Mulheres seminuas em ato de ACM Neto e supostos ataques a jornalista Basília Rodrigues reacendem debate sobre misoginia na política | Por Carlos Augusto

A presença de duas mulheres seminuas, com os corpos pintados de azul, sobre um carro de som que acompanhava uma caminhada eleitoral de ACM Neto (União Brasil), em 28/08/2026, no bairro de São Cristóvão, e os ataques dirigidos dias depois à jornalista Basília Rodrigues, do SBT News, por perfis que manifestavam apoio ao candidato após uma sabatina da TV Aratu, colocaram a disputa pelo Governo da Bahia diante de um debate que ultrapassa a controvérsia eleitoral imediata: a sexualização do corpo feminino, a desqualificação de mulheres no espaço público e a hostilidade contra jornalistas.

Neste domingo (06/09), o governador e candidato à reeleição Jerônimo Rodrigues (PT) afirmou ter acionado a equipe jurídica de sua campanha para adotar medidas relacionadas ao primeiro episódio. Até o momento, porém, não foi apresentada publicamente decisão judicial que atribua responsabilidade à candidatura de Neto, e as evidências disponíveis não demonstram que o ex-prefeito tenha contratado ou autorizado a presença das mulheres nem que sua campanha tenha coordenado os ataques virtuais contra Basília.

Mulheres seminuas em caminhada provocam disputa sobre responsabilidades

As imagens que deram início à controvérsia foram registradas na sexta-feira, 28/08/2026, durante uma caminhada de ACM Neto em São Cristóvão, Salvador. Duas jovens aparecem sobre um veículo de som, com pouca roupa e os corpos pintados de azul, cor utilizada na identidade visual da campanha do candidato do União Brasil. Fotografias e vídeos confirmam que o carro acompanhava a mobilização eleitoral.

A existência da cena é, portanto, um fato documentado. A autoria da iniciativa, entretanto, exige tratamento distinto. As informações disponíveis não comprovam que a participação das mulheres tenha sido determinada, contratada ou financiada pela coordenação da campanha majoritária de ACM Neto. A equipe do candidato informou que não autorizou a ação e declarou desconhecer inicialmente a origem do veículo.

O episódio foi posteriormente associado ao agrupamento do candidato a deputado estadual Emerson Penalva. Penalva afirmou que a iniciativa teria partido de um eleitor, sem consulta, conhecimento prévio ou autorização dele ou da coordenação da campanha. Também pediu desculpas pela ocorrência. Essa é a versão apresentada pelo político e não equivale, por si só, a uma comprovação independente sobre quem providenciou o veículo, decidiu pela caracterização das mulheres ou eventualmente custeou a ação.

As críticas partiram de adversários de Neto, entre eles Jerônimo Rodrigues, a presidente do PT de Salvador, Ana Carolina, e as deputadas Lídice da Mata e Ivoneide Caetano. Jerônimo declarou que “corpo de mulher não é atração de votos”, enquanto Ana Carolina resumiu sua posição na frase “Mulher não é mercadoria”.

Jerônimo Rodrigues anuncia medidas jurídicas

A controvérsia ganhou um novo capítulo neste domingo, 06/09/2026. Durante comício realizado no sábado (05/09) em Jaguaquara, Jerônimo Rodrigues afirmou que determinou à equipe jurídica de sua campanha a adoção de providências relacionadas ao episódio ocorrido em Salvador.

O governador classificou a cena como deplorável e afirmou que “corpo de mulher não é peça de troca de voto”. A declaração representa uma iniciativa política anunciada pelo candidato governista. A reportagem não localizou, nas fontes públicas consultadas até este domingo, número de processo, decisão do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia ou manifestação do Ministério Público Eleitoral que permita afirmar a existência de responsabilização jurídica da campanha adversária.

