os dados demonstram que Feira possui uma porta hospitalar municipal especializada, embora ainda não conte com uma unidade geral capaz de absorver parte das demandas clínicas e cirúrgicas encaminhadas ao Hospital Geral Clériston Andrade, administrado pelo Estado.
Novo hospital municipal foi licitado por meio de PPP
Em março de 2026, a Prefeitura de Feira publicou o edital da Parceria Público-Privada destinada à construção, equipagem e manutenção do novo Hospital Municipal de Feira de Santana. O projeto prevê investimento superior a R$ 260 milhões, 110 leitos, dez vagas de UTI, centro cirúrgico e parque de bioimagem.
Em 15/05/2026, o Consórcio Saúde Feira de Santana foi declarado vencedor do leilão realizado na B3. A empresa ficará responsável pela construção e pelos serviços não assistenciais, enquanto a Prefeitura deverá conduzir o atendimento médico e hospitalar. A proposta econômica apresentada no certame foi de R$ 6.287.200, correspondente à contraprestação prevista no modelo da PPP.
A oferta de cooperação feita por Jerônimo insere-se, portanto, em um projeto municipal que já ultrapassou a fase inicial de planejamento. A eventual participação estadual dependerá de negociação formal sobre recursos, terreno, equipamentos, responsabilidades contratuais e custeio futuro da unidade.
Vitória da Conquista mantém Hospital Municipal Esaú Matos
A afirmação de que Vitória da Conquista não possui hospital municipal também precisa ser interpretada com ressalvas. A cidade mantém o Hospital Municipal Esaú Matos, administrado pela Fundação Pública de Saúde de Vitória da Conquista e especializado na assistência obstétrica, neonatal, ginecológica e pediátrica.
O Esaú Matos foi municipalizado em 10/10/2001. A unidade dispõe de pronto atendimento obstétrico, pronto-socorro pediátrico, centro obstétrico, UTI neonatal, unidades de cuidados intermediários, ambulatório, centro de diagnóstico por imagem e centro cirúrgico para procedimentos ginecológicos e pediátricos. O hospital também atende pacientes de dezenas de municípios do Sudoeste baiano e do Norte de Minas Gerais.
Em janeiro de 2026, a Prefeitura informou que os setores ambulatoriais e de diagnóstico do hospital realizavam aproximadamente 2.500 atendimentos e exames mensais. A estrutura confirma a existência de uma unidade hospitalar municipal, embora com perfil materno-infantil e sem o alcance de um hospital geral adulto.
A formulação factual mais precisa, portanto, é que Vitória da Conquista não possui um hospital geral municipal de atendimento amplo para adultos, e não que esteja desprovida de qualquer hospital administrado pelo Município.
Salvador tem três hospitais municipais com diferentes regras de acesso
Em Salvador, Jerônimo concentrou a crítica no modelo de acesso ao Hospital Municipal de Salvador, ao Hospital Municipal do Homem e à Maternidade e Hospital da Criança. O governador afirmou que as três unidades não operam como portas abertas amplas para qualquer paciente que procure atendimento espontaneamente.
O Hospital Municipal de Salvador, localizado entre Boca da Mata e Cajazeiras, foi inaugurado em 04/04/2018. A unidade possui 220 leitos e atende casos de média e alta complexidade. De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, o acesso às urgências, emergências e internações ocorre predominantemente por encaminhamento da Central Estadual de Regulação e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. O protocolo municipal também prevê atendimento a pacientes em risco de morte, o que impede classificar a unidade como totalmente fechada à demanda espontânea.
O Hospital Municipal do Homem, inaugurado em 05/07/2024, é especializado em urologia, cirurgia vascular, cirurgia geral e procedimentos eletivos. O acesso ocorre por regulação ou agendamento nas unidades básicas e Prefeituras-Bairro. A própria Secretaria Municipal informa que o hospital não oferece serviços de urgência e emergência.
A Maternidade e Hospital da Criança Deputado Alan Sanches foi inaugurada em 16/04/2026, na Federação, com 198 leitos e investimento municipal superior a R$ 154 milhões. A unidade reúne maternidade, assistência pediátrica, hospital-dia e centro de bioimagem.
No início das atividades, a Prefeitura informou que a emergência obstétrica acolheria espontaneamente, de forma prioritária, gestantes em período expulsivo ou em situação de risco iminente. Os demais atendimentos seriam encaminhados pela regulação. A ativação dos serviços pediátricos de emergência foi programada de maneira gradual. Esses critérios demonstram que o acesso não é inteiramente fechado, mas também não corresponde a uma porta hospitalar aberta e irrestrita.
Regulação organiza leitos, mas depende da capacidade da rede
O sistema de regulação é utilizado no SUS para organizar o acesso a leitos, internações, exames e serviços especializados conforme a gravidade clínica, o perfil assistencial das unidades e a disponibilidade de vagas. A existência da regulação, por si só, não representa falha administrativa; trata-se de instrumento previsto na Política Nacional de Atenção Hospitalar.
Os problemas surgem quando a demanda supera a capacidade instalada, quando faltam leitos adequados ao perfil do paciente ou quando a atenção primária não consegue diagnosticar e tratar precocemente situações de menor complexidade. Nessas condições, unidades estaduais e regionais passam a receber casos que poderiam ser resolvidos nos municípios.
Jerônimo comparou a deficiência na atenção básica a uma falha na alfabetização, argumentando que problemas não tratados no início podem evoluir para quadros de maior complexidade. A analogia buscou reforçar a necessidade de investimento em unidades básicas, equipes de Saúde da Família, prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo.
Governo da Bahia contabiliza 15 unidades entregues desde 2023
O governador afirmou que a Bahia entregou 15 unidades hospitalares desde 2023. A marca foi alcançada em 01/07/2026, com a inauguração do Hospital Estadual do Litoral Norte, em Alagoinhas, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo governador Jerônimo Rodrigues.
O Hospital Estadual do Litoral Norte recebeu investimento de R$ 214,3 milhões, possui 213 leitos — dos quais 30 são de UTI — e foi planejado para atender 34 municípios. A unidade oferece serviços de alta complexidade em neurologia, neurocirurgia, oncologia e assistência cardiovascular. O Governo do Estado também informou que outras nove unidades hospitalares estavam em construção.
Na entrevista, Jerônimo mencionou obras em Serrinha, Paulo Afonso, Valença, Itapetinga e Gandu. Registros da Secretaria da Saúde da Bahia confirmam projetos hospitalares nessas regiões, incluindo o Hospital Regional de Itapetinga, o Hospital e Maternidade Regional Costa do Dendê, em Valença, e as unidades previstas para Paulo Afonso, Serrinha e Gandu.








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