PF apura vínculo bancário entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz após encontrar e-mails na Operação Sem Desconto

Neste domingo (11/10/2026), novos elementos obtidos pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Sem Desconto ampliam a investigação sobre as relações financeiras, empresariais e pessoais mantidas pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o advogado Willer Tomaz. E-mails apreendidos pela corporação indicam que uma conta identificada com o nome do parlamentar esteve vinculada ao mesmo perfil de acesso bancário associado a Tomaz e à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. O advogado foi alvo de busca e apreensão em agosto de 2026 em uma etapa da operação destinada a apurar suspeitas de lavagem de dinheiro. Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam ter mantido relação comercial ou financeira. Até o momento, os documentos divulgados não demonstram que o senador tenha recebido recursos provenientes das fraudes investigadas no INSS.

E-mail de maio de 2025 colocou conta de Flávio sob análise

O principal documento conhecido é um e-mail enviado ao Santander em 22/05/2025 por Fayla Zulmira Menezes, funcionária vinculada à estrutura profissional de Willer Tomaz. Na mensagem, ela solicitou que uma conta identificada como “Flávio Bolsonaro” fosse desassociada do chamado “usuário master” relacionado ao advogado. O banco confirmou a exclusão naquele mesmo dia.

Segundo o material analisado pela PF, a conta aparecia vinculada ao mesmo contato administrativo no qual o escritório de Tomaz solicitava a inclusão da Alcazar Holdings, juntamente com conta pessoal do próprio advogado. A empresa portuguesa é uma das pessoas jurídicas relacionadas a Tomaz examinadas na apuração sobre possível lavagem de dinheiro.

Nos sistemas de acesso empresarial do Santander, conforme descrito nas reportagens que tiveram acesso ao material, um usuário denominado “master” possui poderes mais amplos de operação, enquanto usuários secundários atuam conforme permissões concedidas. A existência do vínculo eletrônico, entretanto, não esclarece isoladamente quem era titular dos recursos, quais operações foram realizadas nem se houve movimentação financeira entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.

PF aponta necessidade de aprofundar relação com agentes públicos

No relatório sobre os e-mails encontrados nos arquivos digitais de Willer Tomaz, a Polícia Federal indicou a necessidade de aprofundar a análise sobre as movimentações financeiras do advogado, suas empresas e suas relações com agentes públicos, entre eles Flávio Bolsonaro.

A questão central para a investigação é determinar a natureza jurídica e econômica da associação registrada no sistema bancário: se houve apenas uma vinculação administrativa ou técnica, se existiram poderes de movimentação, quais contas e empresas estavam envolvidas e se ocorreram transferências ou pagamentos relevantes para a investigação.

Esse esclarecimento é necessário porque a documentação disponível não permite concluir automaticamente que a existência de um usuário ou conta vinculada ao mesmo perfil bancário corresponda a uma conta conjunta convencional nem, menos ainda, que recursos provenientes das fraudes investigadas tenham sido destinados ao senador.

Flávio Bolsonaro nega conta administrada por Tomaz

Flávio Bolsonaro contestou a interpretação dos documentos. Em manifestação encaminhada à imprensa, afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas” e classificou como falsa qualquer afirmação nesse sentido.

O senador reconhece, contudo, manter uma relação pessoal com o advogado, definida publicamente como uma “amizade legítima”. Os dois também aparecem relacionados em viagens e outros episódios de caráter privado que passaram a ser examinados no contexto mais amplo da investigação.

A assessoria do parlamentar sustenta ainda que a divulgação das informações durante o período eleitoral teria finalidade política e afirmou que responsáveis por notícias consideradas falsas poderão ser responsabilizados judicialmente.

Willer Tomaz diz que relação se limita à amizade

Willer Tomaz também rejeita a existência de vínculo financeiro com Flávio Bolsonaro. Sua equipe declarou que a conta mencionada nos documentos “nunca lhe pertenceu” e afirmou que o advogado jamais criou usuário bancário em nome do senador.

Segundo a manifestação:

“Entre os dois há apenas amizade, sem relação comercial ou financeira.”