A vereadora Aladilce Souza (PCdoB) também defendeu apuração das responsabilidades. Ao abordar o aspecto jurídico, reconheceu que não existe no Código Eleitoral uma proibição específica redigida em termos de impedir a presença de mulheres seminuas em eventos políticos. Eventual irregularidade, portanto, dependerá dos fatos concretos, da forma de financiamento, da vinculação do veículo às candidaturas e do enquadramento que venha a ser adotado pelas autoridades eleitorais.

Sabatina coloca Banco Master, Overclean e gestão de Salvador no debate

Três dias depois da caminhada, em 31/08/2026, ACM Neto participou da segunda rodada de sabatinas promovida pela TV Aratu com candidatos ao Governo da Bahia. A bancada reuniu jornalistas de diferentes veículos, entre eles Basília Rodrigues, analista política do SBT News.

Basília questionou Neto sobre temas que vinham acompanhando a campanha, entre eles o Banco Master, a Operação Overclean, as relações políticas atribuídas ao candidato com pessoas citadas nas investigações e o balanço de suas duas administrações na Prefeitura de Salvador.

Ao tratar da gestão municipal, a jornalista questionou a existência de obras estruturantes e mencionou a perda populacional registrada pela capital. Neto reagiu afirmando que a avaliação decorria de “desconhecimento sobre Salvador” e passou a enumerar realizações que atribuiu às suas administrações, entre elas hospital municipal, unidades de pronto atendimento, contenção de encostas, intervenções habitacionais e o Centro de Convenções. Essas afirmações correspondem à defesa apresentada pelo candidato durante a entrevista e não devem ser confundidas, neste contexto, com uma auditoria independente dos resultados de sua gestão.

Neto nega envolvimento na Operação Overclean

No caso da Operação Overclean, ACM Neto afirmou que não é investigado e que seu nome não aparece no inquérito. Segundo ele, não possui envolvimento empresarial com pessoas investigadas pela operação. A negativa já havia sido apresentada em sabatina anterior, quando declarou não ter qualquer relação com as irregularidades apuradas.

A Overclean, deflagrada em 2024, investiga suspeitas de fraude em licitações, corrupção, lavagem de dinheiro e desvios relacionados a contratos públicos e emendas parlamentares. Em agosto de 2026, a Polícia Federal indiciou o empresário José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, e outras 24 pessoas em um dos relatórios da investigação. A Procuradoria-Geral da República deverá decidir sobre eventual oferecimento de denúncia no material submetido à sua análise.

A existência de relações políticas ou pessoais entre personagens investigados e integrantes de partidos não equivale juridicamente a participação em crimes. No caso específico de ACM Neto, as informações utilizadas nesta reportagem não sustentam afirmar que ele tenha sido indiciado pela Overclean.

Consultoria recebeu R$ 3,6 milhões de Master e Reag

As perguntas sobre o Banco Master possuem outro fundamento factual. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram que a A&M Consultoria Ltda., da qual ACM Neto e sua esposa são sócios, recebeu aproximadamente R$ 3,6 milhões do Banco Master e da Reag entre o período posterior à eleição de 2022 e maio de 2024.

Segundo informações confirmadas pela Folha de S.Paulo, o Master respondeu por aproximadamente R$ 1,8 milhão e a Reag por cerca de R$ 1,83 milhão em repasses identificados no relatório. O documento chegou à CPI do Crime Organizado do Senado.

Neto reconheceu os contratos e os pagamentos, mas sustenta que se tratou de serviços legítimos de consultoria, realizados quando já não exercia cargo público, com contratos formais e recolhimento de impostos. Também declarou que o trabalho não teve relação com fatos posteriormente investigados envolvendo as empresas.

A existência dos pagamentos, portanto, é comprovada e admitida pelo próprio candidato. Não constitui, isoladamente, prova de crime ou irregularidade atribuível a ACM Neto. Qualquer conclusão diferente dependeria de investigação, documentação e eventual decisão da autoridade competente.

