Gestores de autoridades portuárias do Nordeste iniciaram nesta segunda-feira (19/10/2026) uma missão técnica na Espanha para conhecer soluções de digitalização, integração de dados, segurança da informação e monitoramento de infraestruturas portuárias. A agenda, prevista até quinta-feira (22/10), inclui visitas ao Porto de Huelva e a fornecedores de tecnologia e ocorre em um momento de expansão operacional dos portos brasileiros e de avanço de plataformas destinadas a conectar autoridades públicas, operadores privados e demais integrantes da cadeia logística.
Participam da missão o diretor-presidente da Autoridade Portuária Federal — CODEBA, Antonio Gobbo; o diretor-presidente da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (CODERN), Paulo Henrique de Macedo Carlos; e Armando Vieira, representante da Administração do Porto de Maceió. A página institucional da CODERN confirma Paulo Henrique de Macedo Carlos na presidência da companhia.
Durante a abertura da programação, Gobbo apresentou o potencial dos portos de Salvador, Aratu-Candeias e Ilhéus, na Bahia, além do Porto de Itajaí, em Santa Catarina, atualmente sob gestão transitória da CODEBA até a conclusão do processo de federalização. A companhia informa oficialmente que Itajaí permanece nessa condição transitória.
Missão concentra atenção em integração tecnológica e gestão de dados
A programação tem como um dos eixos o intercâmbio sobre sistemas capazes de centralizar, processar e compartilhar informações entre diferentes integrantes da comunidade portuária. Esse tipo de arquitetura tecnológica pode integrar dados de navios, atracações, cargas, operadores, autoridades públicas, tarifas e infraestrutura, reduzindo a fragmentação de sistemas e ampliando a capacidade de acompanhamento das operações.
Outro eixo envolve soluções destinadas à vigilância de infraestruturas críticas e à consciência situacional, conceito associado à formação de uma visão integrada e atualizada das condições operacionais de uma instalação. Em um porto, isso pode abranger informações provenientes de câmeras, sensores, sistemas de navegação, controle de acesso, movimentação de embarcações e plataformas de gestão.
O modelo está alinhado à transformação observada no sistema portuário espanhol. O organismo público Puertos del Estado define a digitalização como uma de suas linhas estratégicas e prevê portos inteligentes, hiperconectados e capazes de integrar informações provenientes de operadores, sensores e sistemas das autoridades portuárias para apoiar decisões operacionais e investimentos.
CODEBA relaciona tecnologia a eficiência financeira e operacional
Na apresentação realizada na Espanha, Antonio Gobbo associou a política de dados ao desempenho econômico da companhia. Segundo o dirigente, a CODEBA trabalha com previsão de R$ 471 milhões em receitas consolidadas em 2026, lucro de R$ 25 milhões e aproximadamente R$ 150 milhões em investimentos.
“A nossa previsão é alcançar receitas consolidadas de R$ 471 milhões neste ano de 2026 e lucro de R$ 25 milhões, além de realizar R$ 150 milhões em investimentos. Esses números evidenciam a perspectiva de manutenção do equilíbrio financeiro e a importância de um trabalho constante e cada vez mais qualificado de controle dos dados para a eficiência da gestão”, afirmou Gobbo.
Os resultados divulgados pela própria autoridade portuária nas semanas anteriores ajudam a dimensionar essa projeção. Entre janeiro e agosto de 2026, a CODEBA registrou R$ 334,9 milhões em faturamento, alta de 6,08% sobre igual período de 2025 e incremento de R$ 19,2 milhões. Aratu-Candeias acumulou R$ 124,9 milhões, enquanto Itajaí contabilizou R$ 125,6 milhões.
Movimentação de cargas amplia pressão por modernização
A expansão financeira ocorre paralelamente ao crescimento das operações. No primeiro semestre de 2026, os três portos públicos baianos administrados pela CODEBA registraram alta de 22,49% na movimentação de cargas em comparação com o mesmo período de 2025. No Porto de Itajaí, o crescimento alcançou 40,97%.
Salvador movimentou 3,79 milhões de toneladas no primeiro semestre, enquanto Aratu-Candeias contabilizou 3,70 milhões de toneladas. Ilhéus somou 89,9 mil toneladas no período. Os números mostram que a agenda digital ocorre em meio a uma ampliação concreta da escala operacional e, consequentemente, da quantidade de informações geradas por atracações, cargas, cobrança de tarifas, acessos, fiscalização e serviços portuários.