A defesa acrescentou que adotaria medidas judiciais contra o que considera acusações falsas e informou que foi instaurada investigação para apurar o vazamento de informações protegidas por sigilo. A Folha também informou que a PF abriu apuração sobre o vazamento do material sigiloso.

Alcazar Holdings aparece em outra frente envolvendo viagens

A relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz não se restringe ao e-mail bancário encontrado pela Polícia Federal. Segundo a investigação divulgada pelo UOL, duas empresas estrangeiras vinculadas ao advogado teriam custeado deslocamentos em aeronaves executivas utilizados pelo senador e familiares em 2024 e 2025.

Uma delas é a Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira. Tomaz declara ser seu único sócio. A outra é a Cathedral Holdings, também registrada em Portugal, na qual ele afirma deter participação de 24%.

De acordo com a apuração, a Alcazar financiou horas de voo em um Legacy 650, prefixo PP-NLR, do qual detinha uma fração. Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro, sua mulher, suas duas filhas e Willer Tomaz viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília nessa aeronave.

Tomaz declarou ter pago o trecho com horas pertencentes à própria cota da aeronave e afirmou que Flávio e seus familiares viajaram como convidados.

Relação pessoal inclui viagens e uso de imóvel

Reportagens anteriores também registraram outros episódios da proximidade entre os dois. Flávio e Tomaz realizaram uma viagem à África em março de 2025, além de outros deslocamentos internacionais mencionados nos documentos examinados pelos investigadores.

Em agosto de 2026, já durante a campanha presidencial, Flávio Bolsonaro utilizou temporariamente em São Paulo um apartamento pertencente a uma empresa ligada ao advogado, segundo reportagem divulgada em setembro. O imóvel teria sido empregado para reuniões de campanha e gravação de conteúdos eleitorais.

Essas circunstâncias, isoladamente, não configuram prova de ilícito. Elas adquiriram relevância investigativa porque aparecem associadas ao conjunto de relações patrimoniais, empresariais e financeiras que a PF passou a examinar depois das buscas realizadas contra Willer Tomaz.

Busca contra Willer ocorreu em agosto de 2026

A Polícia Federal deflagrou em 04/08/2026 uma nova etapa da Operação Sem Desconto, cumprindo 18 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no Maranhão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo comunicado oficial da PF, a fase foi aberta para investigar a suposta utilização de pessoas físicas e jurídicas, contas bancárias de terceiros, estruturas empresariais e operações em espécie destinadas, em tese, a ocultar a origem e o destino de recursos. A corporação informou que buscava esclarecer a procedência do dinheiro, os destinatários dos repasses e a participação individual de cada investigado.

Willer Tomaz esteve entre os alvos das diligências. Na ocasião, sua defesa afirmou que ele não possuía envolvimento com o esquema de fraudes previdenciárias e contestou sua condição dentro do procedimento.

PF descreveu estrutura como “hub financeiro”

A investigação que levou ao advogado surgiu inicialmente a partir da apuração envolvendo o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Documentos da investigação citados na decisão do ministro André Mendonça, do STF, descrevem empresas, imóveis, aeronaves, funcionários e operadores relacionados a Willer Tomaz como uma estrutura que funcionaria, segundo a tese policial, como um “hub financeiro, patrimonial e logístico”.

No caso envolvendo Weverton, a PF atribuiu ao advogado a condição de personagem de sustentação de uma rede que deveria ser investigada para determinar a origem e o destino dos recursos. Willer Tomaz nega ter atuado em lavagem de dinheiro ou participado das fraudes previdenciárias.

Foi durante o exame do material eletrônico apreendido nessa frente que os investigadores localizaram informações referentes a Flávio Bolsonaro, entre elas os e-mails bancários e registros das relações entre empresas ligadas ao advogado e viagens do senador.

Operação Sem Desconto começou em abril de 2025

A Operação Sem Desconto foi deflagrada nacionalmente pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU) em 23/04/2025 para investigar descontos associativos sem autorização incidentes sobre aposentadorias e pensões pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Na primeira fase, aproximadamente 700 policiais federais e 80 servidores da CGU participaram das diligências. Foram cumpridos 211 mandados de busca e apreensão, seis prisões temporárias, afastamentos de servidores e ordens de sequestro patrimonial superiores a R$ 1 bilhão em diferentes unidades da Federação.