Perfis favoráveis a ACM Neto atacaram Basília Rodrigues

Após a sabatina, a controvérsia migrou para o ambiente digital. Durante a transmissão no YouTube, perfis que publicavam corações azuis, o número 44 e declarações explícitas de voto em ACM Neto dirigiram críticas e ataques pessoais a Basília Rodrigues.

Entre as mensagens registradas estavam comentários sobre a origem da jornalista e referências à sua aparência e ao cabelo. Um dos participantes associou “cabelo sem pentear” à identificação política com a esquerda. Outros afirmaram que a profissional havia falado “besteira” ou que havia se prejudicado durante a entrevista.

O material permite classificar os autores como perfis que declaravam apoio eleitoral a ACM Neto. Não permite, contudo, afirmar que fossem integrantes formais da campanha, funcionários, dirigentes partidários ou pessoas orientadas pela candidatura.

Da mesma maneira, não há evidência apresentada nas fontes consultadas de que Neto tenha ordenado, estimulado ou coordenado os ataques. A responsabilidade direta pelas mensagens é, até demonstração em contrário, de seus respectivos autores.

Essa distinção não elimina a relevância pública do episódio. Ataques dirigidos à aparência de uma profissional depois de perguntas jornalísticas deslocam o debate do mérito das questões para características pessoais da entrevistadora e podem produzir ambiente de intimidação contra o exercício profissional, particularmente quando a hostilidade se dissemina em transmissões políticas de grande audiência.

Ataques a mulheres jornalistas ampliam problema institucional

A reação contra Basília deve ser examinada também sob a perspectiva da liberdade de imprensa. Jornalistas convidados para sabatinas eleitorais têm como função apresentar perguntas de interesse público, insistir diante de respostas consideradas incompletas e submeter candidatos de diferentes correntes ao contraditório.

Discordar de perguntas ou contestar premissas faz parte do debate democrático. Ataques à aparência, ao gênero, à origem ou a atributos pessoais não respondem às questões apresentadas e transferem o conflito político para a desqualificação individual de quem entrevista.

Nesse caso, também é necessária cautela jurídica. A Lei nº 14.192/2021, que combate a violência política contra a mulher, estabelece proteção específica aos direitos políticos femininos. O artigo 326-B do Código Eleitoral criminaliza determinadas formas de assédio, constrangimento, humilhação, perseguição ou ameaça contra candidatas ou detentoras de mandato eletivo, quando empregadas com discriminação à condição de mulher e destinadas a impedir ou dificultar campanha ou mandato.

Basília Rodrigues atua como jornalista, não como candidata ou parlamentar no episódio analisado. Por isso, não é tecnicamente adequado classificar automaticamente os supostos ataques que recebeu como o crime eleitoral específico previsto no artigo 326-B. Eventual enquadramento civil ou penal dependeria do conteúdo individual de cada publicação e da análise das autoridades competentes.

Casos envolvendo lideranças da direita chegaram à Justiça e ao Parlamento

O episódio baiano também passou a ser comparado politicamente a casos anteriores envolvendo figuras nacionais identificadas com diferentes segmentos da direita. Há antecedentes documentados nos quais declarações dirigidas a mulheres produziram condenações judiciais, sanções parlamentares ou consequências eleitorais.

Esses casos permitem discutir a persistência da sexualização, do menosprezo e da desqualificação de mulheres no debate político. Não autorizam, entretanto, concluir que a conduta seja necessariamente uniforme ou exclusiva de todo um campo ideológico. A atribuição de responsabilidade deve permanecer individualizada.

Jair Bolsonaro e Maria do Rosário

Em 2014, quando ainda era deputado federal, Jair Bolsonaro dirigiu declarações ofensivas à então deputada Maria do Rosário (PT-RS), afirmando que não a estupraria porque ela não “mereceria”.

A controvérsia chegou ao Judiciário. Em 15/08/2017, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou recurso de Bolsonaro e confirmou a condenação ao pagamento de R$ 10 mil por danos morais. A decisão também previa divulgação da sentença em sua página oficial no YouTube.