Esse cenário ajuda a explicar por que gestão e qualidade dos dados deixam de ser atividades exclusivamente administrativas. Quanto maior a movimentação, maior também é a necessidade de sistemas interoperáveis, rastreabilidade das operações, disponibilidade das informações e mecanismos capazes de reduzir inconsistências entre bases utilizadas por autoridades e empresas.
Porto de Huelva funciona como laboratório de soluções digitais
A escolha do Porto de Huelva, na Andaluzia, dá à missão brasileira acesso a uma instalação que mantém projetos recentes de digitalização. O porto movimentou mais de 30,3 milhões de toneladas em 2025 e programou € 53 milhões em investimentos para 2026, dentro de um plano de € 255 milhões para o período de 2025 a 2029.
Huelva abriga ainda a Lonja de la Innovación, apresentada pela autoridade portuária espanhola como o primeiro nó tecnológico portuário baseado no padrão FIWARE. Somente em 2025, o ecossistema contabilizou 436 atividades e 2.033 participantes, envolvendo empresas, empreendedores, administrações e especialistas ligados à transformação digital.
A estrutura funciona como ambiente de experimentação de tecnologias aplicadas à logística. Entre os projetos recentes está a criação de um sistema de acompanhamento em tempo real de cabeços de amarração e rampas Ro-Ro, utilizando sensoriamento, captura de dados e uma plataforma digital centralizada. O objetivo declarado pelo porto é melhorar a eficiência e o planejamento operacional.
Huelva integra dados de manobras portuárias em tempo real
Outro projeto implantado em Huelva reforça a relação entre segurança e interoperabilidade. Em 29/09/2026, a autoridade portuária anunciou a integração das informações produzidas durante as manobras de praticagem pelo sistema SafePilot com a plataforma Aurora SmartPort.
A tecnologia permite que dados antes concentrados no equipamento utilizado pelo prático sejam incorporados, em tempo real, ao ambiente de operações portuárias. Com isso, porto e profissionais envolvidos nas manobras passam a compartilhar uma visão operacional comum, enquanto o sistema mantém registros destinados à rastreabilidade e à análise posterior.
O caso fornece uma referência prática para um dos temas centrais da missão brasileira: não basta produzir dados individualmente em cada equipamento ou departamento. O ganho operacional depende da capacidade de integrar essas informações de forma segura e utilizá-las para decisões coordenadas.
Port Community System amplia compartilhamento entre agentes
Entre as soluções previstas na programação da missão está a apresentação de um sistema destinado à integração e ao compartilhamento de informações entre os diferentes agentes da comunidade portuária. Plataformas desse gênero são internacionalmente conhecidas como Port Community Systems (PCS).
O marco estratégico dos portos espanhóis define o PCS como uma infraestrutura comum para as relações entre os diferentes agentes da comunidade portuária. Além das formalidades administrativas, sistemas dessa natureza podem sustentar relações entre operadores, acompanhamento de serviços e circulação estruturada de informações.
O próprio Porto de Huelva mantém acesso a um PCS em seu portal institucional. A estratégia espanhola insere essas plataformas numa política mais ampla de integração de dados, sensorização, automação e apoio às decisões em tempo real.
Brasil também acelera integração digital dos portos
A missão acontece quando o Brasil desenvolve soluções semelhantes. Em 24/04/2026, o Ministério de Portos e Aeroportos e o Serpro apresentaram o IntegraPSP, ferramenta destinada a permitir comunicação direta e em tempo real entre sistemas de empresas e o Porto Sem Papel (PSP).
Segundo o ministério, a arquitetura utiliza APIs e mecanismos de autenticação, criptografia, controle de acesso, auditoria e monitoramento para ampliar a segurança, integridade e rastreabilidade das informações. Em 07/10/2026, a pasta anunciou uma nova etapa da iniciativa, destinada a ampliar a integração digital do PSP com empresas do setor portuário e reduzir procedimentos ainda executados manualmente.
O Porto Sem Papel funciona como instrumento federal de integração das informações necessárias ao trânsito e à permanência das embarcações, reunindo dados utilizados por órgãos como Anvisa, Marinha do Brasil, Polícia Federal, Receita Federal, Vigiagro e autoridades portuárias.