Naquele momento, PF e CGU informaram que as entidades investigadas haviam cobrado aproximadamente R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024 em mensalidades associativas aplicadas a benefícios previdenciários. O valor representa o montante dos descontos sob investigação e não significa, por si só, que toda a quantia tenha sido definitivamente caracterizada como produto de crime.

INSS suspendeu descontos e iniciou ressarcimentos

A repercussão da operação provocou mudanças administrativas no sistema previdenciário. Em 28/04/2025, o INSS determinou a suspensão dos acordos de cooperação que permitiam descontos associativos em benefícios, incluindo instrumentos não diretamente alcançados pela fase inicial da operação.

O Relatório de Gestão do INSS referente a 2025 informa que foram processados 6,3 milhões de pedidos de ressarcimento e devolvidos R$ 2,83 bilhões aos segurados naquele ano. O instituto também relatou ter reforçado os mecanismos de segurança e interrompido os descontos associativos.

A investigação criminal, entretanto, continuou avançando sobre estruturas empresariais, operadores financeiros, servidores públicos e possíveis beneficiários dos recursos.

Apostas bilionárias também são investigadas

Em frente paralela, Willer Tomaz também passou a ser investigado por movimentações relacionadas ao mercado de apostas. Segundo documentos apresentados pela própria defesa em ação contra a plataforma Blaze, o advogado teria realizado apostas que totalizaram R$ 6,6 bilhões em 18 meses, entre janeiro de 2025 e julho de 2026.

A defesa atribuiu o comportamento à ludopatia e informou prejuízo de aproximadamente R$ 188,5 milhões, buscando judicialmente a restituição de valores enviados à plataforma. Esses dados integram outra vertente das análises financeiras e não constituem, isoladamente, prova de ligação entre apostas e recursos retirados de benefícios previdenciários.

A relevância dessa movimentação para a Operação Sem Desconto dependerá do rastreamento da origem dos recursos, da análise bancária e da eventual comprovação de conexões entre contas, empresas e pagamentos investigados.

Deputado pede inclusão formal de Flávio Bolsonaro

Após a divulgação dos e-mails, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou notícia-crime solicitando que Flávio Bolsonaro seja formalmente incluído entre os investigados da Operação Sem Desconto. O pedido foi encaminhado à Polícia Federal e busca provocar manifestação no âmbito do procedimento relatado pelo ministro André Mendonça no STF.

O parlamentar solicitou ainda a quebra dos sigilos bancário e fiscal do senador, de sua sociedade individual de advocacia e de contas relacionadas a Willer Tomaz, à Alcazar Holdings e à Cathedral Holdings. Também pediu cooperação internacional para levantamento de informações financeiras em Portugal e, se necessário, nos Estados Unidos.

As acusações apresentadas por Lindbergh constituem alegações de um parlamentar em uma notícia-crime e dependem de investigação, produção de provas e decisão das autoridades competentes. Não há, nas informações publicamente disponíveis até o momento, comprovação de que Flávio Bolsonaro tenha recebido dinheiro desviado de aposentados ou pensionistas.

Documentos bancários tornam rastreamento financeiro etapa decisiva

O ponto de maior relevância investigativa está menos na existência comprovada de uma amizade entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz e mais na necessidade de esclarecer documentalmente a associação bancária registrada nos e-mails.

Para determinar seu alcance, será necessário estabelecer quem abriu a conta mencionada, quem era seu titular, quais usuários efetivamente possuíam poderes de acesso, durante quanto tempo a vinculação existiu, se houve movimentações e quem ordenou eventual transferência de recursos.