Em 19/02/2019, já durante a Presidência da República, o ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal, negou recurso e manteve a condenação.

O caso demonstra uma diferença fundamental em relação às controvérsias atuais da campanha baiana: no episódio envolvendo Maria do Rosário houve decisão judicial atribuindo responsabilidade pessoal e civil ao autor das declarações.

Patrícia Campos Mello e a insinuação sexual

Em fevereiro de 2020, Bolsonaro voltou ao centro de uma controvérsia envolvendo uma mulher, desta vez a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo.

Ao comentar reportagens relacionadas ao uso de disparos de mensagens na eleição presidencial de 2018, utilizou um jogo de palavras de conotação sexual ao dizer que a jornalista “queria dar o furo a qualquer preço”.

A Justiça paulista considerou ilícita a declaração. Em primeira instância, Bolsonaro foi condenado ao pagamento de R$ 20 mil. Em 29/06/2022, o Tribunal de Justiça de São Paulo, por 4 votos a 1, manteve a condenação e elevou a indenização para R$ 35 mil. O acórdão registrou o caráter sexual da ofensa e a intenção de atingir a honra da jornalista.

O precedente apresenta relação mais direta com o episódio de Basília Rodrigues porque envolve uma profissional da imprensa submetida a desqualificação pessoal depois de sua atuação jornalística. As situações, contudo, têm autores, circunstâncias e estágios jurídicos diferentes.

Arthur do Val e as refugiadas da Ucrânia

Em março de 2022, o então deputado estadual paulista Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, tornou-se alvo de forte reação após o vazamento de áudios enviados durante uma viagem ao Leste Europeu, em meio à invasão russa da Ucrânia.

Em uma das gravações, afirmou que mulheres ucranianas eram “fáceis porque são pobres”. Do Val admitiu a autoria, pediu desculpas e, em 05/03/2022, retirou sua pré-candidatura ao Governo de São Paulo.

O caso avançou para o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa paulista. Mesmo depois de o deputado renunciar ao mandato, o procedimento prosseguiu. Em 17/05/2022, a Alesp aprovou a cassação por 73 votos a zero, com repercussão sobre seus direitos políticos.

O episódio tornou-se um dos casos mais emblemáticos da década por associar explicitamente vulnerabilidade econômica feminina e disponibilidade sexual em um cenário de guerra e deslocamento de refugiados.

Nikolas Ferreira e Duda Salabert

Outro precedente envolve o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e a deputada Duda Salabert. A controvérsia teve origem em declaração feita em 2020, quando ambos exerciam mandatos de vereador em Belo Horizonte e Nikolas recusou-se a reconhecer Duda como mulher.

Em 10/06/2025, decisão da ministra Maria Isabel Gallotti, do STJ, negou recurso de Nikolas e manteve a condenação ao pagamento de R$ 30 mil de indenização.

Dois anos antes, em 08/03/2023, Dia Internacional da Mulher, Nikolas havia subido à tribuna da Câmara dos Deputados usando uma peruca e se apresentado ironicamente como “Deputada Nikole” para contestar o reconhecimento de mulheres trans. O discurso consta dos registros oficiais da Câmara.

A Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados emitiu nota de repúdio no mesmo dia, classificando a atitude e as declarações como jocosas e preconceituosas.

Associação entre ACM Neto e bolsonarismo

A aproximação política de ACM Neto com partidos e lideranças que apoiam o bolsonarismo constitui um elemento do cenário eleitoral baiano de 2026, mas precisa ser descrita com precisão para não criar uma identidade política que o próprio candidato não assumiu integralmente.

A convenção realizada em 22/07/2026 oficializou Neto ao Governo da Bahia, Zé Cocá (PP) como candidato a vice e João Roma (PL) e Angelo Coronel (Republicanos) para o Senado. O PL, portanto, integra formalmente sua aliança estadual.