PCS e Porto Sem Papel cumprem funções complementares
Embora estejam inseridos na mesma transformação digital, Port Community System e Porto Sem Papel não são necessariamente equivalentes. O PSP está ligado principalmente às formalidades e informações exigidas pelas autoridades brasileiras para as escalas das embarcações.
O PCS possui escopo potencialmente mais amplo, estruturado para conectar a comunidade logística e operacional formada por autoridade portuária, terminais, armadores, agentes marítimos, operadores, transportadores e outros participantes.
Em setembro de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que o Porto de São Sebastião, em São Paulo, tornou-se o primeiro porto brasileiro a implementar um Port Community System e promoveu um workshop nacional para disseminar a experiência.
Segurança de dados passa a integrar segurança portuária
A digitalização aumenta a eficiência, mas também amplia a dependência de sistemas informatizados. Falhas de disponibilidade, manipulação de informações, acessos indevidos ou ataques contra plataformas conectadas podem afetar operações físicas, cadeias logísticas e processos administrativos.
A Organização Marítima Internacional (IMO) define risco cibernético marítimo como a possibilidade de ativos tecnológicos serem comprometidos e produzirem consequências sobre operações, segurança ou proteção marítima. A organização mantém diretrizes específicas para gerenciamento desses riscos e recomenda sua integração aos processos de gestão existentes.
Em 31/03/2026, o Comitê de Facilitação da IMO aprovou uma estratégia global de digitalização marítima centrada em interoperabilidade, padronização de sistemas, compartilhamento e governança de dados. O mesmo processo avançou na elaboração de requisitos de cibersegurança para as chamadas janelas únicas marítimas.
Infraestruturas críticas tornam integração e proteção indissociáveis
Portos são infraestruturas que combinam sistemas administrativos, equipamentos industriais, controle de acesso, navegação, telecomunicações e tecnologias operacionais. Por isso, a transformação digital desloca parte da segurança portuária do espaço exclusivamente físico para uma arquitetura integrada de proteção física e digital.
Huelva apresenta exemplos desse movimento. A autoridade portuária mantém políticas de continuidade de tecnologia da informação, análise de vulnerabilidades e monitoramento de redes e equipamentos. Documentos institucionais do porto registram a adoção de mecanismos destinados à cibersegurança e à continuidade operacional.
Na prática, quanto maior a conectividade entre sensores, câmeras, bancos de dados, plataformas financeiras e sistemas operacionais, maior também é a necessidade de definir responsabilidades de acesso, redundância, recuperação de sistemas e controle sobre a qualidade e a integridade das informações.
Missão pode orientar decisões futuras, mas não representa contratação
A programação entre 19 e 22/10/2026 prevê intercâmbio de experiências sobre soluções empregadas em portos espanhóis e portugueses, além do contato com empresas de tecnologia. O material disponível, entretanto, não informa a assinatura de contratos, aquisição de sistemas, valores de eventuais projetos ou cronograma de implantação de tecnologias decorrentes da missão.
Também não foram divulgadas, até o momento considerado nesta reportagem, especificações completas das plataformas analisadas, critérios para eventual adoção das soluções nos portos participantes ou estimativas de custos.
Por isso, a relevância concreta da agenda dependerá dos desdobramentos posteriores: estudos técnicos, processos de contratação, testes-piloto, integração com sistemas nacionais e definição de padrões de segurança, governança e interoperabilidade.
Impactos potenciais para os portos do Nordeste
No curto prazo, a missão pode oferecer aos gestores parâmetros comparativos para avaliar soluções existentes e identificar modelos aplicáveis à realidade dos portos brasileiros. A existência de iniciativas nacionais como o Porto Sem Papel, o IntegraPSP e os primeiros PCS brasileiros indica que eventual importação de tecnologia precisará considerar a integração com plataformas já utilizadas no país.
No médio prazo, sistemas bem implementados podem reduzir duplicidade de dados, melhorar a rastreabilidade de serviços, aperfeiçoar programação de atracações e oferecer informações mais rápidas para faturamento, fiscalização e planejamento de infraestrutura.
No longo prazo, o principal desafio será transformar digitalização em uma política institucional permanente, e não em um conjunto isolado de equipamentos. Isso exige interoperabilidade, padrões de dados, pessoal capacitado, governança, segurança cibernética e capacidade de atualização tecnológica.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2022 — Espanha: o Marco Estratégico do sistema portuário espanhol consolida a administração portuária digital, os portos inteligentes e os Port Community Systems como instrumentos de integração da comunidade portuária.