Também será necessário confrontar essas informações com dados bancários das empresas portuguesas, registros de pagamento das aeronaves, despesas relacionadas às viagens e outros elementos patrimoniais encontrados durante as buscas.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2019 a 2024 — Descontos associativos: entidades posteriormente alcançadas pela Operação Sem Desconto cobraram cerca de R$ 6,3 bilhões em mensalidades associativas de aposentados e pensionistas, segundo PF e CGU. O período tornou-se o núcleo inicial da investigação.
  • 19/01/2025 — Viagem dos Estados Unidos ao Brasil: Flávio Bolsonaro, familiares e Willer Tomaz viajaram de Fort Lauderdale para Brasília em um Legacy 650. Tomaz afirma que custeou o trecho com horas de sua própria participação na aeronave e que os demais passageiros eram convidados.
  • 23/04/2025 — Operação Sem Desconto: PF e CGU deflagraram a primeira fase nacional da operação, com 211 buscas, seis prisões temporárias e bloqueios patrimoniais superiores a R$ 1 bilhão.
  • 28/04/2025 — Suspensão dos descontos: o INSS interrompeu os acordos relacionados aos descontos associativos sobre benefícios previdenciários.
  • 22/05/2025 — E-mail ao Santander: Fayla Zulmira Menezes solicitou a retirada de uma conta identificada como “Flávio Bolsonaro” de um usuário master associado a Willer Tomaz; o banco confirmou a exclusão no mesmo dia.
  • 04/08/2026 — Nova fase da operação: a PF cumpriu 18 mandados de busca e apreensão, autorizados pelo STF, para investigar possível lavagem de dinheiro. Willer Tomaz esteve entre os alvos divulgados pela imprensa.
  • Agosto de 2026 — Uso de imóvel em São Paulo: Flávio Bolsonaro utilizou durante a campanha um apartamento pertencente a empresa ligada a Tomaz, segundo reportagem divulgada posteriormente.
  • 10/10/2026 — Divulgação dos e-mails: reportagens revelaram documentos encontrados pela PF que relacionam uma conta identificada com o nome de Flávio ao acesso bancário associado a Willer Tomaz. Os dois negaram vínculo financeiro.
  • 10/10/2026 — Notícia-crime: Lindbergh Farias pediu à PF a inclusão formal de Flávio Bolsonaro na investigação e solicitou quebra de sigilos e rastreamento internacional. As acusações formuladas pelo deputado dependem de apuração.

Os e-mails encontrados pela Polícia Federal acrescentam um elemento documental relevante ao conjunto de relações já conhecidas entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. A existência de viagens conjuntas e vínculos pessoais era admitida pelas próprias partes. A novidade é a identificação de uma associação em ambiente bancário envolvendo o nome do senador, o advogado e uma empresa estrangeira examinada pela investigação, circunstância que justifica tecnicamente o aprofundamento do rastreamento financeiro.

Essa constatação, contudo, precisa ser delimitada com rigor. Uma vinculação de acesso bancário não equivale automaticamente à comprovação de conta conjunta, sociedade empresarial, recebimento de valores ilícitos ou participação em lavagem de dinheiro. Também não há, nos documentos conhecidos, prova pública de que recursos retirados de aposentados e pensionistas tenham sido transferidos a Flávio Bolsonaro. Transformar a hipótese investigativa em conclusão antecipada violaria a distinção fundamental entre indício, prova e responsabilidade penal.

Há ainda questões documentais centrais sem resposta pública: quem era o titular formal da conta identificada no e-mail; quais poderes foram efetivamente concedidos ao usuário vinculado; se houve movimentações; por que a desassociação ocorreu em 22/05/2025, cerca de um mês após a primeira fase da Operação Sem Desconto; qual era a relação financeira entre as empresas portuguesas de Tomaz e as viagens realizadas pelo senador; e se esses pagamentos tiveram natureza estritamente pessoal ou outra finalidade. As respostas dependem de documentos bancários, registros empresariais, informações internacionais e decisões judiciais.

O episódio possui relevância pública porque envolve uma investigação originada em cobranças bilionárias sobre benefícios de aposentados e pensionistas, alcança estruturas empresariais transnacionais e passa a tangenciar um candidato à Presidência da República. Caberá à Polícia Federal aprofundar a análise financeira, ao Ministério Público avaliar eventual responsabilização, ao STF, dentro de sua competência, decidir sobre medidas cautelares e pedidos investigativos, e às defesas apresentar documentos capazes de esclarecer ou afastar as suspeitas. O principal critério jornalístico deve permanecer inalterado: acompanhar o fluxo documental sem converter relações pessoais ou indícios financeiros em culpabilidade antecipada.


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