Dentro dessa composição existem lideranças que apoiam o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro. ACM Neto, entretanto, declarou pessoalmente apoio a Ronaldo Caiado e afirmou que as legendas da coligação baiana possuem liberdade para seguir seus respectivos candidatos à Presidência.

Assim, é factual registrar a presença do PL e de aliados bolsonaristas no palanque estadual de Neto. Neste contexto, o candidato do União Brasil é um disfarçado aderente à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Repercussão ocorre durante disputa tecnicamente equilibrada

As controvérsias surgiram em uma fase decisiva da eleição estadual. Pesquisa AtlasIntel/A Tarde, divulgada em 03/09/2026, aponta uma disputa tecnicamente equilibrada entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues.

No primeiro cenário estimulado, Neto registra 49,1%, diante de 47,9% de Jerônimo. A diferença é de 1,2 ponto percentual, dentro da margem de erro global de ±2 pontos. Foram entrevistados 1.804 eleitores entre 28/08 e 02/09/2026, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado sob os números BA-08891/2026 e BR-07739/2026.

O recorte por gênero apresenta uma diferença política relevante: entre os homens, ACM Neto aparece com 56,3%, contra 41,8% de Jerônimo; entre as mulheres, o governador registra 53,1%, diante de 43,0% do adversário. Em eventual segundo turno, Jerônimo também aparece numericamente à frente no segmento feminino, com 54,3%.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2014 — Jair Bolsonaro e Maria do Rosário: Bolsonaro faz declarações ofensivas à então deputada, afirmando que não a estupraria porque ela não “mereceria”; o episódio dá origem a ação por danos morais.
  • 15/08/2017 — STJ: a Terceira Turma confirma condenação de Bolsonaro a pagar R$ 10 mil a Maria do Rosário.
  • 19/02/2019 — STF: recurso de Bolsonaro é rejeitado e a indenização é mantida.
  • Fevereiro de 2020 — Patrícia Campos Mello: Bolsonaro utiliza expressão de conotação sexual ao comentar a atuação jornalística da repórter da Folha de S.Paulo.
  • 2020 — Duda Salabert: Nikolas Ferreira faz declarações recusando-se a reconhecer a então vereadora como mulher; o episódio resulta posteriormente em condenação civil.
  • 04/08/2021 — Lei nº 14.192/2021: entra em vigor legislação destinada à prevenção, repressão e combate à violência política contra mulheres.
  • 05/03/2022 — Arthur do Val: após vazamento dos áudios sobre mulheres ucranianas, o então deputado admite a autoria, pede desculpas e retira sua pré-candidatura ao Governo de São Paulo.
  • 17/05/2022 — Alesp: plenário aprova por 73 votos a zero a cassação de Arthur do Val.
  • 29/06/2022 — TJ-SP: tribunal mantém condenação de Bolsonaro por ofensas a Patrícia Campos Mello e eleva a indenização para R$ 35 mil.
  • 08/03/2023 — Câmara dos Deputados: Nikolas Ferreira usa uma peruca em discurso no Dia Internacional da Mulher e ironiza mulheres trans; a Secretaria da Mulher repudia a manifestação.
  • 10/06/2025 — STJ: recurso de Nikolas é rejeitado, mantendo indenização de R$ 30 mil a Duda Salabert.
  • 11/03/2026 — Banco Master e Reag: tornam-se públicos dados do Coaf indicando aproximadamente R$ 3,6 milhões em pagamentos à A&M Consultoria, de ACM Neto e sua esposa; Neto confirma os contratos e nega irregularidades.
  • 22/07/2026 — Eleições na Bahia: convenção oficializa ACM Neto ao Governo da Bahia e confirma uma aliança estadual que inclui o PL; Neto mantém apoio presidencial declarado a Ronaldo Caiado.
  • Agosto de 2026 — Operação Overclean: Polícia Federal indicia José Marcos de Moura, o “Rei do Lixo”, e outras 24 pessoas; ACM Neto nega envolvimento e afirma não ser investigado.
  • 28/08/2026 — São Cristóvão: duas mulheres seminuas, com os corpos pintados de azul, são registradas sobre carro de som que acompanhava caminhada de ACM Neto em Salvador. A campanha nega ter autorizado a iniciativa.
  • 31/08/2026 — Sabatina da TV Aratu: Basília Rodrigues questiona ACM Neto sobre Banco Master, Overclean e sua gestão em Salvador; o candidato rebate parte das perguntas atribuindo a avaliação a “desconhecimento sobre Salvador”.
  • 01/09/2026 — Ataques digitais: são registrados no chat da transmissão ataques pessoais contra Basília publicados por perfis que declaravam apoio a ACM Neto, incluindo comentário sobre sua aparência e cabelo.
  • 03/09/2026 — Pesquisa AtlasIntel/A Tarde: levantamento mostra empate técnico estadual e vantagem nominal de Jerônimo entre eleitoras mulheres.
  • 05/09/2026 — Jaguaquara: Jerônimo Rodrigues afirma ter determinado à equipe jurídica de sua campanha medidas relacionadas ao episódio das mulheres seminuas. A declaração é publicada neste domingo, 06/09/2026.

