O surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) apresenta velocidade de disseminação superior à registrada em epidemias anteriores da doença, segundo alerta feito nesta terça-feira (18/08/2026) pelo diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus. A organização também aponta risco de expansão para outros países, especialmente na região de fronteira.
Durante uma reunião de emergência, Tedros afirmou que a epidemia ainda não está sob controle e que as equipes de resposta enfrentam dificuldades para acompanhar a velocidade de transmissão. O alerta ocorreu após as autoridades da RDC informarem, na segunda-feira, que o surto já havia provocado mais de 2.300 mortes entre quase 5.000 casos.
Declarado em 15 de maio de 2026, o atual episódio é o 17º surto de Ebola registrado na República Democrática do Congo. Segundo a avaliação apresentada pela OMS, a transmissão provavelmente já ocorria havia várias semanas quando o surto foi oficialmente declarado. As áreas afetadas incluem regiões do norte e do leste do país, onde há limitações na presença do Estado, infraestrutura de saúde reduzida e atuação de grupos armados.
Casos avançam em ritmo superior ao de epidemias anteriores
De acordo com dados dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), três meses após a declaração do atual surto, a RDC registrou sete vezes mais casos e cinco vezes mais mortes do que nos primeiros três meses da maior epidemia de Ebola já registrada, ocorrida na África Ocidental entre 2013 e 2016.
A epidemia da África Ocidental matou mais de 11.300 pessoas, principalmente na Libéria, em Serra Leoa e na Guiné. Na RDC, o surto de 2018 a 2020, até então considerado o mais letal no país, resultou em 2.299 mortes entre 3.381 casos confirmados, conforme dados da OMS baseados em informações congolesas.
A atual situação motivou a realização da segunda reunião do Comitê de Emergência da OMS desde que a organização declarou o surto, em maio, uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Até o momento descrito no relatório, não havia sido informado quando o comitê apresentaria suas novas recomendações.
OMS classifica risco como muito alto na RDC
A OMS classifica atualmente o risco para a saúde pública como muito alto em nível nacional na RDC. Para Uganda e outros países vizinhos, a avaliação é de risco alto. Para o restante da África e outras regiões do mundo, a classificação apresentada pela organização é de risco baixo.
Casos foram registrados em seis províncias da República Democrática do Congo, inclusive em áreas próximas à fronteira com o Sudão do Sul. Também foram identificados casos em Uganda, país vizinho. Para Tedros, permanece elevado o risco de ampliação da transmissão dentro da RDC e de propagação internacional.
O Ebola é transmitido pelo contato com fluidos corporais e pode provocar febre hemorrágica. Conforme as informações apresentadas pela OMS, a cepa Bundibugyo, associada ao atual aumento de casos, não dispõe atualmente de vacina ou tratamento específico, embora ensaios clínicos estejam em andamento.
Mortes fora dos centros de tratamento preocupam OMS
Uma das principais preocupações apresentadas por Tedros é a ocorrência de mortes dentro das residências e comunidades, fora dos centros de tratamento e sem registro entre os contatos conhecidos. Segundo ele, cada morte nessas circunstâncias pode representar uma cadeia de transmissão ainda não identificada pelas equipes de vigilância.
A localização dos casos também impõe desafios à resposta sanitária. A OMS relaciona a expansão da doença à insegurança, ao deslocamento de pessoas e à intensa movimentação populacional por estradas, rios e rotas de mineração.
O cenário é agravado pelas condições de infraestrutura nas regiões afetadas. A presença limitada do Estado, a disponibilidade reduzida de serviços de saúde e a circulação de pessoas entre diferentes localidades dificultam a identificação e o acompanhamento de possíveis cadeias de transmissão.
Resposta busca ampliar atendimento nas comunidades
Em entrevista coletiva realizada nesta terça-feira (18/08/2026), o especialista da OMS Thierno Balde informou que a organização e seus parceiros trabalham para ampliar e descentralizar a resposta sanitária, aproximando as ações das comunidades onde o vírus está sendo transmitido.
Entre as medidas citadas está o reforço da proteção aos mototaxistas que transportam pacientes, com a intenção de integrá-los ao sistema de vigilância. A estratégia busca reduzir riscos durante o deslocamento de pessoas potencialmente infectadas e ampliar a capacidade de identificação de novos casos.
Segundo Balde, a OMS e os parceiros esperam observar efeitos da ampliação da resposta nos próximos meses. A organização, contudo, não estabeleceu prazo para que o surto esteja sob controle, diante da necessidade de localizar e interromper as cadeias de transmissão ainda desconhecidas.
*Com informações da RFI.








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