- 2025 — Porto de Huelva: o terminal encerra o ano com movimentação superior a 30,3 milhões de toneladas; a Lonja de la Innovación registra 436 atividades e 2.033 participantes.
- 09/01/2026 — Huelva: é divulgado projeto de monitoramento em tempo real de cabeços de amarração e rampas Ro-Ro.
- 31/03/2026 — IMO: organismo internacional aprova estratégia global de digitalização marítima e avança em requisitos de cibersegurança para sistemas de intercâmbio de informações.
- 24/04/2026 — Brasil: Ministério de Portos e Aeroportos e Serpro apresentam o IntegraPSP, voltado à troca automatizada e segura de dados.
- Primeiro semestre de 2026 — CODEBA: os portos públicos baianos registram crescimento de 22,49% na movimentação; Itajaí cresce 40,97%.
- 29/09/2026 — Huelva: entra em evidência a integração entre SafePilot e Aurora SmartPort, permitindo compartilhamento em tempo real dos dados das manobras de praticagem.
- 30/09/2026 — Brasil: Ministério de Portos e Aeroportos promove workshop sobre PCS e informa que São Sebastião foi o primeiro porto brasileiro a implantar a plataforma.
- 07/10/2026 — Brasil: governo federal anuncia ampliação da integração do Porto Sem Papel com sistemas de empresas portuárias.
- 09/10/2026 — CODEBA: companhia informa faturamento acumulado de R$ 334,9 milhões entre janeiro e agosto, crescimento de 6,08%.
- 19/10/2026 — Espanha: começa a missão técnica de representantes da CODEBA, CODERN e Porto de Maceió, com visita ao Porto de Huelva e agenda dedicada à inovação e gestão de informações.
- 22/10/2026 — Espanha: data prevista para encerramento da programação técnica da missão.
A missão à Espanha precisa ser compreendida dentro de uma mudança estrutural na administração dos portos. Infraestrutura física continua essencial — canais, berços, terminais, acessos e equipamentos determinam capacidade operacional —, mas o desempenho contemporâneo depende crescentemente da capacidade de produzir, integrar, proteger e interpretar dados. O avanço simultâneo dos PCS espanhóis, do Porto Sem Papel brasileiro e das estratégias da IMO demonstra que interoperabilidade deixou de ser apenas uma opção tecnológica e passou a integrar a agenda institucional do transporte marítimo.
No caso da CODEBA, a discussão ganha peso porque a companhia administra uma operação em expansão e prevê R$ 471 milhões em receitas, R$ 25 milhões de lucro e R$ 150 milhões em investimentos em 2026. Os R$ 334,9 milhões faturados até agosto mostram a escala financeira sobre a qual sistemas de tarifação, atracação, contratos e controle operacional precisam funcionar. A tecnologia, portanto, deve ser avaliada não pelo grau de novidade, mas pela capacidade comprovável de reduzir erros, fortalecer controles, ampliar segurança e produzir ganhos mensuráveis de eficiência.
Há, contudo, uma distinção necessária entre intercâmbio institucional e resultado concreto. Não há, nas informações disponíveis, contratos anunciados, valores de aquisição, fornecedores selecionados ou compromisso de implantação decorrente da missão. Também permanece em aberto como eventuais soluções estrangeiras seriam integradas ao Porto Sem Papel, ao IntegraPSP, aos sistemas internos de cada autoridade e às exigências brasileiras de governança e segurança da informação. Essas questões deverão ser acompanhadas quando os gestores retornarem ao país.
O interesse público dos próximos passos estará justamente na conversão do aprendizado técnico em resultados verificáveis. Caberá à CODEBA, à CODERN, à Administração do Porto de Maceió e ao Ministério de Portos e Aeroportos esclarecer quais tecnologias serão avaliadas, quais problemas operacionais pretendem resolver, quais custos estariam envolvidos e quais mecanismos protegerão dados e infraestruturas críticas. A missão oferece uma referência internacional relevante; sua efetividade dependerá da capacidade de traduzir conhecimento em projetos tecnicamente justificados, interoperáveis, seguros e sujeitos aos controles próprios da administração pública.








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