Os fatos documentados exigem duas conclusões simultâneas. A primeira é que a presença de duas mulheres seminuas em um veículo que acompanhava um ato de ACM Neto e os ataques posteriores a Basília Rodrigues são acontecimentos reais e politicamente relevantes. A segunda é que não existem, até os elementos públicos examinados, provas suficientes para atribuir a ACM Neto a contratação das mulheres ou a organização das agressões digitais. Confundir ambiente político, autoria individual e responsabilidade jurídica produziria uma conclusão superior ao que as evidências permitem.

Os antecedentes envolvendo Jair Bolsonaro, Arthur do Val e Nikolas Ferreira demonstram que lideranças situadas em diferentes vertentes da direita brasileira protagonizaram episódios de sexualização, menosprezo ou desqualificação de mulheres, alguns deles acompanhados de condenações judiciais ou sanções políticas. A recorrência permite uma análise crítica sobre padrões de linguagem e comportamento no debate público, mas não sustenta a generalização de que todo eleitor, dirigente ou partido identificado com a direita adote essas práticas. Responsabilidade política e jurídica permanece individual ou institucionalmente demonstrável, não presumida por associação ideológica.

No caso da Bahia, três questões ainda demandam apuração. A primeira é identificar documentalmente quem organizou, autorizou e financiou o veículo e a participação das mulheres em São Cristóvão. A segunda é verificar se a iniciativa jurídica anunciada por Jerônimo produzirá representação perante o Ministério Público Eleitoral ou a Justiça Eleitoral e qual fundamento legal será invocado. A terceira envolve os ataques contra Basília: identificar autores, eventual articulação entre perfis e a existência — ou não — de algum vínculo organizacional com estruturas partidárias. Sem esses elementos, a crítica política é legítima, mas não pode substituir a prova.

A relevância pública do episódio reside precisamente nesse limite entre responsabilidade política, ambiente de campanha e responsabilidade jurídica. ACM Neto e sua coordenação terão de responder politicamente pela forma como administram acontecimentos associados aos seus atos e pela relação com apoiadores, enquanto os autores das iniciativas e mensagens respondem por suas próprias condutas. A campanha de Jerônimo, o Ministério Público Eleitoral e a Justiça Eleitoral, caso formalmente provocados, deverão estabelecer se existe matéria jurídica além da controvérsia política. Paralelamente, partidos, candidatos e instituições de imprensa terão responsabilidade direta em preservar uma campanha na qual perguntas jornalísticas sejam respondidas com argumentos e divergências eleitorais não convertam o corpo, o gênero ou a aparência das mulheres em instrumentos de desqualificação.

*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.


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